Revolta de Kronstadt

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A Revolta de Kronstadt foi uma insurreição de marinheiros contra o governo russo (bolchevique).[1] Foi o último confronto armado de importância da Guerra Civil Russa.

A revolta aconteceu nas primeiras semanas de Março de 1921, em Kronstadt,[1] uma fortaleza naval localizada na ilha de Kotlin, no Golfo da Finlândia.[2] Tradicionalmente, Kronstadt servia de base para a frota báltica russa e de defesa marítima para a cidade de São Petersburgo (mais tarde chamada Petrogrado, depois Leningrado e então São Petersburgo novamente, que é seu atual nome), a 35 milhas de distância.

Causas da revolta[editar | editar código-fonte]

Tropas do Exército Vermelho atacam Kronstadt sobre o mar congelado

Ao final da Guerra Civil Russa, o país estava exausto e arruinado. As secas de 1920 e 1921 e a fome dos anos subseqüentes foram o capítulo final do desastre. Nos anos que se seguiram à Revolução de Outubro, epidemias, fome, guerra civil, execuções, e o desabamento econômico e social custaram por volta de 20 milhões de vidas. Um milhão de pessoas deixaram o país. Grande parte desses emigrados eram de alta escolaridade.

O comunismo de guerra ajudou o governo bolchevique a alcançar vitórias na Guerra Civil Russa, mas ele devastou a economia. Com a iniciativa privada e o comércios proscritos e o recém formado Estado incapaz de realizar essas funções adequadamente, grande parte da economia russa parou. Estima-se que a produção fabril e mineira tenha caído em 1921 para 20% dos níveis de pré-guerra, com muitos itens essenciais tendo um declínio ainda mais drástico. A produção de algodão, por exemplo, caiu para 5% e de ferro para 2% dos níveis de pré-guerra. Os camponeses responderam à expropriação de sua produção recusando-se a cultivar o solo. Em 1921 a extensão das terras cultivadas encolheu para 62% da área de pré-guerra, e a colheita era apenas 37% do normal. O número de cavalos declinou de 35 milhões em 1916 para 24 milhões em 1920, e o gado caiu de 58 para 37 milhões de cabeças durante o mesmo período. O câmbio do dólar americano, que havia sido de dois Rublos em 1914, subiu para 1.200 em 1920.

Mas uma das principais razões era a política ditatorial dos bolchevique.[3] [2]

Essa situação insustentável levou a insurreições no interior, como a Revolta de Tambov,[2] e a greves e distúrbios nas fábricas.[4] Em diversas áreas urbanas, ocorreu uma onda de greves espontâneas.[5] Petrogrado estava paralisada por uma greve geral e diversos comitês de fabricas estavam expulsando os membros comunistas.[4]

Uma lista de exigências[editar | editar código-fonte]

Em 26 de Fevereiro, em resposta a essas condições e confrontados com boatos de greves e insurreição em Petrogrado, veiculados pelo jornal Isvestia de Kronstadt, as tripulações dos navios de guerra Petropavlovsk e Sebastopol realizaram uma reunião de emergência que aprovou uma resolução com quinze exigências:[6]

  1. Novas eleições imediatas para os sovietes. Os presentes sovietes não mais expressam os desejos dos trabalhadores e camponeses. As novas eleições devem ocorrer sob voto secreto, e devem ser precedidas de livre propaganda eleitoral.[3]
  2. Liberdade de expressão e de imprensa para trabalhadores e camponeses, para os anarquistas, e para partidos socialistas de esquerda.[3]
  3. Direito à reunião, e liberdade para sindicatos e organizações camponesas.[2]
  4. A organização, no mais tardar até o dia 10 de Março de 1921, de uma conferência de trabalhadores, soldados e marinheiros de Petrogrado, Kronstadt e do distrito de Petrogrado não militantes do Partido.
  5. A libertação de todos os presos políticos dos partidos socialistas, e de todos os trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros militantes de organizações operárias e camponesas atualmente presos.
  6. A eleição de uma comissão para estudar os dossiers de todos os detidos em prisões e campos de concentração.
  7. A abolição de todas as seções políticas dentro das forças armadas. Nenhum partido político deve ter privilégios para a propagação de suas idéias, ou receber subsídios do Estado para este fim. No lugar de seções políticas vários grupos culturais devem ser criados, tomando recursos do Estado.
  8. A abolição imediata das barreiras militares criados entre as cidades e o campo.[2]
  9. A isonomia de rações para todos os trabalhadores, exceto para os que executam funções perigosas ou insalubres.
  10. A abolição dos destacamentos de combate do Partido em todos os grupos militares. A abolição dos guardas do Partido nas fábricas e empresas. Se guardas fazem-se necessários, eles devem ser nomeados, levando-se em consideração as opiniões dos trabalhadores.
  11. A concessão aos camponeses de liberdade de ação sobre seu próprio solo, e do direito de possuir gado, contanto que sejam diretamente responsáveis por aqueles e que não utilizem mão de obra assalariada.
  12. Nós pedimos que todas as unidades militares e grupos de cadetes aspirantes se juntem a esta resolução.
  13. Nós exigimos que a imprensa dê publicidade adequada a esta resolução.
  14. Nós exigimos a instituição de grupos de controle operário móveis.
  15. Nós exigimos que a produção artesanal seja autorizada desde que não utilize mão de obra assalariada.

Das quinze exigências, apenas duas estavam relacionadas com o que os marxistas chamam de "pequena burguesia", os camponeses e artesãos relativamente ricos. Estes exigiam "liberdade plena de ação" para todos os camponeses e artesãos que não empregavam mão de obra assalariada. Como os trabalhadores de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a isonomia de salários e o fim das barreiras nas estradas que restringiam tanto viagens quanto a capacidade dos trabalhadores de trazer comida para as cidades.

Finalmente, em Março de 1921, a base naval de Kronstadt se levantou em revolta contra o domínio bolchevique. Os marinheiros e outros rebeldes exigiam sovietes livres e a realização de uma assembléia constituinte russa.[6]

O governo bolchevique respondeu com um ultimato em 2 de Março. Este afirmava que a revolta havia sido "certamente preparada pela contra-inteligência francesa" e que a resolução de Petropavlovsk era uma resolução da "Centúria Negra-SR" (SR significava "Socialistas Revolucionários", um partido socialista democrata que havia sido maioria nos sovietes antes do retorno de Lenin, e cuja ala direita havia se negado a apoiar os bolcheviques; a "Centúria Negra" eram uma força reacionária, proto-fascista, anterior à revolução, que atacava judeus, militantes trabalhistas e radicais, entre outros). Eles também chegaram a afirmar que a revolta havia sido organizada por oficiais ex-Tzaristas[2] liderados pelo ex-general Kozlovsky (ironicamente, ele havia sido enviado ao forte por Trotsky). Na verdade é que a revolta de Kronstadt não era uma ameaça para a Rússia Soviética. Os amotinados não eram revolucionários anti-bolcheviques, eram apenas reformadores idealistas desejando aperfeiçoar os resultados da Revolução de Outubro,[6] entre os quais destacava-se um dos seus líderes Stepan Petrichenko.[6]

O que Lenin procurava ocultar com essas mentiras era que o Kronstadt, que tinha sido um dos principais militares e políticos aliado dos bolchevique em 1917, estava se revoltando contra estes por ver que estavam traindo suas esperanças.[2]

A revolta é derrotada[editar | editar código-fonte]

Os trabalhadores de Petrogrado estavam sob lei marcial e impossibilitados de oferecer apoio a Kronstadt. O governo bolchevique começou seu ataque em 7 de Março. Depois de 10 dias de ataque contínuo, durante o qual muitas unidades do Exército Vermelho foram forçadas a recuar sob fogo, e onde algumas até se juntaram à rebelião, a revolta de Kronstadt foi esmagada. O Exército Vermelho utilizou por volta de 50 mil soldados[3] sob o comando de Mikhail Tukhachevsky, dos quais mais de 10 mil morreram antes da queda de Kronstadt em 17 de Março. Embora não haja estimativas precisas para as baixas rebeldes durante a batalha, historiadores estimam que milhares foram executados nos dias que se seguiram à rendição,[1] e um número semelhante foi enviado a mando de Lenin para o campo de prisioneiros de Solovki, o primeiro grande campo de concentração soviético na Sibéria.[1] [2] [6] Um grande número de rebeldes mais afortunados conseguiram fugir para a Finlândia.[5] Ironicamente, no dia seguinte à rendição de Kronstadt, os bolcheviques celebraram o 50 aniversário da Comuna de Paris.

A despeito da supressão impiedosa da insurreição pelo Exército Vermelho, a insatisfação geral com o estado das coisas não poderia ter sido mais claramente expressa. Nessa atmosfera de descontentamento, Lenin, que também concluiu que a revolução mundial não era iminente, substituiu na primavera de 1921 o Comunismo de Guerra pela sua Nova Política Econômica.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d Volkogonov, Dmitri. "The Rise and Fall of the Soviet Empire". Reino Unido, London: HarperCollins Publishers, 1998. p. 73. ISBN 0-00-255791-6.
  2. a b c d e f g h Service, Robert. "Spies and Commissars – Bolchevik Russia and the West". Reino Unido, London: Macmillan Publishers, 2011. 313-317 pp. ISBN 978-0-230-74807-1.
  3. a b c d McCauley, Martin. "The Longman Companion to Russia since 1914". Reino Unido: Longman, 1998. p. 219. ISBN 0-582-27639-X.
  4. a b Vladimir Brovkin. "The Bolsheviks in the Russiamn Society". London: Yale University, 1997. Capítulo 7 - Workers' Protest Movement Against War Communism. p. 150. ISBN 300 06706 2.
  5. a b Vera Broido. "Lenin and the Mensheviks – The Persecution of Socialists under Bolshevism". England: Gower Publishing Company Ltd., 1987. Capítulo 6 e 10. p. 52 e 122. ISBN 566 05203 2.
  6. a b c d e Kronstadt 1921 (em en) Marxist Organization. Visitado em 21 de março de 2014.