Robert Merton

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Robert K. Merton (1965)

Robert King Merton, nascido Meyer R. Schkolnick, (Filadélfia, 5 de Julho de 1910Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2003) foi um sociólogo estadunidense.

É considerado um teórico fundamental da burocracia, da sociologia da ciência e da comunicação de massa. Passou a maior parte de sua vida acadêmica ensinando na Universidade Columbia. É pai do economista Robert C. Merton.

Robert K. Merton é talvez mais conhecido por ter cunhado a expressão "profecia auto-realizável". Também criou o conceito de grupo de referência.

Na sociologia da ciência, ficou famoso ao fazer uma análise weberiana do nascimento da ciência na Inglaterra do século XVII, destacando o papel da ética protestante na criação da Royal Society.

Merton desenvolveu também os quatro imperativos institucionais, conhecidos pelo acrônimo CUDOS. Trata-se de um conjunto de ideais que, segundo Merton, devem fundamentar os objetivos e métodos da ciência e que compõem o ethos científico:

  • Universalismo - A produção de conhecimento científico deve obedecer a critérios impessoais e universais
  • Comunismo - Merton indica que os avanços científicos devem ser partilhados, e nessa medida devem constituir um bem de toda a comunidade e humanidade, já que são um produto da colaboração social
  • Desinteresse - a acção do cientista não deve ser movida por interesse próprio (ex: manipular resultados)
  • Ceticismo Organizado - todas a ideias devem ser testadas e submetidas ao rigoroso escrutínio da comunidade

Biografia[editar | editar código-fonte]

Meyer R. Schkolnick usou esse nome durante os primeiros 14 anos de vida. Era filho de imigrantes da Europa Oriental e morou num apartamento em cima da loja de ovos e laticínios do pai, até o prédio pegar fogo. Na adolescência, fazia truques de mágica em festinhas de aniversário e adotou Robert Merlin como nome artístico, mas quando um amigo o convenceu de que sua escolha do nome do antigo mago era um lugar-comum, ele adotou Merton com o apoio de sua mãe, de tendências americanizantes, depois de ter ganho uma bolsa de estudos para a Temple University.

Em palestra para o American Council of Learned Societies (Conselho Americano de Associações Eruditas) em 1994, Merton declarou que, graças às bibliotecas, escolas e orquestras a que tinha tido acesso, e até mesmo à gangue de jovens a que havia aderido, sua juventude o tinha preparado bem para o que denominava uma vida de estudo: "Meus colegas sociólogos devem ter notado" – disse – "como aquele cortiço aparentemente carente em South Philadelphia proporcionou a um jovem todo tipo de capital – capital social, cultural, humano e, acima de tudo, o que podemos chamar de capital público – isso é, todo tipo de capital exceto o financeiro pessoal." Não é difícil ver as relações entre tal postura e a compreensão de Merton sobre as causas da anomia.

Um intelectual alto, fumante de cachimbo, Merton usou muitas vezes a trajetória de sua vida - do cortiço à realização acadêmica - como material para ilustrar o funcionamento da serendipidade, do acaso e da coincidência, que há muito o fascinavam.

Sua carreira correu paralela ao crescimento e aceitação da sociologia como disciplina acadêmica genuína. Em 1939, havia menos de mil sociólogos nos Estados Unidos, mas logo após Merton ser eleito presidente da Associação Americana de Sociólogos, em 1957, o grupo já contava com 4.500 membros.

Passou grande parte de sua vida profissional na Universidade de Columbia onde, juntamente com seu colaborador durante 35 anos Paul F. Lazarsfeld, falecido em 1976, desenvolveu o Departamento de Pesquisa Social Aplicada, quando tiveram origem os primeiros grupos focais.

Merton era às vezes chamado de "Sr. Sociologia", e Jonathan R. Cole, antigo aluno e diretor da Universidade de Columbia, disse uma vez: "Se houvesse Prêmio Nobel de sociologia, não há dúvida alguma de que ele o teria ganho." Mas seu filho, Robert Carhart Merton, ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 1997.

Num perfil escrito por Morton Hunt em 1961 para a revista New Yorker, Merton foi descrito como demonstrando "surpreendente universalidade de interesses e talento para uma boa conversa, somente prejudicada pelo fato de ele estar incrivelmente bem informado sobre tudo, de beisebol a Kant, e estar sempre pronto, sem hesitar, a falar sobre parte do assunto ou todo ele".

De fato, em seu livro mais conhecido, On the Shoulders of Giants ("Nos ombros de gigantes"), Merton se aventurou muito além dos limites da sociologia. Mencionado por ele como seu "filho pródigo intelectual", o livro revela a profundidade de sua curiosidade, a amplitude de sua prodigiosa pesquisa e a extraordinária paciência que também caracterizam sua obra acadêmica. O trabalho começou em 1942 quando, num ensaio intitulado A Note on Science and Democracy ("Nota sobre ciência e democracia"), Merton menciona uma observação de Isaac Newton: "Se me foi possível enxergar mais longe, foi por estar nos ombros de gigantes." Acrescentou uma nota de rodapé esclarecendo que "o aforismo de Newton é uma frase padronizada que encontrou repetida expressão a partir do século XII".

Porém Merton não parou por aí. A intervalos, durante os 23 anos seguintes, seguiu a pista do aforismo de Newton através do tempo, enveredando tanto por becos sem saída como por avenidas frutíferas e por fim, terminou o livro em 1965, escrevendo-o em estilo discursivo que o autor atribuiu a suas primeiras leituras e subsequentes releituras do Tristam Shandy, de Laurence Sterne. Denis Donoghue, crítico e estudioso literário, descreveu o livro, com admiração, como "uma obra de arte excêntrica e contudo concêntrica, uma obra com suficiente flexibilidade para permitir uma digressão mais ou menos a cada dez páginas". E admitiu: "Eu gostaria de ter escrito On the Shoulders of Giants."

Nos últimos 35 anos, Merton vinha reunindo informações sobre a ideia e funcionamento da serendipidade e raciocinando sobre ela com a mesma atitude com que tinha escrito o livro anterior, que gostava de mencionar pelas iniciais OTSOG. Do mesmo modo empregado em todas as suas investigações, cotejou e considerou dados que havia lançado em fichas. Quase todo dia, começava a trabalhar às quatro e meia da manhã, em companhia de alguns de seus 15 gatos. Durante os últimos anos de sua vida, enquanto batalhava e vencia seis diferentes carcinomas, sua editora italiana, Il Mulino, convenceu-o a autorizá-la a publicar seus escritos sobre a serendipidade como livro. E quatro dias antes de sua morte, sua esposa, a socióloga Harriet Zuckerman, recebeu a notícia de que a Princeton University Press havia aprovado a publicação da versão inglesa, com o título The Travels and Adventures of Serendipity ("As viagens e aventuras da serendipidade").

Além da viúva, Harriet Zuckerman e de seu filho, Merton deixou duas filhas, Stephanie Tombrello e Vanessa Merton de Hastings-on-Hudson, nove netos e nove bisnetos

Contribuições Teóricas[editar | editar código-fonte]

Merton alcançou sua reputação de pioneiro na sociologia da ciência explorando o modo como os cientistas se comportam e o que os motiva, recompensa e intimida. Ao expor seu ethos da ciência em 1942, substituiu as arraigadas concepções estereotipadas que haviam representado por muito tempo os cientistas como gênios excêntricos, em grande parte incontidos por regras ou normas. A obra contribuiu para que Merton viesse a ser o primeiro sociólogo a ganhar a Medalha Nacional de Ciência, dos Estados Unidos, em 1994.

Porém suas investigações durante mais de setenta anos abrangeram uma extraordinária gama de interesses, incluindo o funcionamento dos meios de comunicação de massa, a anatomia do racismo, as perspectivas sociais dos "incluídos" versus "excluídos", história, literatura e etimologia. Embora realizadas com a imparcialidade que admirava em Émile Durkheim, o francês que arquitetou a moderna sociologia, com frequência as pesquisas de Merton trouxeram importantes consequências tanto na vida real como na acadêmica.

Seus estudos sobre a comunidade integrada ajudaram a dar forma à histórica peça processual de Kenneth Clark, na ação proposta por Brown contra a Secretaria de Educação dos Estados Unidos, processo que foi julgado pela Corte Suprema e levou à dessegregação racial nas escolas públicas norte-americanas.

Sua adoção da entrevista focal para obter respostas de grupos a textos, programas radiofônicos e filmes levaram aos "grupos focais", que políticos, seus agentes, marqueteiros e cabos eleitorais consideram hoje indispensável. Muito depois de ter ajudado a projetar a metodologia, Merton veio a deplorar seu abuso e mau uso, mas acrescentou: "Eu gostaria de ter direitos autorais sobre ela."

Outra das contribuições de Merton para a sociologia foi sua ênfase no que denominava de "teorias de médio alcance", referindo-se aos estudos que se afastavam das grandiosas doutrinas especulativas e abstratas, ao mesmo tempo em que evitavam pesquisas pedantes com poucas probabilidades de produzir resultados significativos. O que preferia eram iniciativas que pudessem levar a avanços importantes e que abrissem linhas de investigação posteriores. Para seus próprios escritos, preferia o formato de ensaio, "que proporciona espaço para apartes e correlativos", como dizia, ao papel científico modernizado mais usual.

Com frequência, apresentava suas observações em frases claras, nas quais combinava originalidade com aparente simplicidade. Eugene Garfield, um cientista da informação, escreveu que grande parte do trabalho de Merton era "de tão transparente verdade que não se consegue imaginar por que ninguém mais se deu ao trabalho de chamar a atenção para o assunto". Um exemplo antigo de tal percepção iluminada está num trabalho chamado Social Structure and Anomie ("Estrutura social e anomia"), que escreveu como graduado de Harvard, em 1936, e continuou a revisar durante a década seguinte.

Merton havia se perguntado o que causava a anomia, um estado em que, de acordo com Durkheim, o colapso dos padrões sociais ameaçava a coesão social. Num avanço que gerou muitas linhas de pesquisa, Merton sugeriu que havia probabilidade de ocorrer anomia quando aos membros da sociedade eram negados os meios de alcançar os próprios objetivos culturais que sua sociedade projetara, como riqueza, poder, fama ou esclarecimento. Entre as ramificações desse trabalho, encontram-se os próprios trabalhos de Merton sobre os limites dos desvios de comportamento e o crime.

Robert Merton tinha uma visão bastante humanista sobre a função social da ciência, sendo bastante influenciado pelas teorias sociais de Max Weber. Para Merton, a ciência é um conjunto de conhecimentos compartilhados por toda uma sociedade, a qual julga a credibilidade da verdade científica de acordo com suas expectativas e valores éticos e morais próprios. Contudo, a decisão final da ação científica não seria da sociedade, e sim do indivíduo, o Cientista. Assim, para ter suas ideias e ações socialmente aceitas, o Cientista precisa adequar seus próprios valores éticos e morais aos da sua sociedade.

A relação entre as teorias de Robert Merton e de Max Weber é bastante clara. A mais importante teoria social de Weber defende que toda ação social é feita pelo indivíduo, e não pela sociedade, a qual se reserva ao papel de julgar e aceitar ou não a ação individual de acordo com seus próprios valores e princípios. De acordo com Merton, a sociologia da ciência seria orientada pela ação individual do cientista, que seria julgado pelas expectativas e valores de sua sociedade.

Na sociologia, a expectativa social sobre o indivíduo, isto é, os valores que o indivíduo precisa seguir para ter suas ações aceitas pela sociedade, é chamada de ethos. Segundo Merton, o ethos do cientista, ou seja, os princípios que esse precisa seguir para ter seu trabalho reconhecido pela sociedade, é composto de quatro normas básicas:

  • O universalismo, segundo o qual os trabalhos científicos devem seguir padrões universais de avaliação;
  • O comunismo, segundo o qual o conhecimento proporcionado pelo trabalho científico é um patrimônio comum da humanidade, e não propriedade privada de algum indivíduo;
  • O desinteresse, segundo o qual o único objetivo a curto prazo do trabalho científico é a ampliação do conhecimento humano;
  • O ceticismo organizado, segundo o qual o cientista deve ser privado de qualquer forma de preconceito e de conclusões precipitadas sobre seus trabalhos.

Assim, esses quatro princípios institucionais, que estão sempre inter-relacionados, garantem a realização do que Merton chamou de "boa ciência": a ciência que é aprovada pela sociedade e que, graças a isso, mantém-se íntegra, independente de qualquer determinismo e livre para continuar progredindo. Em última análise, a "boa ciência" de Merton se assemelha ao conceito de "tipo puro" de Weber, isto é, o total cumprimento por parte do indivíduo de seu ethos social.

A "boa ciência" de Merton teria condições de se manter íntegra, livre e independente, graças ao cumprimento de seus valores institucionais, o que colocaria a Ciência acima de qualquer forma de conflito social e tornaria possível a realização da causa final da Ciência, ou seja, a melhoria da sociedade.

Mas o modelo mertoniano coloca a Ciência sob uma forte tensão com a sociedade. Se por um lado os princípios institucionais protegem a Ciência contra interesses particulares e contra os mais diversos tipos de preconceitos e más interpretações, por outro acaba afastando a mesma do dia-a-dia da sociedade, isto é, das suas reais demandas. Isso acaba, por fim, por causar um desinteresse por parte da sociedade sobre a Ciência, o que, colocando a mesma sob um conflito social, influencia negativamente o seu verdadeiro papel social, o qual, em última instância, resume-se em melhorar a sociedade.[1]

Referências

  1. Michael T. Kaufman. Tradução de Gilda Stuart. "Robert K. Merton, sociólogo versátil e criador do grupo focal, falecido aos 92 anos" Revista Enfoques: Revista Eletrônica dos Alunos do PPGSA. UFRJ. Enfoques.ifcs.ufrj.br.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • Piotr Sztompka, Robert K. Merton: an intellectuel profile, Macmillan Education, London, 1986.
  • Realino Marra, Merton e la teoria dell’anomia, in «Dei Delitti e delle Pene», V-2, 1987, pp. 207–21.
  • Charles Crothers, Robert K. Merton, Ellis Horwood, Chichester, 1987.
  • Jon Clark, ed, Robert K. Merton : consensus and controversy, The Falmer Press, London, 1990.
  • Renate Breithecker-Amend, Wissenschaftsentwicklung und Erkenntnisfortschritt : zum Erklärungspotential der Wissenschaftssoziologie von Robert K. Merton, Michael Polanyi und Derek de Solla Price, Waxmann, Münster, 1992.
  • Markus Schnepper, Robert K. Mertons Theorie der self-fulfilling prophecy : Adaption eines soziologischen Klassikers, Lang, Frankfurt, 2004.
  • Gönke Christin Jacobsen, Sozialstruktur und Gender : Analyse geschlechts-spezifischer Kriminalität mit der Anomietheorie Mertons, VS Verlag, Wiesbaden, 2007.
  • Craig J. Calhoun, ed, Robert K. Merton : sociology of science and sociology as science, Columbia University Press, New York, 2010