Reeducação sensitiva da dor

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A reeducação sensitiva da dor é um método terapêutico que tem como objetivo diminuir a hipoestesia visando atenuar as dores neuropáticas. Este método de reeducação compreende uma avaliação rigorosa da sensibilidade tátil, realizada por meio da avaliação do limiar de percepção da pressão sobre a pele. Nos casos onde for constatada a presença de alodinia mecânica, o tratamento da hipoestesia deverá ser iniciado após a resolução desta condição, pois esta impede o contato com a pele. Apenas a partir daí a correlação entre a diminuição do limiar de percepção da pressão com a diminuição do escore ao questionário de dor McGill poderá ser avaliada.

Método de reeducação sensitiva da dor[editar | editar código-fonte]

A reeducação da hiposensibilidade tem por objetivo melhorar ou até mesmo normalizar a qualidade da sensibilidade tátil, visto que a diminuição da hipoestesia[1] permite diminuir as dores neuropáticas[2] [3] [4] [5] . A avaliação regular e rigorosa da qualidade da hipoestesia através do limiar de percepção à pressão sobre a pele é uma parte importante do processo de reabilitação[6] [7] .

Às vezes, o território hipoestésico é mascarado por uma parte da pele que é sensível ao toque e, portanto, não acessível. Na medicina, desde 1979, esta dor induzida por um estímulo é chamada de alodinia. A definição original foi feita por Merksey e Bogduk (1994): “Dor causada por um estímulo que normalmente não provocaria dor”[8] . Em tais situações, fica impossível de se realizar o teste de discriminação de 2 pontos estático[9] , normalmente realizado na primeira sessão de reabilitação a fim de investigar uma possível lesão axonal[10] .

Quando esta hipersensibilidade ao toque está presente[11] [12] , se torna um obstáculo a qualquer outro tratamento físico. Isto porque qualquer contato no território hipersensível, embora possa ser suportável no momento do toque, pode induzir a várias horas de dor intensa ou mesmo, várias noites sem dormir. Esta hipersensibilidade ao toque é induzida pela lesão das grandes fibras mielinizadas A-beta[13] nos nervos periféricos. Mais especificamente, depois de uma lesão de um nervo periférico da pele, ocorre o brotamento aberrante no corno dorsal da medula espinhal, o que explicaria o fato de um estímulo não nocivo ser percebido de maneira nociva (hipersensibilidade ao toque). Este fenômeno seria uma das explicações que justifica os diferentes mecanismos de sensibilização central[14] .

Se o paciente nunca apresentou um quadro de alodinia, ou se este quadro já foi normalizado, a reeducação da hiposensibilidade, baseada na plasticidade neuronal do sistema somatossensorial, é colocada em prática para reduzir os sintomas neuropáticos. Podemos então observar que a diminuição da hipoestesia está correlacionada com a diminuição da dor (Questionário de dor McGill)[15] [16] .

Treinamento[editar | editar código-fonte]

A reeducação sensitiva da dor neuropática é ensinada em francês, alemão e inglês com base em um Manual[17] [18] . O treinamento deste método iniciou-se na cidade de Friburgo, na Suíça, e gradualmente ganhou impulso a partir do ano 2000, na França, Alemanha,Áustria, Austrália e Argentina. Desde 2008, este curso oferece um certificado de reeducação sensitiva da Haute école libre de Bruxelles (Helb). Em 2009, os primeiros terapeutas foram treinados neste método no Canadá (província de Quebec).

Palavras-chave[editar | editar código-fonte]

Alodinia – Contra-estimulação vibrotátil à distância – hiposensibilidade – limiar de percepção à pressão – questionário de dor McGill – dor neuropática

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Spicher, C.J., Desfoux, N. & Sprumont, P. Atlas des territoires cutanés du corps humain; Esthésiologie de 240 branches. Montpellier, Paris: Sauramps Médical, 2010.(ISBN 978-2-84023-669-6)
  2. Spicher, C.J. & Clément-Favre, S. (2008).Chronic Neuropathic Pain decreases through Somatosensory Rehabilitation. RAE : Recueil Annuel francophone belge d'Ergothérapie, 1, 25-37.
  3. Mathis, F., Degrange, B., Desfoux, N., Sprumont, P., Hecker, E., Rossier, Ph. & Spicher, C.J. (2007). Diminution des douleurs neuropathiques périphériques par la rééducation sensitive. Rev Med Suisse, 3(135), 2745-2748
  4. Desfoux, N., Spicher, C.J. & Noël, L. Suivi de la diminution des douleurs neuropathiques par le test de discrimination de 2 points statiques. In M.-H Izard, R. Nespoulous (Eds.), Expériences en ergothérapie, 22ème série (pp. 140-149). Montpellier, Paris : Sauramps Médical, 2009
  5. Spicher, C.J. (2010). Editorial : « Douleurs neuropathiques » : le recueil francophone du e-News for Somatosensory Rehabiltation. Douleurs neuropathiques, 6, 2-3.
  6. Frey von, M. Untersuchung über die Sinnesfunktion der Menschlichen Haut : Erste Abhandlung: Druckempfindung und Schmerz. Des XXII Bandes der Abhandlungen der mathematisch – physischen Classe der Königl. Sachsischen Gesellschaft des Wissenschaften, n°III:175-266, Leipzig: S. Hirzel,1869]
  7. Semmes, J., Weinstein, S., Ghent, L. & Teuber, H.L. Somatosensory changes after penetrating brain wounds in man. Cambridge, MA : Harvard University Press, 1960
  8. Merskey & Bogduk (Eds.) Classification of Chronic Pain. Seattle: IASP Task Force on Taxonomy, 1994
  9. Novak CB, Mackinnon SE, Kelly L. (1993). «Correlation of Two-Point Discrimination and Hand Function Following Median Nerve Injury.». Ann Plast Surg (31): pp. 495-498
  10. Noël, L., Desfoux, N. & Spicher, C.J. Le bilan diagnostique de lésions axonales. In M.-H. Izard, R. Nespoulous (Eds.), Expériences en ergothérapie, 21ème série, (pp. 109- 115). Montpellier, Paris : Sauramps Médical, 2008
  11. Spicher CJ, Ribordy F, Mathis F, Desfoux N, Schönenweid F, Rouiller EM (2008). L’allodynie mécanique masque une hypoesthésie: Observations topographiques de 23 patients douloureux neuropathiques chroniques. Doul et Analg, 21:239-251
  12. Spicher CJ (2011). EDITORIAL L'hypo-esthésie paradoxalement douloureuse au toucher: La face nord des douleurs neuropathiques. e-News for Somatosensory Rehabilitation 8(1), 2 - 12
  13. Devor M (2009). Ectopic discharge in Abeta afferents as a source of neuropathic pain. Exp Brain Res, 196, 115-128
  14. Kohama I, Ishikawa K, Kocsis JD (2000) Synaptic reorganization in the substantia gelatinosa after peripheral nerve neuroma formation: aberrant innervation of lamina II neurons by Abeta afferents. J Neurosci 20: 1538-49
  15. Melzack R. The short-form McGill Pain Questionnaire. Pain. 1987;30(2):191-7.
  16. Pimenta CA, Teixeira MJ. Questionário de dor McGill: proposta de adaptação para língua portuguesa. Rev Esc Enferm USP. 1996;30(3):473-83.
  17. Spicher, C. Manuel de rééducation sensitive. Genève, Paris : Médecine & Hygiène, 2003.(ISBN 2-88049-200-9)
  18. Spicher, C.J. Handbook for Somatosensory Rehabilitation. Montpellier, Paris : Sauramps Médical, 2006. (ISBN 2-84023-470-x)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]