Rã-arborícola-de-white

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Caerulea3 crop.jpg

Estado de conservação
Status iucn3.1 LC pt.svg
Pouco preocupante
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Amphibia
Ordem: Anura
Família: Hylidae
Género: Litoria
Espécie: L. caerulea
Nome binomial
Litoria caerulea
(White, 1790)
Sinónimos
Rana caerulea (White 1790)

Rana austrasiae (Schneider 1799)
Hyla cyanea (Daudin 1803)
Rana coerulea (Daudin 1803)
Hyla cyanea (Peron 1807)
Hyla irrorata (De Vis 1884)

A rã-arborícola-de-white,[1] também conhecida como rela-verde-australiana ou simplesmente rela-verde (Litoria caerulea) é uma espécie de rela natural da Austrália e Nova Guiné, com populações introduzidas na Nova Zelândia e Estados Unidos. A espécie pertence ao género Litoria. Fisiologicamente, é muito semelhante a outras espécies do género, especialmente à Litoria splendida e à Litoria infrafrenata.

A rela-verde é uma espécie grande comparada com a maioria das rãs australianas, chegando aos 10 cm de comprimento. A esperança média de vida desta rã em cativeiro, de cerca de dezasseis anos, é longa comparada com a da maioria das rãs. São animais dóceis e bem adaptados para viver perto de áreas ocupadas pelo homem. É comum encontrá-las empoleiradas em janelas ou dentro das casas, comendo insectos que foram atraídos pela luz.

Devido às suas características físicas e comportamentais, a rela-verde tornou-se uma das espécies mais emblemáticas da região, e é popular como animal de estimação exótico no mundo inteiro. As secreções cutâneas desta espécie tem propriedades antibacteriana e antiviral, o que pode ser útil em preparações farmacêuticas.

Classificação[editar | editar código-fonte]

Rela-verde-australiana, publicada em "A Journal of a Voyage to New South Wales" de John White. Artista: S. Stone

O nome comum da espécie, "rela-verde-de-White", foi dado em honra da primeira pessoa a descrever a espécie, John White, em 1790. A rela-verde foi a primeira rã australiana a ser classificada cientificamente.[2]

A espécie foi originalmente chamada "rã-azul" (Rana caerulea); apesar de a cor predominante da espécie ser verde, os espécimes originais enviados a White para Inglaterra estavam danificados devido ao material onde foram conservados e por isso pareciam azuis. A cor da pele desta espécie é formada por pigmentos azuis e verdes cobertos por uma camada amarela. O conservante destruiu a camada amarela exterior e deixou a rela com uma aparência azulada. O epíteto específico caerulea, que é azul em latim, permaneceu igual.[3] A rela é também conhecida simplesmente com rela-verde. No entanto, este nome é frequentemente dado à rela verde mais comum de uma determinada região, como por exemplo, a rela-verde-americana (Hyla cinerea).

Descrição[editar | editar código-fonte]

A rela-verde pode crescer até aos 10 cm de comprimento. A sua cor é dependente da temperatura e cor do ambiente, indo do castanho até ao verde; o seu ventre é branco.[4] Pode apresentar ocasionalmente pequenas manchas brancas de forma irregular nas costas, até cinco milímetros de diâmetro, que vão aumentando de número com a idade. A rela tem ventosas discais grandes na ponta de cada dedo, de cerca de 5 mm de diâmetro na idade adulta. Estes ajudam as relas a trepar e permitem que possam subir verticalmente inclusivamente em janelas de vidro. Os olhos são dourados com a íris horizontal, típica do género Litoria. Os dedos dos membros anteriores tem membrana interdigital até cerca de um terço do comprimento, enquanto que os dedos dos pés tem membrana até três quartos do comprimento. O tímpano é visível.

A rela-verde pode ser confundida com a espécie Litoria splendida, que habita apenas o Noroeste da Austrália e que pode ser distinguida pela presença de parotóides e de glândula rostral na cabeça. A espécie Litoria infrafrenata pode por vezes também ser confundida com a rela-verde. A principal diferença é uma faixa branca proeminente ao longo da mandíbula inferior da Litoria infrafrenata, que não se encontra na rela-verde.

A rã da esquerda é a Litoria infrafrenata, onde se nota uma risca branca ao longo do maxilar. No centro está a rela-verde. À direita encontra-se a Litoria splendida, onde se notam as glândulas parótidas acima do tímpano.

Apesar de as rãs terem pulmões, absorvem oxigénio através da pele. Para este processo ser eficaz, a pele deve estar húmida. A desvantagem de pele húmida é que agentes patogénicos podem multiplicar-se mais facilmente, aumentando a possibilidade de uma infecção. Para contrariar isto, as rãs segregam péptidos que destroem estes patogénicos. As secreções cutâneas da rela-verde contêm caerinas, um grupo de péptidos com propriedades antibacterianas e antivirais. Também contêm caerulinas, que têm o mesmo efeito fisiológico que a CCK8, uma hormona digestiva e repressora do apetite.[5] Vários péptidos das secreções cutâneas de rela-verde são capazes de destruir o VIH sem danificar células T saudáveis.[6]

Girino[editar | editar código-fonte]

Girino.
Foto: Jean-Marc Hero.

A aparência dos girinos muda ao longo do seu desenvolvimento. O comprimento dos girinos desta espécie vão desde os 8,1 mm (assim que eclodem) até 44 mm. Inicialmente são pintalgados de castanho, e aumentam de pigmentação (para verde ou castanho) durante o desenvolvimento. A lado inferior começa por ser escuro e vai clareando, eventualmente tornando-se branco nos adultos. Os ovos são castanhos, dentro de uma gelatina translúcida e tem 1,1-1,4 mm de diâmetro.[4]

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Distribuição de Litoria caerulea.

A rela-verde é natural das regiões Norte e Este da Austrália e do Sul da Nova Guiné.[4] A distribuição está limitada principalmente a áreas com clima tropical quente e húmido. Na Nova Guiné, a rela-verde está restrita a região do Sul, mais seca. Os seus limites vão desde Irian Jaya até Port Moresby, e o local onde são mais abundantes é na ilha Daru. Há registos isolados de ocorrência no norte da Nova Guiné, mas pensa-se que serão devidos a introdução por seres humanos.

A espécie foi introduzida quer nos Estados Unidos quer na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos, está restrita a duas áreas na Flórida, onde foi introduzida possivelmente pelo comércio de animais de estimação. Foram encontradas apenas populações pequenas na Flórida, e não é certo que tenham provocado qualquer dano em termos ecológicos como espécie invasora. Em tempos, na Nova Zelândia, esteve presente uma população, mas não é avistada desde a década de 1950.

Ecologia, comportamento e ciclo de vida[editar | editar código-fonte]

Uma rela-verde apanhada numa teia de aranha após comer a aranha. A rela sobreviveu.

As relas-verdes são extremamente dóceis.[7] São animais nocturnos e aparecem ao fim da tarde para fazer chamamentos (na Primavera e Verão) e caçam à noite. Durante o dia procuram sítios frescos, escuros e húmidos para dormir. Durante o Inverno, as relas-verdes não produzem chamamento e é raro serem avistadas.

Dependendo da localização, as relas-verdes ocupam vários habitats. Tipicamente, podemos encontrá-las no topo das árvores perto de águas paradas. Contudo, consegue sobreviver em pântanos (por entre juncos) ou em prados em climas mais temperados. Relas-verdes são bem conhecidas por habitarem fontes de água dentro de casas, como lavatórios ou retretes. Podem também ser encontradas em janelas enquanto comem insectos. Podem ocupar tanques (cisternas) e calhas, devido a elevada humidade e à temperatura mais baixa que no exterior. Durante a época de reprodução as relas são atraídas para estes sítios, porque a estrutura amplifica os chamamentos.[4] [7]

O chamamento da espécie é um lento e baixo bróque-bróque-bróque, repetido várias vezes.[4] Durante a maior parte do ano, ele chamam a partir de posições elevadas, como árvores ou calhas. Quando chega à época de reprodução as relas descem, apesar de permanecerem ligeiramente elevadas, e fazem os chamamentos perto de águas paradas, temporárias ou permanentes. Assim com várias outras rãs, as relas-verdes chamam não só para encontrar parceiro, mas também para anunciar a sua localização fora da época reprodutora, normalmente depois de chuva, por razões desconhecidas. Emitem um chamamento de alarme quando estão em perigo, como quando há predadores por perto ou quando uma pessoa pisa um tronco onde se encontre uma rã.[7]

A dieta da espécie consiste principalmente de insectos e aranhas,[7] mas também pode incluir rãs mais pequenas e até pequenos mamíferos. Os dentes das rãs não são apropriados para cortar as presas, por isso a presa deve caber dentro da boca da rela. Muitas rãs atiram as suas línguas pegajosas para apanhar as presas. As presas aderem à língua, e são consumidas. A rela-verde usa esta técnica para presas pequenas; no entanto, para presas maiores, ela salta no ar e força a presa a entrar na sua boca com as mãos.

A rã tem alguns predadores naturais, entre eles cobras e algumas espécies de lagartos e aves. Desde a chegada de Europeus à Austrália, predadores não naturais foram introduzidos, principalmente cães e gatos. A esperança média de vida desta espécie é de dezasseis anos, em cativeiro, mas pode viver até mais de vinte anos,[7] o que é bastante tempo para uma rã. Na Natureza, a esperança média de vida é mais baixa devido a predação.

Importância para os humanos[editar | editar código-fonte]

Como animal de estimação[editar | editar código-fonte]

A rela-verde é uma das mais populares rãs de estimação do mundo. A sua natureza dócil, aparência de "desenho animado", e longa esperança média de vida fazem com que seja uma escolha atractiva para os donos de espécies exóticas.[8] É também umas das rãs mais fáceis de tratar. Têm uma dieta muito variada e são muito resistentes a doenças. Um problema normalmente associado à manutenção desta espécie em cativeiro é a sobre-alimentação; as relas-verdes têm a tendência de se tornarem obesas se alimentadas em demasia. Na natureza, as rãs têm de gastar energia para capturar presas. Contudo, em cativeiro são normalmente alimentadas em espaços pequenos. Isto acarreta a diminuição da actividade necessária para a alimentação, resultando num aumento de peso. Indivíduos com excesso de peso depositam camadas de gordura no topo da cabeça, dando à cabeça um aspecto arredondado.[7]

Conservação[editar | editar código-fonte]

A rela-verde-australiana está protegida pela lei australiana - assim como toda a fauna local - pela lei federal Environment Protection and Biodiversity Conservation Act 1999.[9] A UICN lista esta espécie como uma espécie "pouco preocupante", dada a sua grande área de distribuição e população, habitat equilibrado e porque o seu declínio não é provavelmente tão acentuado que necessite um estatuto mais grave.[10] Grande parte do habitat natural da rela-verde foi destruído. Além disso, encontraram-se algumas relas infectadas com um fungo. Estes dois factores associados ao declínio geral das populações de anfíbios na Austrália ameaçam reduzir a população da rela-verde. No entanto, devido ao longo ciclo de vida desta espécie, qualquer efeito na redução da taxa de reprodução demorará mais tempo a ser detectado do que numa espécie com um ciclo de vida menor.

Notas e referências

  1. José Santos. Rã Arborícola de White (em pt) Aquamania.. Página visitada em 17-07-2008.
  2. Tyler, Michael J; Davies, Margaret (1994). Family Hylidae (PDF) Fauna of Australia. Department of the Environment, Water, Heritage and the Arts, Australia (em inglês). Página visitada em 11-12-2007.
  3. White’s Tree Frog (Litoria caerulea) The Children's Museum, Hartford, CT. Página visitada em 11-12-2007.
  4. a b c d e Vincent, L.. Litoria caerulea.
  5. Salmon, A.L.; et al.. (2000). "Isolation, Structural Characterization, and Bio activity of a Novel Neuromedin U Analog from the Defensive Skin Secretion of the Australasian Tree Frog, Litoria caerulea". Journal of Biological Chemistry 275: 4549–4554.
  6. Frog secretions block HIV.
  7. a b c d e f White's Tree Frog Fact Sheet - National Zoo.
  8. All about frogs - Dumpy Tree Frog, Smiling Frog, Litoria caerulea.
  9. Environment Protection and Biodiversity Conservation Act 1999.
  10. (em inglês) Hero et al (2004). Litoria caerulea. 2006 IUCN Red List of Threatened Species. IUCN 2006. Acesso a 11 de Maio de 2006. Inclui um mapa de distribuição e a justificação para a inclusão desta espécie na lista de espécies pouco preocupantes

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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