Robert Merton

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Robert K. Merton, 1965


Robert King Merton
Nascimento 5 de julho de 1910
Filadélfia
Morte 23 de fevereiro de 2003
Nova York
Nacionalidade Estadunidense
Ocupação professor, sociólogo
Influências
Principais trabalhos Sociologia da ciência, teorias de médio alcance, grupos de referência.

Robert King Merton, nascido Meyer R. Schkolnick, (Filadélfia, 5 de Julho de 1910Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2003) foi um sociólogo estadunidense considerado um teórico fundamental da burocracia, da sociologia da ciência e da comunicação de massa. Talvez mais conhecido por ter cunhado a expressão "profecia auto-realizável", um conceito nevrálgico para a sociologia moderna que descreve o processo de alteração de um resultado final fático por força de uma crença ou expectativa, correta ou incorreta. Também criou o conceito de grupo de referência. Na sociologia da ciência, ganhou notoriedade ao fazer uma análise weberiana do nascimento da ciência na Inglaterra do século XVII, destacando o papel da ética protestante na criação da Royal Society. Merton desenvolveu também os quatro imperativos institucionais: trata-se de um conjunto de ideais que, segundo Merton, devem fundamentar os objetivos e métodos da ciência e que compõem o ethos científico. Merton passou a maior parte de sua vida acadêmica ensinando na Universidade de Columbia nos Estados Unidos, apesar de ter lecionado também em outras instituições, como na Universidade de Harvard. Merton passou a maior parte de sua vida acadêmica ensinando na Universidade de Columbia nos Estados Unidos. O renomado sociólogo faleceu em 2003 aos 92 anos, com diversas obras publicadas, três filhos, nove netos e nove bisnetos.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Vida estudantil[editar | editar código-fonte]

Filho de imigrantes de origem judaica supostamente emigrados da Ucrânia no ano de 1904, antes dos múltiplos ataques antissemitas no país, apesar da infância humilde vivida no sul da Filadélfia, Meyer R. Schkolnick considerava que lhe fora oferecido um amplo leque de possibilidades. Dentre elas estava a escola local de ensino médio na qual estudou, bem como a biblioteca Canergie, localizada nas proximidades da casa de seus pais, da qual foi assíduo frequentador. Para além de sua paixão pela leitura, Merton descobriu cedo uma segunda paixão, a mágica, que o levou posteriormente a alterar seu nome, primeiro para Robert Merlin aos quatorze anos e depois para Robert King Merton aos dezenove. 

Merton concluiu seus estudos na South Philadelphia High School e recebeu uma bolsa de estudos para a Temple University na Filadélfia, onde se tornou um aluno de destaque, passando a ser tutorado pelo sociólogo George E. Simpson. Nesse contexto, Merton passa a se interessar pela tradição sociológica europeia e a participar como auxiliar em seu projeto de pesquisa intitulado “The Negro in the Philadelphia Press”, sendo posteriormente por este apresentado a Pitirim Sorokin, fundador do recém criado departamento de sociologia da Universidade de Harvard. 

Encorajado por Sorokin, Merton se candidata para uma bolsa de estudos em Harvard, onde consegue uma vaga logo após o término de seu curso em Temple para trabalhar como aluno assistente deste. 

Durante sua estada em Harvard, apesar de tutorado por Sorokin, Merton começa a se interessar pelo trabalho de Talcott Parsons, um jovem, ainda desconhecido professor do novo departamento de sociologia. Foi a partir de seu pensamento que Merton teve o primeiro contato com ideia que influenciou posteriormente sua obra “The Structure of Social Action” (1937).  À semelhança de Sorokin, Parsons era um estudioso da escola europeia da sociologia; diferentemente deste porém, buscava anatomizar e sintetizar os ensinamentos ao invés de meramente resumi-los, utilizando-os para a construção de um novo conhecimento.

Não satisfeito com a tutela de dois altamente qualificados professores, busca Merton um terceiro para orientá-lo em relação a um interesse nascente: a sociologia da ciência e tecnologia, campo no qual conclui posteriormente sua dissertação “Science, Technology and Society in the Seventeenth-century Englad” em 1936, sob a orientação de George Sarton.

Carreira[editar | editar código-fonte]

Após a conclusão de sua dissertação, Merton permanece em Harvard se tornando professor associado do departamento de sociologia. Em 1939 torna-se professor associado na Universidade de Tulane em Nova Orleans, onde rapidamente ascende ao cargo de titular. Pouco depois, porém, é convidado a assumir a posição de professor assistente na Columbia University, onde posteriormente torna-se professor associado, e subsequentemente professor titular em 1947, o início de uma carreira em ascensão que se prolongaria ainda por muitos anos, atingindo o mais alto grau hierárquico dentro da universidade, ao ser nomeado University Professor em 1974, dentre outros cargos ocupados de grande importância, como diretor associado do Bureau of Applied Social Research na mesma universidade. Em 1979 tornou-se professor emérito da instituição. Encerrou sua carreira 5 anos depois, vindo a falecer no dia 23 de fevereiro de 2003.

Na Universidade de Columbia onde, juntamente com seu colaborador durante 35 anos Paul F. Lazarsfeld, falecido em 1976, desenvolveu o Departamento de Pesquisa Social Aplicada, quando tiveram origem os primeiros grupos focais.

Em palestra para o American Council of Learned Societies (Conselho Americano de Associações Eruditas) em 1994, Merton declarou que, graças às bibliotecas, escolas e orquestras a que tinha tido acesso, e até mesmo à gangue de jovens a que havia aderido, sua juventude o tinha preparado bem para o que denominava uma vida de estudo: "Meus colegas sociólogos devem ter notado" – disse – "como aquele cortiço aparentemente carente em South Philadelphia proporcionou a um jovem todo tipo de capital – capital social, cultural, humano e, acima de tudo, o que podemos chamar de capital público – isso é, todo tipo de capital exceto o financeiro pessoal." Não é difícil ver as relações entre tal postura e a compreensão de Merton sobre as causas da anomia.

Um intelectual alto, fumante de cachimbo, Merton usou muitas vezes a trajetória de sua vida - do cortiço à realização acadêmica - como material para ilustrar o funcionamento da serendipidade, do acaso e da coincidência, que há muito o fascinavam.

Sua carreira correu paralela ao crescimento e aceitação da sociologia como disciplina acadêmica genuína. Em 1939, havia menos de mil sociólogos nos Estados Unidos, mas logo após Merton ser eleito presidente da Associação Americana de Sociólogos, em 1957, o grupo já contava com 4.500 membros.

Seus estudos sobre a comunidade integrada ajudaram a dar forma à histórica peça processual de Kenneth Clark, na ação proposta por Brown contra a Secretaria de Educação dos Estados Unidos, processo que foi julgado pela Corte Suprema e levou à dessegregação racial nas escolas públicas norte-americanas.

Sua adoção da entrevista focal para obter respostas de grupos a textos, programas radiofônicos e filmes levaram aos "grupos focais", que políticos, seus agentes, marqueteiros e cabos eleitorais consideram hoje indispensável. Muito depois de ter ajudado a projetar a metodologia, Merton veio a deplorar seu abuso e mau uso, mas acrescentou: "Eu gostaria de ter direitos autorais sobre ela."

Premiações[editar | editar código-fonte]

A lista de cargos e posições, titulações de doutor honoris causa e prêmios conferidos a Merton é impressionante. Apenas para citar algumas das mais relevantes, Merton foi presidente da associação americana de sociologia (1956-1957), da associação de pesquisa em sociologia (1968), e da sociedade para estudos sociais da ciência (Society for Social Studies of Science – 1975 e 1976). A ele foram conferidos mais de 20 titulações de doutor honoris causa, entre elas algumas de renomadas universidades como Oxford, Yale, Chicago, Harvard, Columbia, Leiden, entre outras. Merton foi membro da fundação Guggenheim (1962-1963), e do centro para estudos avançados em ciências do comportamento. Conquistou o prêmio Talcott Parsons de ciências sociais, o “American Academy of Arts and Sciences”, bem como o “MacArthur Prize Fellow Award” (1983-88).

Merton era às vezes chamado de "Sr. Sociologia", e Jonathan R. Cole, antigo aluno e diretor da Universidade de Columbia, disse uma vez: "Se houvesse Prêmio Nobel de sociologia, não há dúvida alguma de que ele o teria ganho". Seu filho, Robert Carhart Merton, ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 1997.

Influências[editar | editar código-fonte]

Sob a orientação de Sorokin, Parsons e Sarton, Merton teve influências variadas e altamente significativas para o desenvolvimento de seus trabalhos. De Sorokin, foi o conhecimento enciclopédico da teoria sociológica, desde a antiguidade e referente a múltiplos continentes, e a maneira enérgica como em toda argumentação e posicionamento teórico este sempre tinha algo a questionar, presente em seus trabalhos no início de textos em que cita precursores na história das ideias que se ocuparam de questionamentos semelhantes. De Parsons, o cálculo teórico contundente, e de Sarton finalmente, herdou o reino do conhecimento da história da ciência. Porquanto Merton sofreu influências de seus mestres, é importante reconhecer que inegavelmente desenvolveu também sua própria independência intelectual. 

Contra o trabalho de Sorokin, desenvolveu a mesma crítica fundamentada que este utilizou contra todos seus contemporâneos e predecessores; em relação à Parsons permaneceu cético tanto em relação a sua tese da convergência histórica na estrutura das ações sociais, bem como em relação à “grand theory”. Afastou-se igualmente do estilo descritivo da história da ciência de Sarton. Ou seja, Merton não foi Sorokiano, nem Parsoniano, tampouco Sartoniano. Não obstante, permaneceu ligado a escola europeia da sociologia como Parsons e Sorokin, a qual está por sua vez, fortemente enraizada nas sociologia e teoria social dos clássicos.

Em relação aos clássicos, influência de Emile Durkheim se faz clara na concepção mertoniana do funcional, e na sua análise estrutural. A especial ênfase nas contradições estruturais, nos conflitos ou efeitos disfuncionais dos processos sociais deixa claro que Merton se ateve não apenas aos aspectos interessantes da abordagem durkheimiana, mas os uniu à melhor abordagem da teórica estrutural de Karl Marx. É observável além das supracitadas influências a participação weberiana, mormente em sua dissertação “Unanticipated Consequences of Purposive Action” e seus trabalhos acerca da burocracia, mas também de alguma forma no compromisso assumido com um processo de pesquisa livre de juízos valorativos. 

A relação entre as teorias de Robert Merton e de Max Weber é bastante clara. A mais importante teoria social de Weber defende que toda ação social é feita pelo indivíduo, e não pela sociedade, a qual se reserva ao papel de julgar e aceitar ou não a ação individual de acordo com seus próprios valores e princípios. De acordo com Merton, a sociologia da ciência seria orientada pela ação individual do cientista, que seria julgado pelas expectativas e valores de sua sociedade. 

Também a influência de Georg Simmel se faz presente na importância do conceito de “intersecção de círculos sociais” (Simmel, Georg. 1908) para a estruturação do pensamento mertoniano sobre as estruturas sociais, em sua sociologia dos grupos, ou na incorporação por de outros conceitos simmelianos, como a “visibility”. 

Robert Carhart Merton, filho de Robert King Merton e ganhador do prêmio Nobel de economia de 1997.

Em relação a todas as suas influências teóricas, Merton instrumentalizou aquilo que lhe cabia de cada teoria, sem seguir integralmente a linha de qualquer uma delas.

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Num perfil escrito por Morton Hunt em 1961 para a revista New Yorker, Merton foi descrito como demonstrando "surpreendente universalidade de interesses e talento para uma boa conversa, somente prejudicada pelo fato de ele estar incrivelmente bem informado sobre tudo, de beisebol a Kant, e estar sempre pronto, sem hesitar, a falar sobre parte do assunto ou todo ele".

De fato, em seu livro mais conhecido, On the Shoulders of Giants ("Nos ombros de gigantes"), Merton se aventurou muito além dos limites da sociologia. Mencionado por ele como seu "filho pródigo intelectual", o livro revela a profundidade de sua curiosidade, a amplitude de sua prodigiosa pesquisa e a extraordinária paciência que também caracterizam sua obra acadêmica.

Em 1934, Merton casou-se com Suzaanne Carhart, com quem teve um filho, Robert C. Merton, que ganhou o prêmio Nobel em economia de 1997, e duas filhas, Stephanie Merton Tombrello e Vanessa Merton, que veio a lecionar na Pace University School of Law. Merton e Carhart se divorciaram em 1968 d Suzanne faleceu em 1992. Merton casou-se então com a socióloga Harriet Zuckerman em 1993. No dia 23 de fevereiro de 2003 Merton faleceu com 92 anos em Nova York. Além do grande legado acadêmico, Merton deixou três filhos, nove netos e nove bisnetos.

Contribuições Teóricas[editar | editar código-fonte]

Sociologia da ciência[editar | editar código-fonte]

Merton alcançou sua reputação de pioneiro na sociologia da ciência explorando o modo como os cientistas se comportam e o que os motiva, recompensa e intimida. Ao expor seu ethos da ciência em 1942, substituiu as arraigadas concepções estereotipadas que haviam representado por muito tempo os cientistas como gênios excêntricos, em grande parte incontidos por regras ou normas. A obra contribuiu para que Merton viesse a ser o primeiro sociólogo a ganhar a Medalha Nacional de Ciência, dos Estados Unidos, em 1994.

Ethos do cientista[editar | editar código-fonte]

Na sociologia, a expectativa social sobre o indivíduo, isto é, os valores que o indivíduo precisa seguir para ter suas ações aceitas pela sociedade, é chamada de ethos. Segundo Merton, o ethos do cientista, ou seja, os princípios que esse precisa seguir para ter seu trabalho reconhecido pela sociedade, é composto de quatro normas básicas:

  • O universalismo, segundo o qual os trabalhos científicos devem seguir padrões universais de avaliação;
  • O comunismo, segundo o qual o conhecimento proporcionado pelo trabalho científico é um patrimônio comum da humanidade, e não propriedade privada de algum indivíduo;
  • O desinteresse, segundo o qual o único objetivo a curto prazo do trabalho científico é a ampliação do conhecimento humano;
  • O ceticismo organizado, segundo o qual o cientista deve ser privado de qualquer forma de preconceito e de conclusões precipitadas sobre seus trabalhos.

O universalismo dita que não podem ser reputados como fatores avaliativos válidos da qualidade de textos científicos aqueles que fogem da objetividade do método para cair na subjetividade do investigador. 

Por isso, parte-se, para a quantificação valorativa dos estudos, de “[...] critérios impessoais preestabelecidos: devem estar em consonância com a observação e com o conhecimento já previamente confirmado. A aceitação ou a rejeição dos pedidos de ingresso nos registros da ciência não devem depender dos atributos pessoais ou sociais do requerente; não têm importância em si mesmas a raça, a nacionalidade, a religião e as qualidades de classe ou pessoais. A objetividade exclui o particularismo” (Merton, Robert K., A ciência e a estrutura social democrática in. SOCIOLOGIA – TEORIA E ESTRUTURA, p. 654). Por isso, observa-se grande conflito entre a ciência e as instituições políticas autoritárias, quando dotadas de cunhos étnico-segregacionistas, como o regime Nazista. Muitos foram os cientistas que, durante este regime, abandonaram o seu a Alemanha ou dela foram expulsos pelo apego à sua ética profissional.

Adverte-se que o patriotismo é também uma roupagem virtuosa que se dá ao preconceito científico e, por isso, anti-ético, coadunado a mandamentos institucionais políticos.

O universalismo, por outro lado, ganhou nova dimensão com o critério do talento – são aptos a ter o seu trabalho reconhecido os cientistas suficientemente talentosos para tal, independentemente de quaisquer fatores exógenos sobre eles incidentes. 

Argumentos usados para o afastamento sistemático dessa regra tangenciam critérios qualitativos – cunha-se de “ruim” a teoria promovida pelo grupo que se quer segregar a desqualificar, e “boa” a teoria promovida pelo grupo que se quer engrandecer. Tal artifício retórico e sofismático foi usado pelos citados cientistas nazistas, para desqualificar teses oriundas de judeus.

Por fim, tem-se que o critério do talento, em verdade, agrega um fator negativo ao universalismo, uma vez observada a desigualdade na distribuição dos recursos. Assim, o talento é evidentemente distorcido, pois sofre a influência de fatores econômicos corriqueiramente presentes no universo científico, como a distribuição desigual de recursos para diferentes áreas e centros de pesquisa, estudo que será aprofundado na análise do efeito Mateus.

O comunismo – segundo pilar do “ethos” científico – reporta-se a uma ideia geral de propriedade sobre o conhecimento científico. O conceito de propriedade aplicado a esse universo sofre uma flexibilização: enquanto a produção acadêmica em si faz parte do domínio público e deve sê-lo, em nome do progresso ulterior da propria ciência (Newton chegou a dizer que ‘só conseguiu ver o que viu pois encontrava-se apoiado sobre ombros de gigantes' - trata-se de uma alegoria do comunismo científico), o que se tem por propriedade privada é o prestígio concentrado no nome do cientista que procede com a inovação científica, reconhecido por seus pares.

As normas de direito de propriedade intelectual de inovações (industriais) gerou um contra-movimento de cientistas que resolveram patentear seus estudos, dotando-lhes de exclusividade de uso (dentre eles, o próprio Einstein). A repercussão desta prática alcançou tal ponto que foram criadas sociedades para esse fim específico.

O desinteresse, por sua vez, é tratar de forma aparentemente desinteressada, isto é, imparcial, o objeto da pesquisa. Trata-se de uma imposição institucional aferida e avaliada pelos pares da comunidade científica. Por isso, o desinteresse não deve ser interpretado como altruísmo da parte do cientista, mas como pressuposto necessário do seu trabalho, ao qual ele deve adequar-se para se conformar ao seu próprio ambiente.

O desinteresse é a grande arma utilizada pelos cientistas para coferir à ciência o estatuto autoritário e impositivo que possui. Por isso, dá-se margem para a governos desviados e mal-intencionados criarem enunciados aparentemente científicos (embora não passem nos demais testes de validade), que tomam a autoridade científica emprestada para difundir suas ideologias.

Por fim, o ceticismo organizado é o costume científico de suspender seu julgamento antes da devida comprovação fática das premissas postas sob investigação, bem como o exame imparcial do estudo pela Academia de acordo com critérios empíricos e lógicos.

Esse aspecto do “ethos” científico tem envolvido a ciência em muitos conflitos com outras instituições sociais, mais ou menos dependentes de fé, como a política, a economia e a religião. O conflito é ampliado sempre que a ciência volta a sua atenção a novas zonas que já estão institucionalizadas, ou quando outras instituições ampliam a sua área de controle.

Assim, esses quatro princípios institucionais, que estão sempre inter-relacionados, garantem a realização do que Merton chamou de "boa ciência": a ciência que é aprovada pela sociedade e que, graças a isso, mantém-se íntegra, independente de qualquer determinismo e livre para continuar progredindo. Em última análise, a "boa ciência" de Merton se assemelha ao conceito de "tipo puro" de Weber, isto é, o total cumprimento por parte do indivíduo de seu ethos social.

A "boa ciência" de Merton teria condições de se manter íntegra, livre e independente, graças ao cumprimento de seus valores institucionais, o que colocaria a Ciência acima de qualquer forma de conflito social e tornaria possível a realização da causa final da Ciência, ou seja, a melhoria da sociedade.

Mas o modelo mertoniano coloca a Ciência sob uma forte tensão com a sociedade. Se por um lado os princípios institucionais protegem a Ciência contra interesses particulares e contra os mais diversos tipos de preconceitos e más interpretações, por outro acaba afastando a mesma do dia-a-dia da sociedade, isto é, das suas reais demandas. Isso acaba, por fim, por causar um desinteresse por parte da sociedade sobre a Ciência, o que, colocando a mesma sob um conflito social, influencia negativamente o seu verdadeiro papel social, o qual, em última instância, resume-se em melhorar a sociedade.[1]

Efeito Mateus[editar | editar código-fonte]

Uma característica distintiva da comunidade científica é seu sistema de recompensas. Segundo Merton, trata-se aqui do reconhecimento pelos demais estudiosos do campo, distribuído de forma não uniforme entre as contribuições cientificas. Existe uma diferença clara do ponto de vista do reconhecimento social e expectativas futuras sobre aqueles que recebem grandes honrarias e prêmios em relação aos demais, mesmo que objetivamente as diferenças entre as contribuições por estes prestadas, e os demais sejam irrelevantes. É irrelevante o motivo que levou ao reconhecimento em graus diferentes de contribuições de mesma importância, ou até mesmo menor reconhecimento de contribuições de relevância maior; a existência de grandes premiações, como o prêmio Nobel, estabelece uma fronteira qualitativa absoluta, entre aqueles considerados protagonistas do progresso cientifico, e o “povo” comum. Tal fronteira cria a expectativa de que os vencedores de tal premiação sempre trariam contribuições grandiosas enquanto os demais estariam sempre obrigados a se reafirmar. Ou seja, a valorização das contribuições de cientistas reputados em seus campos seria desproporcionalmente elevada, enquanto a dos desconhecidos tenderia a ser desproporcionalmente diminuta por contribuições comparáveis. 

Foi a essa observação, a essa lógica que Merton nomeou o "Efeito Mateus”, devido ao conhecido trecho do evangelho homônimo: “porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado”.

Tal efeito teria consequências disfuncionais, tanto individualmente, a partir de diversas contribuições não reconhecidas, ou que tiveram sua importância menosprezada, quanto para a crença na justiça de tal sistema. Apesar disso, para Merton, existiriam concomitantemente funções positivas no sistema de comunicação científico. Por um lado, porque a atenção diferenciada conferida aos trabalhos de cientistas renomados possibilita a ampla difusão de novas descobertas, que poderiam ser ignoradas em circunstâncias normais; por outro, porque através do efeito Mateus, é conferido crédito a novas descobertas radicais ao invés de haver uma recusa inicial pelo abalo que representam para o conhecimento existente. Assim, o efeito Mateus pode ser vislumbrado como disfuncional da perspectiva dos sistemas, e simultaneamente funcional para o sistema de comunicação da ciência.

Analisando o contexto da obra mertoniana, trata-se aqui de um caso especial da “self-fulfilling prophecies”. A crença no potencial, o desproporcional reconhecimento dos grandes nomes da ciência, faz com que seus resultados sejam previamente vislumbrados como majestosos, o que se traduz por sua vez em infraestrutura, cooperação, patrocínio e apoio em geral para a condução da pesquisa, levando a concreção do resultado esperado; quando não, tais investimentos são vislumbrados como importantes (devido ao status conferido aos cientistas) e mal sucedidos temporariamente, um tipo de fracasso, oriundo, porém, de um esforço heroico.

Robert Merton tinha uma visão bastante humanista sobre a função social da ciência, sendo bastante influenciado pelas teorias sociais de Max Weber. Para Merton, a ciência é um conjunto de conhecimentos compartilhados por toda uma sociedade, a qual julga a credibilidade da verdade científica de acordo com suas expectativas e valores éticos e morais próprios. Contudo, a decisão final da ação científica não seria da sociedade, e sim do indivíduo, o Cientista. Assim, para ter suas ideias e ações socialmente aceitas, o Cientista precisa adequar seus próprios valores éticos e morais aos da sua sociedade.

Embasamentos social e psicossocial do efeito Mateus[editar | editar código-fonte]

Por outro lado, os cientistas de renome têm a capacidade de atrair novos pesquisadores às suas áreas e objetos de investigação. É dizer que cientistas ilustres têm a capacidade de, ao pôr teses e problemas em pauta de discussão no universo da Academia, atrair novos estudantes à investigação desses temas. Além disso, têm a capacidade de institucionalizar métodos de pesquisa e escolas de pensamento, pelo seu distinto carisma – característica observada nos laureados com o Nobel de maneira geral.

Dos fatores subjetivos que concorrem nos grandes cientistas, observa-se uma tendência deles em pesquisar em grandes centros de criatividade científica, ou com outros grandes cientistas de gerações passadas – os quais transmitem a eles, novos pesquisadores, a capacidade de julgar temas de relevância e, principalmente, acreditarem em seu julgamento.

Com o reconhecimento, o cientista ganha confiança aprofundada em seu próprio julgamento. A confiança, aliás, é, também, característica comum dos cientistas renomados. Outros fatores psicológicos importantes são a paciência e a força de vontade em perseverar na dura atividade que decorre da pesquisa científica. Apesar de atentos às possíveis dicas oriundas de pesquisas diversas em sua área de interesse, eles são auto-orientados e capazes de, por sua grande convicção, procurar métodos alternativos de pesquisa com a constatação de furos no atual método adotado.

Outra forma de manifestação de suas peculiaridades psicológicas (dos cientistas-líderes) importante para o aspecto comunicacional do efeito Mateus é o de que têm a autonomia para dar a devida importância ao assunto principal de suas teses, com consequente menor ênfase aos problemas periféricos.

Por fim, esse gênio forte mescla-se à sua refinada capacidade de identificar roblemas relevantes, treinada com anos sob o magistério de pesquisadores mas experientes, ou com o trabalho em grandes laboratórios e assim, por estarem convencidos de que reconhecerão os problemas importantes quando enfrentados por eles, sentem-se seguros em esperar e produzir ensaios acadêmicos de menor importância nesse ínterim.

Os cientistas importantes tendem a controlar asua produção acadêmica, a abster-se de publicar tudo o que produzem, a menos que estes textos alcancem seus próprios padrões de qualidade. 

Todos esses fatores psicológicos influenciam para a preferência geral da comunidade científica na leitura de artigos provindos de grandes nomes (e, presumivelmente, com maior qualidade), do que produções advindas de cientistas anônimos (mesmo que os assuntos discorridos sejam iguais ou muito próximos). 

O fator psicológico cumpre papel fundamental, portanto, para a criação da presunção que perpetua o efeito Mateus dentro da comunidade científica.

Ao se reconhecer as qualidades subjetivas dos cientistas famosos, opta-se pela leitura de seus textos, em detrimento da leitura de textos de profissionais anônimos – criando-se mais uma camada de dificuldade para a quebra da barreira do academicismo. É justamente nisso que repousa a sua disfunção. A presunção de qualidade ou de importância que se dá aos trabalhos de “homens da ciência” ("men of science") obscurece o fato de que eles não são os únicos que contribuem para a ampliação do conhecimento científico.

Trabalhos de pesquisadores desconhecidos, embora muitas vezes tragam contribuições genuínas e importantes, são comumente negligenciados pela cultura acadêmica principal. É o que se observa no caso Mendel, por exemplo, que, ante a reiterada negligência sobre seus trabalhos, quase desistiu de prosseguir com sua pesquisa.

A alocação de recursos científicos[editar | editar código-fonte]

A última faceta do efeito Mateus dentro da sociologia da ciência, rapidamente discutida, é a sua dimensão institucional.

O que se quer dizer é que os institutos científicos e tecnológicos tendem a receber maiores investimentos (financeiros) governamentais, ampliando a sua própria capacidade de produção científica de qualidade. Além disso, dada a sua projeção, tendem a atrair aspirantes a pesquisadores de maior qualidade, têm maior capacidade de identificar e reter profissionais talentosos, bem como atrair ao seu corpo de pesquisadores aqueles já reconhecidos e renomados (que já possuem resonhecimento institucional, por exemplo). 

Isso explica dados objetivos, como o fato de que "as seis maiores universidades estadunidenses (Harvard, Berkeley, Columbia, Princeton, California Institute of Technology e Chicago), que produzem 22 por cento dos doutorados em ciências físicas e biológicas produzem um total de 69 por cento dos Ph.D's que posteriormente tornam-se premiados do Nobel."

O problema sucitado de alguma maneira confunde-se com aquele mais profundamente investigado em seu segundo ensaio sobre o efeito Mateus, na alcunha de acumulação de vantagens e desvantagens entre instituições científicas.

A questão da alocação desigual de recursos reproduz-se em maior escala quando se tratando de instituições de pesquisa e ensino. As instituições renomadas, cujas produções são amplamente reconhecidas, tendem a concentra maiores recursos de toda a forma - humanos ou materiais - do que aquelas que ainda não têm proeminência na produção científica.

Por outro lado, as universidades sbaidamente proeminentes em sua tradição acadêmica, e consequentemente concentradora de rescursos desigualmente distribuídos (materiais e humanos), não concentrarem toda a prodção acadêmica de ponta (como laureados com o Nobel). 

No palpite de Merton, ocorre que o sistema, embora exponencial, atinge um limite: Os alunos, de um lado, não desejam manter-se sob a sombra de seus professores renomados (barreira de transposição difícil, pela operação do efeito Mateus em sua forma mais simples) e os professores, por outro, podem sentir-se ameaçados com a manutenção de jovens excessivamente talentosos em seus times de pesquisa ou em times adversários, sob o medo de serem substituídos prematuramente.

Apartado do sistema interno de dispersão de capital humano, há também um sistema externo de competição por fontes cognitivas entre as universidades. 

Assim, as universidades de proporções consideravelmente menor do que os grandes centros têm vantagem na hora de distribuir seus recursos financeiros entre as suas instituições internas, já que a sua área de competição é focada.

A máquina, o trabalhador e o engenheiro[editar | editar código-fonte]

Nesse estudo, Merton trata da repercussão da ciência nos meios de produção – como o progresso técnico-científico influencia, por exemplo, a distribuição de empregos e a absorção de danos pela classe trabalhadora. Dialoga, portanto, com o tema tratado na exposição sobre as regras de ciência pura, que levam ao progresso tecnológico e que, se tratadas de maneira indiferente pelo pesquisador (sem a atenção das suas consequências sociais), tem desdobramentos idesejáveis e causa a revolta contra a ciência. Nesse prisma, discute especificamente o papel do engenheiro em todo o processo comentado.

Como consequência social das mudanças na tecnologia os operários organizam-se e se conformam de acordo com a rotina que lhes é dada pela organização dos fatores convergentes na sua atividade laboral – rede de relações sociais – moldável conforme as condições do trabalho (maiores oportunidades de caminhar, interagir com pares e superiores, etc.). Ocorre que mudanças no método de produção provocados por avanços tecnológicos têm grande impacto no grau de satisfação do funcionário com a própria tarefa; daí a tendência de grupos organizados deles procurarem obstar a implementação unilateral desses métodos – com vistas na satisfação ou na manutenção dos empregos, diminuindo a insegurança de emprego e a inquietação dos operários.

 A obsolescência provocada das habilidades é outro problema. Trata da excessiva especialização do trabalho do operário, que amplia o seu grau de alienação para com ele não correspondência entre o trabalhador e a atividade que exerce. Aqui, a tarefa, de tão pormenorizada, perde sua identidade pública, e deixa de fazer sentido senão no ambiente fabril, pois o resto da sociedade é insensível a tamanha divisão especial do trabalho.

Em observância a tudo isso, faz-se necessária uma maior disciplina no local de trabalho visando diminuir as possibilidades de revolta.

Ainda, deve-se refletir sobre os problemas institucionais e estruturais do avanço tecnológico.

Primeiramente, os problemas institucionais. O emprego de tecnologias, mais do que uma decorrência lógica do mercado, assume importância estratégica. Assim, torna-se ferramenta de controle dos operários, instrumento de poder social. Sua função tácita, não auto-evidente, é a da ampliação da brecha existente entre o operário e as instâncias administrativas, aprofundar a estratificação social do trabalho. Isso ocorre por meio de três decorrências dessa “complexidade da nova tecnologia”:

  • Fechamento progressivo de oportunidades para promoções substanciais: o aumento da complexidade dos processos industriais pelo emprego de novas tecnologias torna o trabalho dos estratos mais nobres excessivamente técnico e inacessível aos operários que não ostentam a diplomação tornada necessária.
  • Crescentes diferenças de origens sociais entre os operários e os gerentes: a estratificação técnica implica óbvia estratificação também social, com a consequente elitização dos cargos dirigentes e de chefia.
  • Afastamento do pessoal diretivo dos pontos de vista dos operários devido a mudanças nas normas típicas das suas carreiras: os ocupantes de cargos de gerências, detentores de diplomas acadêmicos, ingressam na indústria em posição privilegiada; por isso, desconhecem o ambiente e condições de trabalho reais, senão mediante um conhecimento abstrato.

Quanto à estrutura organizacional da indústria moderna, esta encontra no movimento sindical organizado – principalmente na forma de centrais sindicais – muleta necessária para compor um grupo de pressão contra o Estado, que, por sua vez, regula cada vez mais a aplicação tecnológica, uma questão de interesse eminentemente público.

Por outro lado, o movimento sindical é dotado de toda uma outra camada de força, uma vez que, com a ampliação e agregação de complexidade nos meios de produção, também as paralisações operárias ganham poder sem precedente.

Se a pesquisa da estrutura industrial, por um lado, esquece-se de muitos aspectos dessa complexa relação de interesses, também ela é a única que propicia formas de implementação racional de novos meios de produção em menor detrimento aos interesses operários.

O engenheiro

Engenheiro é o profissional responsável pelas principais alterações na conformação das condições de trabalho e, consequentemente, o grande responsável pelas consequências sociais destas mudanças, geralmente a insatisfação. Assumem, portanto, importância política e estratégica, para além de sua atuação predominantemente técnica. 

A percepção dessa função social (lato senso) por ele exercida não se dá senão mediante uma profunda reflexão sobre os feixes de relações sociais nela convergentes. 

A importância desse profissional prescinde de sua especialização, desde que ele projete máquinas onde outros profissionais trabalharão.

Entre os obstáculos à auto-avaliação do engenheiro, Merton aponta:

  • A marcante especializaçãoe divisão do trabalho científico;
  • As aplicações de códigos profissionais que governam as perspectivas sociais do engenheiro;
  • A incorporação dos engenheiros às fileiras das burocracias industriais.

Quanto à especialização do engenheiro, tem-se que a grande divisão de especialidades reflete a tendência social de sectarização do trabalho. Trata-se, aqui, de uma forma de se diluir o problema da responsabilidade.

Na área de atuação do engenheiro a responsabilidade é cumulativa, envolvendo-se todos os responsáveis pelo avanço do “jogo tecnológico”.

A ética profissional dos engenheiros, muito parecida com a dos cientistas ou juízes criminais, descola de sua esfera de preocupação as consequências sociais e psicológicas (incidentes nos operários) de seus atos. 

Os engenheiros, ao incorporarem a burocracia industrial, passam a exercer funções somente técnicas – delegando a função de adoção ou não de uma máquina para a administração e, consequentemente, eximindo-se da responsabilidade. Assim, ficam livres para exercer a sua função de projeção olvidando-se de seus desdobramentos sociais. O trabalho de engenharia torna-se anti-ético, dada a pulverização da responsabilidade.

Puritanismo, pietismo e ciência

Por meio deste estudo Merton procura apontar, definir e fundamentar a tese de que aspectos da ética protestante (puritana, pois aplicada primordialmente sobre a Inglaterra do século XVII, com incursões sobre a ética pietista alemã, equivalente moral na Europa Continental) não só propiciaram mas integraram e integram o corpo normativo da ciência. Para tal, primeiramente, faz-se necessária a análise do “ethos” puritano.

“Ethos” puritano, tal qual o ethos científico, é um complexo de regras mais ou menos explícitas que convergem numa prática dessa classe. São muitos os pontos da ética protestante que tangenciam o desenvolvimento da pesquisa científica conforme hoje observada – método empírico e racional. 

Merton aponta uma série de “lemas” do ethos protestante que dão posterior vazão ao estudo científico. Eles são baseados no seu principal objeto de estudo, o estatuto da Royal Society of London (embora estude também a Academia de Paris), e a investigação de seus membros:

Primeiramente, vê-se na ciência uma forma de se desenvolver um “[...] estudo sistemático, racional e empírico da natureza para glorificar a Deus em suas obras e para o controle do corrupto.

Este enunciado denuncia dois importantes fatores: a contemplação da natureza como criação divina e, portanto, como forma de glorificar a Deus e, por outro lado, uma forma de combater o ócio do estudante que, segundo tais cânones religiosos, levava invariavelmente ao pecado.

Outro dos “lemas” puritanos encrustados na prática científica “[...] acentuava o bem-estar social, o bem da maioria, como um alvo que deveria estar sempre presente.

A ciência deveria ser incentivada porque é capaz de trazer felicidade ao homem. Não obstante isso, os estudos aparentemente infrutíferos não deveriam ser descartados, pois são fatores somados à equação do progresso tecnológico (ciência cumulativa).

O terceiro “lema” confunde-se com os dois primeiros, diz respeito ao ócio. Confunde-se com o segundo à medida que contribui indiretamente com o bem-estar da sociedade, ao promover o bem-estar do cientista, e diretamente, com suas efetivas contribuições. É dizer que a ciência encarna o valor do utilitarismo – tanto individual, pos a dedicação ao labor científico é também uma forma de se buscar a salvação, delegada ao indivíduo com o advento da Reforma, quanto social.

Por fim, tem-se na razão e na empiria principais legados do puritanismo para a ciência, e, também, os algozes da relação entre ambas. Isto à medida que foram elas que propiciaram o questionamento religioso com bases científicas. 

Seguiu-se daí o afastamento e a repressão religiosa contra a ciência, malgrado sua correspondência ideológica.

Outro tipo de relação entre a ciência e a religião digno de nota é a sua herança oriunda da cultura medieval: o pressuposto básico da organização racional da natureza, cientificamente observável pela via da experimentação. “A convicção de uma lei imutável é tão pronunciada na teoria da predestinação como na investigação coentífica.”

Para reforçar a veracidade de suas conclusões, Merton reporta-se a um estudo que comprova que 62% dos fundadores da Royal Society eram puritanos. Dentro de um universo onde os puritanos representavam, se muito, uma tímida maioria da população, pode-se atribuir à religião uma grande importância no processo de sedimentação da ciência experimental. 

Influência puritana sobre a educação científica

O próprio método de ensino puritano era um convite à investigação científica. Se por um lado o plano estrutural de ensino básico, de Comênio, cujo sistema educativo tinha por fundamentais as normas do utilitarismo e do empirismo, falhou, foi outro o destino das instituições de ensino superior e técnico. 

As academias puritanas (academias dissidentes), com ensino eminentemente técnico e voltado às ciências naturais (especialmente se comparadas às instituições católicas), disseminaram-se tanto pela Inglaterra quanto pela Europa Continental, vindo a influenciar brevemente também a Universidade de Harvard.

Os principais estudos científicos da época advieram principalmente desse tipo de instituição, inclusive em países como a França – na época oficialmente católica.

Na Europa Continental, o movimento puritano inglês encontrou um equivalente ideológico no movimento pietista, cujos pressupostos normativos (“ethos”) eram basicamente os mesmos. Assim, o último movimento contribuiu para o desenvolvimento da ciência racional, empírica e utilitarista na Alemanha e em outros países europeus, em instituições como Köninsberg, Halle, Heidelberg e Altdorf. 

Houve, portanto, uma disseminação das ciências naturais em moldes “contra-católicos” (ensino predominantemente voltado à teologia) de forma análoga à ocorrida nas academias dissidentes inglesas.

Observe-se ainda que, na Alemanha, foi frutífera a impreitada de estender ao ensino secundário o método puritano (estudo das ciências naturais com base no racionalismo, utilitarismo e empirismo), na forma das Realschulens.

Por meio do cruzamento de dados, Merton demonstra uma relação real e numérica entre a produção de conhecimento acadêmico em ciências naturais (método científico moderno), bem como maior expressão de puritanos nos centros de pesquisa e ensino secundário se comparados com a proporção de puritanos na população em geral.

Assim, acredita estar provada a clara relação entre ambas as instituições, numa relação de precedência necessária, sem a qual as ciências jamais teriam alçado a importância social que hoje ostentam.

Teoria estruturalista[editar | editar código-fonte]

Da análise funcionalista à estruturalista[editar | editar código-fonte]

Merton experimentou durante sua vida acadêmica, num intervalo de 25 anos grande transição quanto a sua perspectiva sociológica, do funcionalismo adotado na “Social Theory and Social Structure” em 1949, para o reconhecimento do valor teórico da análise estruturalista no estudo da estrutura de oportunidades em 1975, a qual acabou por adotar, e tornou predominante em seus trabalhos.

A crítica central de Merton ao funcionalismo, inclusive aquele adotado por Parsons, estava centralmente apoiada nos pressupostos de tal teoria; se direciona a três postulados desta que Merton acreditava não serem necessários para a análise, e que por isso negava: o postulado da unidade funcional, o postulado de um funcionalismo universal, e finalmente o postulado de uma necessidade funcional. Nas palavras de Merton: “Substantially, these postulates hold first, that standardized social activities or cultural items are functional for the entire social or cultural system; second, that all such social and cultural items fulfill sociological functions; and third, that these items are consequently indispensable”. (Merton [1949b] 1968: 79). 

Para ele a presunção trazida pelo primeiro postulado, de que a sociedade seria um todo integrado não seria um pressuposto, mas uma questão empírica, para a solução da qual teria de haver uma análise pormenorizada da integração, forma, níveis, etc. de unidades menores que a compõem. Por isso, para o autor, o interesse está direcionado não para o sistema social em sua completude, mas muito mais para as diferentes amostras de organização social.

O segundo por sua vez, traz a ideia de que todo fenômeno social preenche uma função positiva na integração do sistema total. Merton acredita que tal assertiva não poderia ser aceita levianamente, uma vez que há fenômenos que nada fazem em prol da integração ou sobrevivência do sistema, ou até mesmo lhe são danosos. Ele pugna então, por uma análise dos diferentes efeitos que os fenômenos sociais poderiam ter, e seu saldo.

Finalmente, o postulado da necessidade funcional não se sustenta em seu pressuposto de que todo fenômeno social ou cultural preenche uma função específica, uma vez que frequentemente há alternativas para um fenômeno social, que preenchem a mesma função. 

Merton reivindica então a mudança do foco de análise da sociedade como um todo, para as unidades menores internas a ela que a compõem. A forma de organização dos grupos dentro da estrutura social, e para os indivíduos poderia ter consequências inteiramente diversas; crítica ainda que o funcionalismo considera por princípio a existência do sistema social como inicialmente dado, e assim volta o olhar para funções mantenedoras dessa ordem. Para Merton porém, não se pode presumir simplesmente as consequências positivas de um fenômeno dessa forma. Tem de ser avaliado, se se tratam antes de consequências positivas (funções), negativas (disfunções) ou neutras; e mais, os diferentes efeitos oriundos dos fenômenos sociais tem de ser contabilizados, também com uma perspectiva dos níveis, áreas, ou grupos do sistema total, e não apenas desse último em seu todo.

Também não é suficiente se restringir a analise das funções manifestas evidentes, deixando de abordar possíveis funções latentes. Finalmente, determinadas funções podem ser propositais, enquanto outras podem ser acidentais, geradas de forma inesperada a partir da ação dos atores sociais, que serão depois caracterizadas como condições da ação não vislumbradas nas ações teleologicamente orientadas dos atores.

A partir da crítica ao funcionalismo e suas simplificações, Merton adota uma postura nitidamente estruturalista, se ocupando com o significado de disfunções, conflitos e contradições resultantes da organização específica da estrutura social. O foco é transferido para as limitações da ação humana ocasionadas pela estrutura.

A limitação estrutural da ação individual: a descoberta da estrutura de oportunidades[editar | editar código-fonte]

Sob a influência do conceito de anomia cunhado por Durkheim, e da nova perspectiva estruturalista da ação, Merton desenvolve o conceito da “estrutura de oportunidades”.  A conceito indicaria que a posição das pessoas na estrutura social afeta a sua probabilidade de seguir em direção à objetivos culturalmente respaldados pelas vias que são normativamente permitidas. Sua generalização e clara definição datam, porém, de 1995: “Opportunity structure designates the scale and distribution of conditions that provide various probabilities for individuals and groups to achieve specifiable outcomes” (Merton, 1995).

Destarte, segundo a perspectiva sociológica mertoniana, o posicionamento na estrutura social não determina totalmente o acesso dos atores às oportunidades, mas o influencia de forma clara. Trata-se aqui de um conceito que relaciona o contexto estrutural e as ações individuais, qualificando a extensão e distribuição das oportunidades pela estrutura social, o acesso a elas, seu efeito condicionante sobre a ação do homem, bem como sobre suas possibilidades de escolha.

O conceito de estrutura de oportunidades mertoniano foi depois reconhecido por este como de plausível e desejável ampliação e generalização para todos os campos da ação social; constituiu peça chave em seus estudos posteriores sobre a determinação das escolha dos agentes dentro das estruturas sociais e a existência de pressões estruturais influindo sobre tal escolha.

Estruturalismo[editar | editar código-fonte]

Merton trata das ações individuais a partir da perspectiva das pressões estruturais. O indivíduo teria alternativas determinadas pelo sistema, as quais suas escolhas se restringiriam.  Tais alternativas seriam um reflexo da estrutura de poder, prestígio e influência, e a elas seria inerente o conflito, e a ambivalência devido a constante mudança na estrutura social. Assim sendo, tais padrões estabelecidos apresentariam constantemente níveis de incidência de comportamento desviante.

Segundo a perspectiva estruturalista, os indivíduos estão inseridos numa rede de posições na estrutura social, dentro da qual, a cada indivíduo são atribuídos conjuntos de status, aos quais são inerentes determinados papéis (inclusive frequentemente mais de um papel para um único status, e mais de um status para um único indivíduo). Tais são resultado das relações sociais, e dão ensejo ao surgimento de expectativas acerca dos indivíduos e seu comportamento que podem ser inconsistentes com a realidade, e assim potencialmente geradoras de conflito.

A estrutura social para Merton é composta centralmente dos valores e normas, papéis e instituições, e finalmente conjuntos desses papeis, ou status. Enquanto os valores descrevem os objetivos vislumbrados como legítimos para a ação pela sociedade, as normas são os caminhos pré-determinados e esperados por esta para a consecução destes fins de forma legítima. Já os papéis são uma fusão das normas e valores, estipulando um comportamento específico esperado dos indivíduos. Em relação à instituição, Merton a define como um conjunto de ideais e valores, que orienta o comportamento de uma determinada entidade, como, por exemplo, a ciência. Os fatores anteriormente descritos atuam sobre as expectativas que os atores sociais têm uns sobre os outros.

A estrutura de oportunidades, sob a perspectiva dessa análise, restringe sistematicamente as ações e oportunidades de vida dos indivíduos.

Pressupostos da análise estrutural: 

  • A análise estrutural deve se ocupar de micro e macro fenômenos, abordando problemas de ambas as esferas. Na micro esfera, se ocupará centralmente do processo social da escolha individual dentre alternativas socialmente estruturadas. Isso quer dizer, da escolha por uma alternativa que é conceituada como socialmente definida e assim, surge como parte da ordem institucional. Já na macro esfera, se ocupará da divisão social do poder, status, influência e prestígio que envolvem os controles sociais, que estão sujeitos aos processos de acumulação de “prós e contras” por indivíduos historicamente posicionados de formas diferentes na estrutura social;
  • Esse tipo de análise que as estruturas sociais, através da diferenciação, criam ordens fragmentárias de posições de status, papéis, organizações e comunidades;
  • As estruturas normativas não tem um sistema unificado harmônico de normas. Por isso, são constituídas em parte por expectativas estruturais inconciliáveis (representando ambivalência sociológica), e mudanças dinâmicas na interação entre normas contraditórias;
  • As estruturas sociais ocasionam diferentes taxas de comportamento desviante. Este resulta da discrepância entre os objetivos reconhecidos como vinculantes pela sociedade, suas normas e valores, e a distribuição irregular dos recursos para atingir esses objetivos através de meios legítimos.

Para além dos acontecimentos externos, as estruturas sociais geram transformações independentemente dentro de si mesmas e em si próprias. Tais processos são oriundos de escolhas socialmente estruturadas cumulativas, bem como da intensificação de efeitos disfuncionais, resultado de conflitos, contradições, etc. na estrutura social diferenciada. 

Diante dessas circunstâncias, cada geração nascida dentro de uma estrutura por ela não criada, bem como outras gerações, contribui de forma diferente para a modificação desta, de forma voluntária ou acidentalmente, reagindo às consequências sociais objetivas, por meio tanto de ações coletivas não intencionais, quanto planejadas e organizadas.

A teoria estrutural não está, assim como as demais, apta a explicar todos os fenômenos sociais e culturais em sua totalidade de forma a esgotá-los, fato que é admitido por Merton, não retirando para este porém a validade de seu emprego na análise sociológica.

Estrutura social e anomia[editar | editar código-fonte]

O trabalho “Social Structure and Anomie”, publicado por Merton no ano de 1938, tem por temática central a problemática sociológica clássica da anomia. Para tanto, se apropria o autor do conceito de anomia de Durkheim, desenvolvendo-o de forma específica para seus interesses; ao invés da crítica frequente das formas diferenciadas e diversas de adaptação dos atores individuais frente a condições estruturais de ação social específicas, trata-se aqui de um modelo de explicação psicologizante da ação humana.

A pergunta de Merton é, basicamente, por que a frequência do comportamento desviante varia dentro da estrutura social, e por que se diferenciam, dependendo da situação social, as manifestações do comportamento desviante. Assim, o objetivo de sua pesquisa nessa área foi averiguar como estruturas sociais específicas exercem pressão sobre indivíduos na sociedade, fazendo com que esses se inclinem para o comportamento desviante em detrimento do conforme.

Merton acredita que todo grupo social sujeito a tal pressão irá apresentar taxas de comportamento desviante relativamente altas, e isso não será por fatores psicológicos, mas porque ele está em uma situação social específica que o torna suscetível a reação a esse tipo de pressão. Ou seja, trata-se de identificar taxas específicas de comportamento desviante em grupos sociais que se encontram em uma posição determinada da estrutura.

Para tanto, dois elementos da estrutura social são de significado decisivo: os objetivos culturalmente definidos, considerados legítimos para todos os membros da sociedade e vistos como aqueles pelos quais vale a pena se esforçar; e as normas institucionalizadas, que definem, controlam e regulam os meios aceitáveis para alcançar tais objetivos.

Assim, pode se falar em anomia quando não é possível para os atores sociais atingir os objetivos culturalmente definidos através dos meios legítimos, fazendo com que se manifeste o comportamento desviante. O motivo para tal ocorrência, segundo Merton, deve ser procurado na estrutura social; é uma estrutura de oportunidades específica que causa a pressão para o comportamento desviante e assim taxas específicas dos diferentes comportamentos anômicos. 

O exemplo estudado por Merton foi o das reações da população americana em termos de comportamento anômico frente às expectativas de consecução do objetivo culturalmente estabelecido da prosperidade econômica.

Como são explicáveis então as diferentes taxas de comportamento desviante observadas nos indivíduos em diferentes posições sociais? Merton diferencia quatro tipos de comportamento desviante:

Mertons social strain theory.svg

A inovação poderia ser exemplificada pelos crimes de colarinho branco; trata-se aqui de uma reação à maior pressão, em relação aos demais extratos, exercida sobre as camadas sociais inferiores para recorrer a meios ilegítimos, com o intuito de alcançar o sucesso econômico. O motivo estrutural seria a divisão iníqua dos recursos e meios que possibilitam alcançar os fins legítimos.

No ritualismo não ocorre nada mais do que uma rotinização dos comportamentos que originalmente serviam a persecução legítima dos objetivos socialmente estabelecidos, sem que esta mais exista. Parece, para Merton, ser um padrão comportamental entre a classe média, cujos membros, em face do temor de perda de status, não querem arriscar mais nada na competição pela continuação da ascensão social, adotando um comportamento estacionário, de resignação/ satisfação com o patamar alcançado. 

A terceira forma de comportamento anômico, é a apatia. Ela é mais provável quando o indivíduo em questão internalizou profundamente o objetivo culturalmente estabelecido, mas não vislumbrou quaisquer possibilidades de atingi-lo pelos meios institucionais. Enquanto a forma de competição se mantém inalterada, a resignação e apatia surgem como rotas de fuga através das quais o individuo “desiste”, abdica da sociedade.

A rebeldia é a última forma de desvio por ele identificada, que prevalece em muito indeterminada. Merton a define como o desejo pelo estabelecimento de objetivos totalmente novos e meios para alcançá-los, surgido de experiências de frustração massiva com as opções de ação existentes. Outrossim haja o fundo da frustração massiva, o autor diz que nesse caso a estrutura básica da sociedade não pode ser responsabilizada pelo comportamento anômico. 

Ele conclui que a base das diferentes formas de comportamento anômico tem de ser buscada nas condições estruturais da ação dos atores sociais, não nas preferências individuais ou motivos particulares destes. A partir dai fica clara a adoção de uma perspectiva estruturalista.

Criminologia[editar | editar código-fonte]

Merton parte do pressuposto de que os indivíduos de uma sociedade agem em função de objetivos mas de acordo com os meios disponíveis. A título de exemplo se relembra a década de 50 nos Estados Unidos: o objetivo de grande parte dos indivíduos era o enriquecimento; aqueles que não dispunham dos meios necessários para tanto (educação, capital, etc.) acabam por perseguir este mesmo objetivo por meios ilegais.

Merton lhes considerava inovadores mesmo que fossem considerados criminosos. Move-se assim a questão da criminalidade. A origem do problema residia, para Merton, na convivência social. No sentido do exemplo anterior, são uma via diferente para alcançar o mesmo objetivo comum, o enriquecimento pessoal.

O sociólogo estava na origem do conceito de disfunção social: quando um fato social previne o sistema de se adaptar torna-se difícil ou impossível que ele se mantenha. A criminalidade urbana, por exemplo, movida como vimos por um sistema que congela certos indivíduos que não possuem determinadas condições, causa consequências disfuncionais como a insegurança e o dano patrimonial.

Separamos então as funções manifestas das latentes:

  • Função manifesta é aquela pretendida e entendida. Por ser objetiva ela contribui para o ajuste ou adaptação do sistema.
  • Função latente é aquela que é involuntária, não conhecida ou desejada.  As consequências são as mesmas da função manifesta da atitude,  mas é involuntária e inconsciente.

Através desta distinção, descobre-se uma análise preliminar de práticas sociais que aparentam ser irracionais e cruzam julgamentos morais. A análise funcionalista de Merton se vale de cinco etapas: descrição específica do que está sendo estudado, uma indicação das possíveis soluções, ponderar importância da atividade desviante, identificação dos motivos para a conformidade ou desvio, e descrição dos modelos não reconhecidos.

A representação funcionalista dos conceitos de desvio (comportamento de um indivíduo que vai de encontro ao proposto pelas normas sociais) e anomia (quebra de conexões entre a comunidade e o indivíduo) revela que a sociologia mertoniana trata da criminologia sob uma ótica estruturalista, afastando-se de qualquer outra visão que entenda o desvio de conduta como uma opção pessoal ou pontual de determinados indivíduos. Ao mesmo tempo, afasta-se também de uma análise exclusivamente determinista, pois aceita o fato de que o fato social que imobiliza determinados indivíduos diversas vezes é recebido com conformidade por diversos fatores e não se revela em todos os afetados tendências de desvio. Além disso, a visão estrutural do problema proposta por Merton permite a solução da questão pela modificação de estruturas claras na maior parte das vezes, em outras palavras, afastando a concepção de que a criminalidade é um desvio de foro íntimo apenas ou de que é determinista apenas torna o problema efetivamente solucionável por políticas públicas eficazes.

Teoria dos “role-sets”[editar | editar código-fonte]

Trata-se de uma das teorias de alcance médio criadas por Merton. A ideia relativamente simples que lhe dá origem, é que para Merton, tendo em perspectiva sua proposição estruturalista, um status não engloba unicamente um papel, mas muito mais uma pluralidade de papéis. O individuo teria, em tendo uma determinada profissão, por exemplo professor, de desempenhar papéis diversos perante seus alunos, pais, diretores, familiares, etc. Assim, o problema a ser resolvido do ponto de vista funcional pela sociedade é a organização dessa pluralidade de conjuntos de papéis, para possibilitar o atingir de um determinado grau de regularidade, permitindo aos membros da sociedade desenvolver suas atividades, sem entrar em conflito permanentemente com as exigências desses conjuntos de papéis. 

Nesse contexto é evidente a importância central dos mecanismos sociais, porquanto a eles foi atribuída por Merton a função de explicar os processos sociais. Segundo tal teoria, um indivíduo provido de um determinado status é confrontado pelos demais, dentro de seu conjunto de papéis, com expectativas diferentes, ou até mesmo conflitantes. Dai surgem então duas perguntas: Quais mecanismos sociais atuam, para reduzir a instabilidade dos conjuntos de papéis; e sob quais condições tais mecanismos não poderiam atuar, o que necessariamente levaria para uma majoração dos conflitos. Ou seja, a pergunta é 'quais são os mecanismos sociais decisivos, cujos efeitos podem combater as instabilidades causadas pelos conjuntos de papéis?'  Merton diferencia seis papéis de tais mecanismos:

  • Atribuição do significado relativo de diferentes status. A estabilização de um conjunto de papéis;
  • O uso de poderes desiguais dos atores dentro de um conjunto de papéis;
  • Separação de atividades específicas referentes ao papel, através da observação por integrantes do mesmo grupo;
  • Obviedade das exigências conflitivas sobre os membros sujeitos a um conjunto de papéis específico;
  • Apoio reciproco dos detentores do status;
  • Redução dos conjuntos de papéis (possível apenas sob circunstâncias específicas, e de forma extremamente restrita).

Teoria dos grupos de referência[editar | editar código-fonte]

A teoria aborda o fenômeno através do qual as pessoas se orientam pelas normas e valores de diferentes grupos, entre eles inclusive aqueles aos quais não pertencem. 

Uma, dentre outras teorias do grupo de referência, é a da privação relativa, segundo a qual a percepção dos defeitos e privações não é apenas uma reflexão dos fatos objetivos, mas relativa, ou seja, dependente das medidas subjetivas de comparação de cada indivíduo. Outras aplicações relevantes da teoria do grupo de referência desenvolvidas por Merton se mostram no estudo dos processos de mobilidade social ascendente, e a adaptação e orientação de imigrantes em diferentes grupos de referência.

Essas teorias trazem uma nova série de problemas teóricos, dentre os quais, quem é escolhido como grupo de referência; entram em questão aqui todos os grupos possíveis e categorias aos quais um indivíduo pertence, família, amigos, parentes, conhecidos, associações e organizações até categorias sociais, como um status, classe ou gênero. Sob quais condições atua como referência um determinado grupo em maior intensidade que os demais? Segundo o autor isso seria definido pelas características estruturais da situação social. O problema adquire ainda maior complexidade, nos casos de múltiplos grupos de referência sendo levados em consideração simultaneamente. Nesses casos, segundo o autor há uma interferência da identificação pessoal maior com um determinado grupo, bem como de fatores sócio-estruturais e institucionais, na escolha de qual prevalecerá, por exemplo, nas situações de conflito ou contradição entre as condutas e valores prescritos.

Em relação à adoção de grupos como referência dos quais o indivíduo sequer faz parte, Merton chama-a de socialização antecipada; esta ocorre quando um ator social, desejando se tornar membro de um determinado grupo, passa a adotar valores e normas deste, em função do ímpeto, e ao menos razoável expectativa de conseguir um dia integra-lo. Por esse processo é esperado que gradualmente esse indivíduo seja isolado de seu grupo, na medida em que conflitam os valores e normas com aquele do grupo desejado. Essa relação pode surgir também na forma reversa, na qual um indivíduo isolado em seu grupo se torna tendentemente aberto para a orientação por grupo diverso. Ambas são hipóteses funcionais segundo Merton, tanto para o indivíduo, quanto para o grupo, porquanto o primeiro internaliza os valores e normas essenciais, sendo integrado de forma mais adequada no segundo, que não é por sua vez onerado com os valores e normas desviantes do novo membro. 

Outros temas[editar | editar código-fonte]

Merton teve uma extensa e eclética contribuição para o campo da sociologia. O grande número de temas, altamente significativos sobre os quais ele escreveu e pesquisou impõem o dilema de como classificá-lo; não se trata de teórico ou empirista, tampouco de um representante de uma disciplina específica, mas de um intelectual cujo trabalho afetou de forma essencial tanto a teoria sociológica quanto as suas mais variadas vertentes. Levando-se em consideração o conjunto total, não editou obras extensas, artigos na estrutura tradicional, mas pequenos ensaios, dos quais sua famosa obra “Sociologia, Teoria e Estrutura” (1949) é uma coletânea, que além destes reúne capítulos de livros por ele publicados, bem como artigos de revistas.

A unidade e base comum de seus trabalhos se enraízam na concepção da sociologia adotada, e moldura teórica fornecida pela sua premissa estrutural. Ademais distingue seu trabalho dos demais a forma de abordagem dos temas, e seu estilo enxuto. Merton tinha o dom de expressar a visão sociológica de maneira simples, acessível e esclarecedora. Alguns de seus principais trabalhos foram: o ensaio sobre as consequências não intencionais das ações teleologicamente orientadas, a contribuição acerca do conceito de “self-fulfilling prophecies” , do Efeito Mateus, e finalmente da ambivalência, vista como um tema essencial na sociologia mertoniana e uma de suas forças motriz. 

Consequências não antecipadas[editar | editar código-fonte]

Dentre os mais antigos questionamentos éticos da humanidade, está aquele de se deveria uma ação ser valorada previamente, quanto às intenções das quais estava imbuído o agente para sua prática, ou posteriormente, em relação aos resultados que efetivamente produz. Merton reconhece a antiguidade de tal questionamento logo no início de sua obra “The Unanticipated Consequences of Purposive Action”, bem como a manutenção de sua atualidade. Assim, não busca estabelecer o estudo de um fenômeno inédito, mas, diferentemente de seus precursores, que empreenderam esforço no sentido de reconhecê-lo em diversos contextos e descrever o fenômeno com os mais diversos conceitos, realizar uma descrição geral de sua forma e conteúdo. Para tanto, Merton buscou definir claramente os elementos essenciais desse problema, fatores relevantes, desenvolver diferenciações, e estabelecer claramente sua lógica e consequências.

Identificou e determinou então o objeto de sua dissertação, estabelecendo os seguintes conceitos:

  • Não antecipadas: consequências que não necessariamente serão valoradas como negativas, mas que apenas não foram vislumbradas anteriormente;
  • Consequências da ação: strictu sensu, seriam os elementos da situação resultante que poderiam ser atribuídos com exclusividade à ação. Concretamente, entretanto, tratam-se das consequências da interação entre a ação e a situação objetiva;
  • Ações teleologicamente orientadas: trata-se da pressuposição de motivos, e assim de uma escolha dentre alternativas igualmente possíveis. Tais objetivos não precisam ser definidos de forma racional, conscientemente ou explicitamente contemporaneamente definidos pelo agente;
  • Ação: se divide em organizada e não organizada, podendo a segunda se originar do primeiro tipo, quando indivíduos se associam para buscar um fim comum.

O problema sociológico abordado pelo autor tem seu enfoque nas causas da imprevisibilidade dos resultados das ações; na determinação do que leva a restrição geral do poder de antecipar corretamente as consequências da ação de acordo com o conhecimento disponível. Merton identifica então alguns fatores essenciais, que levam a tal restrição. 

Primeiramente, ele reconhece que o conhecimento sociológico é estocástico, ou seja, se baseia em categorias de ações e situações, que jamais são perfeitamente homogêneas. O conjunto de efeitos delas no mundo social é tão complexo e plural que dificilmente uma previsão pode ser elaborada. Essa aleatoriedade das consequências é inerente à vida social. Diferentemente da ignorância então, estamos aqui diante não de uma limitação do conhecimento prévio real, mas das limitações do conhecimento possível. O problema do desconhecimento é agravado pelas escolhas necessárias frequentes, e o curto interregno de tempo para tanto, no qual não é possível obter conhecimento suficiente. E mesmo quando não há a restrição temporal, há o problema econômico da alocação dos recursos escassos (tempo e energia), que faz com que a perspectiva de ocupar-se continuamente com a ponderação acerca das consequências da ação surja como uma utopia.

O segundo fator, seria simplesmente o erro; seja na percepção da situação, na sua conexão com o futuro, na escolha da ação, ou finalmente em sua execução. Segundo Merton, é falsa a premissa de que frequentemente as ações bem sucedidas no passado o são no futuro. Nesse sentido, salienta a existência do hábito, a internalização de determinadas ações, a partir da qual surge um automatismo, pelo qual o individuo deixa de ponderar os requisitos para a ação, e essa se torna disfuncional. Fatores psicológicos ou psicopatológicos que desviam a atenção do individuo apenas sobre determinados fatores também estão nesta categoria. 

O terceiro fator foi descrito por Merton como o “imperioso imediatismo do interesse”. Segundo ele a persecução de objetivos imediatos levaria a produção de outros efeitos secundários não vislumbrados ab initio. Estariam contidos nesta categoria todos os casos em que devido ao interesse em determinadas consequências da ação, seriam excluídas considerações acerca dos efeitos marginais desta. Tais ações seriam racionais na medida em que teleologicamente orientadas para a satisfação de interesses e valores do agente, mas simultaneamente irracionais, pelo seu efeito contrário a outros interesses e valores, não enfocados num determinado momento, mas mesmo assim parte da organização de vida do ator. Merton salienta nesse ponto, certa inevitabilidade, uma vez que enquanto as ações isoladas do individuo não forem realizadas no vácuo, suas consequências irão necessariamente influenciar outros interesses e esferas de valor.

O quarto fator, o “imediatismo dos valores fundamentais” é superficialmente semelhante ao anterior, diferindo porém, essencialmente em seu significado teórico. Se trata nesse ponto do imediatismo do dever de concretizar determinados valores fundamentais, que efetivamente exclui as considerações das consequências adjacentes ao processo. Essa variedade de consequências não antecipadas é para Merton um fator essencial para a dinâmica social e cultural uma vez que desencadeia processos através de sua atuação orientada para a consecução de determinados valores, que por si só levam a uma reestruturação da própria escala destes. Novamente trata-se do fenômeno social pelo qual ações em um determinado contexto levam a mudanças em outros, influenciando consequentemente o contexto original.

Finalmente, Merton aponta um fator peculiar aos desdobramentos e planejamento social humano: a própria previsão do futuro é em si uma variável que altera o curso dos fatos. Destarte, surge um dilema inerente as ciências sociais: a extensão em que tornam suas previsões públicas influencia a ação dos indivíduos (mantidas as demais variáveis iguais) que pois estes dela se apropriam, levando a não correção da previsão, não por estar ela incorreta desde o início, mas porque a previsão do cientista social por si só constitui uma variável independente.

Merton reconhece uma restrição no seu trabalho, na medida em que ele leva em consideração apenas ações isoladas teleologicamente orientadas, e não sistemas coerentes de ação. Bem como dois problemas metodológicos: primeiramente a atribuição de causalidade entre consequências da ação e ações, já que nem sempre resta claro se certas consequências realmente são passíveis de atribuição a determinadas ações; secundariamente, a racionalização, já que os atores posteriormente preferencialmente alegam que já sabiam o que faziam, torna-se difícil estabelecer seus reais motivos.

Profecia autorrealizável (“self-fulfilling prophecy”)[editar | editar código-fonte]

Trata-se da abordagem de um caso específico de aplicação da teoria das consequências não intencionais da ação; Merton assume que uma previsão, tornada publica, é um novo fator na situação uma vez que os atores sociais reagem a ela, promovendo uma alteração no curso normal do contexto. Em suas palavras: “The self-fulfilling Prophecy is, in the beginning, a false definition of the situation evoking a new behavior which makes the originally false conception come true. The specious validity of the self-fullfiling prophecy perpetuates a reign of error. For the prophet will cite the actual course of events as proof that he was right from the very beginning”. 

Assim, não apenas a definição subjetiva das situações, mesmo quando objetivamente falsa tem consequências, mas há também o fenômeno, que descrições objetivamente falsas das situações inicialmente tenham a real, e não intencional consequência de se tornarem verdadeiras. O estudo mertoniano nesta área teve importantes implicações para a compreensão de fenômenos de relação inter-racial e étnica, mormente em sua dimensão da discriminação racial nos EUA. Fica evidente novamente a dimensão prática dos questionamentos e desdobramentos teóricos do autor, e para além o papel do cientista social para este na administração pública, bem como na influência do comportamento do público em geral, força motriz do desenvolvimento de seus estudos.

A ideia central do estudo é de que através da compreensão dos mecanismos sociais, que levam a conclusões equivocadas da sociedade como um todo, pode-se promover um esclarecimento sociológico e, por conseguinte, uma correção.

Ambivalência sociológica[editar | editar código-fonte]

A ambivalência é um conceito originalmente oriundo da psicologia que descreve a coexistência de sentimentos, pensamentos ou desejos contraditórios em relação às mesmas pessoas ou objetos. Tal conceito é apropriado por Merton, ao defender a existência de uma ambivalência genuína na sociologia, não fundada na personalidade, mas na estrutura social, causadora frequente de ambivalência psicológica. 

A ambivalência sociológica em sentido amplo está relacionada com expectativas normativas incompatíveis em relação às configurações, convicções ou comportamento aceitos para um determinado status ou grupo de status; em sentido mais restrito, ela inclui expectativas normativas incompatíveis em relação a um determinado papel, algo como o papel terapêutico do médico, de quem é esperado tanto o distanciamento profissional dos pacientes, quanto empatia. 

Acerca dos conflitos e tipos de ambivalência resultantes relacionados com um único papel social, com os diferentes papeis de um status, e com os diferentes status de um conjunto de status, Merton identifica três fontes de ambivalência: valores culturais contraditórios; contradição entre aspirações culturais previamente estabelecidas, e os meios sociais estruturados para realiza-las; e finalmente contradição entre os valores culturais de diversos países, nos quais uma pessoa tenha se fixado por um longo período.

O centro da análise mertoniana se fixa na ambivalência sociológica dentro de um papel social. Sua tese central é de que uma vez que as normas socialmente impostas não podem ser expressas em um único comportamento, elas são expressas numa oscilação de comportamentos. A relevância sociológica de tal tese reside no significado dela para a estrutura dos papeis sociais e as implicações para a teoria sociológica. Ela é a quebra do paradigma imposto por Parsons (1951), de que papeis sociais seriam descritos como conjuntos coerentes de expectativas normativas. 

É a partir do reconhecimento dessa dualidade que emergem as contribuições de Merton no estudo da anomia; sua sugestão para a explicação do comportamento desviante se fundamenta na contradição entre cultura – como aspirações sociais previamente estabelecidas - e estrutura social – como os meios socialmente estruturados para realizar tais aspirações. Dessa perspectiva, em determinadas circunstâncias o comportamento desviante pode representar uma reação totalmente normal a uma situação ambivalentemente estruturada.

Se a abordagem das consequências não intencionais das ações revelou o inesperado, indesejado e eventualmente até perverso que está relacionado com o agir teleologicamente orientado, o tema da ambivalência sociológica evidencia a "normalidade" do comportamento desviante e dos conflitos normativos, a contradição e o conflito entre a ordem normativa e a complexa normatividade do social. 

Metodologia da Ciência Sociológica[editar | editar código-fonte]

Merton foi um dos primeiros a estruturar efetivamente o estudo da sociologia com rigor científico e como tal enquanto ciência independente. Suas contribuições nesse sentido foram primordialmente em três importantes aspectos: primeiramente na construção de um entendimento sistemático da teoria sociológica, com a defesa da adoção de um comportamento científico específico para a disciplina em razão de sua natureza expressa na determinação de seu objeto; secundariamente na estruturação de inúmeros conceitos, e finalmente na estruturação do que denominou “teorias de médio alcance”.

O comportamento científico[editar | editar código-fonte]

No cerne do conceito mertoniano de ciência se encontram concepções fundamentais para definir a sociologia como ciência. A primeira delas, a cientificidade, se realiza na medida em que o processo de pesquisa que é determinado não por concepções filosóficas, ou pelo conhecimento popular dos atores sociais, mas tem natureza sistemática, mas é metodologicamente orientado e decorre de critérios específicos da disciplina. Padrões de valoração não científicos restam, destarte, excluídos. A sociologia está direcionada a descoberta de regularidades empíricas, objetivo que ela persegue por meio de pesquisa empírica ou lógico-racional. Sua técnica pode ser indutiva ou dedutiva. Ela tem um caráter empírico e teórico, e seus resultados tem valor, portanto, cognitivo e prático.

A tarefa central da sociologia para Merton, então, seria a formulação de explicações para as regularidades do comportamento social, organização social e mudanças. A pesquisa sociológica estaria, para tanto, direcionada primordialmente a descrever e explicar a correlação entre as ações conscientes e teleologicamente orientadas dos atores sociais e os efeitos delas resultantes bem como suas consequências institucionais. Primeiramente, o exame requer a clara descrição do objeto a ser observado. Ele não inclui somente os aspectos interessantes da realidade social, mas muito mais que isso, as relações das pessoas ali participantes, suas interações, mudanças, etc. Essa abordagem sistemática é de tipo estrutural, na medida em que a descrição serve para que as posições dos indivíduos e grupos na estrutura social sejam identificadas, e assim as condições estruturais da ação sejam esclarecidas. A concludente explicação dos processos sociais nessa descrição traz à tona a pergunta de como mudanças na estrutura social condicionam a probabilidade da ocorrência de uma ação específica. O programa de explicação estruturalmente orientado decorrente das considerações supracitadas supracitadaspode ser descrito como a real contribuição de Merton para o campo.

A pesquisa: definição do problema e construção de conceitos[editar | editar código-fonte]

O primeiro passo do processo de pesquisa segundo Merton seria a determinação de seu objeto e a elaboração dos conceitos necessários para a sua exploração; essa primeira tarefa seria para o autor muitas vezes de maior dificuldade do que a resolução dos problemas propriamente dita, mormente frente à diferenciação entre problemas sociais manifestos e latentes.

Problemas sociais manifestos são aqueles mais frequentemente percebidos, porquanto se tratam de condições que entram em contradição com os valores e interesses da sociedade em geral. Já os latentes se tratam de condições que entram em contradição com os valores e interesses de grupos específicos, e que por isso poderiam gerar conflitos; no caso desses últimos, a tarefa da sociologia seria descobrir tais problemas, defini-los, e torna-los problemas manifestos. No estudo dos problemas sociais e sociológicos, identificam-se quatro importantes aspectos:

  • Reconhecimento vs reforma: enquanto o primeiro objetiva à melhor compreensão das condições ou processos da vida social, o segundo trata da questão prática de como resolver problemas específicos.
  • Afetação diferenciada” (do alemão: diferenzielle betroffenheit): devido as diferentes posições ocupadas pelos indivíduos na estrutura social, surge o questionamento de para quem um problema social efetivamente se mostra como tal. Pode haver conflito de interesses nesse ponto, uma vez que, os prejuízos experimentados por um grupo em determinadas condições podem representar simultaneamente vantagens para outros.
  • Relação com os valores: normalmente a escolha de um problema relevante considerando o anteriormente exposto é em si mesma uma escolha com fundo valorativo. Remetendo-se a Weber, Merton afirma, contudo, que os valores poderiam ter um papel unicamente na fase de escolha de um problema. Dai decorre que o processo de pesquisa tem de seguir rígidos critérios científicos para de maneira bem sucedida manter-se livre de juízos valorativos.
  • Descrição e explicação: Merton diferenciava a ocupação com fatos analiticamente identificados daquela que se ocupa com a relação entre esses fatos específicos. Enquanto ele descreve a clara determinação dos fatos como parte da descrição de um problema social, o esclarecimento das relações entre variáveis supera a simples descrição, adentrando na explicação. 

Relacionada com esses aspectos fundamentais da definição dos problemas sociais e sociológicos emerge a elaboração de conceitos claros e bem delimitados com um papel crucial no estudo e metodologia científica da pesquisa em ciências sociais. Os conceitos são indispensáveis para a compreensão dos fatos empíricos, sua inserção dentro de um raciocínio lógico coeso e expressão dos resultados de pesquisa com rigor científico, de forma clara e acessível a todos. Sua contribuição nesse campo foi ampla, tendo provido a sociologia de extenso ferramental teórico através dos inúmeros conceitos e termos que fundou.

Esse contexto de reformulação e especificação dos conceitos para melhor adequação ao objeto de estudo, realizado em função dos resultados empíricos quantitativos ou qualitativos, leva a uma análise de outro tema central da sociologia mertoniana: a elaboração das teorias de alcance médio, e a relação implícita em sua base entre teoria e empiria.

Teorias de alcance médio[editar | editar código-fonte]

Outra das contribuições de Merton para a sociologia foi sua ênfase no que denominava de "teorias de médio alcance", referindo-se aos estudos que se afastavam das grandiosas doutrinas especulativas e abstratas, ao mesmo tempo em que evitavam pesquisas pedantes com poucas probabilidades de produzir resultados significativos. O que preferia eram iniciativas que pudessem levar a avanços importantes e que abrissem linhas de investigação posteriores. Para seus próprios escritos, preferia o formato de ensaio, "que proporciona espaço para apartes e correlativos", como dizia, ao papel científico modernizado mais usual.

As teorias de alcance médio são definidas por Merton como “theories that lie between the minor but necessary working hypotheses that envolve in abundance during day-to-day research and the all-inclusive systematic efforts to develop a unified theory that will explain all the observed uniformities of social behavior, social organization and social change”. São suas principais características: 

  • Centralidade da função de orientação da pesquisa empírica;
  • Aproximação suficiente das hipóteses abstratas de dados observáveis, permitindo a tradução em proposições teóricas passíveis de comprovação como grande estratégia de pesquisa;
  • Área de abrangência restrita, foco em aspectos específicos da realidade empírica;

Ou seja, se tratam de teorias que não tem a pretensão de serem teorias gerais, abrangentes, mas se compõem de um conjunto limitado de hipóteses organizadas de forma lógica e que podem ser empiricamente comprovadas. Tais teorias não estariam isoladas, mas em constante conexão umas com as outras, formando redes de teorias. 

Teorias de médio alcance são recortes de trechos específicos da realidade, que permanecem, outrossim abstratas o suficiente para poderem ser aplicadas em diferentes esferas do comportamento e estrutura social. Tem caráter orientado para os problemas, dentre eles os clássicos sociológicos (explicitados por Marx, Weber e Durkheim), analisando tanto as condições estruturais das relações de interação, quanto formulando uma explicação da trajetória das estruturas institucionais. 

O desenvolvimento de tais teorias foi uma reação de Merton ao empobrecido cenário da sociologia americana nos anos 30, com a polarização entre o empirismo tradicional e o sistema de conceitos do funcionalismo estrutural parsoniano. Precedido por Thomas H. Marshall, com sua obra “Sociology on Crossroads”, Merton acredita que o caminho para o desenvolvimento da sociologia é a adoção de teorias que não adotem nem a perspectiva dos “grand theorists” – buscando uma explicação geral, aplicável a unidades demasiadamente extensas e não necessariamente uniformes levando inevitavelmente a um empobrecimento pela generalização – tampouco dos empiristas, preocupados com a observação de fatos isolados, de forma a destaca-los do contexto.

Assim, criticando o funcionalismo estrutural parsoniano, com sua teoria de que a sociologia deveria se voltar para a estruturação de uma teoria única e coesa ao invés de se ocupar com “teorias”, Merton defende a estruturação de uma pluralidade de perspectivas e paradigmas, através da qual ele esperava progressos no desenvolvimento da sociologia como disciplina científica. Essa compreensão mertoniana da teoria se fundamenta no reconhecimento de uma intersecção entre a teoria e empiria sociológicas.

A Interdependência entre teoria e empiria[editar | editar código-fonte]

Em contraposição ao sistema abstrato de Parson, a abordagem de Merton sobre a teoria sociológica se apoiou sobre a estreita relação entre conceitos teóricos e pesquisa empírica. A teoria sociológica mertoniana se caracteriza então pela observação de regularidades empíricas na relação entre duas ou mais variáveis, da qual derivam afirmações generalizadas que são estruturadas de forma sistemática. A influência da teoria na pesquisa científica pode então ser resumida em cinco pontos:

  • Na generalização dos fatos empiricamente observados a um nível abstrato;
  • Na transformação dos resultados relevantes em progressos teóricos e empíricos (por exemplo, na confirmação ou negação de uma hipótese);
  • Em permitir a reformulação teórica e justificação dos resultados empíricos obtidos para além do objeto estudado;
  • Merton pressupõe que a indicação de motivos para regularidades empíricas da sociologia abrem a possibilidade de previsões sobre futuros prováveis desenvolvimentos;
  • E, finalmente, para que a teoria chegue a conclusões claras, ela tem de ser precisa. Esse é um elemento decisivo para a comprovabilidade de uma teoria, uma vez que é a precisão das conclusões que podem ser tiradas de hipóteses, bem como a coerência interna da teoria, que exclui hipóteses ou teorias alternativas àquela proposta.

Em contraposição, a influência da pesquisa empírica sobre a teoria, para além da crença popular de que se restringiria ao teste e verificação de hipóteses, se mostra em quatro funções principais que ajudam a modelar seu desenvolvimento; ela inicia, reformula, redireciona e esclarece a teoria.

Primeiramente, a pesquisa empírica pode gerar novas hipóteses através da obtenção de resultados inesperados (marginais), incomuns (dissonantes da hipótese, e de outras observações empíricas), ou ainda de importância estratégica, possibilitando uma reflexão teórica fundamental. Esse fenômeno é resumido por Merton no conceito de “Serendipity-Musters”; como tal, em suas três variáveis, de alguma forma pressiona o pesquisador para um redirecionamento de sua pesquisa que leva para uma ampliação do campo do conhecimento teórico.

Secundariamente, pode levar a uma ampliação do sistema de conceitos através da observação reiterada de fatos antes não notados ou negligenciados. Se não for possível a incorporação de tais fatos no sistema existente, os resultados empíricos levam necessariamente a sua reformulação. 

Em terceiro lugar, a depuração dos interesses teóricos, através de novos métodos de pesquisa pode ocasionar que novos dados passíveis de levantamento levem a geração e comprovação de novas hipóteses.

E finalmente, tem importância central a depuração de conceitos teóricos, uma vez que sua imprecisão tem efeitos deletérios para a pesquisa empírica.

Referências

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