SESC Pompeia
O SESC Pompeia é um centro de cultura e lazer em São Paulo, Brasil, que reúne teatros, quadras esportivas, piscina, lanchonete, restaurante, espaços de exposições, choperia, oficinas e internet livre, entre outros serviços. Seu projeto arquitetônico foi desenvolvido pela arquiteta Lina Bo Bardi em 1977.
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Arquitetura [editar]
Premissas do projeto [editar]
Ao visitar a Fábrica de Tambores, o lugar onde seria implantado o SESC (1977), a arquiteta Lina Bo Bardi, encontrou uma bela construção, feita com estrutura pioneira no Brasil de concreto armado com vedações em alvenaria. O que mais chamou a atenção da arquiteta, porém, foi o espaço que, durante os finais de semana era povoado por famílias com crianças brincando e jovens se divertindo. A arquiteta, percebendo a espontaneidade e veracidade daquelas atividades, considerou a situação presenciada para o partido do projeto: “Pensei: isso tudo deve continuar assim, com toda esta alegria”.
A velha fábrica, construída a partir de tecnologia importada e sofisticada para a época, haveria, para a arquiteta, de ser reinventada. O projeto do SESC Pompeia propõe a manutenção do espaço livre dos galpões, mas sugere catalisadores das atividades e da vitalidade do lugar: as funções da antiga estrutura seriam reprojetadas e o projeto de tecnologia fabril seria convertido em um projeto moderno. Em todo caso, os usos populares captados por Lina seriam mantidos e permeados por espelhos d’água, lanchonetes, bibliotecas, obras de arte, etc. Para que o terreno pudesse comportar todo o programa previsto para o SESC da Pompeia, com a opção de manter a velha fábrica, seria necessário edificar duas torres no final do lote. Decisão adotada pela arquiteta e que conferiu também aspecto monumental para o complexo.
Alguns processos construtivos artesanais foram pesquisados e incorporados na reforma da fábrica e na construção dos edifícios: os coletores de águas pluviais da rua interna foram feitos com técnica simples, pouco usuais para a estética moderna; já os mosaicos dos banheiros remetem a construções e artes populares. O espelho d’água com seixos rolados permeia o espaço livre do galpão da fábrica. As peculiaridades americanas, brasileiras, são elementos incorporados ao projeto.
O lugar aberto para apropriação e o processo inventivo é frequentemente invocado pela arquitetura do SESC Pompeia: o teatro dissolve a conformação tradicional do teatro de ópera e pede adaptações para o espaço atípico das peças a serem apresentadas ali. O público sempre enxerga outra parte do público de frente, ao contrário do que ocorre tradicionalmente, em que a plateia encara o artista. Já o artista procura novas formas de expressão e comportamento no palco com duas frentes. Para qual lado deve ele estar voltado? As cadeiras desconfortáveis também provocam o público. A função perturbadora do objeto é encarada não como uma falha de desenho, mas, desde o início, como uma intenção do discurso: “os estofados aparecem nos teatros áulicos das cortes, no setecentos e continuam até hoje no ‘confort’ da sociedade de consumo”, escreve Lina.
A implantação [editar]
O projeto do SESC Pompeia concretiza a rua interna da fábrica transformando-a num palco para manifestações espontâneas ou para apresentações agendadas. A rua, em declive, perpassa o programa cultural e de serviço, e conduz o visitante para uma área mais reservada, que abriga sobretudo o balneário e o programa de esportes. No interior do lote há um encontro de “vias” de pedestres: a rua principal com a rua construída sobre o Córrego das Águas Pretas. Com essas situações Lina trás o ambiente urbano para dentro do edifício. A rua interna do SESC prolonga o espaço da cidade para o terreno.
As águas do córrego desenham uma área ‘non-edificandi’ e determinam substancialmente o projeto. Optando por manter os belos galpões da antiga fábrica e reservando o córrego para um deck de madeira que respeita assim as impossibilidades construtivas do terreno, resta a arquiteta construir em duas pequenas áreas separadas pelo fio d’água. O programa extenso exige verticalização e a distância dos dois espaços edificáveis sugere uma solução simples, mas nem por isso menos eficiente e poética, a ocupação do espaço aéreo do córrego por robustas passarelas. O resultado aponta para uma total integração e continuidade dos espaços de atividades e circulação. Sob as passarelas a água mantém-se preservada, ainda que não totalmente aparente ao ar livre, apenas protegida por um deck de piso frio, de madeira. Mesmo dentro do lote, o projeto concebe um espaço extraordinariamente urbano.
A arquitetura e sua apropriação popular [editar]
As obras de Lina acreditam no potencial popular de criação e dão voz e espaço para que isso aconteça: os espaços por ela mesmo ditos “feios” e inacabados convidam a serem construídos e reconstruídos, no próprio uso ganharem significados. Os projetos fazem uma apropriação, digestão e proposição de um novo moderno, genuinamente local, brasileiro, a partir da incorporação da “gente”. Esse pensamento permeia a conceituação do vão livre do MASP, em suas grandes manifestações populares; a escada do museu como pequeno palanque ou palco e a forma de exposição das obras no último piso, todas em igualdade, pairando sobre o piso livre. Esse mesmo pensamento dá intensidade e sentido também para o SESC Pompeia.
Importância histórica [editar]
Sobre esta obra de Lina e seus desdobramentos no metiê da arquitetura, Luís Antonio Jorge escreve em sua tese de doutorado pela FAUUSP: “Este projeto é um acontecimento para a geração nos anos 80, que reconhecia na obra um ponto de inflexão na história da arquitetura contemporânea; dissonante num contexto marcado pela afasia; extravagante, provocativo e delirante onde só se via repetição; poético e criativo, ocupando um vazio de debates e reflexões. A antiga Fábrica de Tambores da Pompeia tornou-se um marco nos debates sobre revitalização no Brasil, a começar pelos cursos de arquitetura. A opção valorativa da revitalização dos edifícios, e o pensamento sobre formas de intervenção, se não chegaram a ser um trabalho onde a grande maioria dos arquitetos estivesse envolvida profissionalmente, tornou-se mais do que um tema oportuno, uma discussão comum nas escolas de arquitetura, sobretudo nos temas de Trabalhos Finais de Graduação.”
Galeria [editar]
Ver também [editar]
Bibliografia [editar]
- BO BARDI, Lina. Lina Bo Bardi. Instituto Lina Bo e P.M.Bardi. Organizador: Marcelo Carvalho Ferraz. 1993. São Paulo.
- JORGE, Luís Antonio. O espaço seco. FAU-USP. Tese de doutorado 1999. São Paulo
- OLIVEIRA, Olívia de. Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura. 2006. Romano Guerra Editora, São Paulo. Editoral Gustavo Gili S.A., Barcelona.