Racionalização

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Na sociologia, racionalização se refere a um processo no qual um número crescente de ações sociais se baseia em considerações de eficiência teleológica ou de cálculo, em vez de motivações derivadas da moral, da emoção, do costume ou da tradição. Muitos sociólogos consideram a racionalização como um aspecto central da modernidade, que se manifesta especialmente na sociedade ocidental, em aspectos como o comportamento no mercado capitalista, a administração racional do Estado e a expansão da ciência e tecnologia modernas.

Muitos sociólogos, teóricos críticos e filósofos contemporâneos têm argumentado que a racionalização, falsamente assumida como progresso, tem um impacto negativo de desumanização da sociedade, distanciando a modernidade dos princípios centrais do Iluminismo.[1] Os fundadores da sociologia atuavam como uma reação crítica à racionalização:

Marx e Engels associavam o surgimento da sociedade moderna, sobretudo, com o desenvolvimento do capitalismo; para Durkheim, estava conectado em particular com a industrialização e com a nova divisão social do trabalho que ela trouxe; para Weber, tinha a ver com o surgimento de uma distinta maneira de pensar, o cálculo racional que ele associou com a ética protestante (mais ou menos o que Marx e Engels falam em termos da "água gelada do cálculo egoísta"[nota 1] ).

John Harriss The Second Great Transformation? Capitalism at the End of the Twentieth Century 1992[2]

Racionalização e capitalismo[editar | editar código-fonte]

A racionalização formou um conceito central na fundação da sociologia clássica, especialmente no que diz respeito à ênfase que a disciplina colocou - por contraste com a antropologia - sobre a natureza das sociedades ocidentais modernas. O termo foi apresentado pelo influente antipositivista alemão, Max Weber, e seus temas tiveram paralelo nas críticas da modernidade estabelecidas por numerosos estudiosos. Uma rejeição da filosofia dialética da história e do evolucionismo sociocultural informa o conceito.

Weber demonstrou um exemplo de racionalização em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, obra na qual aponta que certas denominações protestantes, principalmente o calvinismo, adotaram uma forma de lidar com a "ansiedade de salvação" através de meios racionais de ganho econômico. As conseqüências racionais dessa doutrina, segundo o autor, logo se tornaram incompatíveis com suas raízes religiosas, e assim estas últimas acabaram por ser descartadas. Weber continua sua investigação sobre esse assunto em trabalhos posteriores, nomeadamente nos seus estudos sobre a burocracia e as classificações de autoridade (ou dominação). Nesses trabalhos, ele faz alusão a um movimento inevitável para a racionalização.

Weber acreditava que um movimento no sentido da autoridade racional-legal era inevitável. Na autoridade carismática, a morte de um líder encerra o poder dessa autoridade e só através de uma base racionalizada e burocrática pode essa autoridade ser passada adiante. As autoridades tradicionais, nas sociedades racionalizadas, também tendem a desenvolver uma base racional-legal para melhor garantir uma adesão estável.

O que Weber retratou não foi apenas a secularização da cultura ocidental, mas também e sobretudo o desenvolvimento das sociedades modernas do ponto de vista da racionalização. As novas estruturas da sociedade foram marcados pela diferenciação dos dois sistemas funcionalmente entrelaçados que tinham tomado forma em torno dos núcleos organizacionais da empresa capitalista e do aparelho burocrático estatal. Weber entendeu este processo como a institucionalização da ação racional quanto a fins nas esferas econômica e administrativa. Na medida em que a vida cotidiana foi afetada por essa racionalização cultural e social, as formas tradicionais de vida - que no início do período moderno foram diferenciadas principalmente de acordo com as ocupações - foram dissolvidas.

Jürgen Habermas Modernity's Consciousness of Time[1]

Enquanto em sociedades tradicionais, como o feudalismo, o governo é gerido sob a liderança tradicional, por exemplo, de uma rainha ou de um chefe tribal, as sociedades modernas funcionam sob sistemas racionais-legais. Uma característica positiva em tais sistemas, representados pelos contemporâneos sistemas democráticos, é que tentam remediar as questões qualitativas (como a discriminação racial) com meios quantitativos racionalizados (no caso, a positivação dos direitos civis). Por outro lado, em sua obra Economia e sociedade, Weber descreveu os efeitos últimos da racionalização como levando a uma "noite polar de gélida escuridão", em que a crescente racionalização da vida humana encarcera os indivíduos em uma "jaula de ferro" (ou "rija crosta de aço", "carapaça rígida como aço"[nota 2] ) de controle racional baseado em regras.

Jürgen Habermas argumenta que, para entender a racionalização corretamente, deve-se ir além da noção de racionalização de Weber, distinguindo entre a racionalidade instrumental, que envolve cálculo e eficiência (isto é, que reduz todas as relações a relações entre meios e fins), e a racionalidade comunicativa, que implica o alargamento do alcance da compreensão mútua na comunicação, a capacidade de expandir esse entendimento por meio do discurso reflexivo sobre a comunicação e a subordinação da vida social e política a esse entendimento ampliado.

Está claro que, em A Teoria da Ação Comunicativa[nota 3] , Weber figura em algo parecido com o papel que Hegel desempenhou para Marx. Weber, para Habermas, não deve tanto ser virado de ponta-cabeça (ou colocado de pé) como persuadido a ficar sobre duas pernas, em vez de uma, a sustentar sua teoria da modernidade com análises mais sistemáticas e estruturais do que as da racionalização (quanto a fins) da ação ... Weber "se desvia de uma teoria da ação comunicativa", quando ele define a ação em termos do sentido subjetivo a esta atribuído pelo ator. Ele não elucida "sentido" em conexão com o modelo do discurso, ele não o relaciona ao meio lingüístico do entendimento possível, mas às crenças e intenções de um sujeito que age, tomado de forma isolada. Isso o leva a sua conhecida distinção entre ação racional quanto a valores, racional quanto a fins, tradicional e afetiva. O que Weber deveria ter feito, em vez disso, era ter se concentrado não sobre as orientações de ação, mas nas estruturas gerais do mundo da vida a que pertencem os sujeitos atuantes.

William Outhwaite Habermas: Key Contemporary Thinkers 1988[3]

O Holocausto: modernidade e ambivalência[editar | editar código-fonte]

A linha de trem que conduzia ao campo de extermínio de Auschwitz II (Birkenau).

Para Zygmunt Bauman, a racionalização como uma manifestação da modernidade pode estar intimamente associada com os acontecimentos do Holocausto. Em Modernidade e Ambivalência, Bauman objetivou oferecer uma exposição das diferentes abordagens que a sociedade moderna adota em face do estrangeiro. Ele argumentou que, por um lado, em uma economia orientada para o consumidor, o estranho e o desconhecido são sempre sedutores. Em diferentes estilos de comida, diferentes modas e no turismo, é possível experimentar o fascínio do que é desconhecido. No entanto, esse fato de ser estranho também tem um lado mais negativo. O estranho ou estrangeiro, por não poder ser controlado e ordenado, é sempre objeto de temor. Ele é o assaltante em potencial, a pessoa fora das fronteiras da sociedade que está constantemente ameaçando.

O famoso livro de Bauman, Modernidade e Holocausto, é uma tentativa de dar um relato completo sobre os perigos que se originam desses tipos de temor. Com base nos livros de Hannah Arendt e Theodor Adorno sobre o totalitarismo e o Iluminismo, Bauman desenvolveu o argumento de que o Holocausto não deve simplesmente ser considerado um evento na história judaica, nem uma regressão à barbárie pré-moderna. Em vez disso, ele argumentou, o Holocausto deve ser visto como profundamente ligado à modernidade e seus esforços de criação de ordem. A racionalidade procedimental, a divisão do trabalho em tarefas cada vez menores, a categorização taxonômica de diferentes espécies e a tendência a considerar moralmente bom o cumprimento de regras foram todos fatores que desempenharam o seu papel na ocorrência do Holocausto.

Bauman argumentou que, por essa razão, as sociedades modernas não aceitaram plenamente as lições do Holocausto, sendo este geralmente visto - para usar a metáfora de Bauman - como um quadro pendurado na parede, que oferece poucas lições. Na análise de Bauman, os judeus se tornaram "estranhos" por excelência na Europa[4] ; a Solução Final foi retratada por ele como um exemplo extremo das tentativas feitas pelas sociedades para extirpar os elementos desconfortáveis ​​e indeterminados existentes dentro delas.

Bauman, como o filósofo Giorgio Agamben, sustentou que os mesmos processos de exclusão que operaram no Holocausto poderiam atuar ainda hoje. E até certo ponto efetivamente atuam.

A definição de Iluminismo em Adorno e Horkheimer[editar | editar código-fonte]

Em sua análise da sociedade contemporânea ocidental, na obra Dialética do Esclarecimento (de 1944, revisada em 1947), Theodor Adorno e Max Horkheimer desenvolveram um conceito amplo e pessimista de Iluminismo. Nessa análise, apresentaram o lado sombrio do Iluminismo ou Esclarecimento[nota 4] . Ao tentar abolir a superstição e os mitos através da filosofia "fundacionalista", o Iluminismo ignorou sua própria base "mítica" e, por outro lado, seus esforços no sentido da totalidade e da certeza levaram a uma crescente instrumentalização da razão. Na opinião deles, o Esclarecimento em si deve ainda ser esclarecido e não ser mostrado como uma visão do mundo "livre de mitos".

Para a filosofia marxista, em geral, a racionalização está intimamente associada com o conceito de "fetichismo da mercadoria".

Consumo[editar | editar código-fonte]

Letreiro em um McDonald's "drive-thru". A afirmação "mais de 99 bilhões servidos" ilustra a ideia de Ritzer de calculabilidade.

O consumo moderno de alimentos é uma representação típica do processo de racionalização. Enquanto a preparação de alimentos nas sociedades tradicionais é mais trabalhosa e tecnicamente ineficiente, a sociedade moderna tem se esforçado para garantir-lhe velocidade e precisão. Restaurantes fast-food, projetados para maximizar o lucro, adotam uma série de técnicas visando à eficiência, tais como: um controle rigoroso das ações dos empregados; a substituição de sistemas mais complexos por outros mais simples e rápidos, como sistemas numéricos de refeições promocionais; a venda através de Drive-Thru; o uso de mobiliário desconfortável para desencorajar a vadiagem.[carece de fontes?]

A racionalização é um processo que também pode ser observado na substituição de lojas mais tradicionais, que podem oferecer vantagens subjetivas para os consumidores (como um ambiente com menos regulações, ou mais "natural"), por lojas modernas que oferecem a vantagem objetiva de preços mais baixos para os consumidores.

O caso da Walmart, rede varejista multinacional, é um exemplo que demonstra fortemente essa transição. Apesar de as lojas da Walmart atraírem críticas por estarem deslocando lojas mais tradicionais, o ponto de vista das vantagens subjetivas e do valor social destas últimas lojas obteve efeitos irrisórios no sentido de limitar a expansão daquela empresa, devido às preferências do público por preços mais baixos em detrimento das vantagens subjetivas mencionadas.[5]

O sociólogo George Ritzer tem usado o termo McDonaldização para se referir não apenas às ações observadas nos restaurantes fast-food, mas também ao processo geral de racionalização. Ritzer distingue quatro componentes primários de McDonaldização:[6]

  • Eficiência - o melhor método para realizar uma tarefa, o método mais rápido para ir do ponto A ao ponto B. Em outras palavras, a eficiência, no que toca à McDonaldização, significa que todos os aspectos de determinada organização se voltam para a minimização do tempo empregado em uma tarefa.[6]
  • Medição – metas são quantificáveis (vendas, lucro, etc.) ao invés de subjetivas (sabor, trabalho, etc.). A McDonaldização desenvolveu a noção de que "quantidade gera qualidade" e que a venda de uma grande quantidade de produtos aos consumidores significa alta qualidade do produto.[6]
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Notas[editar | editar código-fonte]

  1. A expressão "água gelada do cálculo egoísta", mencionada por John Harris, foi extraída do Manifesto do Partido Comunista, de 1848.
  2. Acerca da discussão que recobre as possíveis traduções da expressão weberiana stahlhartes Gehäuse, encontrada em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo pode-se consultar a extensa nota quatro do artigo O Conceito de Racionalização no Pensamento Social de Max Weber: Entre a Ambiguidade e a Dualidade, de Luís Antônio Cardoso. Acessado em 14 de dezembro de 2011.
  3. A Teoria da Ação Comunicativa é uma obra de Jürgen Habermas, datada de 1981, não possuindo tradução em português. Verificado em dezembro de 2011.
  4. "Iluminismo" e "Esclarecimento" são duas traduções possíveis para a mesma expressão alemã - "Aufklärung"

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Habermas, Jürgen. The Philosophical Discourse of Modernity, Polity Press (1985), ISBN 0-7456-0830-2, p. 2.
  2. Harriss, John. The Second Great Transformation? Capitalism at the End of the Twentieth Century in Allen, T. and Thomas, Alan (eds). Poverty and Development in the 21st Century, Oxford University Press, Oxford, p. 325.
  3. Outhwaite, William. 1988, Habermas: Key Contemporary Thinkers, Polity Press (Second Edition 2009), ISBN 978-0-7456-4328-1, p. 76.
  4. Modernity and the Holocaust, p. 53.
  5. Boaz, David. 8 de novembro de 1996, Chrysler, Microsoft, and Industrial Policy, Cato Institute. Acessado em 17 de agosto de 2006.
  6. a b c Ritzer, George. The McDonaldization of Society. Los Angeles: Pine Forge Press, 2008. ISBN 0-7619-8812-2

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Adorno, Theodor. Negative Dialectics. Translated by E.B. Ashton, London: Routledge, 1973
  • Bauman, Zygmunt. Modernity and The Holocaust. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press 1989. ISBN 0-8014-2397-X
  • Green, Robert W. (ed.). Protestantism, Capitalism, and Social Science. Lexington, MA: Heath, 1973.