Sambaqui

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O Figueirinha I, com cerca de 18 metros de altura[1]

Sambaqui (do tupi tamba'kï; literalmente "monte de conchas"), também conhecidos como cascais, concheiros, casqueiros, berbigueiros ou até mesmo pelo termo em inglês shell-mounds, são depósitos construídos pelo homem constituídos por materiais orgânicos, calcáreos e que, empilhados ao longo do tempo vem sofrendo a ação de intempérie; acabaram por sofrer uma fossilização química, já que a chuva deforma as estruturas dos moluscos e dos ossos enterrados, difundindo o cálcio em toda a estrutura e petrificando os detritos e ossadas porventura ali existentes.Alguns grupos indígenas os utilizavam como santuário, enterrando neles os seus mortos. Outros os escolhiam como locais especiais para construir suas malocas.

Os sambaquis são uma importante fontes de estudos.Pesquisando seu conteúdo ,pode-se saber sobre a vida dos primeiros povoados do atual território brasileiro, como sua alimentação, seus conhecimentos técnicos, a fauna e a flora da época, etc.Os excrementos humanos ossilizados podem nos informar, por exemplo, sobre as doenças que aqueles homens e mulheres tinham.

São comuns em todo o litoral do Atlântico, sendo mais raros no Pacífico[carece de fontes?], mas notando-se exemplares até no norte da Europa. O formato varia do cônico ao semi-esférico, a altura pode ser de menos de um metro ou até de 15 metros, também podendo se estender por longas áreas em termos de comprimento.

Brasil[editar | editar código-fonte]

Sambaqui Figueirinha II.

No Brasil, os sambaquis são distribuídos por toda a costa, chamando a atenção do europeu logo no início da colonização. A diferença de hábitos culturais e alimentares, levou à conclusão de que eram obra de uma sociedade distinta daquela dos Tupi-guaranis, que então povoavam toda a região costeira do país. Estudos recentes, sugerem que os sambaquis tenham sido produzidos por povos que viveram na costa brasileira entre 8 mil e 2 mil anos antes do presente.[2]

No século XIX, esses monumentos pré-históricos foram visitados pelo Imperador D. Pedro II, exímio naturalista, que por eles se encantou. No século XX, foram alvos de estudos por parte da Universidade de São Paulo e atraíram a atenção de Paul Rivet, o lendário Diretor do Museu do Homem, e "pai" da moderna Antropologia americana. No litoral sul do Brasil foram estudados pelo arqueólogo João Alfredo Rohr.

Hoje, os sítios mais importantes estão localizados no litoral sul do estado de Santa Catarina. As cidades de Laguna e Jaguaruna abrigam 42 sambaquis dos mais diversos tamanhos e alturas, destacando-se entre eles o Garopaba do Sul e o Jaboticabeira, (em Jaguaruna); e os Figueirinha I e II, mais precisamente na praia de Nova Camboriú (também em Jaguaruna). Segundo análise de camadas intermediárias enviadas a um laboratório americano em maio de 2010, o Figueirinha I, por volta de 2510 a.C, já teria 2/3 de seu tamanho atual. Para efeito de comparação, a maior das pirâmides do Complexo de Gizé, a de Kufu, foi construída apenas 40 anos antes.

Características[editar | editar código-fonte]

O Ídolo de Iguape, estatueta descoberta pelo pesquisador Ricardo Krone em Iguape, em 1906, a 1km do sambaqui do Morro Grande.

Os sambaquis predominam em regiões costeiras de recorte acentuado, como baías, enseadas, restingas, ilhas próximas à costa ou estuários, como o litoral catarinense, Baía da Guanabara, Baía de Todos os Santos e a região de São Vicente, no litoral paulista. Como eram fonte fácil e abundante de calcário para a construção, muitas destas áreas serviram de base para as povoações iniciadas pelos europeus,[2] colaborando com a destruição de muitos desses sítios arqueológicos.

Modelo de extratificação das camadas de um sambaqui do litoral sul catarinense, no Brasil.

Os grupos que construíam os sambaquis alimentavam-se de moluscos, frutos silvestres e caça de pequenos animais. Análises químicas revelam que sua dieta era farta também em peixes, o que permite concluir que, embora representassem uma cultura tipicamente de pescadores-coletores, também poderiam levar uma vida de hábitos sedentários.[2] Esses povos, tinham o costume de acumular os restos de alimentos, enfeites que usavam no corpo e artefatos quebrados e inteiros no entorno de sua moradia. Outro hábito comum era o de realizar sepultamentos no próprio sambaqui, com o tempo era aplainado o terreno e rearrumada a camada de cima do local.

Peças de cerâmica encontradas no sambaqui Jaboticabeira.

Várias atividades do cotidiano eram feitas no lugar onde eles moravam. Por exemplo, objetos como raspadores de conchas e facas de pedra encontradas nos sambaquis sugerem que eles fabricavam no próprio local objetos de madeira, couro e fibra. Os batedores, suportes de pedra e a grande quantidade de lasquinhas indicam a fabricação de objetos de pedras. Os restos de fogueiras mostram que também lá preparavam alimentos e se aqueciam.

Os mortos eram enfeitados com objetos que resistiam ao tempo. É comum encontrar entre os esqueletos, dentes e vértebras de animais como tubarões, macacos, porcos-do-mato, além de conchas trabalhadas, que formavam colares. Outros objetos, como pontas de osso e lâminas de machado, também são achados junto com os mortos. Enterrar as pessoas envolvia cuidados como preparar a cova, muitas vezes forrando-a com argila, areia, corantes, palha e madeira, mas isso nem sempre é observado.

Os moradores tinham perto de onde moravam o material necessário para seus artefatos (ossos de animais, conchas, quartzo, gnaisse e diabásio), que deviam ser simples de serem fabricados. Só as esculturas esmeradamente feitas em pedra polida, chamadas zoólitos, parecem ter exigido mais trabalho.

Portugal[editar | editar código-fonte]

  • Os concheiros de Muge (concheiro Cabeço da Arruda; Moita do Sebastião e Cabeço da Amoreira);
  • Os concheiros do Sado;
  • Os concheiros algarvios.

EUA e Canadá[editar | editar código-fonte]

Um pequeno sambaqui no estado da Flórida, nos Estados Unidos.

Na América do Norte foram encontrados "sambaquis" bem menores - às vezes com menos de dois metros de altura - e com o objetivo de traçar desenhos no terreno que só podem ser vistos do alto. A maior frequência desses sítios arqueológicos registra-se na fronteira dos Grandes Lagos.

Referências

  1. Arqueologia da USP - 2009
  2. a b c Revista História Viva, Ano V nº 60

Ligações externas[editar | editar código-fonte]