Rongorongo

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Rongorongo em Rapa Nui) é um sistema de glifos descoberto no século XIX na Ilha de Páscoa que parece ser uma escrita ou proto-escrita. Não é inteligível apesar das inúmeras tentativas de decifração. Ainda que algumas informações sobre genealogia tenham sido identificadas, nem mesmo esses glifos puderam ser lidos. Se for provado que o rongorongo é uma escrita, poderia ser uma das por volta de três ou quatro escritas independentes na história humana.[note 1]

Duas dúzias de objetos de madeira contendo rongorongo, alguns bem queimados ou danificados de outra forma, foram coletadas no final do século XIX e hoje estão espalhadas por museus e coleções privadas. Nenhuma permaneceu na Ilha de Páscoa. Os objetos são essencialmente tabletes feitos de pedaços irregulares de madeira, algumas vezes amontoados, mas incluindo a clava de um chefe, uma estatueta de um homem pássaro, e dois ornamentos reimiro. Havia também uns poucos petroglifos que às vezes continham pequenas inscrições rongorongo. A história oral sugere que apenas uma pequena elite era letrada e que a escrita era sagrada.

Textos rongorongo autênticos estão escritos em direções alternadas, um sistema boustrophedon reverso. Em um terço das tábulas, as linhas de texto estão inscritas em caneluras rasas cravadas na madeira. Os glifos em si eram contornos de formas humanas, animais, vegetais, geométricas e de artefatos. Muitas das figuras humanas e animais, como Rongorongo glyph 200 e Rongorongo glyph 280, tinham protuberâncias características em cada lado da cabeça, possivelmente representando olhos ou orelhas.

Textos individuais são por convenção conhecidos por uma letra simples e um nome, como o Tablete C, o Tablete Mamari. Os nomes um tanto variáveis podem ser descritivos ou indicar onde o objeto está mantido, como o Remo, o Snuffbox, a pequena Tábula de Santiago, e a Clava de Santiago.

Etimologia e variantes do nome[editar | editar código-fonte]

Rongorongo é o nome moderno para as inscrições. Na língua Rapa Nui, significa "recitar, declamar, cantar".[note 2]

O nome original — ou talvez a descrição — do escrito teria sido kohau motu mo rongorongo, "linhas escritas para serem cantadas", reduzida para kohau rongorongo ou "linhas para se cantar".[1] Também se acredita que teriam existido mais nomes específicos para o textos baseados em seus tópicos. Por exemplo, os kohau ta‘u ("linhas dos anos") eram anais, os kohau îka ("linhas dos peixes") eram listas de pessoas mortas em guerras (îka, "peixe", era homófono ao termo assim usado simbolicamente como "causa por guerra"), e os kohau ranga "linhas de fugitivos" eram listas de refugiados de guerras.[note 2]

Alguns autores entenderam que o ta‘u e o kohau ta‘u seriam formas de escrita independentes do rongorongo. Barthel escreveu que, "Os ilhéus tinham outras escritas (a chamada 'escrita ta‘u') que recordava seus anais e outras matérias seculares, mas esta desapareceu." [2] Contudo, Fischer afirma que "o ta‘u foi originalmente um tipo de inscrição rongorongo. Na década de 1880, um grupo de anciões inventou uma 'escrita' derivada [também] chamada ta‘u para decorar objetos, aumentando seu valor. É uma imitação primitiva do rongorongo. " [3] Uma suposta terceira escrita, a mama ou va‘eva‘e, descrita em algumas publicações de meados do século XX, era uma "invenção geométrica [decorativa] do começo do século XX".[4]

Forma e construção[editar | editar código-fonte]

As formas dos glifos são contornos padronizados de organismos vivos e formas geométricas de mais ou menos um centímetro. Os tabletes de madeira são irregulares em forma e, em diversos casos, apresentam caneluras (tabletes B, E, G, H, O, Q e T), com os grifos cravados em canais rasos na extensão das tábulas, como se pode ver na imagem do tablete G à direita. Acredita-se que pedaços irregulares ou mesmo manchados de madeira foram usados em sua totalidade em vez de pedaços quadrados devido à escassez de madeira na ilha.[5]

Meios de escrita[editar | editar código-fonte]

Exceto alguns poucos glifos feitos em pedra (ver petroglifos), todos os textos sobreviventes estão inscritos em madeira. De acordo com a tradição, os tabletes eram feitos de madeira toromiro. Entretanto, Orliac (2005) examinou sete objetos (tabletes B, C, G, H, K, Q e reimiro L) com microscópios ópticos e microscópios eletrônicos e determinou que em vez disso eram todos feitos de pau-rosa do Pacífico (Thespesia populnea); a mesma identificação fora feita para o tablete M em 1934. Essa árvore de 15 metros, conhecida como "madeira rosa do Pacífico" por sua cor e mako‘i em Rapanui, é usada para a criação de bosques sagrados e em inscrições na Polinésia oriental e evidentemente trazida para a Ilha de Páscoa pelos seus primeiros moradores.[6] No entanto, nem toda a madeira era nativa: Orliac (2007) afirmou que os tabletes N, P e S foram feitos de madeira amarela sul-africana (Podocarpus latifolius) e portanto aquela madeira veio de contatos com o ocidente. Fischer descreve P como "um tronco europeu ou americano danificado", assim como o são A (que é Cinza europeia, Fraxinus excelsior) e V; este seria feito da carcaça de um barco ocidental usado em diversos tabletes; e tanto P como S teriam sido reciclados de uma canoa de madeira de Rapanui.[7] Alguns textos, incluindo O, são gravados em madeira retorcida.[8] O fato de que os ilhéus foram reduzidos a escrever nesse tipo de madeira, e eram extremamente econômicos no uso da madeira, pode ter tido influências na estrutura da escrita, como a abundância de ligaduras e potencialmente um estilo telegráfico de escrita que complicaria a análise textual.[9]

Tabletes rongorongo podem ter sido influenciados pela escrita em folhas de banana como esta.

A tradição oral defende que, devido ao grande valor da madeira, só escribas experientes a usavam, enquanto pupilos escreviam em folhas de bananeira. O etnologista alemão Thomas Barthel acreditava que escrever em madeira era um segundo desenvolvimento de uma escrita baseada na inscrição de folhas de banana ou pedaços de tronco de bananeira com ossos, e que essas folhas eram usadas não só para lições mas também para planejar e compor os textos das tábulas de madeira.[10] Ele concluiu experimentalmente que os glifos eram razoavelmente visíveis nas folhas de banana por causa da seiva que surgia com os cortes e aderia à superfície. Entretanto, quando as folhas secam, elas ficam quebradiças e não sobrevivem por muito tempo.[11]

Barthel especulou que a folha de bananeira poderia servir de protótipo dos tabletes, sendo a superfície dos tabletes uma emulação da estrutura da folha:

Experimentos práticos com o material disponível na [Ilha de Páscoa] provaram que as partes supracitadas de folha de banana não são apenas um material ideal de escrita, mas que em particular existe uma correspondência direta entre a altura das linhas de escrita e a distância entre as veias das folhas e as hastes das bananeiras. As inscrições clássicas podem ser organizadas em dois grupos de acordo com a altura das linhas (10–12 mm x 15 mm); isso corresponde à disposição natural das veias da haste (on average 10 mm in the lower part of a medium-sized tree) ou na folha da bananeira ([...] maximum 15mm).

Barthel 1971:1169

Um close das inscrições do Tablete Pequeno de Santiago, mostrando partes das linhas 3 (fundo) a 7 (topo). Os glifos das linhas 3, 5 e 7 estão à direita em cima, enquanto os das linhas 4 e 6 seguem de cima para baixo.

Direção de escrita[editar | editar código-fonte]

Os glifos rongorongo eram escritos em boustrophedon reverso, esquerda para direita e baixo para cima. Ou seja, o leitor começa no canto inferior esquerdo de um tablete, lê uma linha da esquerda para a direita, então roda o tablete em 180 graus para continuar à próxima linha. Quando lendo uma linha, as linhas de cima e baixo aparecem ao contrário, como se pode ver na imagem da esquerda.

Contudo, a escrita continua na segunda linha de um tablete no ponto em que se termina a primeira, então se o primeiro lado tem um número ímpar de linhas, como no caso das tábulas K, N, P e Q, a segunda começa no canto superior esquerdo, e a direção passa de cima para baixo.

Tabletes maiores podem ser lidos sem serem girados, se o leitor for capaz de lê-los de ponta-cabeça.[12]

Instrumentos de escrita[editar | editar código-fonte]

A maior parte do Gv4 foi inscrita com um dente de tubarão. No entanto, as duas partes do segundo glifo da direita (Glyph 70 e Bulb on line) são conectadas por uma linha que pode ter sido feita com obsidiana. (os chevrons Glyph 3 também são ligados por uma linha assim, apagados demais para aparecerem aqui, que os conecta com a mão da figura humana.)

Segundo a tradição oral, os escribas usavam fragmentos de obsidiana e dentes de tubarão, presumivelmente as ferramentas ainda utilizadas para fazer inscrições em madeira na Polinésia, para polir os tabletes e inscrever os caracteres.[13] (See (em esloveno).) os glifos são comumente compostos por cortes profundos e suaves, ainda que cortes superficiais também tenham sido encontrados. Na imagem da direita, um glifo é composto de duas partes conectadas por uma linha; é uma convenção típica para essa forma. Alguns pesquisadores, incluindo Barthel, acreditam que esses cortes superficiais foram feitos por obsidiana, e os textos foram primeiramente esboçados com obsidiana e então inscritos com cortes mais fundos por dente de tubarão. As linhas remansescentes portanto eram erros, convenções de design (como à direita), ou adornos decorativos.[note 3] Linhas verticais de divisas ou losangos, por exemplo, são tipicamente conectadas por linhas finas, como se pode ver repetidamente no final do tablete B abaixo. Contudo, Barthel também aponta que o último literato Rapanui, o Rei Nga‘ara, esboçava os glifos em fuligem com um osso de peixe e então utilizava o dente de tubarão.[15]

O tablete N, por outro lado, não mostra sinais de dentes de tubarão. Haberlandt percebeu que os glifos desse texto parecem ter sido feitos com um osso afiado, como evidenciado pela pouca profundidade e pela extensão dos entalhes.[16] N também "apresenta trabalho secundário com fragmentos de obsidiana para elaborar detalhes sobre as já finalizadas linhas de contorno. Nenhuma outra inscrição rongo-rongo revela tamanha extravagância gráfica".[17]

Outras tábulas parecem ter sido talhadas com uma lâmina de aço, ainda que normalmente de forma tosca. Apesar de facas de aço estarem disponíveis após a chegada dos espanhóis, isso realmente produz suspeitas acerca da autenticidade dos tabletes. [note 4]

Glifos[editar | editar código-fonte]

Um negativo fotográfico do final do tableteB. Os números são os números das linhas; Fin de 13 significa "final da [linha] 13". (Clique na imagem para ver aproximadamente no tamanho original.)

Os glifos estão estilizados em formas humanas, animais, vegetais e gométricas, e frequentemente formam compostos. Quase todos os glifos com cabeças se orientam com a cabeça para cima e estão de frente ou de perfil para a direita, na direção da escrita. Não se sabe o significado de se apontar glifos para baixo ou para a esquerda. Cabeças normalmente possuem projeções características nos lados que podem ser olhos (como no glifo tartaruga marinha abaixo, e mais claramente em petroglifos de tartaruga marinha) mas comumente lembram orelhas (como no glifo antropomórfico na próxima sessão). Pássaros são comuns; muitos lembram fragatas (ver a imagem logo abaixo), que eram associadas ao deus supremo Makemake.[19] [note 5] Outros glifos lembram peixes ou artrópodes. Poucos, bem poucos, são similares a petroglifos achados pela ilha.

Rongorongo-sample-en.png

Alguns dos glifos rongorongo mais icônicos. Acredita-se que o homem sentado é um composto.
(Leituras de Barthel (1958). As legendas na coluna da direita são meramente descritivas.)

Origem[editar | editar código-fonte]

A tradição oral sustenta que Hotu Matu‘a ou (em esloveno), o fundador lendário de Rapa Nui, trouxe 67 tabletes de sua terra natal.[21] O mesmo fundador é também creditado por ter trazido plantas nativas como o toromiro. Entretanto, não há terra natal com tradição escrita na Polinésia ou mesmo na América do Sul. Assim o rongorongo parece ter se desenvolvido internamente. Dado que poucas pessoas de Rapanui que restavam na ilha por volta de 1870 podiam ler os caracteres, isso se alguma delas realmente podia ler, muito provavelmente uma pequena minoria apenas era letrada. Dessa forma, os primeiros visitantes relataram que a leitura era privilégio de famílias de governantes e sacerdotes que foram todos raptados em assaltos vindos do Peru, em busca de escravos, ou morreram logo depois pelas epidemias resultantes.[22]

Datando os tabletes[editar | editar código-fonte]

Pouca datação direta foi feita. O tablete Q (Pequena São Petersburgo) é o único item que foi carbono datado mas os resultados apenas apontam a data para pouco depois de 1680.[note 6]

Datação direta não é a única evidência. Textos A, P e V podem ser datados do século XVIII ou XIX por terem sido inscritos em remos europeus. Orliac (2005) calcula que a madeira do tablete C (Mamari) foi cortada do tronco de uma árvore de 15m, um tanto alta,[note 7] e a Ilha de Páscoa já não tinha mais árvores daquele tamanho. Análises em carvão vegetal indicam que a floresta desapareceu na primeira metade do século XVII. Roggeveen, que descobriu a Ilha de Páscoa em 1722, descreveu a ilha como "destituída de grandes árvores" e em 1770 González de Ahedo escreveu, "Nenhuma árvore é capaz de produzir uma tábua de 6 polegadas (15 centímetros)." Forster, com a expedição de James Cook de 1774, reportou que "não havia uma única árvore na ilha com mais de 10 pés (3 metros) de altura".[24]

Todos esses métodos datam a madeira, não a inscrição. Contudo, o pau-rosa do Pacífico não é durável, e dificilmente sobreviveria por muito tempo no clima da Ilha de Páscoa.[23] Por outro lado, o glifo 067 provavelmente representa a extinta palma da Ilha de Páscoa,[note 8] que parece ter desaparecido dos registros de pólen da ilha em cerca de 1650, sugerindo que a escrita é no mínimo dessa época.[23] O começo do desmatamento da floresta para agricultura foi datado em cerca de 1200,[26] implicando uma data de a partir do século XIII.

Expedição espanhola de 1770[editar | editar código-fonte]

Alguns estudiosos sugeriram que o rongorongo pode ter sido uma invenção recente, inspirada pela visita dos espanhóis à ilha em 1770 e a assinatura de um tratado de anexação sob González de Haedo.[27] Como evidência circunstancial, eles notam que nenhum explorador reportou a escrita antes de Eugène Eyraud em 1864, e que as marcas com que os chefes assinaram o tratado com os espanhóis não se assemelha ao rongorongo.

A hipótese desses pesquisadores não é a de que o rongorongo seria cópia do alfabeto latino, ou de qualquer outra forma de escrita, mas de que o conceito de escrita foi transmitido em um processo que os antropólogos chamam de difusionismo, que inspirou os ilhéus a criarem assim o seu próprio sistema de escrita. Se esse for o caso, então o rongorongo emergiu, floresceu e caiu no esquecimento em menos de cem anos. Entretanto, casos conhecidos de difusão de escrita, como a invenção pelos Sequoyah do alfabeto Cherokee depois de verem o poder dos jornais escritos em língua inglesa, ou a invenção pelos Uyaquk da escrita Yugtun inspirada pela leitura das escrituras cristãs, envolvendo maior contato do que a assinatura de um simples tratado. O fato de que a escrita não foi observada pelos primeiros exploradores, que passaram pouco tempo na ilha, pode simplesmente significar que era um tabu na época; esses tabus e o tangata rongorongo podem ter perdido poder quando a sociedade Rapanui entrou em colapso pela escravidão imposta e epidemias trazidas pelos europeus, então os tabletes teriam sido mais bem distribuídos nos tempos de Eyraud.[28] Como Orliac apontou, o Tablete C parece preceder a visita espanhola em pelo menos um século.

Petroglifos[editar | editar código-fonte]

Petroglifos na caverna Ana o Keke lembram o glifo rongorongo 3 (esquerda), similar a uma pena, e um glifo co,posto 211:42 (centro). Uma linha de torrões passa por eles, seguida por uma figura em forma de V que pode ser o glifo 27.

A Ilha de Páscoa tem o maior acervo de petroglifos na Polinésia.[29] Quase toda a superfície contém inscrições, incluindo os muros de pedra de algumas casas e algumas das famosas estátuas mo‘ai e seus topknots caídos. Mais ou menos mil sítios com mais de quatro mil glifos foram catalogados, alguns em alto ou baixo relevo, e alguns pintados em vermelho e branco. Os designs incluem uma concentração de figuras quiméricas de homens pássaros em Orongo, um centro cerimonial do culto do tangata manu ou "homem pássaro"; faces da divindade criadora Makemake; animais marinhos como tartarugas, atuns, peixes-espada, tubarões, baleias, golfinhos, caranguejos e polvos (alguns com faces humanas); galos; canoas e mais de quinhentos komari (vulvas). Os petroglifos são frequentemente acompanhados por cúpulas na rocha. As tradições foram preservadas nesses homens pássaros, que foram cravados com formas lineares simples junto com os komari. Apesar de não poderem ser diretamente datados, alguns petroglifos estão parcialmente obsurescidos por construções pré-coloniais de pedra, sugerindo que são relativamente velhos.

Alguns petroglifos com formas amimais ou antropomórficas possuem paralelos em rongorongo, como o pássaro fragata de duas cabeças glifo rongorongo 680 (glifo 680) no mo‘ai topknot acima, que também aparece em uma dúzia de tábulas.[note 9] McLaughlin (2004) ilustra as correspondências mais proeminentes com os corpos dos petroglifos de Lee (1992).[note 9] Contudo, estes são em sua maioria glifos isolados; poucas sequências de texto ou ligações foram achadas entre os petroglifos. Isso levou à sugestão de que o rongorongo deve ser uma criação recente, talvez inspirado por modelos de petroglifos ou mantendo petroglifos individuais como logogramas (Macri 1995), mas não antigo o suficiente para ter sido incorporado à tradição petroglífica. O mais complexo candidato a rongorongo petroglífico é o que parece ser uma pequena sequência de glifos, sendo um deles uma ligação, cravada na parede de uma caverna. Entretanto, a sequência não parece ter sido cravada de uma só vez (ver imagem à direita), e a caverna está localizada perto da casa que produziu o tablete Poike, uma imitação tosca de rongorongo, e assim pode não ser autêntica.

Recorde histórico[editar | editar código-fonte]

Descoberta[editar | editar código-fonte]

Eugène Eyraud, um frade leigo da Congrégation de Picpus, chegou à Ilha de Páscoa em 2 de janeiro de 1864, no 24º dia da sua partida de Valparaíso. Ele deveria permanecer na ilha por nove meses, evangelizando seus habitantes. Ele escreveu um relatório de sua estadia em que ele reporta a descoberta dos tabletes:[30]

Em qualquer cabana são achados tabletes ou bastões de madeira cobertos com alguns tipos de caracteres hieroglíficos: São depicções de animais desconhecidos da ilha, que os nativos produziram com pedras afiadas. Cada figura tem seu próprio nome; mas a pouca atenção que eles prestam a esses tabletes me leva a pensar que esses caracteres, restos de alguma escrita primitiva, são agora para eles uma prática habitual que eles conservam sem procurar seu significado.[note 10]

Eyraud 1886:71

Não há outra menção aos tabletes em seu relatório, e a descoberta não foi noticiada. Eyraud deixou a Ilha de Páscoa em 11 de outubro, com a saúde extremamente frágil. Ordenado oficialmente padre em 1865, ele retornou à ilha em 1866, onde morreu de tuberculose em agosto de 1868, aged 48.

Destruição[editar | editar código-fonte]

Em 1868, o bispo do Taiti, Florentin-Étienne "Tepano" Jaussen, recebeu um presente dos católicos recém-convertidos da Ilha de Páscoa. Era um longo fio de cabelo humano, talvez uma linha de pesca, envolto em um pequeno quadro de madeira coberto por escrita hieroglífica. Impressionado pela descoberta, ele escreveu ao Pai Hippolyte Roussel da Ilha de Páscoa para coletar todos os tabletes e encontrar nativos capazes de traduzi-los. Mas Roussel só conseguiu recuperar poucos, e os ilhéus não sabiam lê-los.[31]

Ainda que Eyraud tenha visto centenas de tábulas apenas dois anos antes. O que ocorreu com os tabletes perdidos é matéria de conjectura. Eyraud notara o pouco interesse de seus donos sobre os tabletes. Stéphen Chauvet reporta,

O bispo questionou o sábio Rapanui, Ouroupano Hinapote, filho do sábio Tekaki [que afirmou que] ele próprio começou os estudos requisitados e sabia como inscrever os caracteres com um pequeno dente de tubarão. Ele disse que não restou ninguém na ilha capaz de ler os caracteres desde que os peruanos causaram a morte de todos os sábios, e assim os pedaços de madeira não serviam de nada para os nativos que os queimaram como lenha ou enrolaram suas linhas de pesca neles!

A. Pinart também viu alguns em 1877. [Ele] não foi capaz de adquirir esses tabletes porque os nativos os estavam utilizando como carretéis para suas linhas de pesca!

Chauvet 1935:381–382

Orliac observou que um recuo profundo, de mais ou menos 10 cm, nas linhas 5 e 6 do reto do tablete H é uma ranhura feita esfregando um graveto produzindo fogo, mostrando que o tablete H fora usado para produzir fogo.[32] Os tabletes S e P foram cortados em tábuas para uma canoa, que se ajusta na história de um homem chamado Niari que fez uma canoa com tabletes abandonados.[33]

Como as epidemias introduzidas pelos europeus e os assaltos de escravizadores peruanos, incluindo um ataque final devastador em 1862 e uma subsequente epidemia de varíola, reduziram a população de Rapa Nui a menos de duzentas pessoas por volta de 1870, é possível que os literatos já tenham desaparecido quando Eyraud descobriu as tábulas em 1866.[note 11]

Assim, em 1868 Jaussen conseguiu recuperar apenas poucos tabletes, com mais três adquiridos pelo Capitão Gana da corveta chilena O'Higgins em 1870. Nos anos 1950, Barthel encontrou os restos de meia dúzia de tábulas em cavernas, usadas em sepultamentos. Contudo, nenhum glifo pôde ser salvo.[37] [note 12]

Dos 26 textos geralmente aceitos que sobreviveram, apenas metade se encontra em boas condições e autenticidade sem dúvidas.[39]

Trabalhos antropológicos[editar | editar código-fonte]

A arqueóloga e antropóloga britânica Katherine Routledge empreendeu em 1914–1915 uma expedição cientifica a Rapa Nui com seu marido para catalogar a arte, costumes e escrita da ilha. Ela foi capaz de entrevistar dois anciões informantes, Kapiera e um leproso chamado Tomenika, que supostamente possuía algum conhecimento de rongorongo. As sessões não foram muito frutíferas, pois os dois frequentemente contradiziam um ao outro. Daí Routledge concluiu que o rongorongo era um dispositivo idiossincrático mnemônico que não representava diretamente uma linguagem, em outras palavras, uma proto-escrita, e que os signicados dos glifos foram reformulados por cada escriba, e por isso okohau rongorongo não poderia ser lido por alguém não versado naquele texto específico. Os textos em si ela acreditou serem ladainhas para sacerdotes-escribas, mantidos à parte em casa especiais e estritamente pelos tapu, que registraram a história e a mitologia da ilha.[40] [note 13] Com os trabalhos etnográficos posteriores, como o de Métraux (1940), muito do que Routledge escreveu em suas notas foi esquecido, e a história oral mostrou uma forte influência a partir dos trabalhos publicados.

Objetos em que os textos foram inscritos[editar | editar código-fonte]

Os 26 textos rongorongo foram inscritos em objetos de madeira, cada um com entre 2 e 2320 glifos simples e componentes de glifos compostos, totalizando mais de 15000 caracteres. Os objetos são em sua maioria tabletes quadrados de madeira, com as exceções de I, possivelmente uma clava sagrada pertencente a um antigo chefe, denominada Clava de Santiago; J e L, inscritos em reimiro ornamentos peitorais usados pela elite; X, insrito em várias partes de uma estatueta de tangata manu ("homem pássaro"); e Y, uma caixa europeia decorativa feita com seções cortadas de um tablete rongorongo. Os tabletes, assim como os peitorais e estatuetas, eram obras de arte e objetos de valor, e aparentemente recebiam nomes próprios individuais da mesma forma que os ornamentos de jade na Nova Zelândia.[41] Dois dos tabletes, C e S, foram documentados antes da chegada dos missionários, embora outros possam ser igualmente ou até mais antigos. Também existem alguns glifos isolados ou sequências curtas que podem ser rongorongo.[42]

Textos clássicos[editar | editar código-fonte]

Barthel se referia a cada um dos 24 textos que ele considerava legítimos com uma letra do alfabeto; dois textos foram adicionados ao corpus desde então. As duas faces dos tabletes se distinguem pelo sufixo r (frente, da palavra recto) ou v (verso) quando a sequência de leitura pode ser averiguada. Assim Pr2 é o item P (o tablete Grande São Petersburgo), recto, segunda linha. Quando não se pode averiguar a ordem de leitura, a e b são usados para as faces. Assim Ab1 é o item A (Tahua), lado b, primeira linha. Os seis lados da caixa decorativa correspondem às letras a até f. Quase todas as publicações seguem a convenção de Barthel, apesar de um livro popular de Fischer usar um sistema próprio de numeração.

Código de Barthel Código de Fischer Apelido / Descrição Local atual Notas
A RR1 Tahua (o Remo) Roma 1825 glifos inscritos em um remo europeu ou americano de 91 cm. madeira cinza.
B RR4 Aruku kurenga 1135 glifos em um tablete acanalado de pau-rosa de 41 cm.
C RR2 Mamari 1000 glifos em um tablete não acanalado de pau-rosa de 29 cm. Contém informações sobre um calendário; mais pictográfico do que outros textos.
D RR3 Echancrée Pape‘ete 270 glifos em um tablete entalhado não acanalado de 30 cm. O tablete primeiramente dado a Jaussen, como um carretel para um fio de cabelo. Os dois lados eram escritos em sentidos diferentes. Madeira amarela?
E RR6 Keiti (Leuven) 822 glifos em um tablete acanalado de 39 cm. Destruído pelo fogo durante a Primeira Guerra Mundial. Cópias sobrevivem em Washington e Paris.
F RR7 Fragmento Chauvet Nova York[note 14] Um fragmento de 12 cm com 51 glifos toscos. Madeira de palma?
G RR8 Pequena Santiago Santiago 720 glifos em um tablete acanalado de pau-rosa de 32 cm. Talvez o verso inclua uma genealogia; não sse assemelha ao padrão dos outros textos.
H RR9 Grande Santiago 1580 glifos em um tablete acanalado de pau-rosa de 44 cm. Quase uma duplicata de P e Q.
I RR10 Clava de Santiago 2920 glifos inscritos em uma clava de 126 cm, pertencente a um antigo chefe. O texto mais longo, e o único que parece ter uma pontuação, assemelha-se apenas ao padrão de Gv e Ta entre os demais textos.
J RR20 Grande reimiro Londres Um ornamento peitoral de 73 cm decorado com 2 glifos. Pode ser antigo.
K RR19 Londres 163 glifos toscos parafraseando Gr em um tablete de 22 cm de pau-rosa.
L RR21 Pequeno reimiro Um ornamentoi peitoral de 41-cm decorado com uma linha de 44 glifos. Pode ser antigo. Pau-rosa.
M RR24 Grande Viena Viena Um tablete de pau-rosa de 28 cm em más condições de conservação. O lado b está destruído; 54 glifos são visíveis no lado a. Uma cópia anterior preserva melhor o texto.
N RR23 Pequena Viena 172 glifos intricados, toscamente parafraseandoEv, em um pedaço de 26 cm de madeira amarela.
O RR22 Berlim Berlim Pedaço de 103 cm de madeira flutuante com 90 glifos legíveis no lado a. Em má condição, nenhum glifo do lado b pode ser identificado.
P RR18 Grande São Petersburgo São Petersburgo 1163 glifos inscritos em um remo europeu ou americano de 63 cm. Madeira amarela. Pode ter sido usado como tábua. Quase duplicata de H e Q.
Q RR17 Pequena St Petersburg 718 glifos em um tronco acanalado de pau-rosa de 44 cm. Quase duplicata de H eP. Um close do Qr3–7 é mostrado no infobox.
R RR15 Pequena Washington Washington 357 glifos, quase todos em frases repetidas em outros textos, em uma peça de 24 cm.
S RR16 Grande Washington 600 glifos legíveis em um pedaço de 63 cm de madeira amarela. Fora cortado para servir de tábua.
T RR11 Honolulu acanalado Honolulu 120 glifos legíveis em um tablete acanalado de 31 cm. Em más condições, o lado b é ilegível.
U RR12 Viga de Honolulu 27 glifos legíveis em uma viga europeia ou americana de 70 cm. Em más condições. Os dois lados foram escritos em sentidos diferentes.
V RR13 Remo de Honolulu 22 glifos legíveis em um remo europeu ou americano de 22 cm. Em más condições. Uma linha de texto, mais um par separado de glifos, no lado a; traços de texto no lado b.
W RR14 Fragmento de Honolulu Um fragmento de 7 cm com 8 glifos no único lado descrito.
X RR25 Tangata manu
(Homem Pássaro de Nova York)
Nova York Uma estatueta de um homem pássaro de 33 cm com 37 glifos em sete textos espalhados de glifos superficialmente esculpidos.
Y RR5 Caixa Decorativa de Paris Paris Uma caixa de 7 cm cortada e reunida de 3 pedaços de um tablete; apenas 85 glifos toscos do lado de fora da caixa. Madeira flututante?
Z T4 Poike palimpsest Santiago Madeira flutuante? 11 cm. Aparentemente um palimpsesto; Fischer não considera genuína a camada legível do texto.

Glifos toscos foram encontrados em alguns poucos objetos de pedra e outros itens de madeira, mas muitos destes provavelmente são cópias criadas para os primeiros turistas. Alguns dos 26 textos de madeira são suspeitos devido à origem incerta (X, Y e Z), baixa qualidade na confecção (F, K, V, W, Y e Z), ou por terem sido esculpidos com lâminas de aço (K, V e Y),[note 15] e assim, ainda que se prove que são genuínos, não deveriam ser confiáveis logo nas primeiras tentativas de decifração. Z lembra diversas forjas antigas que não eram boustrophedon, mas pode ser um palimpsesto em um texto autêntico, mas agora ilegível.[43]

Textos adicionais[editar | editar código-fonte]

Junto aos petroglifos mencionados acima, existem alguns poucos textos bem pequenos e não catalogados que podem ser rongorongo. Fischer reporta que "diversas estatuetas revelam glifos rongorongo ou parecidos com rongorongo em suas coroas." Ele dá o exemplo de um glifo composto, O glifo rongorongo no mo'ai pakapaka, na coroa de uma estatueta mo‘ai pakapaka.[44] [note 16] (Apesar deste composto do glifo 002 glifo Rongorongo 2 dento do 070 glifo Rongorongo 70 não ser atestado de outra forma, é formalmente análogo a outras formas do glifo 070.) Diversas caveiras humanas estão inscritas com o glifo simples 700 glifo Rongorongo 700, que podem significar îka, "baixas em uma guerra". Há outros designs, incluindo algumas tatuagens registradas pelos primeiros visitantes, que podem ser glifos rongorongo simples, mas uma vez que são pictográficas e isoladas, é difícil saber se realmente são escrita ou não.

Glifos[editar | editar código-fonte]

A única referência publicada para os glifos que é próxima do compreensível continua sendo Barthel (1958). Barthel criou um código numérico de três dígitos para cada glifo ou similar que ele acreditava ser alógrafo (variante). No caso de alografia, o código numérico simples era dado ao que Barthel acreditava ser a forma básica (Grundtypus), enquanto variantes eram especificadas por afixos alfabéticos. Ele criou 600 códigos numéricos. A casa das centenas é um numeral de 0 a 7, e categoriza a cabeça, ou a forma geral se não houver cabeça: 0 e 1 para formas geométricas e objetos inanimados; 2 para figuras com "orelhas"; 3 e 4 para figuras com bocas abertas (elas eram diferenciadas por suas pernas/caudas); 5 para figuras com diversas cabeças; 6 para figuras com bicos; e 7 para peixes, artrópodes, etc. As dezenas e unidades eram utilizadas similarmente, assim por exemplo os glifos 206, 306, 406, 506 e 606 todos têm uma asa ou braço apontando para baixo à esquerda e uma mão com quatro dedos na direita:

Barthel code.png
O código: O primeiro dígito distingue a cabeça e formas corporais básicas, e o seis da casa das unidades indica uma forma específica de mão.

Há alguma arbitrariedade ao se agrupar alguns glifos, e há inconsistências na criação dos códigos numéricos e no uso dos afixos que deixam o sistema mais complexo.[note 17] Todavia, apesar de seus defeitos, o sistema de Barthel é o único modo efetivo já proposto para categorizar os glifos rongorongo.[45]

Barthel (1971) afirma ter aumentado o inventário de glifos para 120, dos quais os outros 480 são alógrafos ou ligaturas.[note 18] A evidência nunca foi publicada, mas figuras similares foram obtidas por outros estudiosos, como Pozdniakov & Pozdniakov (2007).

Textos publicados[editar | editar código-fonte]

Por quase um século apenas poucos textos foram publicados. Em 1875, o diretor do Museu de História Natural do Chile em Santiago, Rudolf Philippi, publicou a Clava de Santiago, e Carroll (1892) publicou parte do Remo. A maioria dos textos permaneceu além do alcance dos decifradores até 1958, quando Thomas Barthel publicou linhas de quase todos os textos conhecidos em seu Grundlagen zur Entzifferung der Osterinselschrift ("Bases para o Deciframento da Escrita da Ilha de Páscoa") que continua sendo a referência fundamental para o rongorongo. Ele transcreveu os textos A até X, mais de 99% do corpus; o CEIPP estima uma precisão de 97%. As linhas de Barthel não foram produzidas a mão livre, mas copiadas de calcografias, o que ajuda a garantir a fidelidade aos originais.[47]

Fischer (1997) publicou novas linhas. Essas incluíam linhas feitas com obsidiana, mas não terminadas com um dente de tubarão, que não foram registradas por Barthel because porque as calcografias usadas por ele não as mostravam, por exemplo no N. (Entretanto, na linha Gv4 exibida na seção instrumentos de escrita acima, as linhas leves foram registradas tanto por Fischer como por Barthel.) Existem outras omissões, como a sequência de glifos na transcrição da linha Ca6 a Ca7 que estão faltando em Barthel, presumivelmente porque a inscrição continuou para fora do lado do tablete e faltou na calcografia de Barthel. (Isso está no meio do calendário de Barthel.) Todavia, outras discrepâncias entre os dois registros são simplesmente contradições. Por exemplo, o glifo inicial de I12 (linha 12 da Clava de Santiago) em Fischer[48] não corresponde a Barthel[49] ou Philippi,[50] que concordam um com o outro, e a calcografia de Barthel (abaixo) é incompatível com a linha de Fischer. Uma anotação de Barthel, Original doch 53.76! ("original mesmo53.76!"), sugere que ele especificamente verificou a leitura de Philippi:

Além disso, o glifo seguinte (glifo 20, um "fuso com três nós") está sem o "broto" da direita (glifo 10) da transcrição de Philippi. Pode ser o resultado de um erro de impressão, pois há um espaço branco em seu lugar. O corpus portanto está carregado de algumas incertezas, e nunca foi propriamente verificado por fotografias de alta qualidade.[51]

Deciframento[editar | editar código-fonte]

Como na maioria das escritas não decifradas, há diversas interpretações estapafúrdias e traduções alegadas do rongorongo. Contudo, além da porção de uma tábula que se mostrou ter a ver com um calendário lunar, nenhum texto é compreendido. Há três obstáculos sérios para o deciframento, assumindo que o rongorongo é uma escrita verdadeira: a pequena quantidade de textos sobreviventes, a falta de contexto como ilustrações para interpretar, e o pobre conhecimento da antiga língua Rapanui, uma vez que a língua Rapanui moderna está muito misturada com o taitiano e portanto não refletiria diretamente a linguagem dos tabletes.[52]

A opinião dominante é a de que o rongorongo não é uma escrita verdadeira, mas uma proto-escrita, ou mesmo um instrumento mnemônico ainda mais limitado para genealogia, coreografia, navegação, astronomia ou agricultura. Por exemplo, o Atlas das Linguagens afirma, "Era provelmente utilizado para ajudar na memorização ou para propósitos ornamentais, não para escrever a língua Rapanui dos ilhéus".[53] Se este for o caso, então são poucas as esperanças de se decifrá-lo.[note 19] Para aqueles que acreditam se tratar de uma escrita, é debatido se o rongorongo é essencialmente logográfico ou silábico, apesar de não parecer compatível nem com uma logografia pura nem com um silabário puro.[54]

glifo 1 glifo 2 glifo 3 glifo 4 glifo 5 glifo 6 glifo 7 glifo 8 glifo 9 glifo 10 glifo 14 glifo 15 glifo 16
01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 14 15 16
glifo 22 glifo 25 glifo 27 glifo 28 glifo 34 glifo 38 glifo 41 glifo 44 glifo 46 glifo 47 glifo 50 glifo 52 glifo 53
22 25 27 28 34 38 41 44 46 47 50 52 53
glifo 59 glifo 60 glifo 61 glifo 62 glifo 63 glifo 66 glifo 67 glifo 69 glifo 70 glifo 71 glifo 74 glifo 76 glifo 901
59 60 61 62 63 66 67 69 70 71 74 76 901
glifo 91 glifo 95 glifo 99 glifo 200 glifo 240 glifo 280 glifo 380 glifo 400 glifo 530 glifo 660 glifo 700 glifo 720 glifo 730
91 95 99 200 240 280 380 400 530 660 700 720 730
Esse inventário básico do rongorongo, proposto por Pozdniakov & Pozdniakov (2007), conta com 99.7% dos textos intactos, exceto a idiossincrática Clava.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Disco de Phaistos

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. As outras são Sumerian cuneiform, Mayan glyphs, e talvez Chinese characters.
  2. a b Englert define rogorogo como "recitar, declamar, ler cantando", e tagata rogorogo (homem rongorongo) como "homem que sabia ler os textos dos kohau rogorogo, ou seja, das tábulas com signos para a recitação". É a reduplicação de um "recado, ordem ou mandato, mensagem, notícia" rongo; tagata rogo é um "mensageiro"[1]
    Kohau são definidas como "linhas traçadas com uma corda (hau) sobre tabletes ou bastões para a inscrição de signos.[1]
    A palavra Rapanui rongo /ɾoŋo/ possui cognatos em diversas outras línguas austronésias, do malaio dengar /dəŋar/ ao fijiano rogoca /roŋoða/ e o havaiano lono /lono/, palavras que significam "ouvir", "escutar", etc.
  3. Barthel testou isso experimentalmente, e Dederen (1993) reproduziu alguns tabletes nesse modelo. Fischer comenta,[14]

    No tablete Grande São Petersburgo ([P]r3) [...] o traçado original com um fragmento de obsidiana descreve o bico de um pássaro idêntico a um anterior; mas ao aprofundar, o escriba reduz esse bico a uma forma bem mais bulbosa [...] uma vez que agora ele estava trabalhando com dente de tubarão. Há diversos sinais estranhos assim no "Grande São Petersburgo" [tablete P]. A escrita rongorongo é uma "escrita de contornos" (Barthel 1955:360) [...] com várias linhas internas e externas, círculos, travessões e pontos [...] Normalmente essa característica está mais presente nos esboços em obsidiana, desaparecendo na versão final feita de dente de tubarão. Isso é particularmente evidente no tablete "Pequena Viena" [tablete N].

  4. Por exemplo, Métraux escreveu sobre o tablete V em 1938, "sua autenticidade é duvidosa. Os sinais parecem ter sido feitos com aço, e não apresentam a regularidade e beleza que caracterizam os tabletes originais".[18] Imitações de tabletes eram feitas para turistas a partir dos anos da década de 1880.
  5. No entanto, glifos representando galinhas ou galos não são encontrados, apesar de galinhas serem a base da economia e alguns tabletes supostamente comemorarem "quantos homens [um chefe] matou, quantas galinhas roubou".[20]
  6. "A idade convencional obtida por radiocarbono[...] é 80 ±40 BP e a idade por calibração 2-sigma (95% de probabilidade) é Cal AD 1680 a Cal AD 1740 (Cal BP 270 a 200) e Cal AD 1800 a 1930 (Cal BP 150 a 20) e AD 1950 a 1960 (Cal BP 0 a 0); de fato, esse rongorongo foi coletado em 1871 [então a data posteriro pode não ser correta]."[23]
  7. Mamari é 19.6 cm (7½") amplo e inclui seiva nas suas bordas; um tronco daquele diâmetro corresponde à altura máxima de pau-rosa do Pacífico, 15 m.
  8. Seguindo a lista de Jaussen,[25] que a identificou como coqueiro niu, uma espécie não introduzida pelo contato com os europeus.
  9. a b See image. Outros exemplos de petroglifos similares a caracteres rongorongo podem ser vistos aqui e aqui.
  10. Dans toutes les cases on trouve des tablettes de bois ou des bâtons couverts de plusieurs espèces de caractères hiéroglyphiques: ce sont des figures d'animaux inconnues dans l'île, que les indigènes tracent au moyen de pierres tranchantes. Chaque figure a son nom; mais le peu de cas qu'ils font de ces tablettes m'incline à penser que ces caractères, restes d'une écriture primitive, sont pour eux maintenant un usage qu'ils conservent sans en chercher le sens.
  11. Métraux (1940) reporta que, "A presente população de 456 é inteiramente derivada dos 111 nativos restantes após o abandono da ilha pelos missionarios franceses em 1872."[34] No entanto, Routledge (1919) estima uma população de 171 após uma evacuação liderada pelo Pai Roussel em 1871, a maioria homens velhos,[35] e Cooke (1899) sustentam que a evacuação de mais ou menos 300 ilhéus ocorreu em 1878, que "Quando o H. M. S. Sappho tocou a ilha em 1882, reportou que apenas 150 habitantes ficaram na ilha", e dão o sumário de um censo completo recebido de Salmon em 1886 que listava 155 nativos e 11 estrangeiros.[36]
  12. Fischer traduz Barthel, referindo-se a quatro desses tabletes: A julgar pela forma, tamanho e tipo de manutenção pode-se dizer com um alto grau de certeza que esses tabletes foram dados em dois sepultamentos.[38]
  13. Entretanto, Pozdniakov & Pozdniakov (2007) acreditam que a natureza limitada e repetitiva dos textos os impede de registrar algo tão diverso como história ou mitologia.
  14. Na coleção da Galeria Merton D. Simpson.
  15. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas a.C3.A7o
  16. Ou talvez mo‘ai pa‘apa‘a. Catalog # 402-1, soletrado моаи папа, no museu de São Petersburgo.
  17. RONGORONGO: Códigos de transliteração www.rongorongo.org. Visitado em 2008-06-09.
  18. 55 seriam requeridos para um silabário puro, assumindo que vogais longas eram ignoradas ou tratadas como sequências de vogais.[46]
  19. Outros exemplos de proto-escrita, como a escrita Dongba da China, provaram-se impossíveis de ler sem ajuda. Contudo, a conclusão original de que o rongorongo não é uma linguagem pode ter se baseado em estatísticas espúrias. Veja para detalhes.

Referências[editar | editar código-fonte]

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  3. Fischer 1997:667
  4. Fischer 1997:ix
  5. Fischer 1997:382
  6. Skjølsvold 1994, como citado em Orliac 2005
  7. Fischer 1997:483
  8. Fischer 1997:497
  9. Fischer 1997:382–383; ver também decifração do rongorongo
  10. Barthel 1971:1168
  11. Fischer 1997:386
  12. Fischer 1997:353
  13. Métraux 1940:404
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  22. Cooke 1899:712, Englert 1970:149–153
  23. a b c Orliac 2005
  24. Flenley & Bahn 1992:172
  25. Veja p 5
  26. As datas médias seriam 1200–1250 e 1180–1290. Mann et al. 2008
  27. Por exemplo, Flenley & Bahn 1992:203–204
  28. Bahn 1996
  29. Lee 1992
  30. Eyraud 1886
  31. Fischer 1997:21–24
  32. Orliac 2003/2004:48–53
  33. Routledge 1919:207
  34. Métraux 1940:3
  35. Routledge 1919:208
  36. Cooke 1899:712
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  39. Fischer 1997:Appendices
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  42. Fischer 1997
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  45. Pozdniakov 1996:294
  46. Macri 1995; ver também Língua Rapanui
  47. Guy 2000
  48. Fischer 1997:451
  49. Barthel 1958: Apêndice
  50. Philippi 1875
  51. Guy 1998a
  52. Englert 1970:80
  53. Comrie et al. 1996:100
  54. Pozdniakov & Pozdniakov, 2007

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]