Samuel Ajayi Crowther

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Samuel Ajayi Crowther
Bispo Samuel Ajayi Crowther, Território do Níger (19/10/1888)
Nascimento c. 1809
Oxogum
Morte 31 de dezembro de 1891 (82 anos)
Lagos
Etnia Iorubá
Ocupação Religioso, linguista.
Cargo Bispo anglicano
Assinatura
Samuel Ajayi Crowther signature.png

Samuel Ajayi Crowther[nota 1] (Oxogun, c. 1809 - Lagos, 31 de dezembro de 1891), foi um bispo da Igreja Anglicana e linguista nigeriano, o mais conhecido religioso cristão africano do século XIX.[1] A ele se credita o primeiro livro feito por um falante nativo africano sobre linguística, em 1843.[2] Seu neto, Herbert Macaulay, foi um dos nacionalistas nigerianos, que lutaram pela independência daquele país.[2]

Contexto histórico[editar | editar código-fonte]

O Império Oyo sofria sua dissolução, e aquela região da África sofria ataques pelo norte da jihad islâmica que veio a culminar no império Fulani, fazendo o povo iorubá viver um estado de guerra e invasões constantes; isto provocara as divisões das famílias, além da escravidão entre os próprios africanos - quadro que se agravou com a ocupação do litoral pelos europeus, também eles em busca de cativos.[1]

A presença europeia alimentava o comércio escravista que, mesmo considerado ilegal pelo parlamento inglês (1807) e por tratados internacionais subsequentes, continuava através do Atlântico, de forma bastante rentável.[1]

Vários religiosos cristãos anti-escravistas haviam fundado a colônia de Serra Leoa, formada inicialmente com ex-escravos das Américas, e adotava-se um estilo de vida europeu (religião, vestuário, construções, idioma e até os nomes próprios); ali os britânicos sediaram uma esquadra que fiscalizava as embarcações, com o fim de descobrir se realizavam o transporte ilegal de escravos que, uma vez libertados, eram para lá levados e acabavam por se adaptar ao estilo de vida que se lhes impunha a realidade.[1]

Primeiros anos: escravidão e liberdade[editar | editar código-fonte]

O Rev. Samuel Crowther, que inspirou o nome adotado por Ajayi.

Nascido na região ocidental da Nigéria, no povoado de Oxogun, na então Iorubalândia, no final da primeira década do século XIX,[nota 2] Ajayi, consta que um adivinho previra que ele não se dedicaria aos orixás (divindades do panteão Iorubá), pois se devotaria ao "Deus do céu", Olorum.[1]

Quando Crowther tinha perto de 13 anos de idade, sua cidade foi invadida por caçadores de escravos possivelmente composta por Fulani e Oyos convertidos ao Islã, numa cena que lhe marcou a memória pela brutalidade e crueldade praticadas: as casas incendiadas; perseguição, captura e condução das pessoas por correntes presas ao pescoço; os incapazes de seguir viagem eram sumariamente abatidos, e o desespero aumentava com a separação das famílias.[1]

Depois disto ele foi comercializado por seis vezes, até ser entregue a comerciantes portugueses que faziam o tráfico transatlântico; esta embarcação foi interceptada em abril de 1822 pelas naus britânicas e Crowther, junto a dezenas de outros cativos, foram levados a Serra Leoa - todos eles desorientados por terem sido deslocados de sua região nativa na África Central.[1] A captura se deu ainda na costa nigeriana mas, ao invés de serem devolvidos a Lagos, foram conduzidos a Freetown; o navio tinha 187 escravos além de Ajayi e, enquanto estes foram libertos, o capitão e marinheiros foram postos a ferros.[2]

Uma vez em Serra Leoa, tem início uma nova vida para Crowther, com sua conversão ao cristianismo.[1]

Estudos e religião[editar | editar código-fonte]

Crowther em 1867, na conferência eclesiástica de Lambeth.

Após três anos em Freetown, finalmente rendeu-se ao cristianismo. Sobre essa experiência, escreveu mais tarde: "sobre o terceiro ano da minha libertação da escravidão do homem, eu estava convencido de outro estado pior de escravidão, ou seja, a do pecado e de Satanás. Aprouve ao Senhor abrir meu coração(...) Eu foi admitido na Igreja visível de Cristo aqui na terra como um soldado para lutar bravamente sob sua bandeira contra nossos inimigos espirituais."[1]

O jovem Ajayi recebeu o batismo a 11 de dezembro de 1825,[2] pelo Reverendo John Rahan da Sociedade Missionária Anglicana; após isto ele adotou o nome inglês de Samuel Crowther, em lembrança a um eminente clérigo daquela igreja com este nome.[1]

Passou alguns anos em Serra Leoa, frequentando uma escola onde recebeu uma educação que lhe preparou para falar o idioma inglês, além de aulas de carpintaria, tecelagem e técnicas agrícolas.[1] Já no primeiro dia de aula pedira meio penny para comprar uma cartilha de alfabetização e mais tarde veio a se tornar inspetor de alunos, função que lhe dava um pequeno rendimento.[2]

Em 1826 foi enviado a Londres para continuar seus estudos na Igreja de Santa Maria, em Islington, mas um fato novo o fez voltar a Serra Leoa: a missão anglicana, em 1827, fundara o Fourah Bay College (núcleo da futura Universidade de Serra Leoa) e Crowther foi enviado para ali estudar, sendo um dos seus primeiros alunos.[1]

Crowther foi então nomeado para trabalhar como mestre-escola nas novas aldeias criadas para receber os libertados dos navios negreiros.[1]

Na Expedição do Níger, em 1841, Crowther mostrou sua competência como intérprete, e foi então levado à Inglaterra, a fim de concluir os estudos e se ordenar.[1]

Ordenou-se a 11 de junho de 1843, pelo bispo de Londres à época Charles James Blomfield, sendo o primeiro africano a receber esta ordem; ao fim deste mesmo ano retornou para a África e inaugurou uma missão em Abeokuta junto ao missionário inglês, Henry Townshend; a 3 de dezembro pronunciou, em inglês, seu primeiro sermão.[2]

A missão em Abeokuta tivera, além de Twonshend, o missionário alemão C. A. Gollmer e Crowther a chefiá-la, e contava com dezenas de ex-escravos libertos treinados em carpintaria e construção que também atuavam como professores; para a defesa desta empreitada Crowther viajou à Inglaterra em 1851 e ali visitou os principais políticos e foi recebido pela Rainha Vitória, e causando grande impressão por sua intelectualidade (o que demonstrava aos ingleses o sucesso das missões).[1]

Apesar da oposição do clero britânico, Ajayi sagrou-se o primeiro bispo negro em 1864, mesmo ano em que concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford.[1] Foi, assim, o primeiro bispo negro, nomeado "bispo dos países da África Ocidental, além domínios da rainha"; um marco pioneiro de seu episcopado foi a abertura de uma nova linha de diálogo cristão-muçulmano na África.[3]

Mais tarde, na década de 1880, questões morais, econômicas e raciais fizeram com que sua missão com membros africanos fosse sendo cada vez mais esvaziada, e substituídos os missionários por europeus.[3]

Sofreu um derrame em 1891, vindo a falecer no último dia daquele ano.[1] Foi então substituído por um bispo branco.[3]

Obras linguísticas e traduções[editar | editar código-fonte]

Samuel Ajayi com o filho Dandeson (c. 1870).

O reverendo Rahan, que lhe batizara, compreendera que Crowther poderia ser uma importante ligação com os falantes do iorubá; a língua não tinha grande importância anteriormente e a preocupação dos missionários era a de ensinar o inglês, mas Rahan notara que, assim como acontecera ao pupilo, o resgate de escravos havia aumentado exponencialmente a população de falantes iorubás, tornando-a uma das línguas principais em Serra Leoa.[1]

No período de 1828 a 1830, período no qual Ajayi cursava a faculdade, Rahan publicou três livros sobre o Iorubá com a sua colaboração efetiva; consta que também colaborou com a pioneira nos estudos das línguas africana, a quaker Hannah Kilham.[1]

Muitos dos escravos libertos haviam feito o caminho de volta a Iorubalândia, onde se fixaram sem, contudo, perderem os vínculos feitos em Freetown e com o cristianismo; também um outro fator teve importância nesta época, que foi a expedição investigativa de Sir Thomas Fowell Buxton, em 1841, ao Níger; de caráter humanitária, visava estabelecer formas para o fim do comércio escravista na África e, para isto, eram necessários intérpretes; um foi o missionário alemão J. F. Schön, e o outro foi Crowther.[1]

Schön aprendera várias das línguas nativas falando com os ex-escravos que, oriundos de diversas partes, compunham um vasto laboratório para o aprendizado dos idiomas falados em quase toda a África Ocidental; a universidade de Fourah Bay por outro lado, representava uma base para o estudo e treinamento.[1]

Crowther (ao centro) com missionários em Keston, 1873.

Ajayi publicou no mesmo ano de sua ordenação, 1843, o "Yoruba Vocabulary" (Vocabulário Iorubá, em livre tradução), que contém um ensaio sobre a estrutura gramatical do idioma, como fruto de sua expedição nigeriana.[2] Após a publicação do "Vocabulário", Crowter traduziu ao iorubá um livro de preces anglicano - o Book of Common Prayer.[2]

Após novas expedições britânicas na Nigéria em 1854 e 1857, produziu uma cartilha em igbo, publicada em 1857, outra para a língua nupe (1860), idioma que quatro anos depois mereceu dele a publicação de uma gramática completa, com vocabulário.[2]

Ele passara a anotar palavras e expressões idiomáticas, especialmente aquelas que ouvia junto aos mais velhos nas discussões que travava com os muçulmanos ou praticantes da tradicional religião iorubá.[2]

Após onze anos reunindo suas observações e manuscritos com traduções, veio a perder esse material quando sua casa foi incendiada, em 1862.[2]

Durante todo o tempo trabalhou na primeira tradução da Bíblia para um idioma africano, o iorubá - a Bibeli Mimá, trabalho que ao final coordenou até ser finalmente publicada em meados da década de 1880.[1]

Bibliografia do autor[editar | editar código-fonte]

  • A charge delivered on the banks of the river Niger in West Africa (Uma carga entregue nas margens do rio Níger, na África Ocidental) - Londres: Seeley, Jackson & Halliday, 1866. (obra integral)
  • Journal of an expedition up the Niger and Tshadda rivers, undertaken by Maegregor Laird in connection with the British Government in 1854 (Diário de uma expedição pelos rios Níger e Tshadda, realizadas por Maegregor Laird em conexão com o governo britânico, em 1854) - Londres: Church Missionary House, 1855 (obra integral)
  • Niger mission: Bishop Crowther’s report of the overland journey from Lokoja to Bida, on the River Niger : and thence to Lagos, on the sea coast, from November 10th, 1871 to February 8th, 1872 (Missão Níger: relatório do Bispo Crowther da viagem por terra de Lokoja para Bida, no rio Niger: e daí para Lagos, na costa do mar, a partir de 10 novembro de 1871 a 8 de fevereiro de 1872). Londres: Church Missionary House, 1872. (texto integral)
  • Crowther, Samuel, James Frederick Schön, e William Russell Bascom. Journals of the Rev. James Frederick Schön and Mr. Samuel Crowther: Who, Accompanied the Expedition Up the Niger, in 1841, in Behalf of the Church Missionary Society (Diários do Rev.James Frederick Schön e Sr. Samuel Crowther: que, em nome da Sociedade Missionária da Igreja, acompanharam a expedição ao Níger em 1841). Londres: Hatchard e Filho, 1842.
  • Experiences with Pagans and Mohammedans in West Africa (Experiências com pagãos e muçulmanos na África Ocidental) . Londres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1892.
  • Crowther, Samuel, e John Christopher Taylor. The gospel on the banks of the Niger: journals and notices of the native missionaries accompanying the Niger Expedition of 1857-1859 . (O evangelho nas margens do Níger: diários e notícias dos missionários nativos que acompanham a Expedição ao Níger de 1857-1859). Londres: Dawsons, 1968.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Sua biografia é ensinada às crianças nigerianas, constante dos livros escolares naquele país; em 2012, em Lagos, estreou a peça "Ajai - The boy slave", escrita e dirigida por Wole Oguntokun, e estrelada por Kate Henshaw, O.C. Ukeje e Carol King.[4]

Notas e referências

Notas

  1. O próprio Crowther assinava seu nome iorubá como Adjai, mas a grafia usada modernamente, especialmente entre autores nigerianos, é aquela utilizada neste artigo.[1] Outra forma de grafar seu nome é "Ajai"[2]
  2. Esta data varia entre 1807 e 1809.

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w Andrew F. Walls. Crowther, Samuel Ajayi 1807 to 1891 Anglican Nigeria Dictionary of African Christian Biography (em inglês). Visitado em 20/2/2014.
  2. a b c d e f g h i j k l Institucional. Biografia Zaccheus Onumba Dibiaezue Memorial Libraries (em inglês). Visitado em 21/2/2014.
  3. a b c Gerald H. Anderson (1998). Crowther, Samuel Adjai [or Ajayi (c. 1807-1891): African missionary and bishop] Boston University (depois de: Macmillan Reference USA, New York, NY). Visitado em 6/3/2014.
  4. Damilare Aiki (19 de abril, 2012). Kate Henshaw, O.C Ukeje & Carol King to Star in “Ajai: The Boy Slave” – A Stage Play in Lagos on the Life & Times of Samuel Ajayi Crowther Bella Naija. Visitado em 24/2/2014.

Bibliografia e leituras adicionais[editar | editar código-fonte]

  • Ajayi Crother: The Triumphs and Travails of a Legend - Feni Osofani.
  • The Black Bishop, Samuel Adjai Crowther - Jesse Page (com prefácio de Eugene Stock), Revell: New York, s/d.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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