Síndrome de Asperger

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Síndrome de Asperger
Criança estudando estrutura molecular: portadores de Asperger em geral têm interesses específicos e intensos
Classificação e recursos externos
CID-10 F84.5
CID-9 299.80
MeSH D020817
Star of life caution.svg Aviso médico

Síndrome de Asperger é um transtorno do espectro autista, diferenciando-se do autismo clássico pelo portador ter fala compreensível, isto é, a fala é utilizada enquanto instrumento para receber e transmitir mensagens aos outros, dotadas de sentido.[1] [2] Muitas vezes o portador da síndrome é extremamente inteligente e ambicioso, mas também tímido, calado, severo e bastante racional, avalia todas as situações com a razão chateando-se por vezes com coisas que a maioria das pessoas despreza por ser algo insignificante. Alguns estudiosos afirmam que grandes personalidades da História possuíam fortes traços da síndrome de Asperger, como os físicos Isaac Newton e Albert Einstein, o compositor Mozart, os filósofos Sócrates e Wittgenstein, o naturalista Charles Darwin, os renascentistas Leonardo da Vinci e Michelangelo, os cineastas Stanley Kubrick e Andy Warhol, o xadrezista Bobby Fischer, o cantor e compositor Michael Jackson, o músico Derek Paravicini , além de autores de diversas obras literárias, como no caso de J. R. R. Tolkien e Mark Haddon.

A Síndrome de Asperger é pouco conhecida pela população fazendo com que os próprios portadores nunca se apercebam da sua condição nem as pessoas à sua volta compreendam realmente a condição do portador. Todavia, alguns Aspergers mais maduros, ao perceberem a cegueira emocional que possuem por natureza, desenvolve técnicas de copiar por exemplo uma personalidade, a linguagem corporal de um ator em um filme, ou de alguém que acham perfeitamente normal e sociável, fazendo com que nem mesmo o mais renomado Psicologo ou Psicanalista consiga decifra-lo e diagnostica-lo com Asperger. A validade do diagnóstico dessa síndrome como condição distinta do autismo é incerta, tendo sido removida do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" (DSM), sendo fundida com o autismo.[3] A SA é mais comum no sexo masculino.[4] Quando adultos, muitos podem viver de forma comum, como qualquer outra pessoa, entretanto, além de suas qualidades, sempre enfrentarão certas dificuldades peculiares à sua condição. Há indivíduos com Asperger que se tornaram professores universitários (como Vernon Smith, Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel de 2002).

Um dos primeiros usos do termo "síndrome de Asperger" foi por Lorna Wing em 1981 num jornal médico, que pretendia desta forma homenagear Hans Asperger, um psiquiatra e pediatra austríaco cujo trabalho não foi reconhecido internacionalmente até a década de 1990. A síndrome foi reconhecida pela primeira vez no DSM, na sua quarta edição, em 1994 (DSM-IV).

Algumas características dos aspies são: dificuldade de interação social, dificuldades em processar e expressar emoções (este problema leva as outras pessoas ao afastamento, por pensarem que o indivíduo não sente empatia), interpretação muito literal da linguagem, dificuldade com mudanças em sua rotina e com pessoas desconhecidas, ou que não veem há muito tempo, comportamentos estereotipados. No entanto, isso pode ser conciliado com desenvolvimento cognitivo normal ou alto.

A condição parece ser mais comum em homens do que em mulheres. Embora as pessoas com síndrome de Asperger tenham geralmente dificuldade ao nível social, muitos têm inteligência acima da média. Eles podem-se destacar em áreas como programação de computadores e ciência. Não há nenhum atraso no seu desenvolvimento cognitivo, na capacidade de cuidar de si mesmos ou na curiosidade que sentem acerca seu ambiente.

Classificação e diagnóstico[editar | editar código-fonte]

A Síndrome de Asperger era definida na seção 299.80 do DSM-IV por seis critérios principais, que definiam a síndrome como uma condição com as seguintes características:

  • Prejuízo severo e persistente na interação social;
  • Desenvolvimento de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades;
  • Alto poder de memorização e velocidade de raciocínio relacionados às atividades repetitivas;
  • Prejuízo clinicamente significativo nas áreas social, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento;
  • Nenhum atraso significativo no desenvolvimento da linguagem;
  • Não há atrasos clinicamente significativos no desenvolvimento cognitivo ou no desenvolvimento de habilidades de auto-ajuda apropriadas à idade, comportamento adaptativo (em outra área que não na interação social) e curiosidade acerca do ambiente na infância.
  • A não-satisfação dos critérios para qualquer outro transtorno invasivo do desenvolvimento específico ou esquizofrenia.

A Síndrome de Asperger é um transtorno do espectro do autismo (ASD em inglês), uma das cinco condições neurológicas caracterizadas por diferenças na aptidão para a comunicação, bem como padrões repetitivos ou restritivos de pensamento e comportamento. Os quatro outros transtornos ou condições são autismo, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância e PDD não especificado (PDD-NOS - transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação).

O diagnóstico da SA é complexo, em virtude de que mesmo através do uso de vários instrumentos de avaliação não existe um exame clínico que a detecte. Os critérios de diagnóstico do Diagnostic and Statistical Manual norte-americano são criticados por serem vagos e subjetivos.[5] [6] Outros conjuntos de critérios de diagnóstico para a SA são o CID 10 da OMS, o de Szatmari,[7] o de Gillberg,[8] e Critério de Descoberta de Attwood & Gray.[9] A definição CID-10 tem critérios semelhantes aos da versão DSM-IV[9] A Sindróme de Asperger foi em tempos chamada Psicopatia Autista e Transtorno Esquizóide da Infância,[10] apesar de tais termos serem atualmente entendidos como arcaicos e imprecisos, e portanto não mais aceitos no uso médico.

Um diagnóstico válido?[editar | editar código-fonte]

Há grande controvérsia se a SA é um transtorno distinto e separada ou se é equivalente ao autismo de alta funcionalidade, ou mesmo a outras condições (como o transtorno de personalidade esquizoide[11] ).

O diagnóstico da SA em indivíduos adultos é uma tarefa difícil e imprecisa, uma vez que indivíduos adultos com SA ou AAF já aprenderam de forma racional a mascarar os seus erros sociais. Quando distraídos, demonstram os sintomas da SA, mas se concentrados em uma interação social específica, como o relacionamento com o psiquiatra ou psicólogo, no momento do teste, podem se comportar de forma normal.

Além disso, há pouco acordo entre os vários critérios de diagnóstico da síndrome. Um estudo realizado em 2008 comparando quatro conjuntos de critérios (DSM, CID, Gillberg e Szatmari) concluiu que o diagnóstico apenas coincidia em 39% dos casos.[12] Na fase adulta, o profissional deve contar com a colaboração dos familiares e/ou pessoas próximas ao portador da síndrome.

Os diagnósticos de SA e AAF são usados indistintamente, complicando as estimativas de prevalência: a mesma criança pode receber diferentes diagnósticos, dependendo do método aplicado pelo médico, e vários estudos indicam que quase todas as crianças diagnosticadas com "Síndrome de Asperger" têm na realidade autismo, e não SA tal como é definida pelo DSM-IV.[13] .

Por outro lado, também tem sido argumentado que o diagnóstico de Síndrome de Asperger tornou mais confusa a fronteira entre o autismo e a simples excentricidade, e que, sobretudo quando o diagnóstico é feito por profissionais pouco preparados, haverá vários casos de falsos positivos[14] .

Em maio de 2013, a American Psychiatric Association publicou o DSM-5, onde a Síndrome de Asperger desaparece como diagnóstico distinto, passando a estar incluída no autismo.[3]

Características[editar | editar código-fonte]

A SA é caracterizada por algumas peculiaridades como :

  • Interesses específicos e restritos ou preocupações com um tema em detrimento de outras atividades;
  • Rituais ou comportamentos repetitivos;
  • Peculiaridades na fala e na linguagem, sabendo desenvolver linguagem compreensível de nível avançado em assuntos de seus interesses;
  • Padrões de pensamento lógico/técnico extensivo, conversa com propriedades e coerência, nunca fugindo da linha de raciocínio;
  • Comportamento social e emocionalmente impróprio e problemas de interação interpessoal, mas isso até perceberem sua cegueira emocional, pois quando a percebem se camuflam e começam a mudar seu modo de se expressar socialmente;
  • Problemas com comunicação (não há comprometimento da linguagem, estritamente falando);
  • Transtornos motores, movimentos desajeitados e descoordenados;
  • Frequentemente, por um Q.I. verbal significativamente mais elevado que o não-verbal[15]
  • Às vezes pessoas com SA podem ser consideradas rudes e frias nos seus comportamentos, mas na verdade é só seu modo de tentar reagir ou entender ações;
  • Nem sempre pessoas com SA são compreendidas; portanto, devem ser tratadas com mais calma em alguns aspectos.

As características mais comuns e importantes da SA podem ser divididas em várias categorias amplas: as dificuldades sociais,permanentes, os interesses específicos e intensos, e peculiaridades na fala e na linguagem, uma proposta surgiu nos anos 1960 visando unificar as dificuldades sociais e peculiaridades na fala sob um único denominador chamado Cegueira Mental[16] , decorrente dos estudos sobre Teoria da Mente. Outras características são comumente associadas com essa síndrome, mas nem sempre tomadas como necessárias ao diagnóstico. Esta seção reflete principalmente as visões de Attwood, Gillberg e Wing sobre as características mais importantes da SA; os critérios DSM-IV representam uma visão ligeiramente distinta. Diferentemente da maioria dos tipos de TDI, a SA é geralmente camuflada, e muitas pessoas com o transtorno convivem razoavelmente com os que não têm, tornando-se difícil para um leigo detectar. Os efeitos da SA dependem de como o indivíduo afetado responde à própria síndrome.[9]

Diferenças sociais[editar | editar código-fonte]

Apesar de não haver uma única distinção comum a todos os portadores de SA, as dificuldades com o convívio social são praticamente universais e, portanto, também são um dos critérios definidores mais relevantes. As pessoas com SA não têm a habilidade natural de enxergar os subtextos da interação social e podem não ter capacidade de expressar seu próprio estado emocional, resultando em observações e comentários que podem soar ofensivos apesar de bem-intencionados, ou na impossibilidade de identificar o que é socialmente "aceitável". As regras informais do convívio social que angustiam os portadores de SA são descritas como "o currículo oculto".[17] Os Aspergers precisam aprender estas aptidões sociais intelectualmente de maneira clara, seca, lógica como matemática, em vez de intuitivamente por meio da interação emocional normal.[18]

Os não-autistas são capazes de captar informação sobre os estados cognitivos e emocionais de outras pessoas baseadas em "pistas" deixadas no ambiente social e em traços como a expressão facial, linguagem corporal, humor e ironia. Os portadores de SA apresentam diferentes graus de déficit nessa capacidade, o que é chamado de "cegueira emocional" às vezes.[19] [20] Este fenômeno também é considerado uma carência de teoria da mente.[21] Sem isso, os indivíduos com SA têm dificuldade em reconhecer e entender os pensamentos e sentimentos dos demais. Carentes dessa informação intuitiva, acham difícil interpretar e compreender os desejos ou intenções dos outros e, portanto, prever o que se pode esperar dos demais ou o que estes podem esperar deles. Isso geralmente leva a comportamentos impróprios e pouco sociais. No texto Asperger's Syndrome, Intervening in Schools, Clinics, and Communities, Tony Attwood categoriza as várias maneiras que a carência de "teoria da mente" ou abstração podem afetar negativamente as interações sociais dos Aspergers:[22]

  1. Dificuldade em compreender as mensagens transmitidas por meio da linguagem corporal - pessoas com SA geralmente não olham nos olhos e, quando olham, não conseguem "ler" as intenções do outro.
  2. Interpretar as palavras sempre em sentido denotativo - indivíduos com SA têm dificuldade em identificar o uso de coloquialismos, ironia, gírias, sarcasmo, metáforas e piadas.
  3. Ser considerado grosso, rude e ofensivo - propensos a comportamento egocêntrico, Aspergers não captam indiretas e sinais de alertas de que seu comportamento é inadequado à situação social.
  4. Aperceber-se de erros sociais - à medida que os Aspergers amadurecem e se tornam cientes de sua "cegueira emocional", começam a temer por novos erros no comportamento social; com isso, muitos se limitam em ter relacionamentos amorosos, alguns passam a vida inteira sozinhos, por acharem difícil iniciarem um relacionamento.
  5. Desinteresse - desinteresse em ter de fazer coisas novas, ou passar por outras experiências.
  6. Exaustão - quando um indivíduo com Síndrome de Asperger começa a entender o processo de abstração, precisa treinar um esforço deliberado e continuado para processar informações de outra maneira. Isto muito frequentemente leva a exaustão mental.
  7. Dificuldades em relacionamentos - sente dificuldade em fazer amigos, conseguir parceiros para uma relação, podendo passar anos sem se relacionar com ninguém ou até mesmo nunca apenas por sentir uma enorme dificuldade em iniciar uma relação.
  8. Comportamento variável - muitas vezes, um Asperger pode se comportar ora como uma pessoa adulta, ora como uma criança, variando aleatoriamente.
  9. Paranoia - por causa da "cegueira emocional", pessoas com SA têm problemas para distinguir a diferença entre atitudes deliberadas ou casuais dos outros, o que, por sua vez, pode ser erroneamente interpretado pelos de fora como "paranoia".
  10. Lidar com conflitos - ser incapaz de entender outros pontos de vista pode levar à inflexibilidade e a uma incapacidade de negociar soluções de conflitos. Uma vez que o conflito se resolva, o remorso pode não ser evidente.
  11. Consciência de magoar os outros - uma falta de empatia em geral leva a comportamentos ofensivos ou insensíveis não-intencionais.
  12. Reconhecer sinais de enfado - a incapacidade de entender os interesses alheios pode levar Aspergers a serem incompreensivos ou desatentos. Na mão inversa, pessoas com Síndrome de Asperger geralmente não percebem quando o interlocutor está entediado ou desinteressado.
  13. Introspecção e autoconsciência - indivíduos com Síndrome de Asperger têm dificuldade de entender seus próprios sentimentos ou o seu impacto nos sentimentos alheios.
  14. Vestimenta e higiene pessoal - pessoas com Síndrome de Asperger tendem a ser menos afetadas pela pressão dos semelhantes do que outras. Como resultado, geralmente fazem tudo da maneira que acham mais confortável, sem se importar com a opinião alheia. Isto é válido principalmente em relação à forma de se vestir e aos cuidados com a própria aparência.
  15. Amor e rancor recíproco - como Aspergers reagem mais pragmaticamente do que emocionalmente, suas expressões de afeto e rancor podem ser curtas e fracas.
  16. Compreensão de embaraço e passo em falso - apesar do fato de pessoas com Síndrome de Asperger terem compreensão intelectual de constrangimento e gafes, são incapazes de aplicar estes conceitos no nível emocional.
  17. Lidar com críticas - pessoas com Síndrome de Asperger sentem-se forçosamente compelidas a corrigir erros, ou aquilo que pensam estar errado, mesmo que não conheçam bem o assunto que corrigem. Por isso, podem parecer ofensivos, quando os erros ou supostos erros são cometidos por pessoas em posição de autoridade, como um professor ou um chefe.
  18. Velocidade e qualidade do processamento das relações sociais - como respondem às interações sociais com a razão ao invés da intuição, aspies tendem a processar informações de relacionamentos muito mais lentamente do que o normal, levando a pausas ou demoras desproporcionais e incômodas.

Uma pessoa com Síndrome de Asperger pode ter problemas em compreender as emoções alheias: as mensagens passadas pela expressão facial, olhares e gestual têm um impacto baixo, mas não nulo (como no caso oposto, dos psicopatas). Eles também podem ter dificuldades em demonstrar empatia. Assim, os aspies podem parecer egoístas, egocêntricos ou insensíveis, quando na realidade não o são. Na maioria dos casos, estas percepções são injustas porque os portadores da Síndrome são neurologicamente incapazes de entender os estados emocionais das pessoas à sua volta. Eles geralmente ficam chocados, irritados e magoados quando lhes dizem que suas ações são ofensivas ou impróprias. É evidente que pessoas com SA têm emoções. Mas a natureza concreta dos laços emocionais que venham a ter (ou seja, com objetos em vez de pessoas) pode parecer curiosa ou até ser uma causa de preocupação para quem não compartilha da mesma perspectiva.[23]

O problema pode ser exacerbado pelas respostas daqueles "neurotípicos" que interagem com portadores de SA. O aparente desapego emocional de um Asperger pode confundir e aborrecer uma pessoa neurotípica, que, por sua vez, pode reagir ilógica e emocionalmente — reações que aspies especialmente não toleram. Isto pode gerar um círculo vicioso e, às vezes, desequilibra particularmente famílias de pessoas portadoras da Síndrome.

O fato de não conseguir demonstrar afeto — pelo menos de modo convencional — não significa necessariamente que pessoas com SA não sintam afeto. A compreensão disto pode ajudar parceiros ou convíveres a se sentir menos rejeitados e mais compreensivos. Vários parceiros de pessoas com Síndrome de Asperger afirmam que eles são igualmente amorosos como as outras pessoas e conseguem manter uma boa relação com a única diferença que necessitam de dar algum tempo livre de vez em quando para o portador do síndrome reflectir sozinho. O aumento da compreensão também pode resultar de leitura e pesquisa sobre a Síndrome e outros transtornos comórbidos.[24] Às vezes, ocorre o problema oposto: a pessoa com SA é anormalmente afeiçoada a alguém e não consegue captar ou interpretar sinais daquela pessoa, causando aborrecimento.[25]

Outro aspecto importante das diferenças sociais encontradas em aspies é uma fraqueza na coerência central do indivíduo.[26] Pessoas com essa característica podem ser tão focadas em detalhes que não conseguem compreender o conjunto. Uma pessoa com coerência central fraca pode lembrar de uma história minuciosamente, mas ser incapaz de fazer um juízo de valor sobre a narrativa. Ou pode entender um conjunto de regras detalhadamente, mas ter dúvidas de como aplicá-las. Frith e Happe exploram a possibilidade de que a atenção a detalhes seja uma abordagem em vez de deficiência. Certamente, parece haver várias vantagens em orientar-se por detalhes, particularmente em atividades e profissões que requeiram alto nível de meticulosidade. Também pode-se entender que isto cause problemas se a maior parte dos não-autistas for capaz de transitar fluidamente entre a abordagem detalhista e a generalista.

Diferenças de fala e linguagem[editar | editar código-fonte]

Pessoas com SA tipicamente tem um modo de falar altamente "pedante", usando um registro formal muitas vezes impróprio para o contexto. Uma criança de cinco anos de idade com essa condição pode falar regularmente como se desse uma palestra universitária, especialmente quando discorrer sobre seu(s) assunto(s) de interesse.[27]

A interpretação literal é outro traço comum, embora não universal, da Síndrome de Asperger. Attwood dá o exemplo de uma menina com SA que um dia atendeu ao telefone e perguntaram "O Paul está aí?". Embora o Paul em questão estivesse em casa, não estava no mesmo cômodo que ela. Assim, após olhar em volta para se certificar disso, a menina simplesmente respondeu "Não" e desligou. A pessoa do outro lado da linha teve de ligar novamente e explicar a ela que queria que a menina encontrasse o Paul e passasse o telefone a ele.[28]

Indivíduos com SA podem usar palavras idiossincráticas, incluindo neologismos e justaposições incomuns. Isto pode tornar-se um raro dom para humor (especialmente trocadilhos, jogos de palavras e sátiras). Uma fonte potencial de humor é a percepção eventual de que suas interpretações literais podem ser usadas para divertir os outros. Alguns são tão apurados no domínio da língua escrita que podem ser considerados hiperléxicos. Tony Attwood cita a habilidade de uma criança em particular de inventar expressões, por exemplo, “tirar o pingo dos is” (o oposto de botar o pingo nos is) ou dizer que seu irmão bebê está “escangalhado” por não poder andar nem falar.[29]

Outros comportamentos típicos são ecolalia (repetição ou eco da fala do interlocutor) e palilalia (repetição de suas próprias palavras).[30]

Um estudo de 2003 investigou a linguagem escrita de crianças e adolescentes com SA. As amostras foram comparadas aos seus pares neurotípicos num teste padronizado de escrita e legibilidade da caligrafia. Nas técnicas de escrita, não foram encontradas diferenças significativas entre os padrões de ambos os grupos; entretanto, na caligrafia, os participantes com SA produziram letras e palavras consideravelmente menos legíveis do que as do grupo neurotípico. Outra análise de exemplos de texto escrito constatou que pessoas com Asperger produzem quantidade de texto similar às dos neurotípicos, mas têm dificuldade em produzir escrita de qualidade.[31]

Tony Attwood afirma que um professor pode gastar tempo considerável interpretando e corrigindo o garrancho indecifrável de uma criança com Asperger. A criança também é ciente da qualidade inferior de sua caligrafia e pode relutar em participar de atividades que envolvam trabalho manuscrito extensivo. Infelizmente para alguns adultos e crianças, os professores colegiais e os potenciais empregadores podem considerar a precisão da caligrafia como medida da inteligência e personalidade. A criança pode requerer assistência de terapia ocupacional e exercícios corretivos, mas a tecnologia moderna pode ajudar minimizar este problema. O pai ou monitor pode também atuar como redator ou revisor da criança para assegurar a legibilidade das respostas nos deveres de casa.[32]

Interesses específicos e intensos[editar | editar código-fonte]

A Síndrome de Asperger na criança pode se desenvolver como um nível de foco intenso e obsessivo em assuntos de interesse, muitos dos quais são os mesmos de crianças normais. A diferença de crianças com SA é a intensidade incomum desse interesse[33] . Alguns pesquisadores sugeriram que essas "obsessões" são essencialmente arbitrárias e carecem de qualquer significado ou contexto real. No entanto, uma pesquisa de 1999 sugere que geralmente não é esse o caso[34] .

Algumas vezes, os interesses são vitalícios; em outros casos, vão mudando a intervalos imprevisíveis. Em qualquer caso, são normalmente um ou dois interesses de cada vez. Ao perseguir estes interesses, portadores de SA frequentemente manifestam argumentação extremamente sofisticada, um foco quase obsessivo e uma memória impressionantemente boa para dados factuais (ocasionalmente, até memória eidética).[35] Hans Asperger chamava seus jovens pacientes de "pequenos professores" por que ele achava que seus pacientes tinham como compreensão um entendimento de seus campos de interesse assim como os professores universitários.[36]

Pessoas com Síndrome de Asperger podem ter pouca paciência com coisas fora destes campos de interesse específico. Na escola, podem ser considerados inaptos ou superdotados altamente inteligentes, claramente capazes de superar seus colegas em seu campo do interesse e, ainda assim, constantemente desmotivados para fazer deveres de casa comuns (às vezes até mesmo em suas próprias áreas de interesse). Outros podem ser hipermotivados para superar os colegas de escola. A combinação de problemas sociais e de interesses específicos intensos pode conduzir ao comportamento incomum, tal como abordar um desconhecido e iniciar um longo monológo sobre um assunto de interesse especial em vez de se apresentar antes, da maneira socialmente aceita. Entretanto, em muitos casos, os adultos podem superar estas impaciências e falta de motivação e desenvolver mais tolerância às novas atividades e a conhecer pessoas.[37]

Funcionamento executivo[editar | editar código-fonte]

Alguns podem argumentar que, como o autismo é um transtorno complexo, pode não ser normal procurar uma deficiencia primária. Talvez o autismo seja, de fato, um distúrbio influenciado por inúmeras deficiencias primárias[38] . Um recente entendimento em torno do transtorno do espectro do autismo é que os difíceis desafios sociais e não sociais com os quais uma pessoa que sofre de autismo tem de lidar, podem ser causados devido a um problema no funcionamento executivo da pessoa[39] . É comum pessoas com síndrome de Asperger terem problemas com as suas habilidades de funcionamento executivo. Funcionamento Executivo é definido como a capacidade de uma pessoa de: (1) gerir o seu foco de atenção (2) estar atento e consciente a diferentes estímulos e (3) bem como priorizar estes estímulos de acordo com sua relevância e importância em um momento específico[40] .Funcionamento Executivo também pode ser definido como a capacidade de uma pessoa de manter razoáveis habilidades de resolução de problemas para ajudar a si mesmo alcançar determinados objetivos no futuro, incluindo comportamentos como o planejamento, a flexibilidade de pensamentos e ações, e busca organizada[38] .

Ao se comunicar com crianças com Síndrome de Asperger e funcionamento executivo danificado, é aconselhável usar uma linguagem clara e concreta. Nem sempre uma criança com Síndrome de Asperger pode compreender as coisas que parecem óbvias para a maioria das pessoas. Por isso, é altamente recomendado os usos de explicações positivas e orientação ao interagir com eles[40] .

Algumas evidências existem provando que a imagem visual, o ato de imaginar a sequência de uma tarefa com a intenção de melhorar o desempenho em completar esta tarefa, pode ser útil no tratamento de indivíduos com funcionamento executivo prejudicado devido à síndrome de Asperger[41] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. http://prolicenmus.ufrgs.br/repositorio/moodle/material_didatico/educacao_inclusiva/turma_a/un08/educ_inclus_un08_conteudo.pdf
  2. http://peadinclusao.pbworks.com/f/palestracleonice.pdf
  3. a b Autism Spectrum Disorder (PDF) (em Inglês) dsm5.org American Psychiatric Association (2013). Visitado em 24 de maio de 2013.
  4. Mattila ML, Kielinen M, Jussila K et al.. (2007). "An epidemiological and diagnostic study of Asperger syndrome according to four sets of diagnostic criteria". J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 46 (5): 636–46. DOI:10.1097/chi.0b013e318033ff42. PMID 17450055.
  5. Timini S. "Diagnosis of autism: Adequate funding is needed for assessment services." BMJ. 2004 24 January;328(7433):226. PMID 14739199 Full Text
  6. Ehlers S, Gillberg C. "The epidemiology of Asperger's syndrome: a total population study". J Child Psychol Psychiatry. 1993 Nov;34(8):1327-50. PMID 8294522 Full Text.
  7. Szatmari P, Brenner R, Nagy J. (1989) "Asperger's syndrome: A review of clinical features." Canadian Journal of Psychiatry 34, pp. 554-560.
  8. Gillberg IC, Gillberg C. "Asperger syndrome-some epidemiological considerations: A research note." J Child Psychol Psychiatry. 1989 Jul;30(4):631-8. PMID 2670981
  9. a b c AS-IF.org. Asperger Syndrome Information and features: Definition. Retrieved 29 June 2006.
  10. Fitzgerald M, Corvin A (2001). Diagnosis and differential diagnosis of Asperger syndrome. Advances in Psychiatric Treatment 7: pp. 310-318.
  11. Cull A; Chick J, Wolff S.. (Junho 1984). A consensual validation of schizoid personality in childhood and adult life. The British Journal of Psychiatry 144 (6): 646-648. PMID 6743932.
  12. Kopra K, von Wendt L, Nieminen–von Wendt T, Paavonen EJ. (2008). "Comparison of diagnostic methods for Asperger syndrome". J Autism Dev Disord 38 (8): 1567–73. DOI:10.1007/s10803-008-0537-y. PMID 18324466.
  13. Mayes SD, Calhoun SL, Crites DL. (2001). "Does DSM-IV Asperger's disorder exist?". Journal of abnormal child psychology 29 (3): 263–71. DOI:10.1023/A:1010337916636. PMID 11411788.
  14. Frances, Allen (22 de Março de 2010). Will DSM5 Contain Or Worsen The "Epidemic" Of Autism (em inglês) Psychology Today.
  15. GHAZIUDDIN, Mohammad; MOUNTAIN-KIMCHI, Kimberly, Defining the intellectual profile of Asperger syndrome: Comparison with high-functioning autism
  16. Baron-Cohen, Simon (1990). "Autism: a specific cognitive disorder of 'mind-blindness'". International Review of Psychiatry 2: 81–90. doi:10.3109/09540269009028274
  17. Myles, Brenda Smith; Trautman, Melissa; and Schelvan, Ronda (2004). The Hidden Curriculum: practical solutions for understanding unstated rules in social situations. Shawnee Mission, Kansas: Autism Asperger Publishing Co., 2004. ISBN 1-931282-60-9.
  18. Levanthal-Belfer, Laurie and Coe, Cassandra (2004). "Asperger Syndrome in Young Children: A Developmental Approach for Parents and Professionals". London: Jessica Kingsley Publishers, p. 161. ISBN 1-84310-748-1
  19. Romanowski, Patricia; Kirby, Barbara L. The Oasis Guide To Asperger Syndrome
  20. Levanthal-Belfer and Coe (2004), pp. 160-161.
  21. Baker, L. & Welkowitz, L.A. (eds.) Asperger’s Syndrome: Intervening in Clinics, Schools, and Communities (Erlbaum Assoc, 2005).
  22. Baker, Linda & Welkowitz, Lawrence A. Asperger's Syndrome; Intervening in Schools, Clinics and Communities, New Jersey, Lawrence Erlbaum Associates, Inc., Publishers, 2005.
  23. Attwood, Tony. "Asperger's Syndrome: A Guide for Parents and Professionals". Jessica Kingsley, London, 1997. ISBN 1-85302-577-1, pp. 89-92.
  24. Attwood (1997), pp. 57-66.
  25. Attwood (1997), pp. 165-169.
  26. Happe, F. & Frith, U. (2006) The weak central coherence account: Detail-focused cognitive style in autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 36 (1), 5-25.
  27. Attwood (1997), pp. 80-82.
  28. Attwood (1997), p. 78.
  29. Attwood (1997), P. 82.
  30. Attwood (1997), p. 109.
  31. Myles BS, Huggins A, et al. Written language profile of children and youth with Asperger syndrome: From research to practice. Education and Training in Developmental Disabilities. 38:4 December 2003, 362-369. Abstract.
  32. Attwood (1997), p. 106.
  33. Attwood (1997). pp. 89-92.
  34. Baron-Cohen S, Wheelwright S.. (Novembro 1999). "'Obsessions' in children with autism or Asperger syndrome. Content analysis in terms of core domains of cognition" (PDF) (em Inglês). The British Journal of Psychiatry 175: 485-490. ISSN 0007-1250. PMID 10789283. Visitado em 2010-12-28.
  35. "[1]".
  36. Asperger, H. (1944), Die 'Autistischen Psychopathen' im Kindesalter, Archiv fur Psychiatrie und Nervenkrankheiten, 117, pp. 76-136.
  37. Bauer S. Asperger Syndrome. The Source (2000). Retrieved 7 July 2006.
  38. a b Ozonoff, S., Pennington, B. F., & Rogers, S. J. (1991). Executive function deficits in high-functioning autistic individuals: Relationship to theoty of mind. J. chils psychol psychaist, 32(7), 1081-1105.
  39. Happé, F., Booth, R., Charlton, R., & Hughes, C. (2006). Executive function deficits in autism spectrum disorders and attention-deficit/hyperactivity disorder: Examining profiles across domains and ages. Brain and Cognition, 61(1), 25-39.
  40. a b Jacobsen, P. (2003). Theory of mind, executive functioning, and central coherence in Asperger Syndrome. Asperger syndrome and psychotherapy. (pp. 33-55). London: Jessica Kingsley.
  41. Precin, P. (2010). The use of visual imagery to enhance. Work: Journal of Prevention, Assessment & Rehabilitation, 36(4), 373-379.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]