Recalque (psicanálise)

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Recalque ou recalcamento [1] é um dos conceitos fundamentais da psicanálise, desenvolvidos por Sigmund Freud. Denota um mecanismo mental de defesa contra ideias que sejam incompatíveis com o eu. Freud dividiu o recalque em dois tipos: o recalque primário, na qual o inconsciente é constituído, e recalque secundário, que envolve a rejeição de representações inconscientes.

O recalque é o processo psíquico através do qual o sujeito rejeita determinadas representações, ideias, pensamentos, lembranças ou desejos, submergindo-os na negação inconsciente, no esquecimento, bloqueando assim os conflitos geradores de angústia. [2]

Segundo Sigmund Freud, os conteúdos refutados, longe de serem destruídos ou esquecidos definitivamente através do recalque, ao se ligarem à pulsão mantêm sua efetividade psíquica no inconsciente. O recalcado (ou reprimido) constitui, para Freud, o componente central do inconsciente. "O recalcado se sintomatiza", diz o fundador da psicanálise. Ou seja, pelo recalque, os processos inconscientes só se tornam conscientes através de seus derivados - os sonhos ou os sintomas neuróticos. [3]

O conceito de recalque não foi originalmente definido por Freud. No século XIX, já havia sido utilizado por Johann Friedrich Herbart e por Theodor Meynert. Mas foi Sigmund Freud quem conseguiu descrevê-lo como um mecanismo essencial da cisão originária entre o consciente e o inconsciente, no aparato psíquico.

Para Freud o recalque opera porque a satisfação direta da moção pulsional, que se destina a causar prazer, poderia causar desprazer ao entrar em dissonância com as exigências provenientes de outras estruturas psíquicas ou exigências do meio exterior.[4]

Em sentido estrito, trata-se do mecanismo típico da neurose histérica mas, em sentido amplo, é um processo que ocorre em todos os seres humanos, dado que constitui originariamente o inconsciente. O conceito foi adotado por distintas escolas e orientações, dentro da psicanálise mas também por outras teorias psicológicas, resultando em definições às vezes muito diferentes entre si. Lacan, por exemplo, nos anos 1950, reinterpretou a teoria do recalque e do deslocamento de Freud usando as categorias linguísticas de metáfora e metonímia. Na medida em que a metáfora envolve a substituição de um termo por um outro que "desliza por baixo do  balcão", ela seria, segundo Lacan, o correlato linguístico do mecanismo de repressão ou recalque.[2]

Mecanismo de ação da repressão[editar | editar código-fonte]

No texto Die Verdrängung (1915) Freud distingue três momentos do recalque:[5]

  • recalque originário (Urverdrängung), que, ao expulsar da consciência as primeiras representações intoleráveis associadas à pulsão, marca uma cisão da vida anímica, delimitando as áreas consciente / inconsciente e possibilitando a repressão posterior. A premissa de Freud é a de que toda representação, para poder ser reprimida, precisa ser atraída por essas representações originariamente reprimidas.
  • recalque propriamente dito ou recalque secundário, que desloca para o inconsciente e ali mantém as representações intoleráveis para a consciência, magnetizadas pelo núcleo do inconsciente constituído pela repressão originária.
  • retorno do recalcado (Wiederkehr des Verdrängten), quando o recalcado expressa sua efetividade psíquica, posto que mantém uma tendência a alcançar de algum modo a consciência e a obter algum tipo de satisfação através das formações do inconsciente, como os sonhos, os atos falhos ou os sintomas neuróticos.

Referências

  1. No Brasil, a tradução do termo alemão Verdrängung mais utilizada no meio psicanalítico é recalque, provavelmente pela influência francesa que a psicanálise brasileira sofre (na tradução de Laplanche das Obras de Freud, o termo utilizado é refoulement ("recalcamento"). No entanto, na tradução brasileira das Obras Completas, como também nas traduções inglesa e espanhola, o termo ainda utilizado é "repressão". Ver "Recalque, rejeição, denegação: modulações subjetivas do querer, do crer e do saber". Por Lina Schlachter e Waldir Beividas. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, vol.13 n°2. Rio de Janeiro, dezembro de 2010. ISSN 1516-1498
  2. a b Concept and Form: The Cahiers pour l’Analyse and Contemporary French Thought. Repression (le refoulement).
  3. O que representa a representação?. Por Josênia Maria Heck Munhoz. Revista Brasileira de Psicanálise v.43 n°2 São Paulo jun. 2009 ISSN 0486-641X.
  4. Laplanche, J. ; Pontalis, J.B.. Diccionario de Psicoanálisis. Paidos: B.Aires 9ª ed. 2007, pág. 375-379, ISBN 950-12-7321-0 (Título original: Vocabulaire de la Psychanalyse, 1967).
  5. Freud, Sigmund, La represión. In Obras Completas, Vol. XIV. Amorrotu, B.Aires 9ª ed. 1996, pág. 135, ISBN 950-518-590-1 (Título original: Die Verdrängung, 1915).

Ver também[editar | editar código-fonte]

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