Ruth Benedict

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Ruth Benedict em 1937

Ruth Benedict, nascida Ruth Fulton, (Nova Iorque, 6 de Junho de 1887 — Nova Iorque, 17 de setembro de 1948) foi uma antropóloga americana.

Ela nasceu na cidade de Nova Iorque, tendo estudado no Vassar College, onde se formou em 1909. Iniciou sua graduação na Universidade de Columbia em 1919. Lá entrou em contato com Franz Boas e se tornou PhD. Em 1923 tornou-se membro da mesma universidade. Margaret Mead, com quem manteve relacionamento amoroso, e Marvin Opler foram alguns de seus colegas e alunos. Franz Boas, seu professor e orientador, considerado o pai da antropologia americana, teve seus pontos de vista manifestos em Ruth Fulton Benedict. São de autoria de Boas muitos trabalhos clássicos, inclusive “Raça, Linguagem e Cultura” – provavelmente o mais veemente texto anti-racista a surgir do mundo acadêmico em sua época. Sobre este tema ela provou que esses três aspectos são independentes: raça, linguagem e cultura. Depois de Boas tornou-se impossível falar que qualquer raça é inferior, incapaz de se aproveitar daquilo que de mais elevado culturalmente a humanidade tem a oferecer, e ser seriamente levado em consideração.

"Padrões de Cultura"[editar | editar código-fonte]

O livro Padrões de Cultura (1934) foi traduzido para quatorze idiomas e publicado em diversas edições como leitura introdutória em muitos cursos de antropologia em universidades americanas por muitos anos. A ideia central de “Padrões de Cultura” é, na opinião de Margaret Mead “a visão que ela teve das culturas humanas como ‘grande regulamento de personalidade’ ”. Cada cultura, explica Benedict, seleciona dentro da “grande gama das potencialidades humanas” algumas poucas características aceitas como formas adequadas de conduta das pessoas que fazem parte dessa cultura. Por exemplo, ela descreveu a ênfase na “restrição” nas culturas dos povos Pueblo do sudoeste americano, e a ênfase no “desprendimento” nas culturas nativas das Grandes Planícies americanas. Ela descreveu como na Grécia Antiga a adoração a Apolo destacava a ordem e a calma em suas celebrações. Em oposição a isto, os adoradores de Dionísio, o deus do vinho, enfatizaram a vida em estado selvagem, o despojamento e a despreocupação com os rumos dos acontecimentos. Isto não estava ausente nas culturas nativas das Américas. Descreveu em detalhes os contrastes entre rituais, crenças, preferências pessoais de povos de diferentes culturas para mostrar o quanto cada cultura tinha uma “personalidade” que era estimulada em cada indivíduo.

Outros antropólogos da escola da “cultura e personalidade” enveredaram por esse raciocínio – notavelmente Margaret Mead em “Coming of Age in Samoa” (Chegando à Maioridade em Samoa) e “Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas”. Abram Kardiner foi influenciado por essas ideias, e nesse momento nasceu o conceito de “personalidade modelo”: o conjunto de características que se pensou observar em pessoas de qualquer cultura dada.

Benedict, em “Padrões de Cultura”, expressa sua confiança no relativismo cultural. Sua pretensão foi demonstrar que cada cultura possui seus próprios imperativos morais, que só poderiam ser compreendidos se se estudasse a cultura como um todo. Ela percebeu que seria errado menosprezar os costumes ou valores de uma cultura diferente da nossa. Tais costumes teriam um significado para as pessoas que os adquiriram que não deveriam ser julgados apressada ou superficialmente. Não deveríamos tentar avaliar um povo somente com nossas referências. Moralidade, conclui ela, é relativa.

Ao escrever sobre os Kwakiutls da Costa Noroeste, os Pueblos do Novo México, as nações das Grandes Planícies, e a cultura Dobu da Nova Guiné, ela evidenciou que valores, mesmo nos aspectos que destoam dos valores do estudante de antropologia que está lendo “Padrões de Cultura”, pertencem a sistemas culturais coerentes e precisam ser respeitados.

Quaisquer que tenham sido os imperativos descritos pelos antropólogos como universais, não restritos a uma cultura, o esforço pioneiro de Benedict de descrever culturas por inteiro e a defesa da igualdade transcultural foram marcos que resistiram aos tempos. Críticos argumentaram que os padrões que ela encontrou talvez sejam apenas uma parte, um aspecto contingente, das culturas em sua completude. Por exemplo, David Friend Aberle escreveu que os Pueblo talvez sejam calmos, gentis e muito dispostos a realizar rituais quando em um determinado estado de espírito ou circunstância, mas podem se tornar desconfiados, vingativos e belicosos na situação oposta. No entanto, mesmo com a presença de discordâncias com Benedict na literatura, suas breves descrições são consideradas vívidas, acessíveis, relevantes para qualquer ser humano, e tão longe quanto puderam ir, penetrantes e acuradas. Em 1936 foi designada professora associada da Universidade de Columbia.

“As Raças da Humanidade”[editar | editar código-fonte]

Benedict estava entre os principais antropólogos culturais recrutados pelo governo dos Estados Unidos para pesquisar os relatos de guerra e dar consultoria após a entrada do país na Segunda Guerra Mundial. Um de seus trabalhos menores foi um panfleto intitulado As raças da Humanidade, escrito em parceria com seu colega no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia. Esse panfleto dirigido às tropas americanas difundiu, em linguagem acessível e acompanhado de quadrinhos, a visão científica contra as crenças racistas. “O mundo está encolhendo”, começa Benedict. “Trinta e sete nações estão agora unidas por uma causa comum – a vitória sobre a agressão das Potências do Eixo, a destruição militar do fascismo (p.1).” As nações unidas contra o fascismo, dizem os autores, incluem “os mais diversos tipos físicos de homens”. Eles explicam, a cada seção, a melhor evidência que conhecem da igualdade humana. Eles pretendem encorajar todos esses tipos de pessoas a se unirem e evitarem a guerra entre si. “Os povos do mundo”, eles destacam, são uma família. Nós todos temos o mesmo número de dentes, de molares, até mesmo de pequenos ossos e músculos – nós só podemos ter vindo de um único grupo de ancestrais, não importam nossa cor, o formato de nossas cabeças, os tipos de nossos cabelos. “As raças da humanidade são o que a Bíblia diz—irmãs. Em seus corpos está a marca de sua irmandade.”

O meio ambiente determina características físicas. Pele escura proporciona alguma proteção contra poderosos raios solares, por exemplo. Mas quaisquer que sejam as nossas características físicas, independentemente do formato ou tamanho de nossa cabeça, nós somos igualmente inteligentes. “O melhor cientista é incapaz de dizer a partir do exame de um cérebro a que grupo étnico seu dono pertence... Alguns dos homens mais brilhantes do mundo tiveram cérebros muito pequenos. Por outro lado, o maior cérebro do mundo pertence a um imbecil.”

O meio ambiente, no qual o gasto que se teve com educação interfere, tem um papel mais importante na determinação da inteligência do que o nascimento. Os “brancos sulistas” (dos EUA), por exemplo, fizeram menos pontos que os “negros do norte” (dos EUA) nos testes de QI realizados pelas Forças Expedicionárias Americanas (AEF) na Primeira Guerra Mundial. Devemos levar em consideração que os gastos escolares no sul eram apenas “frações” dos gastos nos estados do norte em 1917.

“A diferença… [aparece] por causa das diferenças de rendimento, educação, vantagens culturais, e outras oportunidades.”

Não apenas a inteligência das pessoas é a mesma, em todos os aspectos, mas o sangue tem a mesma composição química. Povos diferentes não têm sangues distintos – “todas as raças humanas têm todos os tipos de sangue” – e podem receber transfusões de sangue de uma para outra para salvar vidas.

E todas as pessoas são produto de miscigenação racial, produzida pelo “movimento dos povos sobre a face da Terra... desde antes do início da história.” Essa constatação, dentre outras, serve para combater a ideia de superioridade racial, que “um homem reivindica quando diz, ‘eu nasci membro de uma raça superior’.” Preconceito racial, dizem os autores, “torna as pessoas desumanas”.

“O Crisântemo e a Espada”[editar | editar código-fonte]

Benedict não é conhecida apenas por sua primeira obra, “Padrões de Cultura”, mas também por seu último livro, O Crisântemo e a Espada, o estudo da sociedade e da cultura do Japão que ela publicou em 1946, com a incorporação dos resultados de sua pesquisa durante a guerra.

Esta obra é um exemplo de “antropologia à distância”. Estudar a cultura por meio de sua literatura, recortes de jornais, filmes e arquivos, entrevistas com imigrantes, etc., foi necessário num momento em que antropólogos apoiavam os Estados Unidos e seus Aliados na Segunda Guerra Mundial. Impossibilitados de visitar a Alemanha nazista ou o Japão de Hirohito, antropólogos valeram-se de tais materiais culturais e puderam produzir estudos à distância. Eles tentavam entender os padrões culturais que deveriam orientar seu ataque e esperavam encontrar pontos fracos ou maneiras de persuadi-los de que haviam perdido.

O trabalho de Benedict a respeito da guerra inclui um importante estudo, terminado em 1944, cujo objetivo foi entender a cultura japonesa; destinava-se aos Aliados que estavam em combate com as forças armadas japonesas no Teatro do Pacífico da Segunda Guerra. Os americanos consideravam-se incapazes de compreender assuntos da cultura japonesa. A princípio, os americanos consideravam muito natural os prisioneiros de guerra quererem que suas famílias soubessem que estavam vivos, e ficarem calados quando inquiridos sobre o movimento das tropas, etc. Enquanto isso, prisioneiros de guerra japoneses, aparentemente, davam informações desse tipo facilmente e não tentavam contatar suas famílias. Por que isso? Por que, alem disso, os asiáticos não tratavam os japoneses como libertadores do colonialismo ocidental, nem aceitavam seu suposto óbvio lugar numa hierarquia na qual o Japão ocupava o topo?

Benedict desempenhou um papel fundamental na compreensão do lugar do Imperador do Japão na cultura popular japonesa, e formulou ao presidente Franklin D. Roosevelt uma recomendação segundo a qual permitir a perpetuação do governo imperial seria imprescindível para uma eventual rendição.

Enquanto um crítico escreveu que “O Crisântemo e a Espada” “não tem credenciais já que Benedict não teve qualquer experiência direta no Japão” e descreveu o livro como “considerado superficial e claramente racista”, o embaixador japonês no Paquistão fez a seguinte declaração em público:

Em 1946, Ruth Benedict, reconhecida antropóloga cultural americana, publicou um livro sobre o Japão intitulado “A Espada e o Crisântemo”, que tem sido leitura obrigatória para muitos estudiosos de temas japoneses.

Outro japonês que leu esta obra, segundo Margaret Mead, considerou-a muito acurada em sua totalidade, embora um pouco “moralista”. Trechos do livro foram mencionados em A Anatomia da Dependência, de Takeo Doi, onde ele usa alguns dos conceitos da obra de Benedict para ampliar suas ideias, assim como para fazer uma crítica a conceitos abordados no livro. Esse trabalho é ainda tratado como um clássico cujo valor permanece mesmo com as mudanças na cultura japonesa no pós-guerra.

Pós-Guerra[editar | editar código-fonte]

Ela continuou lecionando após a guerra, e alcançou o cargo de professora plena apenas dois meses antes de sua morte, ocorrida em Nova York em 17 de setembro de 1948.

Um selo postal em sua homenagem foi impresso em 1995.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • "Padrões de Cultura", Ruth Benedict, Editora Livros do Brasil
  • "O Crisântemo e a Espada", Ruth Benedict, Editora Perspectiva, 2006
Portal A Wikipédia possui o portal: