Reino Latino de Jerusalém

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

(Redirecionado de Reino de Jerusalém)
Reino Latino de Jerusalém
Royaume de Jérusalem
Bandeira Brasão
Idioma francês, grego,árabe
Capital Jerusalém
Chefe de Estado Rei de Jerusalém
Área km²
Existência 1099 a 1291


O Reino Latino de Jerusalém foi um reino cristão criado no Levante em 1099 pela Primeira Cruzada. Teve a sua capital em Jerusalém e mais tarde em Acre. Foi extinto em 1291, com a queda desta última cidade.

Índice

[editar] Fundação e história remota

O reino surgiu após a captura de Jerusalém pelos cruzados em 1099, o ponto alto da Primeira Cruzada. Godofredo de Bulhão, um dos líderes, tornou-se o seu primeiro monarca, mas preferiu adotar o título de Advocatus Sancti Sepulchri ("Defensor do Santo Sepulcro") no lugar do de rei, ao argumento de que nenhum homem deveria envergar uma coroa onde Cristo havia usado a coroa de espinhos. Godofredo morreu no ano seguinte e seu irmão e sucessor, Balduíno I, foi coroado rei de Jerusalém.

Balduíno expandiu o reino, capturando as cidades portuárias de Acre, Sídon e Beirute, e exerceu a sua suzerania sobre outros estados cruzados ao norte - o Condado de Edessa (que ele havia fundado), o Principado de Antioquia e o Condado de Trípoli. A população de origem européia ocidental aumentou, com os reforços recebidos da Cruzada de 1101; um Patriarca latino foi instalado em Jerusalém. As cidades-Estado de Veneza, Pisa e Gênova começaram a envolver-se nos assuntos do reino, quando suas frotas passaram a apoiar a captura de portos, onde foram autorizadas a formar distritos comerciais autônomos.

Balduíno morreu em 1118, sem deixar herdeiros, e sucedeu-o seu primo, Balduíno de Bourg, conde de Edessa. Este também foi um dirigente capaz e, embora tivesse sido feito prisioneiro pelos turcos várias vezes, as fronteiras do reino continuaram a expandir-se, com a captura da cidade de Tiro em 1124.

[editar] Vida cotidiana

Aos poucos, os habitantes de origem européia começaram a adotar modos orientais, aprendendo o grego e o árabe.

Jerusalém durante as Cruzadas
Jerusalém durante as Cruzadas

O reino baseava-se no sistema feudal, à semelhança da Europa à época, embora com diferenças: o modo de produção agrícola continuou a ter muçulmanos ou cristãos ortodoxos à frente, os quais se reportavam nominalmente aos nobres latinos donos das terras; estes, porém, preferiam permanecer nos centros urbanos, em geral, e em Jerusalém, em particular. As comunidades agrícolas eram, portanto, relativamente autônomas e não deviam serviço militar (ao contrário do que ocorria com os vassalos na Europa). Com isso, os exércitos cruzados costumavam ser pequenos e recrutados dentre famílias francesas nas cidades.

O caráter urbano da região e a presença de mercadores italianos fizeram surgir uma economia mais comercial do que agrícola; a Palestina sempre fora um entreposto comercial e, agora, incluía rotas européias.

Como a nobreza preferia residir em Jerusalém (e não nas suas respectivas terras), exercia uma influência grande sobre o rei e formavam a chamada Haute Cour ("alta corte", em francês), uma forma primitiva de parlamento. Dentre as responsabilidades da cortes, destacavam-se a confirmação da eleição de um rei, questões financeiras e o recrutamento de exércitos.

O problema da falta de soldados para o exército foi amenizado com a criação das ordens militares. Os Cavaleiros Templários e os Cavaleiros Hospitalários formaram-se nos primeiros anos do reino. Embora seus quartéis-generais estivessem em Jerusalém, mantinham guarnecidos vastos castelos e adquiriam terras que outros nobres não pudessem mais manter. As ordens militares estavam sobre controle direto do papa, não do rei: eram basicamente autônomas e não deviam, em tese, nenhum tipo de serviço militar ao reino, embora na prática participassem de todas as grandes batalhas.

[editar] Meados do século XII

Em 1131, Balduíno II foi sucedido por sua filha, Melisende, que reinou juntamente com o marido, Fulque. Durante seu reinado, Jerusalém conheceu o auge da expansão econômica e artística. Fulque, um renomado comandante militar, logrou conter a ameaça representada pelo atabey de Mossul, Zengi. Mas a sua morte acidental em 1143 permitiu a Zengi tomar Edessa. Melisende, agora regente em nome de seu primogênito Balduíno III, nomeou Manassés de Hierges como condestável; em 1147 chegariam as tropas da Segunda Cruzada.

Balduíno III depôs a sua mãe em 1153 mas restaurou-a no papel de regente no ano seguinte. Também no mesmo ano, Balduíno logrou conquistar Ascalon aos Fatímidas. Por outro lado, Nuredin (ou Nur-Al-Din) unificou a Síria muçulmana ao tomar Damasco, agravando a ameaça contra os cruzados.

Balduíno III morreu em 1162 e sucedeu-o seu irmão, Amalrico I, cujo reinado foi dedicado a disputar o controle do Egito contra Nuredin e Saladino. Apesar do apoio do imperador bizantino, Manuel I Comneno, Amalrico não conseguiu o seu intento; sua morte e a de Nuredin fortaleceram a posição de Saladino.

[editar] A queda de Jerusalém

Saladino, o reconquistador dos estados cruzados no Levante
Saladino, o reconquistador dos estados cruzados no Levante

Sucedeu a Amalrico I seu filho adolescente, Balduíno IV, que sofria de lepra. O reinado deste último assistiu à formação de facções que apoiavam Raimundo III de Trípoli (o "partido dos nobres", que reunia os barões nativos) ou o cunhado incompetente do rei, Guy de Lusignan (o "partido da corte", apoiado pela família real).

Balduíno morreu em 1185 e sucedeu-o seu sobrinho menor, Balduíno V, filho de sua irmã Sibila. Balduíno V morreu menos de um ano depois e sua mãe assumiu o trono, juntamente com seu marido Guy de Lusignan. Este revelou-se um governante desastrado.

Seu aliado Reinaldo de Châtillon, senhor da Transjordânia e da fortaleza de Kerak, provocou Saladino a declarar guerra e, em 1187, o exército do reino foi aniquilado na Batalha de Hattin. Nos anos seguintes, Saladino avançou sobre todo o reino, exceto pelo porto de Tiro, bem defendido por Conrado de Montferrat.

A queda de Jerusalém comoveu a Europa e resultou na Terceira Cruzada. Graças aos esforços de Ricardo Coração-de-Leão, a maior parte das cidades costeiras da Síria, especialmente Acre, foi recuperada e o Tratado de Ramla foi assinado com Saladino após a Batalha de Arsuf. Conrado de Montferrat casou-se com Isabel, filha de Amalrico I, e foi feito rei, mas logo foi morto por assassinos nizaritas. Isabel casou-se então com Henrique II de Champanhe.

[editar] Os últimos anos

Nos cem anos seguintes, o Reino de Jerusalém resignou-se a ser um pequeno estado ao longo da costa da Síria. Sua capital passou a ser Acre e seu território incluía poucas cidades de monta (Beirute, Tiro). Uma Quarta Cruzada foi organizada após o fracasso da terceira, mas resultou apenas no saque de Constantinopla, em 1204.

Em 1205, a menor Maria de Montferrat, filha de Conrado e Isabel, tornou-se rainha, e casou-se em seguida com João de Brienne, que logrou manter o reino a salvo. A Quinta Cruzada de 1217, contra Damieta, no Egito, fracassou. Em 1229, o Imperador Frederico II, que era rei de Jerusalém devido ao seu casamento com a herdeira, recuperou a cidade por meio de tratado com o sultão Al-Kamil (Sexta Cruzada). Em 1244, os cristãos perdiam novamente a cidade.

No período de 1229 a 1268, o rei residiu na Europa. Os reis se faziam representar por regentes. O título foi herdado por Conrado IV, rei dos romanos, filho de Frederico II e Iolanda de Jerusalém, e posteriormente por seu filho Conrado III de Jerusalém.

Ao longo do século XIII, os mamelucos tomaram aos poucos os territórios do reino, até a queda de Acre, em 1291. O título de rei de Jerusalém foi então reivindicado pelos reis de Chipre e, até hoje, por diversos monarcas europeus.

[editar] Cronologia da monarquia na Jerusalém Latina

Monarca Reinado Regência
Godofredo de Bulhão (Advocatus Sancti Sepulchri) 1099-1100
Balduíno I 1100-1118
Balduíno II 1118-1131 Eustáquio Grenier (regente, 1123)
Guilherme Bures (regente, 1123-1124)
Melisende e Fulque 1131-1153 Fulque perdeu influência após 1136 e morreu em 1143. Melisende continuou a reinar até a maioridade de seu filho.
Balduíno III 1143-1162 foi coroado mas sua mãe Melisende reinava de fato desde 1143; reinvidicou sua coroa em 1153. Melisende (regente e conselheira, 1154-1161)
Amalrico I 1162-1174
Balduíno IV 1174-1185 Raimundo III de Trípoli (regente, 1174-1177)
Guy de Lusignan (regente, 1183-1184)
Balduíno V 1185-1186 Raimundo III de Trípoli (regente, 1185-1186)
Sibila e Guy de Lusignan 1186-1187
Jerusalém cai em 1187; Sibila morre em 1190 mas Guy recusa entregar a coroa; as disputas pelas terras se estenderam até meados 1192, então o reino foi reduzido a uma estreita faixa litorânea
Isabel I 1192-1205
com Conrado I (Conrado de Montferrat) 1192
com Henrique I (Henrique II de Champagne) 1192-1197
com Amalrico II 1198-1205
Maria de Montferrat 1205-1212 João de Ibelin - Nobre de Beirute (regente, 1205-1210)
João de Brienne 1210-1212
Iolanda (Isabel II) 1212-1228 João de Brienne (regente 1212-1225)
com Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico 1225-1228
Conrado II (Conrado IV da Germânia - Hohenstaufen) 1228-1254 Frederico II (regente, 1228-1243)
Rainha Alice de Chipre (regente, 1243-1246)
Rei Henrique I de Chipre (regente, 1246-1253)
Rei Plaisance de Chipre (regente, 1253-1254)
Conrado III (Conradino da Germânia) 1254-1268 Rei Plaisance de Chipre (regente, 1254-1261)
Isabel de Lusignan (regente, 1261-1264)
Hugo de Antioquia (regente, 1264-1268), contestado pela reivindicação de Hugo de Brienne
Hugo I (Hugo III de Chipre, o mesmo Hugo de Antioquia) 1268-1284 (contestado primeiramente por reivindicações de Hugo de Brienne e Maria de Antioquia, então contestado por Carlos de Anjou)
Carlos de Anjou (Carlos I da Sicília) 1277-1285 (contestado por Hugo I e João II)
João II (João I de Chipre) 1284-1285 (contestado por Carlos de Anjou)
Henrique II (Henrique II de Chipre) 1285-1291
São João de Acre cai em 1291. O reino foi praticamente extinto com a queda desta última cidade.

[editar] Ver também

Árvore Genealógica do Reino de Jerusalém

Ferramentas pessoais