Revelação divina

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Portal A Wikipédia possui o:
Portal de Religião

Revelação divina é a denominação, de modo genérico, para todo conhecimento transmitido ao homem diretamente por um deus ou deuses (muitas vezes o meio por onde este conhecimento foi passado também é chamado assim).

A revelação é o ato de revelar ou desvendar ou tornar algo claro ou óbvio e compreensível por meio de uma comunicação ativa ou passiva com a Divindade. A Revelação pode originar-se diretamente de uma divindade ou por um intercessor ou agente, como um anjo ou santidade; alguém que tenha experienciado tal contato é denominado profeta.

Na Bíblia[editar | editar código-fonte]

Na Igreja Católica[editar | editar código-fonte]

Deus revela-se a Abraão, o maior patriarca do Antigo Testamento e o "pai dos crentes".[1]

Segundo a doutrina católica, Deus revelou-se ao homem, através de palavras e acontecimentos, para que o homem possa conhecer o seu desígnio de benevolência. Esse desígnio "consiste em fazer participar, pela graça do Espírito Santo, todos os homens na vida divina, como seus filhos adotivos no seu único filho", que é Jesus Cristo.[2] Essa infalível Revelação divina, manifestada ao longo dos séculos que correspondem ao Antigo Testamento, é plenamente realizada e completada em Jesus Cristo. A partir da ressurreição de Cristo, não será revelado mais nada aos homens até à Parusia. Mas, "apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos."[3]

A partir daí, com a assistência sobrenatural do Espírito Santo, a Revelação imutável (ou o depósito de fé) é transmitida ininterrupta e integralmente pela Igreja através de uma dupla Tradição (que em latim significa entrega ou ato de confiar) indissociável [4] , que pode ser oral ou escrita (2 Tessalonicenses 2,15; 2 Timóteo 1,13-14; 2,2):

  • a Tradição oral, ou simplesmente a Tradição, que conserva os ensinamentos de Cristo aos Apóstolos. Por sua vez, eles transmitem integralmente estes ensinamentos aos seus sucessores (os bispos unidos com o Papa), para que eles possam conservar e difundi-los;[4] [5]
  • a Tradição escrita, ou a Bíblia, é o produto do registo escrito da Tradição oral pelos quatro evangelistas e outros escritores sagrados, sempre inspirados pelo Espírito Santo. Para os católicos, a Bíblia é constituída por 73 livros, organizados no Antigo Testamento e no Novo Testamento.[4]

Ambas são intercomunicáveis, visto que "Jesus fez na presença dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro"[6] , a saber, o Evangelho de São João. Além da Revelação imutável completada em Cristo (também chamada de "Revelação pública"), existem ainda as aparições privadas (ex.: as aparições marianas), que não pertencem à Revelação divina pública nem podem contradizê-la. Por isso, os católicos não são obrigados a acreditarem nelas, mesmo que algumas delas foram reconhecidas como autênticas pela Igreja (ex.: aparições de Fátima). O seu papel é somente ajudar os fiéis a viver melhor a Revelação divina, numa determinada época da história.[7]

Magistério da Igreja Católica e desenvolvimento da doutrina[editar | editar código-fonte]

O Cardeal Newman (século XIX) refletiu muito sobre o desenvolvimento da doutrina.[8]

A Tradição, seja ela oral ou escrita, é interpretada e aprofundada progressivamente pelo Magistério da Igreja Católica, que deve ser obedecido e seguido pelos católicos. Isto porque o Magistério é a função de guardar, interpretar, transmitir e ensinar a Tradição, que é própria da autoridade da Igreja, mas mais concretamente do Papa e dos bispos unidos ao Papa.[9] Foi com base na sua interpretação que a Igreja escolheu os livros pertencentes ao cânon bíblico. Ela acredita que as suas verdades de fé não estão só contidas na Bíblia, querendo isso dizer que as Tradições oral e escrita "devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência".[4] [10]

A Igreja Católica acredita que, "apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos."[3] Por isso, a Igreja admite o desenvolvimento progressivo da sua doutrina, bem como os costumes e a expressão da fé dos seus fiéis, ao longo dos séculos. Esse desenvolvimento doutrinal, que se acredita ser orientado pela graça do Espírito Santo, é resultante da interpretação gradual da Revelação divina (ou "crescimento na inteligência da fé"), que não se pode ser confundida com a matéria da própria Revelação, que é inalterável. Por outras palavras, o Magistério da Igreja, ao meditar e estudar a Revelação imutável, aperceber-se-ia gradualmente de certas realidades que antes não tinha compreendido explícita e totalmente.[8] [11] [12]

Também por outras palavras, o facto de a única revelação de Deus destinada a todos os povos ter ficado concluída com Cristo e o testemunho que d'Ele nos dão os livros do Novo Testamento vincula a Igreja com o acontecimento único que é a história sagrada e a palavra da Bíblia, que garante e interpreta tal acontecimento, mas não significa que agora a Igreja pode apenas olhar para o passado, ficando assim condenada a uma estéril repetição. Eis o que diz o Catecismo da Igreja Católica: «No entanto, apesar de a Revelação ter acabado, não quer dizer que esteja completamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance no decorrer dos séculos»[13] .

Esta relação entre o vínculo com a unicidade do acontecimento de Revelação completada em Cristo e o progresso na sua compreensão está optimamente ilustrada nos discursos de despedida de Jesus, quando Ele declara aos discípulos: «Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (...) Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do que é meu, para vo-lo anunciar»[14] . Por um lado, o Espírito Santo serve de guia, desvendando assim um conhecimento cuja densidade não se podia alcançar antes porque faltava o pressuposto, ou seja, o da amplidão e profundidade da fé cristã, e que é tal que não estará concluída jamais. Por outro lado, esse acto de guiar é «receber» do tesouro do próprio Jesus Cristo, cuja profundidade inexaurível se manifesta nesta condução por obra do Espírito. A propósito disto, o Catecismo cita uma densa frase do Papa Gregório Magno: «As palavras divinas crescem com quem as lê» [15] .

O Concílio Vaticano II indica três caminhos essenciais, através dos quais o Espírito Santo efectua a sua guia da Igreja e, consequentemente, o «crescimento da Palavra» (ou "crescimento na inteligência da fé"): realiza-se por meio da meditação e estudo dos fiéis, por meio da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais e por meio da pregação daqueles «que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade»[16] .

O processo do desenvolvimento da doutrina, que tem que ser sempre contínuo e fiel à Tradição, implica por último a definição gradual de dogmas, que, uma vez proclamados solenemente, são imutáveis e eternos. Mas, isso "não quer dizer que tais ver­dades só tardiamente tenham sido re­veladas, mas que se tornaram mais cla­ras e úteis para a Igreja na sua progres­são na fé."[17]

Revelação pública e revelações privadas[editar | editar código-fonte]

Segundo a doutrina da Igreja Católica, existem dois tipos de revelação divina: a «revelação pública» (também chamada muitas vezes simplesmente de "Revelação divina") e «revelações privadas». Entre as duas realidades existe uma diferença essencial, e não apenas de grau. A noção de «revelação pública» designa a acção reveladora de Deus que se destina à humanidade inteira e está expressa por escrito nas duas partes da Bíblia: o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Segundo a doutrina católica, esta acção de Deus chama-se «revelação», porque nela Deus Se foi dando a conhecer progressivamente aos homens, até ao ponto de Ele mesmo Se tornar homem, para atrair e reunir em Si próprio o mundo inteiro por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo. Não se trata, portanto, de comunicações intelectuais, mas de um processo vital em que Deus Se aproxima do homem. Porém, aparecem também depois, nesse processo, conteúdos que têm a ver com a inteligência e a compreensão do mistério de Deus. Tal processo envolve o homem inteiro e, por conseguinte, também a razão, mas não só ela. Uma vez que Deus é um só, também a história que Ele vive com a humanidade é única, vale para todos os tempos e encontrou a sua plenitude com a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por outras palavras, em Cristo, que é Deus Filho, disse tudo de Si mesmo, e portanto a Revelação divina e pública ficou concluída com a realização do mistério de Cristo, expresso no Novo Testamento. O Catecismo da Igreja Católica, para explicar este carácter definitivo e pleno da revelação, cita o seguinte texto de S. João da Cruz:

São João da Cruz
Cquote1.svg Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra — e não tem outra —, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única (...) porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade. Cquote2.svg

O conceito de «revelação privada» aplica-se a todas as visões e revelações verificadas depois da conclusão do mistério de Cristo e do Novo Testamento. Nesta categoria, portanto, se deve colocar a mensagem de Fátima. O Catecismo da Igreja Católica afirma que «no decurso dos séculos tem havido revelações ditas “privadas”, algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. (...) O seu papel não é (...) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente numa determinada época da história» (n. 67). Isto deixa claro uma distinção simples entre a Revelação pública e as revelações privadas:

  1. a Revelação pública exige a fé dos católicos;
  2. não é devida nem exigida uma adesão de fé católica às revelações privadas; nem isso é possível.[19]
Procissão de Corpus Christi, pausa para o Tantum Ergo em Latim. Pirenópolis, Goiás.

Assim disso, o critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Segundo a Igreja Católica, quando uma revelação privada se afasta de Cristo e da Revelação pública, quando se torna autónoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, substituindo o Evangelho, então ela certamente não provém do Espírito Santo, que guia a Igreja no âmbito do Evangelho e não fora dele. Isto não exclui que uma revelação privada realce novos aspectos, faça surgir novas formas de piedade popular ou aprofunde e divulgue as já existentes. Mas, em tudo isso, deve tratar-se sempre de um alimento para a , a esperança e a caridade, que são, segundo os católicos, o caminho permanente da salvação. Por isso, frequentemente as revelações privadas provêm da piedade popular e nela se reflectem, dando-lhe novo impulso e suscitando formas novas. Isto não exclui que estas formas de piedade tenham influência também na própria liturgia, como o demonstram por exemplo a festa do Corpus Christi e a do Sagrado Coração de Jesus. Numa determinada perspectiva, pode-se afirmar que, na relação entre liturgia e piedade popular, está delineada a relação entre revelação pública e revelações privadas: a liturgia é o critério, a forma vital da Igreja no seu conjunto alimentada directamente pelo Evangelho. A religiosidade popular significa que a fé cria raízes no coração dos diversos povos, entrando a fazer parte do mundo da vida quotidiana. A religiosidade popular é a primeira e fundamental forma de «inculturação» da fé, que deve continuamente deixar-se orientar e guiar pelas indicações da liturgia, mas que, por sua vez, a fecunda a partir do coração.

Exemplos de revelações divinas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Abraão Enciclopédia Católica Popular. Visitado em 3 de Junho de 2009.
  2. IGREJA CATÓLICA. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 6 pp. ISBN 972-603-349-7.
  3. a b IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 66 pp. ISBN 972-603-208-3.
  4. a b c d Tradição Enciclopédia Católica Popular. Visitado em 3 de Junho de 2009.
  5. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 81 pp. ISBN 972-603-208-3.
  6. João 20:30-31
  7. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 67' pp. ISBN 972-603-208-3.
  8. a b Revelation (em inglês) Catholic Encyclopedia. Visitado em 22 de Setembro de 2010.
  9. Magistério (na e da Igreja) (em português) Enciclopédia Católica Popular. Visitado em 23 de Outubro de 2010.
  10. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 82 pp. ISBN 972-603-208-3.
  11. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 94 pp. ISBN 972-603-208-3.
  12. Desenvolvimento do dogma.
  13. Ibidem, n. 66.
  14. João 16:12-14
  15. CIC, n. 94; S. Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel 1, 7, 8
  16. Dei Verbum, n. 8.
  17. Definição dogmática Enciclopédia Católica Popular. Visitado em 3 de Junho de 2009.
  18. CIC, n. 65; S. João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, II, 22.
  19. Mensagem de Fátima, de Bento XVI.