Sabiá-laranjeira
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| Turdus rufiventris (Vieillot, 1818) |
O sabiá-laranjeira [Turdus rufiventris (Vieillot, 1818)] é uma ave muito comum na América do Sul e o mais conhecido de todos os sabiás, identificado pela cor de ferrugem do ventre e por seu canto melodioso durante o período reprodutivo.1 É popular especialmente no Brasil, tendo se tornado por lei, em 2002, a ave-símbolo do país2 Já era símbolo do estado de São Paulo desde 1966.3 É citada por diversos poetas como o pássaro que canta o amor e a primavera.4 A ave também está presente no emblema oficial da Copa das Confederações de 2013, que será realizada no Brasil.5
Índice |
Taxonomia, denominação popular e ocorrência [editar]
Pertence à ordem Passeriformes e à família Turdidae, que migrou da Europa para a América há cerca de 20 milhões de anos.6 A denominação científica da espécie é Turdus rufiventris, tendo sido descrito pela primeira vez por Louis Jean Pierre Vieillot em 1818.7 Foram descritas duas subespécies: Turdus rufiventris rufiventris e Turdus rufiventris juensis.8
O nome sabiá deriva do tupi haabi'á.9 No Brasil tem uma quantidade de denominações populares, entre elas sabiá-cavalo, sabiá-ponga, piranga, ponga, sabiá-coca, sabiá-de-barriga-vermelha, sabiá-gongá, sabiá-laranja, sabiá-piranga, sabiá-poca, sabiá-amarelo, sabiá-vermelho ou sabiá-de-peito-roxo. Em espanhol é conhecido como tordo de vientre rufo, zorzal colorado, zorzal común.1 8 9
É nativo da Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai,7 com uma ampla área de ocorrência que vai do nordeste do Brasil até o sul da Bolívia e norte-leste da Argentina. Não ocorre na Bacia Amazônica.10 Sua população é considerada estável mas não foi quantificada, e é descrito como uma ave comum. Por isso a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais a classificou como espécie em condição pouco preocupante.7
Descrição [editar]
Este sabiá mede de 24 a 25 cm de comprimento, tem o bico reto de cor amarelo-oliva, as patas cinza, o olho negro circundado finamente de amarelo e a penugem do dorso de um tom uniforme marrom-acinzentado. A garganta é esbranquiçada rajada de marrom, o peito é cinza-pardo, que vai mudando para um alaranjado opaco no ventre. Não há dimorfismo sexual significativo, mas as fêmeas tendem a ser maiores que os machos e um pouco mais claras no ventre.1 11 A existência de colorações aberrantes, incluindo albinismo, não é rara, mas é pouco citada na literatura. A causa disso não é bem esclarecida, mas pode estar ligada a alterações no seu meio ambiente ou mutações genéticas.12
Ocorre também o leucismo as vezes denominado erroneamente de albinismo. O leucismo é a perda parcial ou total de melanina, segundo estudos tem uma frequência inferior a 1%. Ocorre principalmente nas penas o restante geralmente a pigmentação é normal. Não se sabe como é transmitida geneticamente esta condição. Existem poucos casos de acompanhamento na natureza. 13 Veja foto do sabiá-laranjeira com leucismo.
Ecologia e biologia [editar]
Habita originalmente florestas abertas e beiras de campos,11 mas como é uma espécie bastante adaptável14 penetrou com sucesso nas áreas de lavoura e cidades, exigindo porém a proximidade de água. É visto com frequência percorrendo o solo, mas nunca longe das árvores.11 É uma ave territorial mas relativamente tímida, e seu canto melodioso, aflautado e frequente logo denuncia sua presença, podendo ser ouvido a mais de 1 km de distância. Seu canto é longo, podendo durar até dois minutos sem interrupção. A frase principal tem de 10 a 15 notas, mas ele é capaz de imitar as vocalizações de outras aves como o curiango e o joão-de-barro e assimilar trechos em seu próprio canto, em inúmeras variações. Canta principalmente no período reprodutivo, antes do amanhecer e ao anoitecer, para atrair a fêmea e demarcar seu território.1 2
O ninho é feito entre setembro e janeiro em arbustos, árvores de folhagem densa e cachos de banana, empregando fibras e gravetos ligadas por um pouco de lama, num formato de tigela funda. Por dentro são revestidos de materiais mais macios como hastes de flores e capim. Põe de 3 a 4 ovos verde-azulados pintados de sépia, que medem 28 x 21 mm.1 15 Os filhotes nascem após treze dias de choco, recebendo atenção de ambos os pais. Em três semanas podem deixar o ninho.2 Cada fêmea choca três vezes por ano e pode gerar até 6 filhotes por temporada.1 O sabiá-laranjeira vive em torno de trinta anos.2
Sua nutrição se compõe basicamente de artrópodes, larvas, minhocas e frutas maduras.15 Pode se tornar um predador importante de sapos e rãs logo que deixam a fase de girino.16 É um importante dispersor de sementes das espécies frutíferas que consome, pois ou regurgita as sementes em outros locais ou elas saem em suas fezes fertilizantes e com isso se tornam mais aptas à germinação.17 18 Como outras espécies de sua família, pode se reunir em bandos mistos que empregam diferentes estratégias para melhorar suas chances de boa alimentação, o que lhe confere uma vantagem adaptativa para ocupação de áreas degradadas e urbanas.6
Não há na literatura especializada muitos registros de inimigos naturais do sabiá-laranjeira, mas já foi observado que o tucano Ramphastos dicolorus preda jovens e até exemplares adultos.19 Em meio urbano o gato doméstico é um importante predador.12 Em algumas regiões está ameaçado pela destruição do habitat e pelo tráfico de animais silvestres.20
Importância cultural [editar]
É uma das aves mais populares do Brasil, sendo uma presença comum em seu folclore e mesmo na cultura erudita, tendo sido por isso escolhida como seu símbolo em 2002.2 12 De acordo com o ornitólogo Johan Dalgas Frisch, um dos principais defensores da nomeação, ela se justifica porque este sabiá é conhecido por crianças e adultos, é comum nas zonas rurais povoadas e nas cidades, e por isso é sentido como uma ave familiar por grande parte da população, e porque "tem qualidades impares. Não existem dois sabiás que cantem da mesma maneira.... os sons maravilhosos do sabiá desabrocham nos jovens corações veios poéticos, tão puros e belos como se um cego abrisse seus olhos ao ver a luz e as cores das flores na terra.... uma lenda indígena assegura que quando uma criança ouve, durante a madrugada, no início da Primavera, o canto do sabiá, será abençoada com muita paz, amor e felicidade".21 Em ofício ao presidente Fernando Henrique Cardoso, a comissão de ministros encarregada da escolha justificou-se dizendo que o sabiá-laranjeira tem larga distribuição nacional e porque é, dentre as aves, "a mais inspiradora e, conseqüentemente, a mais aclamada e decantada pelo sentimento popular e cultural". Em pesquisa de opinião realizada pelo jornal Folha do Meio Ambiente 91,7% dos entrevistados manifestou seu apoio à decisão.22
Na literatura é frequentemente citado como o pássaro que canta o amor e a primavera,4 as origens, a terra natal, a infância, as coisas boas da vida,23 sendo imortalizado por Gonçalves Dias na abertura de seu célebre poema Canção do Exílio:4
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- Minha terra tem palmeiras,
- Onde canta o Sabiá;
- As aves que aqui gorjeiam,
- Não gorjeiam como lá.
Chico Buarque escreveu em 1968 em conjunto com Tom Jobim uma canção onde o sabiá também figura em destaque, embora ali a ave apareça com o gênero feminino, o que, segundo o autor, deriva dos usos dos caçadores.24 Segue a primeira estrofe:
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- Vou voltar
- Sei que ainda vou voltar
- Para o meu lugar
- Foi lá e é ainda lá
- Que eu hei de ouvir cantar
- Uma sabiá
- Cantar uma sabiá.25
Outros autores famosos também deram ao sabiá-laranjeira notoriedade artística, como Carlos Drummond de Andrade26 , Jorge Amado.4 Luiz Gonzaga, Milton Nascimento e Patativa do Assaré.23 Como sua cantoria é muito apreciada, tornou-se uma ave de estimação e pode ser criado em cativeiro com sucesso. Precisa de gaiolas grandes e não tolera bem mudanças em suas instalações, podendo, se ocorrerem, apresentar distúrbios de comportamento e desenvolver pânico, que podem levar à sua morte.2 . Note-se que no Brasil constitui crime a manutenção e/ou criação de animais silvestres em cativeiro sem a devida licença do IBAMA.
- Ouça o canto do sabiá-laranjeira:
Referências
- ↑ a b c d e f Sabiá laranjeira. Diagnóstico do Tráfico de Animais Silvestres na Mata Atlântica, RENCTAS
- ↑ a b c d e f Sabiá Laranjeira. Clube do Criador
- ↑ Gorgulho, Silvestre. "Laudo Natel o Bandeirante ambiental". In: Folha do Meio Ambiente Online, 22 de agosto de 2011
- ↑ a b c d "Sabiá, a ave nacional do Brasil". In: Revista Mackenzie, Ano IV - Nº 22 - 2003, pp. 6-9
- ↑ Fifa apresenta logo da Copa das Confederações do Brasil (em português). MSN Esportes. 1 de fevereiro de 2012.
- ↑ a b Vogel, Huilquer Francisco; Zawadzki, Cláudio Henrique & Metri, Rafael. "Coexistência entre Turdus leucomelas Vieillot, 1818 e Turdus rufiventris Vieillot, 1818 (Aves: Passeriformes) em um fragmento urbano de floresta com araucárias, Sul do Brasil". In: Biota Neotrop., vol. 11, no. 3, 2011, pp. 35-45
- ↑ a b c BirdLife International 2009. Turdus rufiventris. In: IUCN 2011. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2011.2
- ↑ a b Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) Vieillot, 1818. Avibase
- ↑ a b Ferreira, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 1531
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- ↑ a b c Ridgely, Robert S. e Tudor, Guy. The Birds of South America: The oscine passerines. University of Texas Press, 1989, p. 119
- ↑ a b c Gonçalves Junior, Carlos Campos et alii. "Record of a leucistic Rufous-bellied Thrush Turdus rufiventris (Passeriformes, Turdidae) in São Paulo city, Southeastern Brazil". In: Revista Brasileira de Ornitologia, 16(1):72-75, março de 2008
- ↑ http://www.crmv-pr.org.br/?p=imprensa/revista Veja artigo na 38º Revista do CRMV-PR.
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- ↑ Anfíbios. Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade
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- ↑ Sabiá-laranjeira, ave símbolo do Brasil. Apoena.org
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- ↑ Oliveira, Luiz Roberto. Entrevista com Chico Buarque. Clube do Tom
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- ↑ Nova Canção do Exílio. Projeto ProIn. UFRGS