Revolução Romena de 1989

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Manifestantes na Romênia em dezembro de 1989

A Revolução Romena de 1989 foi uma série de tumultos e protestos durante uma semana no final de dezembro de 1989 que derrubou o regime comunista de Nicolae Ceauşescu. Os tumultos progressivamente violentos culminaram em um julgamento apressado e na execução de Ceauşescu e de sua esposa Elena. A revolução ocorreu enquanto outras nações do leste europeu faziam uma transição pacífica para a democracia; a Romênia foi o único país do Bloco do Leste a derrubar violentamente seu regime comunista.[1] [2]

Antes da revolução[editar | editar código-fonte]

Assim como em países vizinhos, em 1989 a maior parte da população romena estava insatisfeita com o regime comunista. As políticas econômica e de desenvolvimento de Ceauşescu (incluindo projetos de construção grandiosos e um programa de austeridade para capacitar a Romênia a pagar toda a sua dívida nacional) geralmente eram culpadas pela escassez grave e predominante do país que aumentava a pobreza; além do mais, a polícia secreta (Securitate) havia se tornado tão onipresente a ponto de tornar a Romênia essencialmente um Estado policial.

Timişoara[editar | editar código-fonte]

Em 16 de dezembro, um protesto eclodiu em Timişoara como resultado por uma tentativa do governo de desapropriar um sacerdote húngaro metodista dissidente, László Tőkés, que recentemente havia se pronunciado contra o governo e fora acusado de incitar ódio racial. A pedido do governo, seu bispo o havia removido de seu posto, privando-o com isso de seu direito ao seu apartamento, que era um privilégio de sua posição. Por algum tempo, seus paroquianos reuniram-se ao redor de seu apartamento para protegê-lo do assédio e da desapropriação. Muitos transeuntes, incluindo estudantes romenos religiosos, não sabendo dos detalhes e informados por apoiadores que aquilo era uma ação do Estado contra a religião, decidiram se unir à manifestação espontaneamente.

Conforme se tornava claro que a multidão não se dispersaria, o prefeito Petre Moţ prometeu não desapropriar Tőkés, mas a multidão ficou impaciente — pois Petre Moţ se recusou a elaborar documentos oficiais para anular a desapropriação — e começou a se manifestar e gritar. As forças policiais e da Securitate apareceram. Às 7:30 pm, o protesto havia se tornado geral, e a causa original em grande parte havia se tornado irrelevante. Alguns dos protestantes tentaram incendiar o edifício que hospedava o Comitê Distrital do Partido Comunista da Romênia (CPR). A Securitate respondeu com gás lacrimogêneo e jatos d'água, enquanto a polícia espancava os desordeiros e prendia muitos deles. Por volta das 9:00 p.m. os desordeiros se retiraram, reagruparam-se ao redor da Catedral Ortodoxa Romena e começaram a andar pela cidade, mas mais uma vez foram confrontados pelas forças de segurança.

Os tumultos e protestos continuaram no dia seguinte, 17 de dezembro. Os manifestantes invadiram o Comitê Distrital e jogaram na rua documentos do Partido, panfletos de propaganda, obras de Ceauşescu e outras coisas. Os manifestantes mais uma vez pretendiam incendiar o prédio e começaram a fazer uma fogueira, mas foram impedidos desta vez por soldados do exército. A presença do exército significava que as ordens vinham do mais alto escalão, presumivelmente do próprio Ceauşescu. O exército falhou em estabelecer a ordem, mas foi bem-sucedido em tornar Timişoara um verdadeiro inferno: tiroteios, mortes, ferimentos, lutas e o incêndio de carros, Transport Auto Blindat (TAB) (transportes pessoais blindados), tanques e lojas. Após as 8:00 p.m., da Piaţa Libertăţii (Praça da Liberdade) à Casa de Ópera havia tiroteios ferozes, inclusive nas zonas da ponte Decebal, Calea Lipovei (Estrada Lipovei) e Calea Girocului (Estrada Girocului). Tanques, caminhões e TABs bloquearam as entradas para a cidade enquanto helicópteros continuavam a fazer vôos de reconhecimento. Após a meia-noite os protestos acalmaram. Ion Coman, Ilie Matei e Ştefan Guşă inspecionaram a cidade, que parecia estar no dia seguinte a uma guerra: destruição, cinzas e sangue por toda parte.

Na manhã de 18 de dezembro, o centro de Timişoara estava protegido por soldados e Securitate à paisana. O prefeito Moţ convocou uma reunião de Partido para condenar o vandalismo dos dias anteriores e declarou lei marcial, proibindo que as pessoas saíssem em grupos maiores de duas pessoas. Apesar do perigo, um grupo de 30 rapazes se dirigiu à Catedral, onde pararam e agitaram uma bandeira da qual haviam removido o brasão comunista romeno. Sabendo que seriam alvejados, eles começaram a cantar "Deşteaptă-te, române!", um antigo hino nacional que havia sido banido desde 1947. Eles foram, de fato, alvejados; alguns morreram, outros ficaram seriamente feridos, outros escaparam.

Em 19 de dezembro, Radu Bălan e Ştefan Guşă visitaram os operários nas fábricas, mas não foram capazes de fazerem eles voltarem ao trabalho. Em 20 de dezembro, operários entraram na cidade em massivas colunas. 100.000 protestantes ocuparam a Piaţa Operei (Praça da Ópera - hoje Piaţa Victoriei; Praça da Vitória) e começaram a entoar protestos anti-governamentais: "Noi suntem poporul!" ("Nós somos o povo!"), "Armata e cu noi!" ("O exército está conosco!"), "Nu vă fie frică, Ceauşescu pică!" ("Não tenham medo, Ceauşescu cairá"). Enquanto isso, Emil Bobu e Constantin Dăscălescu foram enviados por Elena Ceauşescu (Nicolae Ceauşescu estando na época no Irã) para se encontrarem com uma delegação dos protestantes; porém, eles se recusaram a cumprir as exigências dos protestantes e a situação permaneceu essencialmente a mesma; no dia seguinte, trens com operários das fábricas em Oltênia chegaram em Timişoara para se unirem aos protestos. Um operário explicou: "Ontem, nosso chefe da fábrica e o oficial do Partido nos reuniram no pátio, nos deram bastões e nos disseram que em Timişoara os húngaros e os baderneiros devastaram a cidade e tínhamos que ir lá e esmagar essa revolta. Mas agora eu percebo que isso não é verdade".

Bucareste[editar | editar código-fonte]

Manifestantes exibem a bandeira romena sem o brasão.

Os eventos em Timişoara foram amplamente relatados pela rádio popular Voice of America e por estudantes que voltavam para casa para as comemorações de Natal.

Há várias visões conflitantes sobre os eventos em Bucareste que levaram à queda Ceauşescu em 1989. Uma visão é de que uma parte do CPEx (Conselho Político-Executivo) do Partido Comunista Romeno tentou e falhou em produzir um cenário similar àquele no resto do bloco oriental dos países comunistas, onde a liderança comunista renunciaria em massa, permitindo que um novo governo surgisse pacificamente. Outra visão é de que um grupo de oficiais conspirou de forma bem-sucedida contra Ceauşescu. Vários oficiais afirmaram que conspiraram contra Ceauşescu, mas as evidências além de suas próprias afirmações, na melhor das hipóteses, são escassas. A última visão é sustentada por uma série de entrevistas dadas em 2003–2004 pelo ex-tenente-coronel da Securitate Dumitru Burlan, guarda-costas de Ceauşescu por muito tempo. As duas teorias não são necessariamente mutuamente exclusivas.

Em novembro de 1989, Ceauşescu visitou Mikhail Gorbachev, que lhe pediu para renunciar. Ceauşescu recusou. A questão de uma possível renúncia surgiu novamente em 17 de dezembro de 1989, quando Ceauşescu reuniu o CPEx (Conselho Político-Executivo) para decidir sobre as medidas necessárias para reprimir o levante de Timişoara. Embora atas tenham sido escritas e apresentadas no julgamento de vários membros do CPEx, as stenograma (atas) que restaram à época do julgamento eram incompletas de modo frustrante: páginas estavam faltando, incluindo a discussão de uma possível renúncia.

Ceauşescu cai[editar | editar código-fonte]

Dezembro de 1989 marcou a queda de Ceauşescu e o fim do regime comunista na Romênia, uma mudança violenta, que resultou em mais de mil mortes durantes os eventos decisivos em Timişoara e Bucareste. Após uma semana de estado de intranqüilidade na cidade Timişoara, Ceauşescu perdeu o controle sobre o governo do país, fugindo de Bucareste após convocar uma reunião de apoio que se voltou contra ele em 21 de dezembro de 1989, sendo preso e executado em 25 de dezembro de 1989. A série de eventos conhecida como a Revolução Romena de 1989 permanece até hoje uma questão de debate, com muitas teorias conflitantes sobre as motivações e mesmo as ações de alguns dos personagens principais. Um antigo ativista marginalizado por Ceauşescu , Ion Iliescu conseguiu reconhecimento nacional como líder de uma coalizão governamental improvisada, a Frente de Salvação Nacional (FSN), que proclamou a restauração da democracia e liberdade em 22 de dezembro de 1989. O Partido Comunista foi declarado ilegal e as medidas mais impopulares de Ceauşescu, tais como a proibição do aborto e a contracepção, foram revogadas.

O último suspiro do antigo regime e a consolidação do novo[editar | editar código-fonte]

A Revolução Romena, certamente foi o maior manifesto popular jamais ocorrido desde os primórdios da história romena. Caracteriza-se pela tentativa de um povo reprimido pelo comunismo de Nicolau Ceausescu de garantir sua soberania, e com isso um governo onde obtivessem sua liberdade e igualdade de direitos. As principais consequências da Revolução Romena foram a queda de Ceausescu, e com isso o implante do parlamentarismo e presidencialismo na Romênia, sem falar de uma grande herança cultural deixada, a chamada Praça da Vitória, o local onde os civis reuniram-se para comemorar o fim do comunismo romeno.

Referências

  1. Stephen D. Roper, Romania: The Unfinished Revolution, Routledge, 2000, ISBN 978-90-5823-028-7
  2. George Galloway e Bob Wylie, Downfall: The Ceaușescus and the Romanian Revolution. Futura Publications, 1991

Ver também[editar | editar código-fonte]