Jean-Baptiste Roustaing

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Jean-Baptiste Roustaing (Bègles, 15 de outubro de 1805 - Bordeaux, 2 de janeiro de 1879) foi advogado, jurisconsulto, bastonário da Ordem do Advogados de Bordeaux e autor de diversos trabalhos jurídicos. Espírita francês, foi o coordenador da obra Les Quatre Évangeles – Spiritisme Chrétien ou Révélation de la Révélation ("Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação|Os Quatro Evangelhos - Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação'"), obra psicografada pela médium belga Émilie Collignon.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Fac-símile do registro de nascimento de Jean-Baptiste Roustaing,1805, França.

À época de Roustaing, até os dias atuais, ainda é comum a utilização de cognomes entre os familiares franceses. No caso de Jean-Baptiste Roustaing, ele teve o cognome St. Omer. Foi filho de François Roustaing, negociante, e de Margueritte Robert. Teve três irmãos: Joseph, Alfred (provavelmente um cognome) e Jeanne.

Jean-Baptiste Roustaing teve uma juventude repleta de dificuldades, obrigando-o, desde cedo, a trabalhar para que pudesse custear seus estudos. Essas vicissitudes o acompanharam até a vida adulta, chegando a afetar-lhe a saúde. Concluiu os estudos iniciais no Collège Royal de Bordeaux, tendo seguido para Toulouse, para cursar Direito. Esgotados os recursos da família, lecionou literatura, ciências, filosofia e matemáticas especiais, a princípio em Toulon, onde residiu de 1823 a 1826. Conseguiu, desse modo, o diploma em Direito. Estagiou em Paris, de 1826 a 1829, vindo a ingressar na advocacia por volta de 1830, conforme registrou o presidente da Ordem dos Advogados de Bordeaux, o Dr. R. Brouillaud, em 1971.

Anos mais tarde, retornou para Bordeaux, fixando-se em definitivo. Em 3 de agosto de 1847, inscreveu-se na Ordem dos Advogados de Bordeaux. Foi eleito bastonário daquela instituição, em 11 de agosto de 1848, para o ano judiciário de 1848-1849. Este título é conferido ao advogado de maior saber jurídico e de reconhecida probidade pessoal e profissional. Sua cultura e saber, também, alçaram-no jurisconsulto. Foi indicado secretário do Conselho para o ano de 1852-1853. Em 24 de agosto de 1850 casou com sua prima e viúva, sem filhos do primeiro matrimônio, Elisabeth Roustaing. Em 2 de agosto de 1855, deixou as funções administrativas da Ordem.

Em 1858, acometido de grave enfermidade, após 30 anos de labor, é obrigado a se afastar das atividades profissionais. Porém, mesmo assim, permanecendo com advogado consultor. Restabelecido, retorna aos trabalhos de advogado, em 1861. Roustaing também se dedicou às ações beneficentes, de modo especial em Bordeaux e, também, no distrito de Targon, na região de Entre-deux-Mers, onde possuía na comuna rural de Arbis, uma propriedade, adquirida em 1855. Conforme seus discípulos e amigos registraram na obra Les Quatre Évangiles de J.-B. Roustaing. Réponses à ses Critiques et à ses Adversáires, Bordeaux e Paris, 1882, Roustaing foi um "homem de coração simples e de espírito humilde."

Jean-Baptiste Roustaing faleceu no dia 2 de janeiro de 1879, tendo seu sepultamento ocorrido no cemitério da Chatreuse, no jazigo Gautier. Não deixou descendentes. Diante do jazigo, usou da palavra o sr. Battar (discurso registrado no Journal de Bordeaux, do dia 06 de janeiro de 1879), então bastonário da Ordem dos Advogados de Bordeaux, que fez extenso elogio do colega, ressaltando-lhe as qualidades de excepcional advogado e de conhecido benfeitor no campo da caridade prestada aos pobres e doentes.

Contato com o Espiritismo[editar | editar código-fonte]

Roustaing esteve afastado da advocacia, por motivo de doença, de 1858 a 1861. Neste período travou contacto com o fenómeno das mesas girantes e das comunicações com os espíritos, estudados à época por Allan Kardec, que publicou O Livro dos Espíritos, em (1857) e O Livro dos Médiuns, em (1861). Como Kardec, Roustaing também mostrou cepticismo, antes de estudar o assunto profundamente.

"Minha primeira impressão foi a de incredulidade devida à ignorância, mas eu bem sabia que uma impressão não é uma opinião e não pode servir de base ao julgamento; que, para isso, é necessário, antes de tudo, nos coloquemos em situação de falar com pleno conhecimento de causa. (…) Sabia e sei ainda ser ato de insensatez aprovar ou repudiar, afirmar ou negar o que se não conhece em absoluto, ou o que se não conhece bastante, o que se não examinou suficientemente e aprofundou sob o duplo ponto de vista teórico e experimental, na medida das faculdades próprias, sem prevenções, sem idéias preconcebidas." (in: Os Quatro Evangelhos (5ª ed., vol. I). Rio de Janeiro, FEB, 1971. p. 58.)

Ainda esclareceu:

"Com a minha vida inteira irresistivelmente presa à pesquisa da verdade, na ordem física, moral e intelectual, deliberei informar-me cientificamente, primeiro pelo estudo e pelo exame, depois pela observação e pela experimentação, do que haveria de possível, de verdade ou de falso nessa comunicação do mundo espiritual com o mundo corpóreo, nessa doutrina e ciência espíritas." (op. cit. p.59)

Assim, leu primeiramente O Livro dos Espíritos, aceitando-o na íntegra como revelação lógica e racional. Depois, O Livro dos Médiuns, aceitando-o igualmente. Após estudar e examinar estas obras, debruçou sobre a História, desde sua origem até os dias contemporâneos, buscando os registros oficiais sobre as comunicações entre o mundo espiritual e o mundo corporal. Consultou os livros de filosofia profana e religiosa, desde os antigos, ao século XVIII. Também pesquisou os textos dos prosadores e poetas, objetivando analisar as crenças e costumes dos tempos, com relação a imortalidade e comunicações com espíritos. Perlustrou o Antigo e o Novo Testamento, como nunca fizera outrora. Ao final, reconheceu que:

"ser um fato a comunicação do mundo espiritual com o mundo corporal, comunicação que na ordem divina, providencial, é instrumento de que se serve Deus para enviar aos homens a luz e a verdade adequadas ao tempo e às necessidades de cada época, na medida do que a Humanidade, conforme o meio em que se acha colocada, pode suportar e compreender, como condição e elemento do seu progresso." (op. cit. pp. 59-61)

Sobre O Livro dos Espíritos, escreveu:

"(…) uma moral pura, uma doutrina racional, de harmonia com o espírito e progresso dos tempos modernos, consoladora para a razão humana; a explicação lógica e transcendente da lei divina ou natural, das leis de adoração, de trabalho, de reprodução, de destruição, de sociedade, de progresso, de igualdade, de liberdade, de justiça, de amor e de caridade, do aperfeiçoamento moral, dos sofrimentos e gozos futuros." (op. cit., p. 58.)

No sentido de conhecer os fenómenos, aproximou-se do grupo familiar de Émile A. Sabò,[1] em Junho de 1861, onde, seis meses mais tarde, iria conhecer o casal Emilie e Charles Collignon. Émilie Collignon seria a médium que viria a psicografar a obra Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação.

Findo o período de estudos, análises e reconhecimentos, constatou que já havia, em algumas famílias da cidade de Bordeaux, médiuns com as quais ele pode se relacionar. Assim, deu início a uma segunda fase, agora experimental, cujos os trabalhos de experimentação e observação foram diários. Após este período, concluiu Roustaing:

"Ao cabo dessa obra de experimentação e de observação no terreno das manifestações inteligentes, às quais se vieram juntar-se as manifestações físicas no terreno material, achei-me convencido de que a comunicação do mundo espiritual com o mundo corporal é uma das leis da Natureza". (op. cit. p.63)

Deste período, Roustaing registrou, em carta à Kardec:

"Depois de ter estudado e compreendido, eu conhecia o mundo invisível como conhece Paris quem a estudou sobre o mapa. Pela experiência, trabalho e observação continuada, conheci o mundo invisível e seus habitantes como quem a percorreu, mas sem ter ainda penetrado em todos os recantos desta vasta capital. Não obstante, desde o começo do mês de abril, graças ao conhecimento que me proporcionastes, do excelente sr. Sabò e de sua família patriarcal, todos bons e verdadeiros espíritas, pude trabalhar e trabalhei constantemente todos os dias com eles ou em minha casa, e na presença e com o concurso de adeptos de nossa cidade, que estão convictos da verdade do Espiritismo, embora nem todos sejam ainda, de fato e praticamente, espiritas." (Carta de Roustaing a Kardec. Revista Espírita, Junho de 1861)

Ainda em dezembro de 1861, quando do segundo encontro com Collignon, Roustaing recebe uma mensagem psicografada pela médium. Semelhante ao que ocorrera com Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec), quando findou seus estudos e análises sobre as comunicações e fenômenos espirituais, Roustaing era concitado pela espiritualidade a sua tarefa missionária. Assim, de imediato, Jean-Baptiste Roustaing dá início a sua missão de coordenador, de todo o material que seria psicografado sobre os Evangelhos, os Dez Mandamentos e Jesus, através da mediunidade de Émilie Collignon. Em maio de 1865, já com todo o material preparado, recebe instrução dos espíritos que o assistiam, para a publicação da obra. O trabalho recebe o título sugerido pelos espíritos: Os Quatro Evangelhos – Espiritismo Cristão. Sendo que Roustaing adiciona, sem consultar os espíritos, o subtítulo: “ou Revelação da Revelação”. Expressão encontrada no bojo do trabalho (op. cit. pp. 64 e 65)

A elaboração da obra estendeu-se de dezembro de 1861 a maio de 1865 (3 anos e 5 meses). O lançamento foi nos dias 5 de abril (2 volumes) e 5 de maio (último volume) de 1866, conforme anúncios feitos por Auguste Bez em L'Union Spirite Bordelaise. Ignora-se quantos exemplares foram então impressos.[2]

Os Quatro Evangelhos – Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação[editar | editar código-fonte]

Frontispício da primeira edição de Les Quatre Évangiles (Paris, 1866).

Os Quatro Evangelhos – Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação é uma obra psicografada pela médium belga Émilie Collignon que, conforme os originais franceses, é de autoria dos espíritos dos quatro evangelistas, assistidos pelos apóstolos e por Moisés, tendo sido coordenada pelo jurisconsulto francês Jean-Baptiste Roustaing[3]

Foi publicada originalmente em Paris, em 1866, em três volumes, sob o título Les Quatre Évangiles – Spiritisme Chrétien ou Révélation de la Révélation, pela editora Imprimerie Lavertujon. O Tomo Primeiro possuía 494 páginas, o Tomo Segundo tinha 703 páginas e o Tomo Terceiro, 654 páginas.

Os Quatro Evangelhos aborda aspectos sobre a utilização e o envolvimento do magnetismo humano e espiritual em diversos episódios em que Jesus e os apóstolos os empregaram no tratamento de diferentes enfermidades[4] . A obra explica, segundo os autores espirituais que assinaram os originais franceses, os Dez Mandamentos de Moisés e todos os eventos e parábolas oriundos da pregação de Jesus Cristo. Também, segundo os autores espirituais que assinaram os originais franceses, explica a origem e a evolução do espírito, bem como a necessidade da encarnação em planetas primitivos ou de expiação como consequência da chamada "queda espiritual". Aborda, ainda, a origem e as leis naturais que regem a formação de um corpo perispiritual no caso específico de Jesus, e todos os atributos desse corpo chamado "fluídico" no planeta Terra.

Críticas de Allan Kardec[editar | editar código-fonte]

Na "Revue Spirite" de junho de 1866, Allan Kardec assim se refere à obra de Roustaing:

"É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo."

Afirmando, no entanto, algumas linhas depois, aquilo que caracteriza o rigor com o qual foi elaborada toda a obra fundamental da Codificação:

"Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita."

Após a desencarnação de Kardec e Roustaing, ambos deram presença em reunião espírita. O acontecimento foi registrado à pagina 563, da Revue Spirite, de dezembro de 1883. [5]

"... seu espírito (mme. Boudet), o do Mestre (A. Kardec), os de todos os mortos amados, todos esses da primeira hora, Jobard, Samson, Costeau, Hobach, Sonudra, Didier, d'Ambel, Morin, J-B Roustaing, Coutenceau, Collard, Bernardeau, prince de Wittgenstein, Rossignol, Guilbert, Mlle. Lieutand, M.M. Larré, Barroux, Monvoison e centenas de outros assistiam em espírito a esta bela sessão."

Em agosto de 1913, o espírito Allan Kardec transmitiria mensagem mediúnica, através da médium Zilda Gama, com relação ao status evolutivo de Jesus e o corpo fluídico dele (trecho da comunicação publicada integralmente no livro “Diário dos Invisíveis”, Ed. Pensamento, 1929):

"Afirmo, agora, baseado nas verdades transcendentes, que Jesus, o Emissário divino, foi o Ente mais evoluído, da mais alta estirpe sideral que já baixou à Terra, em cumprimento de uma incumbência direta do Pai Celestial, e, portanto, o que houve de anormalidade em sua existência não foi uma seleção parcial feita por Deus, mas uma justa homenagem que lhe era devida ao próprio mérito.
"Nós, distanciados como estamos de sua perfectibilidade, não gozamos das mesmas regalias ou prerrogativas que lhe foram outorgadas, mas podemos adquiri-las, em séculos e milênios de dedicação, labor, esforço próprio, prática de todas as virtudes. Era, pois, Jesus, já naquela época - a do início do Cristianismo - uma personalidade superior, que, para bem desempenhar sua missão planetária, teve de tecer suas vestes tangíveis, com as quais ofuscou o brilho de sua alma radiosa, constituída de eflúvios cósmicos, que se solidificaram, que se aderiram ao mediador plástico, dando-lhe a aparência de materialidade, mas que podiam ser dissolvidos ao influxo de sua vontade."[6]

Polêmica sobre a obra[editar | editar código-fonte]

A polêmica filosófica em torno dos conteúdos da obra, originando adeptos e opositores, iniciou-se logo após a publicação dos comentários de Allan Kardec quando fez seu registro bibliográfico na Revue Spirite de junho de 1866.

"Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a ideia espírita.
O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por consequência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas partes integrantes da doutrina espírita.
Quando tratarmos destas questões, fá-lo-emos decididamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria. É assim que temos feito, todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Dissemo-lo cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual. Nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritas?
Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livro dos Espíritos e do dos Médiuns. Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de fato um agênere. Aos olhos dos homens que não tivessem então podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado em aparência, expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, para todas as vicissitudes da humanidade. Assim seria explicado o mistério de seu nascimento: Maria teria tido apenas as aparências da gravidez. Posto como premissa e pedra angular, este ponto é a base em que se apoia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.
Nisso nada há de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do envoltório perispiritual. Sem nos pronunciarmos pró ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errada, em falta de base todo o edifício desabaria. Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.
Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com fruto pelos Espíritas sérios.
Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade." (Revue Spirite, Junho de 1866, pp. 188 a 190)

Essa polêmica, nomeadamente na História do espiritismo no Brasil, colocou em campos opostos dois grupos de seguidores da doutrina codificada por Allan Kardec. Baseados na opinião pessoal de Kardec, exposta em A Gênese (1868), os que não aceitam a obra de Roustaing alegam:

  1. A questão nº 133 de O Livro dos Espíritos afirma que a encarnação é uma necessidade e todos os espíritos têm que ser submetidos a ela, desde a sua origem, a fim de aprender e evoluir.
  2. Jesus encarnou na Terra como qualquer outro espírito, e seu corpo, por conseguinte, era igual ao de todos os humanos, gerado pela lei da gestação normal.
  3. Se Jesus não tivesse um corpo igual ao de todos, seus sofrimentos seriam uma farsa.
  4. "Os Quatro Evangelhos", de Roustaing, explicam que os espíritos que faliram pelo ateísmo, pelo orgulho e pelo egoísmo encarnaram em mundos primitivos como criptógamos carnudos, o que representa a doutrina da metempsicose.

Os espíritas adeptos de Kardec e Roustaing, ou seja, que também aceitam como revelação as explicações contidas em Os Quatro Evangelhos, em contrapartida alegam:

  1. A questão nº 133, de O Livro dos Espíritos, é uma verdade, porém, referente aos espíritos que faliram e que, por isso, têm necessariamente de encarnar. A encarnação é uma reparação dos delitos praticados e uma necessidade de evolução. O Livro dos Espíritos não explica, em nenhuma questão, a origem do espírito e os motivos da primeira encarnação[carece de fontes?].
  2. Jesus, sendo espírito puro, não poderia estar submetido à encarnação humana, dada a impossibilidade dessa condição evolutiva com as conhecidas (até agora) leis de gestação normal no planeta Terra. Ele era um "agênere", vocábulo criado pelo próprio Kardec para designar espíritos como por exemplo Rafael, que, materializado durante quase um ano inteiro, acompanhou Tobias na Terra, comendo, bebendo e falando como uma pessoa comum encarnada. O Livro dos Espíritos, que é também base da crença dos que defendem Roustaing, não cogita, em nenhuma questão, da formação corpórea de Jesus na Terra[carece de fontes?]; ela é abordada por Kardec apenas em A Gênese, que deu a respeito sua opinião pessoal, sem consultar os espíritos superiores[carece de fontes?].
  3. Jesus sofreu muito mais do que qualquer outro ser humano, sendo as suas maiores dores as de natureza moral e espiritual; além disso, o seu corpo apresentou todos os sinais das agressões físicas que lhe impuseram[carece de fontes?]. Se no sofrimento valesse apenas a dor material, Maria nada teria sofrido. A dor material pode ser superada por qualquer espírito, como exemplifica O Livro dos Espíritos, na questão nº 483.
  4. Os Quatro Evangelhos não pregam a metempsicose (vol. 1, questão 58), negada em suas páginas, onde apenas está feita apenas uma comparação, mesmo recurso de linguagem usado por André Luiz na obra Evolução em Dois Mundos (tópico "Parasitas Ovóides", do cap. XV, p. 117 da edição da FEB de 1959), quando fala de espíritos encarnados que podem ser comparados à Sacculina carcini, um organismo parasita[7] . O termo "criptógamo carnudo", aplicado pelos espíritos em Os Quatro Evangelhos, foi adaptado e retirado de nomenclatura da época de Kardec e de Roustaing, oriunda da Biologia incipiente, à falta de qualquer outro que melhor explicasse o corpo humano rudimentar de espíritos encarnados em mundos primitivos. Assim, os espíritos criaram um híbrido - "criptógamo carnudo" - para que não houvesse dúvida de que não se tratava de metempsicose, com espíritos encarnando em animais ou plantas.[8]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Uma coleção do original de Os Quatro Evangelhos chegou ao Brasil em 1870, pelas mãos de Luís Olímpio Teles de Menezes, fundador do primeiro centro espírita do país - o Grupo Familiar de Espiritismo (Salvador, 1865)[9] . As obras de Kardec eram então ainda estudadas no francês. Outro pioneiro do espiritismo no país, que promoveu a difusão da obra organizada por Roustaing, foi o professor Casimir Lieutaud, fundador do Colégio Francês, no Rio de Janeiro[10] . Nesta última cidade, foi constituída a Sociedade de Estudos Espiríticos - Grupo Confúcio (1873), que teve papel expressivo na difusão da doutrina espírita à época. Nela, além do estudo das obras de Allan Kardec, também era feito o estudo de Os Quatro Evangelhos, embora não de forma sistemática[carece de fontes?]. Posteriormente, Antônio Luís Sayão fundou o Grupo dos Humildes (1880), depois Grupo Ismael, que também adotaria o estudo da obra de Roustaing[carece de fontes?]. Em 1883, Augusto Elias da Silva fundou o Reformador, periódico quinzenal cujo conteúdo assentava no binômio Kardec-Roustaing[carece de fontes?]. Em 1884, com a fundação da Federação Espírita Brasileira (FEB), onde, desde os primórdios, foi estudada e divulgada a obra de Roustaing[carece de fontes?], o Reformador passou a ser o órgão oficial de divulgação da FEB.

Bezerra de Menezes, em 1889, então presidente da FEB, transferiu o Grupo Ismael para as suas dependências, o qual se constituiu na célula espiritual da Casa Máter do Espiritismo, como é conhecida nos dias atuais. Quando Bezerra de Menezes assumiu pela segunda vez a presidência da FEB (1895), formalizou estatutária e legalmente a obrigatoriedade do estudo e da divulgação da revelação coordenada por Roustaing e contida em Os Quatro Evangelhos[11] .

A primeira edição de "Os Quatro Evangelhos" em língua portuguesa veio a público em 1909, no Rio de Janeiro, editada em três volumes pela FEB. Francisco Raimundo Ewerton Quadros, o seu primeiro presidente, foi quem verteu a obra para o vernáculo, publicando-a inicialmente em série, nas páginas do Reformador (dezembro de 1907, pp. 391-393). A partir de 1920, com tradução de Guillon Ribeiro, a obra passou a ter quatro volumes, com apostilas à margem de cada página, acrescentadas pelo tradutor a fim de facilitar a localização dos assuntos[12] .

A formação da FEB e o Espiritismo no Brasil[editar | editar código-fonte]

Alguns autores defendem a tese de que seguidores de Kardec e Roustaing foram fundamentais na formação da Federação Espírita Brasileira e em como o Espiritismo se estruturou no Brasil.[13] Por outro lado, os adversários de Roustaing, afirmam que a obra de Allan Kardec foi deturpada pelos chamados rustenistas.[14]

Este embate de pureza doutrinária é antigo e existe desde a fundação da FEB e, em 2003, tomou vias judiciais com o jornalista e escritor kardecista/rustenista Luciano dos Anjos entrando na justiça contra a reforma estatutária da instituição. Setores anti-Roustaing, do movimento espírita brasileiro, tentam há anos abolir a bibliografia do coordenador de Os Quatro Evangelhos da entidade.[15] Os defensores do binômio Kardec-Roustaing defendem que o estudo das obras dos dois missionários, se trata de cláusula pétrea do estatuto da FEB, porque desde a fundação da instituição, O Livro dos Espíritos e Os Quatro Evangelhos foram sempre estudados em conjunto.

Os adversários de Roustaing consideram que a pureza da doutrina espírita foi comprometida, porque a obra coordenada por ele, não foi aferida pelo critério da universalidade do ensino, metodologia defendida por Kardec. Portanto, não teria nenhum valor, além de opinião pessoal dos espíritos que as ditaram.[13] Em contrapartida, os adeptos do binômio Kardec-Roustaing argumentam que somente a maioria nunca foi critério de verdade. Caso a metodologia de verificação, proposta por Kardec, fosse a única para aferir a universalidade do ensino, O Livro dos Espíritos estaria comprometido quanto ao ensinamento da reencarnação. Haja vista, a grande maioria das manifestações (psicografia e psicofonia) dos espíritos da Inglaterra, Escócia, Irlanda, Canadá e Estados Unidos da América negam a reencarnação. Por causa disto e de outras situações similares com relação ao O Livro dos Espíritos, Kardec considerou que a aplicação da razão e da lógica fossem critérios para aceitar ou rejeitar uma verdade transmitida por manifestações de espíritos. Allan Kardec já expusera essa ressalva, na Revista Espírita de maio de 1866, pág. 138 da tradução portuguesa, quando aludiu à marcha progressiva do espiritismo.

Aceitando todas as idéias novas fundadas na razão e na lógica, desenvolvendo-as e fazendo surgirem outras desconhecidas, seu futuro está assegurado.

Na Revista Espírita de agosto de 1867, também da tradução portuguesa, pág. 234, Kardec reforça:

É a universalidade do ensino, aliás sancionado pela lógica, que fez e que completará a doutrina espírita. [16]

Roustaiguismo[editar | editar código-fonte]

Roustaiguismo ou Rustenismo são termos utilizados no movimento espiritualista brasileiro para designar o conjunto de ideias apresentadas na obra "Os Quatro Evangelhos - Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação". Em consequência, também, são utilizados os termos Roustainguista ou Rustenistas para designar aqueles que aceitam essas ideias. Estes são os que, além de discípulos de Allan Kardec, são seguidores de Jean-Baptiste Roustaing.

Referências

  1. Émile A. Sabò, era contador e chefe da contabilidade da Companhia Estradas de Ferro do Sul. Foi o fundador da "Société Spirite de Bordeaux" (1861) e do jornal "La Ruche Spirite Bordelaise" (1863). Em 1865, afastou-se da Sociedade e do jornal para assumir, em Paris, o cargo de secretário particular de Kardec (in: "La Ruche Spirite Bordelaise", maio de 1865)
  2. Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação/Os Quatro Evangelhos
  3. Os Quatro Evangelhos Tradutor: Guillon Ribeiro Editora: Federação Espírita Brasileira
  4. Os Quatro Evangelhos
  5. Kardec e Roustaing juntos http://www.casarecupbenbm.org.br/museu/museu20.htm
  6. Zilda Gama, mensagem de Kardechttp://aron-um-espirita.blogspot.com.br/2011/03/mensagem-do-espirito-de-allan-kardec.html
  7. Parasitahttps://en.wikipedia.org/wiki/Sacculina
  8. ANJOS, Luciano dos. Para Entender Roustaing. São Paulo: Ed. Lachâtre, 2005. pp. 30 a 83.
  9. GP Religiões afro-brasileiras e Kardecismo – Comunicação: O Reformador espírita e o ciberespaço, por Mateus Ibanhi Pires, UNESP, campus Assis-Sp
  10. ANPUH – XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Londrina, 2005
  11. Kardec e o Espiritismo no Brasil 2ª Parte
  12. As duas tiragens da Revelação da Revelação
  13. a b http://www.espirito.org.br/portal/artigos/gebm/roustaing-inimigo.html
  14. http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf/st8/Amorim,%20Pedro%20Paulo.pdf
  15. Opinião Ano Xviii. Página visitada em 2 de Abril de 2010.
  16. Universalidade do ensino não é o critério fundamental. Grupo dos Oito. Página visitada em 09 de abril de 2010.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

AMORIM, Pedro Paulo. O Roustanguismo em Santa Catarina (1945-2004). in: Anais da 6ª Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis: 16 a 19 de Maio de 2007.

ANJOS, Luciano. Para Entender Roustaing. Ed. Lachâtre, Bragança Paulista, SP, 2005.

ANJOS, L.Jean-Baptiste Roustaing - O Missionário da Fé. Ed. AEEV, Volta Redonda,RJ, 2002.

GUILLET, J.E., La Chute Originelle selon le Spiritisme. Paris: Librairie des Sciences Psychologiques, 1884.

KARDEC, Allan. Revista Espírita, de maio de 1866, pág. 138.

KARDEC, Allan. Revista Espírita, de agosto de 1867, pág. 234

MARTINS, Jorge Damas & BARROS, Stenio Monteiro de (organizadores). Jean-Bpatiste Roustaing - Apóstolo do Espiritismo. Ed. CRBBM, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

ROUSTAING, Jean-Baptiste.Os Quatro Evangelhos - Espirtismo Cristão ou Revelação da Revelação, 5ª ed., Ed. FEB, Rio de Janeiro, 1971.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]