Segunda Guerra Púnica

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Segunda Guerra Púnica
Guerras púnicas
Battles second punic war.png
Data 218 a.C.201 a.C.
Local Mar Mediterrâneo
Resultado Vitória romana.
Combatentes
República Romana,
Liga Etólia,
Reino de Pérgamo,
Numídia
Cartago,
Cidade Estado de Siracusa,
Reino da Macedônia
Comandantes
Públio Cornélio Cipião†,
Tibério Semprônio Longo
Públio Cornélio Cipião Africano,
Caio Flamínio†,
Fábio Máximo,
Cláudio Marcelo†,
Lúcio Emílio Paulo†,
Caio Terêncio Varrão,
Marco Lívio Salinator,
Caio Cláudio Nero,
Cneu Cornélio Cipião Calvo†,
Masinissa,
Marco Minúcio Rufo†,
Cneu Servílio Gêmino
Aníbal Barca,
Himilcão,
Hanão, o Velho,
Asdrúbal Barca,
Magão Barca,
Sífax,
Asdrúbal Giscão,
Asdrúbal, o Calvo,
Hampsicora,
Maharbal,
Filipe V

A Segunda Guerra Púnica é o mais conhecido dos confrontos bélicos acontecidos no quadro das Guerras Púnicas entre as duas potências que então dominavam o Mediterrâneo ocidental: Roma e Cartago. A contenda acostuma datar-se desde 218 a.C., data da declaração de guerra de Roma após a destruição de Sagunto, até 201 a.C., em que Aníbal e Cipião acordaram as condições da rendição de Cartago.

Foi através da vitória neste conflito que Roma começou sua grande expansão. Ao final da guerra, os vitoriosos romanos tomaram o controle do Mediterrâneo ocidental, começaram a anexar a península Ibérica e a completar a subjugação da própria península Itálica, firmaram alianças no norte da África e começaram sua expansão em direção ao Oriente, para a Ilíria, para a Grécia e para a Anatólia.

Foi um conflito demorado, que envolveu toda a bacia oeste do Mediterrâneo, estendendo-se da península Ibérica até a península Itálica e desde o sul da Gália até o norte da África.

Igualmente importante foi a destruição do poderio cartaginês, decisivo para a equação de poder no ocidente por vários séculos, assim como as mudanças que muito contribuíram para a definitiva consolidação da forma do exército romano, que passou por importantes transformações no período.

Historiografia[editar | editar código-fonte]

Quaisquer relatos acerca das Guerras Púnicas que chegaram ate nós refletem não necessariamente a verdade histórica, mas também os interesses políticos dos que escreveram esses relatos[1] . Vários autores na antiguidade trataram sobre a Segunda Guerra Púnica, porém os que mais se estenderam sobre o evento foram seguramente Políbio e Tito Lívio. E ambos refletiram não apenas a visão romana dos acontecimentos mas, também, as de suas respectivas facções políticas. Políbio, que foi patrocinado pela família Cipião (da qual faziam parte Públio Cornélio Cipião, Cipião Africano, Cipião Emiliano Africano), tenta preservá-la ao máximo e atribuir aos seus adversários os erros no conflito. Já Tito Lívio, que viveu na delicada transição da república para o principado, busca proteger o senado romano.

Podem ser citados como exemplo a tentativa de isentar Públio Cornélio Cipião de qualquer responsabilidade pela derrota em Trébia e de tratar Caio Flamínio como um incompetente militar. Da mesma forma, cita-se como exemplo a tentativa de desqualificar a figura de Caio Terêncio Varrão, o considerando apenas como um político populista e único responsável pela derrota em Canas.

Ademais, a visão cartaginesa dos fatos, tratada por Sósilo de Esparta e Filipe de Akra Leuke, não chegou até nós, fazendo com que o conhecimento sobre o desenrolar da guerra seja unilateral e baseado apenas no ponto de vista romano.[2]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A Segunda Guerra Púnica (de Poeni, em latim, "Fenício" e também "Pirata"), começou em consequência da Primeira Guerra Púnica. Ambas as nações saíram desta primeira guerra bastante prejudicadas pelos esforços e perdas despendidos no período, inclusive com as respectivas economias muito debilitadas. Mas a vitória deu a Roma diversas vantagens.

O tratado firmado entre as duas nações era consideravelmente mais brando do que o que seria imaginável após a vitória romana, mas na verdade os vitoriosos não teriam como impor um acordo mais forte, dada a situação a que o esforço de guerra reduzira a própria Roma.

Assim, em decorrência do tratado de paz, Roma recebe a Sicília, enquanto Cartago fica com a Sardenha e a Córsega. Na verdade, porém, aproveitando-se da paz ao sul, Roma aproveitou para expandir-se para o norte, após derrotar uma invasão gaulesa em 225 a.C., em Telamon, subseqüentemente conquistando a Gália Cisalpina, até o sopé dos Alpes, além de limpar o Adriático dos piratas e trazer para sua esfera de influência parte da Ilíria, após a guerra contra Teuta, chamada de Primeira Guerra Ilírica – trampolins naturais para os Bálcãs, a Macedônia e a Grécia.

Ao mesmo tempo, como conseqüência desta vitória, Roma, antes uma potência terrestre, passou a contar com uma marinha poderosa, além de consolidar definitivamente seu domínio sobre o sul da península Itálica. Entrementes, a derrota provocou uma convulsão militar e política em Cartago (Cart-Hadash, "A Cidade Nova"), com a revolta dos mercenários, que se rebelaram por não receberem o soldo após terem sido retirados da Sicília e trazidos para o norte da África assim como pela perspectiva de tomarem o poder na cidade, acompanhada de uma guerra de libertação das populações submetidas, notadamente da Líbia, envolvendo berberes, alguns númidas e mesmo certas cidades fenícias.

Aproveitando-se desta instabilidade, Roma também ocupou a Sardenha e a Córsega e quando o general Amílcar Barca (Amílcar = "Aquele que o deus Melcarte protege", Barca = "raio") conseguiu debelar a revolta em uma guerra extremamente brutal de lado a lado, inclusive estendendo o território cartaginês para dentro da Numídia, os romanos haviam se aproveitado e ocupado ambas as ilhas. Os cartagineses protestaram, mas Roma, aproveitando a fragilidade destes, lhes declarou guerra, que só conseguiram evitar com o pagamento de uma enorme quantia e a entrega definitiva da Córsega e da Sardenha, possessões cartaginesas muito importantes pelos suprimentos de grãos e metais.

Buscando recuperar sua força anterior, Cartago passou a controlar a Numídia e a Argélia. Ao mesmo tempo, passou a investir cada vez mais no controle da península Ibérica, onde de há muito possuía interesses, tarefa que foi confiada ao mesmo general Amílcar Barca. E, desta forma, um exército africano invade a península sob seu comando, em 237 a.C.

Realmente, o interesse de Cartago na península Ibérica era plenamente justificado, devido às suas grandes reservas de metais, além da oportunidade que as tribos locais davam para a incorporação de celtiberos nos próprios exércitos cartagineses.

Amílcar Barca[editar | editar código-fonte]

Amílcar Barca era o mesmo comandante cartaginês que se destacara lutando na Sicília na Primeira Guerra Púnica. Pertencente a uma das mais respeitadas famílias de Cartago, que desenvolvia um processo de restauração da monarquia em proveito próprio, fora o principal responsável pela derrota da revolta dos mercenários. Paulatinamente, nos dezessete anos seguintes, os cartagineses que ele comandava impuseram seu domínio sobre o sul da península, ocupando a região entre o mar Mediterrâneo e a Serra Morena e fazendo da localidade de Akra Leuke (atual Alicante), a sede de seu domínio, dando início ao período bárquida na península Ibérica, até que Amílcar, em 229 a.C., morreu em confronto com uma tribo local.

Seu cunhado Asdrúbal (Asdrúbal = "O ajudado de Baal") o sucedeu no comando. Este, além de pacificar as tribos ibéricas, escolheu como capital do novo domínio um velho povoado fenício que rebatizou de Nova Cartago (atual Cartagena), um dos melhores ancoradouros do mar Mediterrâneo. Porém, Asdrúbal foi assassinado em 221 a.C. e, para substituí-lo, o exército escolheu o filho mais velho de Amílcar, que acompanhara o pai na invasão com a idade de nove anos e que na ocasião contava apenas 26 anos de idade, chamado de Aníbal Barca.

O início da guerra[editar | editar código-fonte]

Aníbal Barca (Aníbal = "A graça de Baal"), assumiu o comando do exército com vinte e seis anos, decidido a completar a sujeição da península Ibérica e dar continuidade ao plano cartaginês de ir à forra contra Roma.

Mas o governo de Cartago recusa-se a declarar guerra. Na verdade, Roma temia a eventualidade de uma aliança entre cartagineses e gauleses que a ameaçasse. Mas tentou agir primordialmente por meios diplomáticos, firmando em uma aliança com a colônia grega de Sagunto, na península Ibérica, com a qual já possuía laços anteriores e que poderia ser muito útil em caso de uma guerra com Cartago na região.

Antes mesmo disto, porém, Asdrúbal firmara um tratado com Roma em 226 a.C., pelo qual os romanos reconheciam o direito dos cartagineses se estenderem até o rio Ebro, que divide a península Ibérica ao meio e que representava o limite da expansão cartaginesa aceitável pelos romanos. [3]

Modernamente, porém, muitos historiadores têm refutado o rio Ebro como sendo o rio do tratado, apontando diversas inconsistências para que ocupe esta posição, especialmente o fato de que a cidade de Sagunto encontra-se 120 quilômetros ao sul do Ebro e, portanto, no território permitido para a ocupação cartaginesa, além de indicarem a inexistência de vestígios arqueológicos de presença cartaginesa mais ao norte. Tem-se apontado que este rio seria, na verdade, o rio Segura, ou outro rio meridional. Outros afirmam que os romanos teriam confundido o rio Ebro com o rio Júcar, que desmemboca no Mediterrâneo 60 quilômetros ao sul de Sagunto, o que colocaria a cidade na área de influência romana.[4]

Todavia, esta questão, objeto de grande discussão nos meios acadêmicos, ainda se encontra em aberto.

Na realidade, aparentemente a intenção de Aníbal consistia em justamente unir as tribos celtas na luta contra Roma e, posteriormente, afastar esta de seus aliados na península Itálica, portanto dentro da evolução que os romanos temiam.

Talvez resolvido a provocar o conflito, Aníbal atacou e sitiou Sagunto. Durante o cerco, o senado romano requereu que Aníbal desistisse da operação de guerra. Mas este se recusou a suspender o ataque. Em resposta, outra missão do senado dirigiu-se desta vez a Cartago, com um ultimato para que Aníbal fosse entregue para julgamento em Roma. Quando o Conselho dos Cem, órgão superior do estado cartaginês recusou-se a entregar o comandante, Roma declarou guerra, em março de 218 a.C.

O sítio de Sagunto[editar | editar código-fonte]

Muralha romana da Ampúrias, porta de entrada inicial dos romanos na península Ibérica

Sagunto era uma cidade que militava entre as esferas de influência cartaginesa e romana. Antes que Aníbal retornasse a Nova Cartago após sua investida em direção ao Ebro, começou uma séria disputa entre duas facções saguntinas, uma favorável a Cartago e outra a Roma (C. 220-219 a.C.). A segunda facção pediu que Roma arbitrasse a disputa, mas neste meio tempo alguns membros da primeira faccção foram executados.

Durante o cerco, uma delegação do senado romano visitou Aníbal, pedindo a suspensão das hostilidades e que se cumprisse o tratado que proibia avanços além do Ebro, tendo o comandante respondido que cidadãos cartagineses haviam morrido e que era seu dever conseguir justiça. Optou-se por uma consulta aos sufetes em Cartago, que devolveram a solução do problema a Aníbal. Ao fazerem isto, os sufetes tinham pleno conhecimento de que a resposta de Aníbal seria declarar guerra, o que se mostrava absolutamente inevitável para Cartago, porque, caso contrário, nesta interferência em Sagunto os romanos achariam a desculpa para uma intervenção futura em toda a península Ibérica, onde havia outras povoações gregas favoráveis a Roma e muitos inimigos de Cartago. Assim o ataque contra Sagunto, iniciado em abril de 219 a.C., foi feito com a idéia de que a resposta romana seria declarar guerra.

Apesar de existirem outras cidades pró-Roma na região, como Ampúrias, a localização de Sagunto muito ao sul, próxima a Nova Cartago e bem atrás da retaguarda cartaginesa, era muito perigosa para ser ignorada.

Mesmo assim, os romanos retardaram qualquer resposta. Em vez de declararem guerra, enviaram uma outra delegação, até que a notícia da tomada da cidade em 218 a.C. chegou à Itália, provocando comoção no senado, face ao fracasso da tática de intimidação diplomática. Mesmo assim, não houve uma declaração de guerra automática. Após um forte debate, outra delegação foi enviada a Cartago, da qual fazia parte Fábio Máximo, com um ultimatum para exigir o repúdio e a entrega de Aníbal, sob pena de ser reconhecido o estado de guerra.

A declaração de guerra[editar | editar código-fonte]

Segundo Tito Lívio, por volta de maio de 218 a.C., a delegação romana compareceu perante o "Conselho dos 104", em Cartago e entregou o ultimatum do senado romano. Fábio Máximo escutou a negativa dos cartagineses e, dramaticamente, agarrou as dobras de sua toga, sobre o peito - parte da vestimenta onde os romanos costumavam carregar objetos - e disse que ali trazia a guerra ou a paz, devendendo os cartagineses elegerem qual preferiam. Imediatamente recebeu a resposta de que aos cartagineses não importava se os romanos preferissem a guerra ou a paz. Fábio soltou a roupa e disse que então os cartagineses teriam a guerra, com os conselheiros respondendo que a aceitavam e que com a mesmo espírito lutariam até o final.

Da península Ibérica até o lago Trasimeno[editar | editar código-fonte]

Rota da invasão de Aníbal.

Aníbal, porém, foi quem tomou a iniciativa, em vez de esperar as invasões romanas da península Ibérica e da própria África, decidindo invadir a península Itálica. Mas, em vez de partir por mar, seguiu em abril de 218 a.C. com seu exército pelo sul da Gália, visando transpor os Alpes e atacar Roma cruzando o vale do Rio Pó.

Para detê-lo, Roma enviou o cônsul Cornélio Cipião, pai de Cipião Africano, que buscou bloquear o avanço de Aníbal no rio Ródano. Mas o comandante cartaginês tomara outra rota, diferente da esperada, atravessando o rio mais acima, utilizando balsas para passar os elefantes, e infletindo para o norte, tomando a rota que conduzia ao vale do rio Isere, objetivo bem mais complicado e distante que a rota pela Riviera, mas também muito mais difícil de ser defendido pelos romanos.

Percebendo a estratégia de Aníbal, Cipião retornou à península Itálica por mar, com parte de suas forças, enquanto os cartagineses alcançavam o sopé da cadeia dos Alpes. Esta rota, na verdade, não era novidade, sendo o caminho habitual pelo qual os gauleses haviam invadido no passado a península, sendo que a razão de Aníbal optar por ele foi justamente tentar o apoio destas tribos na guerra contra Roma. Todavia, não conseguiu nenhum apoio na Gália Transalpina, pelo contrário enfrentando grande oposição das tribos que controlavam os passos na cadeia de montanhas. Assim, os cartagineses tiveram lutar para alcançarem os cumes das montanhas, que lhes permitiam controlar o terreno. A jornada revelou-se extremamente árdua, custando muitos homens para Aníbal. E embora números na Antiguidade sejam de difícil comprovação, calcula-se que Aníbal partira de sua base com mais de 45 mil homens, mantendo 38 mil infantes e 8 mil cavaleiros ao cruzar o Ródano, dos quais apenas cerca de 20 mil infantes e 6 mil cavaleiros chegaram à Gália Cisalpina. Mas finalmente, em setembro de 218 a.C., seu exército conseguiu atravessar para a Itália, apenas para ver os elefantes caírem doentes e morrerem no vale do . Em compensação, a estratégia de Aníbal pegara os romanos despreparados, pois sua crença era de que os Alpes, verdadeira muralha, esmagariam o ânimo e a resistência de seus inimigos.

Aníbal e seus homens cruzando os Alpes, de William Turner.

A primeira oposição que enfrentaram foi a de Cipião, na Lombardia. Lá, porém, Aníbal dispôs magistralmente de sua cavalaria e derrotou duas vezes os romanos. Logo na primeira batalha, em outubro de 218 a.C., o comandante romano Cipião foi vencido pela cavalaria númida na Batalha de Ticino e, dois meses depois, em dezembro de 218 a.C., Tibério Semprônio Longo foi igualmente derrotado com uma armadilha feita pela cavalaria. Ato contínuo, Aníbal destruiu as duas colônias romanas na Gália Cisalpina, Cremona e Placência e, graças a estas vitórias e a lutarem em províncias recém conquistadas que viam Roma como uma invasora e conquistadora, chegam vários recrutas e muitos suprimentos para o exército cartaginês.

Ali, no norte da Itália, Aníbal passou o inverno. Antecipando-se aos movimentos dele e tencionando deter a invasão já claramente perigosa, Roma enviou dois exércitos ao norte, bloqueando a progressão de Aníbal pelas duas rotas possíveis: uma, no Adriático, que era Arímino (atual Rimini) e outra na Etrúria, em Arécio (atual Arezzo). Tendo de escolher por um dos dois caminhos, Aníbal escolheu o de Arécio, pela Etrúria, em direção às tropas do cônsul Caio Flamínio. Para esta investida, os cartagineses buscaram surpreender os romanos, optando por avançar através de pântanos, que atravessam com grandes custos ao longo de quatro dias e três noites, sofrendo grandes perdas em homens e animais. Mas todo seu sacrifício foi compensado quando chegaram a Arezzo e encontraram os romanos ainda acampados, sem esperarem o ataque.

Aníbal cruzando os Alpes, detalhe de um afresco de 1510, nos Museus Capitolinos, Roma

Todavia, em vez de avançar diretamente contra os romanos, Aníbal ultrapassou o acampamento de Flamínio e caiu sobre o distrito de Arezzo. Vendo a destruição da região, o cônsul Caio Flamínio levantou acampamento e saiu em sua perseguição. Com isto estava caindo em uma bem planejada armadilha, pois dando perseguição a Aníbal ao longo da estrada para Roma, seguiu atrás dele pelas margens montanhosas do lago Trasimeno, onde no enevoado dia seguinte atacou o exército cartaginês, que recuou.

Acreditando na vitória iminente, Caio Flamínio pôs-se novamente em perseguição, apenas para ver tropas cartaginesas emergirem das elevações cheias de bosques em volta e atacarem suas legiões por todos os lados. Completamente superado, o exército romano é destruído. Neste momento, nada mais existia entre o exército cartaginês e a própria Roma.

Mas Aníbal, inexplicavelmente, não marchou direto contra Roma. A razão disto é desconhecida, mas a falta de máquinas de assédio foi sempre apontada como um fator importante. Outra hipótese é que dada à impossibilidade de conquistar a cidade inimiga, Aníbal já tencionasse separar Roma de seus aliados, para o que sua estratégia seria rumar para o sul da península Itálica, obter apoio entre outros dos sanmitas e ficar bem posicionado para receber suprimentos e reforços de Cartago. Tomou a rota atravessando a Etrúria, cruzando os Apeninos em direção ao Adriático e parando para repousar as tropas, período em que adquiriu uma doença oftálmica que lhe custou um dos olhos. Ao mesmo tempo, Aníbal procurou formar uma aliança com diversas cidades italianas, congregando-as na derrota de Roma, sua conquistadora no passado recente. Todavia, este plano falha, com as cidades da Itália permanecendo fiéis a Roma. Dois motivos apontados para este comportamento são os fatos de Aníbal, com falta de suprimentos, ter permitido o saque em seus territórios e também a política romana em relação aos territórios conquistados, permitindo que estes mantivessem vários direitos. Ao mesmo tempo, apesar das recentes derrotas, Roma abriu um novo teatro de operações, iniciando hostilidades na própria base de Aníbal, a península Ibérica, onde enfrentam o irmão mais novo de Aníbal, Asdrúbal Barca.

A estratégia Fabiana[editar | editar código-fonte]

Batalhas da Segunda Guerra Púnica.

Enquanto Aníbal prosseguia com sua estratégia política, os romanos decidiram não mais enfrentá-lo em campo aberto. Em vez disso, seu ditador nomeado na época, chamado Quinto Fábio Máximo, também conhecido até então como Veruscus, eleito em 217 a.C., optou por uma prolongada guerra de atrito, visando enfraquecer paulatinamente Aníbal.

Fábio, que ganhou o apelido de cunctator (Contemporizador), tentou desgastar Aníbal com incontáveis recontros, provocando danos ao moral do exército cartaginês e impedindo que este se reabastecesse de soldados. Também buscava, com esta estratégia de desgaste moral e material, evitar que cidades italianas se unissem aos invasores.

Para implementar tal estratégia, Fábio se recusou a enfrentar os cartagineses em campo aberto, onde a cavalaria númida dava a estes uma imensa vantagem, mantendo as tropas romanas nas montanhas, onde tal vantagem era anulada. Assim, abalou o moral do exército invasor ao mesmo tempo em que fortaleceu o do próprio, assim como o de seus aliados.

Porém, a estratégia de Fábio não era popular entre todos os romanos. Muitos desejavam um grande confronto, que definitivamente eliminasse a ameaça de Aníbal. Assim, os políticos romanos tomaram uma atitude absolutamente inédita, fora mesmo da constituição da República, ao elegerem um vice-ditador, chamado Minúcio, ex-auxiliar de Fábio, mas agora comprometido com um ataque direto aos cartagineses, e dividindo o comando do exército romano entre ambos. Partindo imediatamente para o ataque, Minúcio prontamente caiu em uma armadilha de Aníbal, apenas escapando de ser destruído graças à intervenção do próprio Fábio.

Infelizmente, o mandato de Quinto Fabio como ditador era do tipo ad tempus certum e, ao findar seu período, além deste não ser prorrogado, nas eleições subseqüentes, em 216 a.C., foi eleito um cônsul, Caio Terêncio Varrão, também conhecido como Varro, profundamente comprometido com um ataque direto contra Aníbal. Mais ainda, considerando a devastação sofrida pela Península Itálica inaceitável, o senado ordenou que se atacassem logo os cartagineses.

Para tanto, Roma levou a campo o maior exército de que até então dispora, no impressionante total de oito legiões, o que significava aproximadamente 86 mil homens. O outro cônsul, Paulo Emílio, acreditava que a batalha deveria ser travada quando as condições fossem favoráveis ao exército romano. Todavia Varro rejeitava esta concepção, acreditando em simplesmente encontrar Aníbal o mais rapidamente possível, dar-lhe combate e destruí-lo.

Com este intuito levou suas tropas para o sul, até a Calábria, num local chamado Canas, onde Aníbal conquistara um depósito de provisões situado em um local estratégico do qual os romanos necessitavam.

Para a compreensão da sequência de fatos que levaria este exército ao desastre, é preciso compreender uma peculiaridade da constituição romana: dois cônsules eram eleitos, tendo entre suas atribuições comandarem o exército. Quando um cônsul sozinho dirigia uma campanha, cabia-lhe o comando supremo das tropas, mas quando os dois acompanhavam o mesmo exército, cada um deles comandava em um dia, sendo substituído pelo outro no dia seguinte e assim sucessivamente.

Desta forma, Paulo Emílio, acreditando que deveriam aproveitar uma ocasião mais favorável, conduziu as tropas com grande moderação, esperando mesmo que a escassez de suprimentos forçasse Aníbal a abandonar a posição que defendia, possibilitando aos romanos ocupá-la. Mas Varro forçou o combate, aproveitando-se do dia em que o comando alternado lhe cabia para colocar as tropas em formação de batalha, fora do acampamento e frente a frente com o exército cartaginês. Desta forma, Varro fez exatamente aquilo que Aníbal desejava, oferecendo a este a ocasião de provocar uma grande derrota aos romanos, o que lhe fora negada pela estratégia de Fábio.

A batalha de Canas[editar | editar código-fonte]

Ataque inicial romano e destruição da cavalaria romana.
Destruição do exército romano.

Aníbal estudara os métodos militares romanos e, portanto, sabia que os inimigos avançariam contra o centro de suas forças. Mais do que isto, porém ele contou com as próprias táticas erradas de Caio Terêncio Varrão. Este, talvez por achar que a causa anterior das derrotas romanas fora a menor profundidade das formações das legiões comparativamente com a falange macedônia usada pelos cartagineses, dispôs suas tropas numa enorme e compacta coluna, pouco mais comprida do que larga. Esta formação, feita para atuar empurrando os cartagineses como um aríete, assim substituía a tradicional formação romana em manípulos.

Aníbal, por sua vez, dispôs suas forças não em linha reta, mas sim numa fila convexa. Mais ainda, na vanguarda colocou seus soldados mais fracos, gauleses e celtiberos, enquanto nas extremidades colocou recuadas suas melhores tropas, de veteranos africanos. Cobrindo os flancos de seu dispositivo, pôs a soberba cavalaria, na direita a cavalaria cartaginesa e na esquerda a cavalaria númida.

No princípio da batalha, a cavalaria cartaginesa na esquerda derrotou a cavalaria romana da direita, que fugiu e, dando a volta por detrás da formação romana, atacou a cavalaria da esquerda romana, que lutava contra a cavalaria númida.

Neste meio tempo, os romanos atacaram com sua infantaria, exatamente da forma esperada, avançando contra o centro e contra os gauleses, que como Aníbal previra cederam e logo formaram uma concavidade na linha cartaginesa, para a qual convergiu a infantaria inimiga. De repente, os cartagineses avançaram e fecharam a formação adversária pelos lados, flanqueando os romanos, ao mesmo tempo em que sua cavalaria atacava os romanos pela retaguarda. As legiões foram completamente cercadas, em tal amassamento dentro da formação cartaginesa que sequer puderam sacar suas espadas. O que deveria ser o combate decisivo contra Aníbal tornou-se uma carnificina, na qual o próprio exército de Roma foi massacrado.

Os historiadores divergem sobre o número de perdas, mas concordam em que pereceu a fina-flor do exército de Roma, além de sua maior parte, numa derrota total e completa, muito pior que a do lago Trasimeno. Ironicamente, entre os mortos está o cônsul Paulo Emílio, enquanto seu colega e principal responsável pelo desastre, o cônsul Caio Terêncio Varrão, voltou a Roma sem sequer ter sido aprisionado.

Guerreiro ibero armado com uma falcata e escudo oval. Baixo relevo de Osuna, ca. 200 a.C., Museu Arqueológico de Espanha, Madrid

A notícia da derrota espalhou do pânico em Roma. As mulheres doaram suas jóias ao Estado e limparam o chão dos templos com seus cabelos, as legiões recusaram-se a receber o soldo, crianças de 13 e 14 anos foram alistadas para servirem na defesa das muralhas, além de escravos terem sido aceitos nas legiões mediante a promessa de liberdade e o senado, visando o favor dos deuses, mandou sacrificar-lhes quatro prisioneiros enterrando-os vivos.

Inexplicavelmente, porém, Aníbal não marchou contra Roma, o que a história jamais compreendera perfeitamente. Sem dúvida lhe faltavam máquinas de assédio, o que é uma das explicações aventadas. Outra hipótese plausível para a recusa de Aníbal em atacar Roma diretamente foi a distância entre ela e Canas, que permitiu aos romanos se reorganizarem para a defesa da cidade. Igualmente especula-se que Aníbal, após a monumental derrota romana, imaginava que as cidades italianas aderissem finalmente à sua causa, assim como esperava atrair a aliança de diversas outras nações, ao invés de ter de invadir o Lácio e sitiar uma por uma das cidades latinas até a própria Roma.

De fato, tão grande foi à derrota de Roma que as tribos dos sanmitas e outros se rebelaram e passaram a apoiar Aníbal, ao mesmo tempo em que as cidades da Magna Grécia e da Campânia, lideradas por Cápua, a segunda maior da Itália, fizeram a mesma coisa e abriram suas portas aos cartagineses. Ao mesmo tempo, o rei Filipe V da Macedónia, aderiu à causa cartaginesa, em 215 a.C., e declarou guerra aos romanos, além da própria Cartago, sempre avara em suprimentos e homens para Aníbal, lhe enviar reforços. Mais importante ainda, os soberanos de Siracusa que substituíram a Hierão II mudaram de lado e abraçaram a aliança com Cartago. E a Sicília era vital para Roma por causa do fornecimento de cereais.

Mas as esperanças de Aníbal se interrompem neste ponto, pois as cidades do centro da Itália, notadamente da Etrúria, do Lácio e da Úmbria, permanecem fiéis a Roma, que por sua vez entregou suas tropas restantes ao cônsul Cláudio Marcelo e voltou, na medida do possível, a estratégia de desgaste e guerrilha pensada por Quinto Fábio Máximo.

Assim, se explica este momento da guerra por Aníbal não possuir força suficiente para tomar Roma ou invadir o Lácio e por talvez nem a própria Cartago as possuir se realizasse um esforço definitivo. Desta forma, Aníbal permaneceu no Sul da península Itálica, aguardando reforços da África, da península Ibérica ou da Macedônia, sem avançar diretamente contra Roma.

A estagnação na Itália e o desenrolar da guerra em outros teatros de operações[editar | editar código-fonte]

Este período da Segunda Guerra Púnica foi caracterizado pela falta de ação no teatro principal da guerra e, ao mesmo tempo, por diversos conflitos em outras regiões.

Na península Itálica, os cartagineses se instalaram em Cápua e ocuparam o sul da península, estabelecendo-se uma frente de batalha mais ou menos na altura do rio Volturno, 174 quilômetros ao sul de Roma. Atacar Aníbal diretamente neste reduto mostrou-se impossível e nos cinco anos seguintes mais de um comandante romano que tentou tal coisa e foi derrotado serviu de prova.

Mapa do sul da península Itálica, teatro de operações da Segunda Guerra Púnica.

Entrementes, na Sicília, o cônsul Marcelo atacou e conseguiu tomar Siracusa em 212 a.C., após um longo e terrível sítio, no qual a cidade foi defendida pelo matemático e engenheiro Arquimedes, o que fez os romanos terem de enfrentar as mais recentes inovações da ciência grega. Esta vitória se completou pela conquista, pouco depois, também da cidadela cartaginesa de Agrigento, logrando a retomada da ilha e assegurando o fornecimento de cereais a Roma, além de dificultar as comunicações entre Aníbal e Cartago.

Uma importante manobra ocorreu quando os romanos se aproveitaram da ausência de Aníbal e seu exército para atacarem e assediarem Cápua, um ano após a tomada de Siracusa. As legiões lograram invadir a cidade, o que levou os líderes da rebelião anti-Roma, responsáveis pelo massacre dos romanos ao decidirem pela aliança com Cartago, a cometerem suicídio ou serem executados pelos vencedores, enquanto a população da cidade sofria uma diáspora pelos restantes domínios de Roma.

Ao mesmo tempo, os romanos iniciaram uma série de operações contra Filipe V, enviando uma grande frota para vigiarem o Adriático, que impediu aos macedônios a conquista da cidade de Apolonia, trampolim para a invasão da Península Itálica. Iniciaram também uma ofensiva diplomática junto aos estados gregos, tentando congregá-los contra a Macedônia. Assim, quando Filipe V da Macedônia, após diversas vitórias na Ilíria, conseguiu tomar o excelente porto de Lisso, ao mesmo tempo em que Aníbal tomava o porto de Tarento (atual Taranto), tornando viável a ambicionada invasão, uma poderosa coalizão grega comandada pelos etólios, aos quais Roma prometera dinheiro e apoio militar, impediu que os macedônios juntassem suas forças com as de Aníbal.

Reconstrução das muralhas de Numância o último bastião celtibero da península Ibérica, destruída pelas tropas romanas de Cipião Emiliano em 133 a.C.

Roma também redobrou seus esforços na península Ibérica, onde já começara operações antes mesmo da derrota de Canas, para onde enviou um novo exército sob comando de dois membros da família Cipião, um dos quais o Públio Cipião que antes já fora derrotado por Aníbal. Esta força conseguiu vencer os cartagineses no rio Ebro, em 215 a.C., derrotando Asdrúbal, mas pouco depois foi por este derrotada, com a morte de seus dois comandantes. Assim, Cartago mantinha, apesar da presença de uma pequena força romana, o controle da essencial península Ibérica, base de seus exércitos.

Mas neste ponto Aníbal estava praticamente isolado no sul da península Itálica, sem conseguir assediar Roma e privado de reforços. Percebendo a mudança nos ventos da guerra, Filipe V voltou atrás na aliança com Cartago e passou a apoiar Roma, privando Aníbal de seu mais forte aliado.

Tentando reverter definitivamente o curso dos acontecimentos na península Ibérica, o senado romano nomeou um candidato improvável para comandante. Tratava-se de Públio Cornélio Cipião, filho do cônsul Cipião e sobrinho do outro comandante que também morrera na campanha contra Asdrúbal. Tinha apenas 24 anos, idade abaixo da legal para comandar exércitos, mas inspirava tal confiança no povo e no senado que a lei foi alterada para permitir que ele assumisse o controle das legiões em confronto com Asdrúbal.

Em 210 a.C., ele correu para assumir o comando, com ordens de defender a única possessão romana na região, um enclave no Nordeste da península.

Públio Cornélio Cipião[editar | editar código-fonte]

Públio Cornélio Cipião, naquela época, era conhecido como Cipião Africano, que apesar de sua pouca idade, já dera mostras de grande capacidade política, além de ser considerado carismático e devoto, apresentando-se publicamente como ungido pelos deuses.

Assumindo o comando do exército romano na península Ibérica, Cipião alterou sua missão, basicamente defensiva, para uma tentativa de efetivamente derrotar Asdrúbal e expulsar os cartagineses. Utilizando a diplomacia e da ação militar, com uma tática superior e rápidos deslocamentos, primeiro cortou as comunicações entre Nova Cartago (atual Cartagena) e o restante das tropas, depois a isolou das forças aliadas e, vadeando um lago e atacando as muralhas da cidade, conquistou a principal base cartaginesa. Com isto, acertou um golpe importantíssimo nas pretensões cartaginesas, pois a península Ibérica era a verdadeira base de Aníbal, sede de seus exércitos e celeiro de recrutas.

Vendo a situação perdida, Asdrúbal atendeu ao chamado anterior de seu irmão e tentou alcançar a península Itálica, também pela rota dos Alpes. Mas Roma tomou conhecimento de seu deslocamento. Desta forma, o cônsul Nero, que tinha suas forças frente às de Aníbal, imperceptivelmente as retirou desta frente sul e as levou para o norte sem que o general cartaginês percebesse, onde encontrou o exército de Asdrúbal. Em Signália, junto ao rio Metauro, ao norte da península, Nero não só destruiu o exército inimigo como também conseguiu matar Asdrúbal, em 207 a.C.

Em 205 a.C., Públio Cornélio Cipião retornou a Roma e, eleito cônsul, propôs-se a realizar um plano ousado: invadir diretamente o norte da África e atacar Cartago em seu próprio território. A reação do senado e principalmente de Quinto Fábio Máximo foi absolutamente negativa. Mesmo assim, Cipião conseguiu permissão para a empreitada, embora lhe fosse negada autorização para recrutar tropas. Conseguiu apenas voluntários e duas legiões que, derrotadas anteriormente em Canas, haviam sido mandadas em desgraça para a Sicília. Com esta força na primavera de 204 a.C., ele partiu para invadir o coração do inimigo, na esperança de que Aníbal o seguisse.

A guerra chega à África[editar | editar código-fonte]

Na época da Segunda Guerra Púnica, o norte da África era bem mais desenvolvido e civilizado que a própria península Itálica, o que se revelou vital para a estratégia que Cipião Africano empregaria contra Cartago.

Logo ao desembarcarem as tropas romanas, Cartago mandou contra elas toda a cavalaria de que dispunha. Mas Cipião, manobrando numa retirada tática, as atraiu para uma armadilha e a aniquilou. Graças a esta vitória, conseguiu dois efeitos importantes: mais apoio de Roma e abalar a liderança de Cartago na região.

A manobra seguinte de Cipião, todavia, fracassou, com o cerco de seis semanas ao porto de Útica sendo levantado pelas tropas de Sífax, rei dos númidas e o mais poderoso aliado de Cartago, que veio se juntar às novas tropas que o general cartaginês Asdrúbal Grisco recrutava. Juntas, estas forças muito superiores obrigaram Cipião a recuar até uma pequena península, que este fortificou e transformou em refúgio.

A partir desta base improvisada, planejou uma arriscada manobra, dando a impressão de que tentaria invadir o porto de Útica e, de repente, num ataque noturno, caindo sobre o acampamento das tropas de Sífax, situado a 11 quilômetros do acampamento cartaginês. Vendo o fogo se alastrar nas posições de seus aliados, os cartagineses abriram as portas de seu próprio acampamento na tentativa de ir socorrê-los e neste momento Cipião aproveitou para atacar também suas tropas, com o que conseguiu a completa derrota tanto de Sífax quanto dos cartagineses. Graças a esta vitória, entre Cartago e as legiões romanas não existia mais nenhuma oposição apreciável.

Todavia, tal qual Aníbal antes dele, Cipião também não marchou direto contra a capital inimiga, igualmente por lhe faltarem condições para o cerco a uma cidade muito maior do que a própria Roma [carece de fontes?]. Ademais, um sítio a Cartago, além de sua difícil implementação, como a Terceira Guerra Púnica viria demonstrar posteriormente, não necessariamente traria Aníbal de volta à África, como desejava Cipião. Havia também o risco deste cerco trazer Aníbal de volta enquanto as operações contra a capital inimiga prosseguissem, prensando os romanos entre as duas forças. Assim, em vez do ataque direto, Públio Cipião optou por destruir os aliados de Cartago, tencionando também abalar sua estrutura econômica e o próprio moral dos inimigos.

Desta forma, escolheu marchar contra Sífax e suas tropas, que derrotou e, naquela que se revelaria à manobra decisiva da guerra, investiu contra a Numídia, derrotando os aliados cartagineses e colocando Massinissa no comando da terra de onde saíra à cavalaria que havia constituído umas das principais forças do exército de Cartago. Depois, avançou contra Túnis, outra aliada que ficava frente a frente da própria Cartago, dividindo a mesma baia, destruindo-a.

Tão difícil se tornou a situação que os cartagineses decidiram abrir negociações de paz. Porém, as tratativas foram interrompidas em 202 a.C., com a chegada de Aníbal de volta da Itália, desembarcando em Léptis.

A batalha de Zama[editar | editar código-fonte]

A Batalha de Zama.

Antes do desembarque de Aníbal, Cipião dispensara Massinissa e sua cavalaria para que voltasse a Numídia e assegurasse o seu trono. Com a chegada de Aníbal, os romanos também ficaram presos entre as tropas deste e a própria Cartago. É provável que tratativas de paz encetadas entre Cartago e os romanos e a trégua em que elas se deram representasse um despiste para dar tempo a Aníbal de retornar a pátria.

Nesta situação, Cipião escolheu nem avançar contra Cartago nem dar combate a Aníbal, mas fugir ou dar combate direto e retirar suas forças, deixando apenas um pequeno destacamento e se afastando de Cartago através do vale de Bagrados. Assim, enquanto Aníbal corria para Cartago, Cipião movimentou-se em sentido inverso. A razão desta manobra foi colocá-lo em contato com Massinissa, que retornava às pressas da Numídia, e também colocar o exército romano exatamente no coração da fonte de alimentos da própria Cartago, numa posição que estes seriam obrigados a defender.

Ao saber da posição assumida pelos romanos, o senado de Cartago ordenou a Aníbal que imediatamente o enfrentasse e, apesar deste responder que não se imiscuíssem em tais assuntos, Aníbal acaba tendo de se portar como o general romano pretendia. Desta forma, deslocou-se em marcha forçada para o oeste, afastando-se de Cartago e internando-se longe de qualquer cidade, fortaleza ou outro ponto de apoio para suas tropas. E no mesmo momento em que chegava Aníbal perante seu exército, Cipião recebia, também, o reforço de Masinissa e de sua cavalaria númida.

Porém, em vez de combater os cartagineses, Cipião mais uma vez recuou, afastando os inimigos dos suprimentos de água e levando a batalha para uma planície, onde sua superioridade em cavalaria lhe tornava qualquer desenvolvimento tático favorável. O nome deste local era Naragara, embora a posteridade o conhecesse, incorretamente, por Zama.

Para esta batalha decisiva, Aníbal dispôs suas tropas primeiro, colocando-as em formação antes de Cipião. Nas alas, sua própria cavalaria de númidas e cartagineses protegia as alas da infantaria, formada na frente pelos celtiberos e gauleses e, atrás, pelas suas melhores tropas, de veteranos africanos. À frente do dispositivo, ele colocara intimidadores batalhões de elefantes.

Ter de dispor as tropas depois de Aníbal deixava Cipião numa situação difícil, mas para isto a cavalaria de Masinissa mostrou-se vital. Os esquadrões montados adentraram o cenário em coluna e, frente ao exército cartaginês, abriram-se em linha, protegendo a infantaria que evoluía atrás. Depois, deslocaram-se para os dois flancos da formação, assumindo posição idêntica as da cavalaria adversária, embora estivessem em número bem maior.

Mapa tático da Batalha de Zama.

O dispositivo de Cipião trazia a formação já tradicional de vélites, hastados, "príncipes" e "triários", embora com um truque que decidiria a batalha favoravelmente aos romanos: coortes inteiras de homens armados com trompas de guerra logo nas primeiras filas da infantaria.

Coube a Aníbal o primeiro movimento, através de seus elefantes. A uma ordem sua, os pelotões de bestas que estavam à frente de sua infantaria avançaram contra os romanos. Porém, ao alcançarem a linha inimiga, além da oposição dos vélites à frente da infantaria, o som das trompas assustou os animais, que apavorados fugiram em direção ao próprio exército cartaginês, arrasando as alas direita e esquerda da cavalaria de Aníbal.

Imediatamente, os romanos alternaram a posição dos hastários com os príncipes, enquanto a cavalaria de Massinissa pelo seu lado direito e de Caio Lélio pelo esquerdo avançavam e a cavalaria cartaginesa, inferiorizada em efetivos, recuava para fora do cenário da batalha. Neste ponto, Aníbal ordenou que sua infantaria atacasse, com os celtiberos e gauleses na frente e com seus veteranos atrás. No choque que se seguiu, a infantaria de Cartago não conseguiu empurrar a infantaria romana e a formação mais larga e mais delgada de Cipião mostrou sua superioridade, envolvendo os flancos da formação cartaginesa e a assolando de três lados. Por fim a cavalaria de Masinissa retornou pelas costas de Aníbal, cercando totalmente o exército de Cartago. Sem condição de evoluir taticamente, o exército cartaginês foi completamente derrotado.

Pior talvez do que esta derrota tática, foi à derrota estratégica anterior, pois num local remoto e sem pontos de apoio, Aníbal não teve para onde recuar nem como reagrupar suas tropas. Nesta condição, totalmente vencido, rendeu-se a Cipião. Cartago nada mais tinha a responder após Zama. Não teve escolha além de pedir a paz e dar a guerra como perdida.

Roma aproveitaria a derrota total da inimiga, impondo condições rapaces: Cartago deveria entregar toda a sua frota, pagar uma brutal indenização, abandonar todas as suas posses e aceitar a proibição de fazer guerra sem que Roma aprovasse.

Os destinos de Aníbal e de Cipião[editar | editar código-fonte]

Após a rendição, Aníbal permaneceu em Cartago, como magistrado-chefe, tentando obter meios de pagar a grande indenização exigida por Roma. É consenso entre os historiadores que procedeu bem nesta tarefa, agindo com honestidade e irritando a nobreza cartaginesa, que o denunciou a Roma. Ao receberem a denúncia, os romanos viram a ocasião para se livrarem do velho adversário, exigindo que Cartago o entregasse.

Aníbal, todavia, fugiu para a Síria, na época parte do Império Selêucida, aconselhando o rei Antíoco III a entrar em guerra contra Roma, guerra esta que Antíoco perdeu, novamente para Cipião e na qual Aníbal atuou como comandante naval. Da Síria fugiu para a Bitínia onde, prestes a ser entregue aos romanos, suicidou-se com veneno.

Quanto a Cipião, o herói que derrotara Cartago, ainda comandaria, sob as ordens de seu irmão, a derrota de Antíoco III Magno. Mas seria acusado por adversários políticos de corrupção e terminaria se refugiando na península Ibérica, abandonando Roma.

Consequências da guerra[editar | editar código-fonte]

Bronze de Alcântara, ou Tabula Alcantarensis, inscrição latina declarando a rendição incondicional (deditio) ante os romanos do povo que habitava um castro entre o território dos Lusitanos e dos Vetões, 104 a.C., Cáceres.

A primeira e mais importante de todas as conseqüências foi colocar Roma definitivamente no caminho do império, expandindo muito seu território. Embora a guerra prosseguisse durante décadas, a península Ibérica foi formalmente anexada em 197 a.C. Para o leste, Roma anexou a Ilíria, após uma guerra que durou de 230 a.C. a 219 a.C..

Em 214 a.C., começou a primeira das guerras macedônicas, que Roma terminou em 168 a.C., com a anexação deste país e a escravização em massa dos macedônios derrotados. Logo após, a partir de 192 a.C., Roma derrotou Antíoco III e anexou a Anatólia até os montes Taurus e, em 97 a.C., Sila, o Feliz, expandiu o domínio romano para o Oriente até o rio Eufrates e para o sul até a Judeia.

Ao mesmo tempo, o decisivo poderio cartaginês foi destruído e, finalmente, em 146 a.C., Cipião Emiliano Africano, neto por adoção de Cipião Africano, a destruiu completamente na Terceira Guerra Púnica.

Dentro de Roma, a conseqüência da guerra foi o lento processo de estrangulamento da República. Ao voltarem para casa, o soldados não encontram mais as terras que cultivavam, destruídas pela guerra ou pelo abandono de seus donos, o que acelera a acumulação de propriedades nas mãos dos patrícios.

Aníbal, de fato, não destruiu Roma, mas a guerra desencadeou uma série de fatos, incluindo a chegada de milhares de escravos do Ponto em conseqüência das guerras macedônicas, que causaram a guerra agrária. Ele não destruiu Roma, mas ajudou muito a destruir a República Romana e a abrir caminho para os césares, o principado romano e o Império Romano.

Lista de batalhas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. HEALY, Mark. Cannas 216 a.C.: Aníbal aplasta al ejército de Roma. 1 ed. Madri: Ediciones del Prado, 1995. 1 vol. vol. 1. ISBN 84-7838-528-2
  2. BARCELO BATISTE, Pedro. Aníbal de Cartago: Un proyecto alternativo a la formación del Império Romano. 1 ed. Madri: Alianza Editorial, 2004. 248 p. 1 vol. vol. 1. ISBN 978-84-206-3560-6
  3. MAGNOLI, Demetrio. História das Guerras (em Português). 1 ed. [S.l.]: Contexto, 2009. p. 62.
  4. GLASMANN, Gabriel. Aníbal: o inimigo de Roma. 1 ed. São Paulo: Madras, 2009. 208 p. 1 vol. vol. 1. ISBN 978-85-370-0556-9

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BALSDON, J.P.V.D., org. O Mundo Romano.
  • BRADFORD, ERNLE, "Anibal - Um Desafio aos Romanos"
  • BRIZZI, GIOVANI, "O Guerreiro - O Soldado e o Legionário".
  • CHARLES-PICARD, Colette e Gilbert, "A Vida Quotidiana em Todos os Tempos, Cartago na Época de Aníbal, Século III Antes de Jesus Cristo".
  • CONNELY, PETER, "Anibal y los Enemigos de Roma"
  • DURANT, Will. César e Cristo.
  • HART, Basil Liddel. Grandes Guerras da História.
  • História em Revista, Impérios em Ascensão, Time-Life.
  • ROSTOVTZEFF, M. História de Roma
  • TOYNBEE, Arnold J. Helenismo: História de Uma Civilização.
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