Queimada (licor)
A queimada é uma bebida alcoólica típica da Galiza, elaborada com aguardente queimado, açúcar, aos quais geralmente é adicionada também casca de limão ou laranja..
Existe um esconjuro para pronunciar quando da sua elaboração, o qual, segundo a lenda, protege contra feitiços e mantém afastados, de quem a bebe, os espíritos e demais seres do mal. A queimada tem origem na época medieval[1] embora também seja atribuída uma origem celta. No entanto, a queimada tradicional era bastante diferente da que hoje se consome.[2]
Índice |
[editar] Tradição
O ritual da preparação está dirigido a afastar os maus espíritos e as meigas (bruxas) que espreitam, segundo a tradição, para maldizê-los, quer por diversão, por vingança ou por qualquer outro motivo. Qualquer ocasião é boa para realizar uma queimada: uma festa, reuniões familiares ou de amigos. Após a ceia, na obscuridade da noite (que é um bom momento para realizá-la), os comensais reúnem-se ao redor do pote no qual se elabora, preferivelmente com as luzes apagadas. Um dos presentes é encarregado de lhe dar o toque final, erguendo com uma concha o líquido em chamas e deixando-o cair pouco a pouco no recipiente enquanto pronuncia o esconjuro, criando-se um ambiente especial.
[editar] Ingredientes
Os seus ingredientes principais são a aguardente e o açúcar, aos que geralmente é adicionada também casca de limão ou laranja. Também podem ser adicionados alguns grãos de café sem moer, pedaços de maçã e uvas, os quais se acrescentam de forma independente segundo a tradição de cada região.
[editar] Preparação
Num pote de barro cozido (preferivelmente um especial para a queimada) botam-se a aguardente e o açúcar na proporção de uns 120 gramas deste por litro daquela, os demais ingredientes e mexe-se tudo.
Num recipiente menor (normalmente a concha com a que se serve) colhe-se, à parte, uma pequena quantidade de queimada, sem limão nem café, molham-se os bordos da concha com a bebida e ateia-se fogo. Enquanto está ardendo, mete-se a concha no recipiente grande até se estender o fogo por toda a superfície. A seguir, mexe-se devagar, deixando que subam as chamas do álcool, criando cascatas com elas. Mexe-se até se esgotar quase o álcool todo, fazendo que a queimada se apague por si só, à exceção dos bordos, que normalmente não se apagam. É no final deste processo quando se recita o esconjuro.
A queimada é servida quente, sem ser retirado nenhum dos ingredientes.
[editar] Esconjuro
O esconjuro da queimada foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974.[3]
- Mochos, corujas, sapos e bruxas.
- Demônios, trasgos e diabos,
- espíritos das enevoadas veigas.
- Corvos, píntigas e meigas:
- feitiços das mezinheiras.
- Podres canhotas furadas,
- lar dos vermes e alimárias.
- Fogo das Santas Companhas,
- mau-olhado, negros feitiços,
- cheiro dos mortos, trovões e raios.
- Uivar do cão, pregão da morte;
- focinho do sátiro e pé do coelho.
- Pecadora língua da má mulher
- casada com um homem velho.
- Averno de Satã e Belzebu,
- fogo dos cadáveres ardentes,
- corpos mutilados dos indecentes,
- peidos dos infernais cus,
- mugido do mar embravecido.
- Barriga inútil da mulher solteira,
- falar dos gatos que andam à janeira,
- guedelha porca da cabra mal parida.
- Com este fole levantarei
- as chamas deste fogo
- que assemelha o do Inferno,
- e fugirão as bruxas
- a cavalo das suas vassoiras,
- indo se banhar na praia
- das areias gordas.
- Ouvi, ouvi! os rugidos
- que dão as que não podem
- deixar de se queimar na aguardente
- ficando assim purificadas.
- E quando esta beberagem
- baixe pelas nossas goelas,
- ficaremos livres dos males
- da nossa alma e de feitiço todo.
- Forças do ar, terra, mar e fogo,
- a vós faço esta chamada:
- se é verdade que tendes mais poder
- que a humanas pessoas,
- aqui e agora, fazei que os espíritos
- dos amigos que estão fora,
- participem connosco desta Queimada.
Referências
- ↑ (em galego)Os viños de Galicia
- ↑ (em galego)A ALUMEAR A QUEIMADA Desmontam os mitos sobre a origem ancestral da queimada
- ↑ R. Queimaliños. «O café na queimada é unha copia dos cataláns». Página visitada em 2008-05-21.