Psilocibina
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
| Nome IUPAC (sistemática) | |
| 3-[2-(Dimethylamino)ethyl]-1H-indol-4-ol dihydrogen phosphate ester | |
| Identificadores | |
| CAS | 520-52-5 |
| ATC | ? |
| PubChem | ? |
| Informação química | |
| Fórmula molecular | C12H17N2O4P |
| Massa molar | 284.25 g/mol |
| Dados físicos | |
| Ponto de fusão | 220-228 °C (Crystals from boiling water) °C |
| Farmacocinética | |
| Biodisponibilidade | ? |
| Metabolismo | hepatico |
| Meia-vida | ? |
| Excreção | ? |
| Considerações terapêuticas | |
| Administração | Oral, Intravenosa |
Psilocibina é uma droga que ganhou popularidade na década de 60, estando seu consumo culturalmente associado ao movimento hippie, junto com o LSD. Não foi tão popular quanto o mesmo apesar de produzir efeitos similares, porém, distintos.
Está presente em cogumelos usados na medicina tradicional asteca-nahuatl da Meso-América. Os astecas o chamavam genericamente de teonanacatyl ou carne dos deuses, os mazatecos o denominam ntsi-si-tho onde ntsi é um diminutivo carinhoso e o restante da palavra poderia ser traduzido como "aquele que brota".
A elevada freqüência de provas arqueológicas, na forma de estatuetas de cogumelos, encontrados na Guatemala evidenciam seu uso da cultura Maia.
Índice |
[editar] Apresentação
A psilocibina (O-fosforil-4-hidróxi-N,N-dimetiltriptamina) é um alcalóide do grupo indólico e o principal componente psicoativo encontra-se nos cogumelos do gênero Psilocybe, de onde vem o seu nome. Sua estrutura molecular é análoga à serotonina especialmente se hidrolisada (defosforilação) em Psilocina (4-hidróxi-N,N-dimetiltriptamina) Litter, 1972.
[editar] Origem
Os fungos superiores dos gêneros "Psilocybe", "Panaeolus" e "Conocybe" perfazem uma série de mais de 180 espécies, são utilizados pelo menos 3000 anos na cultura dos povos do México Asteca-Náhuatl possuindo características comuns à utilização xamânica, ainda mais antiga, do cogumelo Amanita muscaria nas populações siberianas. Esse último além da muscarina, cujos efeitos parassimpaticomiméticos ou colinérgicos (atua feito a acetilcolina) são bem conhecidos, possuem substancias peptídicas (neuropeptídeos) ainda não bem conhecidas próximas do ácido ibotênico (muscimol) associadas ao seu efeito psicodisléptico.
Entre os Basídiomicetos (classe de fungos com estrutura características para dispersão de esporos) encontram-se várias espécies com Psilocibina os mais conhecidos e utilizados pelas populações americanas fazem parte dos gêneros: Psilocybe, Panaeolus e Conocybe, atualmente reunidos na ordem Stropharia e família Agaricaceae, sua maioria, principalmente o conhecido golden top (Stropharia cubensis) quando classificado como um gênero em vez da ordem Strophariaceae tem como habitat: solo argiloso, pastos abertos com crescimento associado à incorporação ao solo de esterco bovino.
Entre os cogumelos de pasto um dos mais comuns na América do Sul e Central é o golden top mais recentemente classificado como Psilocybe cubensis por integrar ao gênero Psylocibe. Distinções se fazem por altitude, regiões geográficas e afinidade por água. O Psilocybe zapotecorum, cresce nos charcos e lugares alagados por isso são chamados de apipiltzin (filhos das águas) por sua relação com o Deus das Chuvas (Tlaloc).
Considerando-se a presença de Psilocibina e Psilocina além dos citados anteriormente, existem centenas de espécies do gêneros entre estes: Inocybe, Copelandia, Gymnopoulos, Pluteus e outros.
O gênero Psilocybe está presente em todos os continentes, mas nem todos possuem substancias psicotrópicas. Entre as espécies mais utilizadas das quase 130 espécies do gênero Psilocybe incluem-se: P. mexicana, P. caerulescans, P. semperviva, P. mazatecorum, P. zapotecorum, P. Aztecorum.
[editar] Efeitos
Os efeitos da psilocibina têm caráter alucinógeno na maioria dos casos. Após a ingestão da substância (através do chá de cogumelo ou do cogumelo desidratado e moído, por exemplo) o indivíduo leva tipicamente cerca de 15 a 45 minutos para começar a sentir os efeitos. Os efeitos variam de pessoa para pessoa e também dependem do tipo de cogumelo ingerido. A princípio pode-se ter uma impressão de leve tontura e até mesmo um certo desconforto gástrico (que pode ocasionar vômito). Muitas vezes tem-se sensações agradáveis que incluem empatia com as outras pessoas e com o universo. Em um segundo momento é possível perceber alterações nas percepções visuais e noção de espaço. Por volta da 2º hora costuma-se alcançar o topo da "viagem". Neste ponto, dependendo da quantidade ingerida, pode-se estar em um estado totalmente desconexo da realidade. Alucinações intermitentes em todos os sentidos provocando sinestesia e desprendimento do ego são comuns.
O ponto alto da "viagem" pode ser extremamente agradável e, segundo alguns usuários, de um aprendizado considerável. No entanto, algumas pessoas ou em algumas situações pode-se realmente sentir-se desconfortável com as alucinações. Há pessoas que relatam experiências místicas com a psilocibina que lhes pareceram extremamente positivas, mas há também quem tenha viagens péssimas e cheias de medo ou paranóia.
Tratando-se de psicodélicos ou alucinógenos não se pode ignorar o contexto ou set em que se consome a substância, contudo há diferenças farmacológicas no efeito agonistico do LSD e psilocibina de acordo com os sítios receptores de atuação. Segundo, Miranda;Taketa; Vilaroto-Vera, o LSD atua sobre vários receptores da serotonina (5-HT) enquanto que a psilocibina é mais seletiva (especificamente em relação ao 5-HT2).
Recentes pesquisas têm encontrados efeitos potenciais promissores para utilização da psilocibina e LSD sobre cefaléia em salvas. A enxaqueca vem sendo tradicionalmente tratada com triptaminas não psicodélicas e ergotaminas, ou seja, moléculas estruturalmente afins.
Efeito de cura ritual ou psicoterapia ainda necessita maior aprofundamento face aos séculos de perseguição católica ou impedimentos legais decorrentes do uso recreativo descontrolado que inadequadamente foi combatido por proibição policial e hoje se sabe que não se pode destruir valores culturais sem efeitos deletérios sobre a organização social incluindo-se nesse contexto o consumo desorientado, ou seja, o ritual é uma forma de controlar o consumo.
Entre as indicações de uso por médicos feiticeiros (ticitl) da cultura asteca-nahuatl encontram-se : febre, dores de dente, gota, constipação gripe além dos males identificados no conhecimento médico religioso tradicional como o “espanto”, “ares” de doença (elhigattl cocolitzle) “castigos” de divindades específicas do vento água, da chuva, dos montes (frio) ou mesmo o tlazolmiquiztli (a morte causada pelo amor) e as manifestações psicossomáticas de enfeitiçamento maléfico entre outros agravos para as quais o diagnóstico através do uso ritual do teonanacatyl é fundamental.
[editar] Riscos
Não existem provas das consequências físicas do consumo de Psilocibina; apenas se conhecem as relacionadas com problemas psicológicos, como a depressão, ansiedade, psicose, etc. Há inúmeros casos de psicoses que duram meses e psicoses permanentes que só ocorrem em pessoas que tem alguma doença mental ainda não manifestada. Pessoas que não possuem doenças mentais não correm esse risco. As pessoas afetadas ficam distantes,como se ainda estivessem sobre o efeito da droga. Existe também casos de "bad trip" que significa viagem ruim, bad (ruim) trip (viagem ou brisa) é quando a pessoa toma a droga e o efeito é de medo, paranóia, pavor (sensações ruins). Isso é causado por diversos fatores, desde ambientação até dificuldades da pessoa em lidar com a realidade.
As propriedades de causar psicoses como dito ainda precisam ser comparadas à incidência esperada em cada região. Estima-se para a esquizofrenia uma incidência média de 1% em populações das Américas.
A discussão das propriedades psicotomiméticas incluem a identificação de padrões alucinatórios e vivenciais
São comuns vivências do tipo splitting e despersonalizações descritas como o encontro do próprio corpo, dormindo durante o sonho, e a constatação de que se é uma espécie de luz das estrelas (tonal) unida pela vida e intenção (vontade) ao “espaço entre as estrelas” (nagual) num universo cheio de perigos, inimigos e aliados.
[editar] Tolerância e dependência
Não causa dependência, devido à intensidade das experiências. No entanto, a psilocibina e a psilocina geram tolerância, sendo certo que seu consumo serial tende a aumentar em quantidade, já que os receptores neurais ficam saturados por alguns dias.
[editar] Overdose
Os efeitos do alcalóide isolado, cuja DL50 não foi estabelecida é essencialmente diferente dos efeitos de ingestão dos cogumelos (in natura) tendo em vista a quantidade a ser administrada suplantar a capacidade de absorção do corpo humano, que sucumbiria antes por transtorno gástrico. Segundo Dewick apud Miranda; Taketa; Vilaroto-Vera o gênero Psilocybe contêm cerca de 0,2 a 0,6% de alcalóides triptamínicos.
De acordo com Hoffman, apud Furst os ingredientes ativos do dos cogumelos sagrados correspondem a 0,03% do total do organismo, isolando-se do conteúdo de 30 cogumelos bastaria 0,01 g para produzir o efeito psicoativo. Ainda conforme esse autor a dose, por vía oral, media para um adulto está entre 4 e 8 mg de psilocibina.
[editar] Uso étnico
Semelhantes a cultos de possessão pelos deuses meninos que falam através de seus ticitl (médicos feiticeiros) em nome de Jesus Cristo e Deuses da cultura nahuattl Piltzintecuhtli ou Quetzacoalt.
Nessa cultura, entre os nahua e toltecas/ mazatecas, tais cogumelos fazem parte de ritos de cura (consultas individuais, veladas) onde os cogumelos são representados como meninos santos, que ensinam a causa das doenças, mostram a presença de tonal (tonalli), e sofrimentos infligidos ao duplo animal ou nagual (naualli) são fórum de discussões éticas de feitiçaria e oráculos de relações interpessoais.
Entre as fontes de pesquisa do conhecimento desse sistema etnomédico estão os depoimentos do os médicos – feiticeiros mais conhecidos encontram-se Maria Sabina; Don Miguel Ruyz e o mítico Don Juan “criado” pelo Carlos Castaneda. Os codex astecas descritos por Frei Bernadino de Shagún; o Codex Vibonense e relatos de proibições do Tribunal do Santo Ofício também trazem algumas informações analisadas em conjunto com estudos históricos da cultura asteca-nahualt.
[editar] Bibliografia
- Furst, Peter, E. Cogumelos psicodélicos, - tudo sobre drogas, SP, Nova Cultural, 1989
- Goth, Andrés. Farmacologia Médica. RJ, Guanabara Koogan, 1975
- Heim, Roger. História da descoberta dos cogumelos alucinógenos no México. In Bailly, J.C.; Guimard (org) A experiência alucinógena (Mandala). RJ, Civilização Brasileira, 1969
- Litter, Manuel Compedio de farmacologia. Buenos Aires, El Ateneo, 1974
- Miranda, R.P.;Taketa, A.T.C.; Vilaroto-Vera, R.A. Alucinógenos naturais, etnobotânica e psicofarmacologia in Simões, Cláudia Maria Oliveira; Guerra, Miguel Pedro...et al. Farmacognosia, da planta ao medicamento. Porto Alegre/Florianópolis, Editora da UFRGS e UFSC, 2004
- MAPS, Research into psilocybin and LSD as potential treatments for people with cluster headaches http://www.maps.org/research/cluster/psilo-lsd/
Sobre o sistema etnomédico asteca-nahualt
Castañeda, Carlos*. A Erva do diabo, RJ, Record, 1973;
______ Uma estranha realidade, RJ, Record, 1974
______ Viagem ao Ixtlán, RJ, Record, 1974
- Ver também: verbete Carlos Castaneda
Estrada, Álvaro, A vida de Maria Sabina, a sábia dos cogumelos, SP, Martins Fontes, 1984
Ruiz, Don Miguel, Os quatro compromissos, o livro da filosofia tolteca. SP, Best Seller, 1998
Soustelle, A vida cotidiana dos astecas nas vésperas da conquista espanhola. MG, Itatiaia, 1962
Coe, M.; Snow, D. Benson, E. Antigas Américas, mosaico de culturas 2 V, (v.2). Madrid, Del Prado, 1996
[editar] Ligações externas
- A experiência psicodélica - Timothy Leary (texto integral)
- CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas
- Mushrooms in Erowid website
- MAPS Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies
- Council on Spiritual Practices

