Senhor do sábado

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Proclamação dos Dez Mandamentos.
1728. Ilustração por Gerard Hoet (1648–1733) e outros, publicada por P. de Hondt em Haia

Senhor do Sábado ou Senhor do Sabá é um episódio da vida de Jesus que aparece nos três evangelhos sinóticos, em Mateus 12:1-8, Lucas 6:1-5 e Marcos 2:23-28. Ele relata o encontro de Jesus, seus apóstolos e os fariseus na primeira de suas "quatro controvérsias sobre o Sabbath"[1] .

Narrativa bíblica[editar | editar código-fonte]

De acordo com o Evangelho de Marcos:

«Caminhando Jesus pelas searas em um sábado, os seus discípulos, ao passarem, começaram a colher espigas. Os fariseus lhe perguntaram: Olha, por que fazem eles no sábado o que não é lícito? Ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez David, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e seus companheiros? Como entrou na casa de Deus, sendo Abiatar sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, os quais só aos sacerdotes era lícito comer, e ainda deu aos seus companheiros? Acrescentou: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado; assim o Filho do Homem é senhor até do sábado.» (Marcos 2:23-28)

Interpretação[editar | editar código-fonte]

Há diferentes interpretações sobre a referência ao Filho do Homem, inclusive no trecho em Evangelho de Mateus. Ela pode significar que Jesus estaria alegando ser Deus ou apenas que os apóstolos estavam livres para fazerem o que quiserem no Sabbath[2] .

Neste trecho, Jesus lembra os discípulos de uma história sobre David encontrada em I Samuel (I Samuel 21:31), na qual ele havia recebido permissão para comer um pão consagrado especial reservado aos sacerdotes (detalhado em Levítico 24:5-9). Assim, se David pôde quebrar um mandamento por causa da fome, Jesus também poderia. Em Marcos, Jesus afirma que isto teria ocorrido quando Abiatar era sumo sacerdote enquanto que o texto em Samuel afirma que o sumo sacerdote na época era Aimeleque, pai de Abiatar. Nem Lucas e nem Mateus citam um nome. É possível que Marcos tenha simplesmente cometido um erro ou estava de posse de uma cópia incompleta ou incorreta do Livro de Samuel. Uns poucos manuscritos de Marcos omitem esta frase, mas a maior parte dos acadêmicos acredita que o nome do sumo sacerdote de fato foi escrito por Marcos e não por um copista posterior[3] .

O capítulo 2 de Marcos termina com Jesus afirmando que é também o Senhor do Sábado (Marcos 2:27-28), uma confirmação da precedência das necessidades humanas frente à estrita observância da Lei. Alguns vêm nisto uma ruptura em relação ao entendimento judaico sobre a Lei (veja Cristianismo e judaísmo). Tanto Lucas (Lucas 6:1-5) quanto Mateus (Mateus 12:1-8) não trazem a sentença da passagem em Marcos, "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado". Defensores da hipótese do documento Q afirmam que Lucas e Marcos, ao copiarem este trecho de Marcos, omitiram a frase por considerá-la muito radical. Jesus afirma na frase saber para que serve o sabá — e, portanto, a mente de Deus — e se iguala ao "Senhor do Sábado", que é Deus[4] , uma afirmação com importantes implicações cristológicas[3] .

O pensamento majoritário entre os acadêmicos é de que o sabá — e a observância adequada da Lei Mosaica em geral — era um ponto de discórdia entre Jesus e outros mestres judeus. Uma visão minoritária, defendida por estudiosos como E. P. Sanders, é de que nada disso constitui uma prova de uma rejeição da Lei. Sanders afirma, por exemplo, que não havia um conflito significativo entre os fariseus vistos como um grupo e Jesus e que a igreja demorou algum tempo para formar sua própria opinião sobre o sabá, o que tornaria difícil de acreditar que Jesus tenha ensinado uma posição ou outra e sido ignorado[5] . O artigo da Enciclopédia Judaica sobre Jesus[6] argumenta que a Halacá ("Lei judaica") não havia atingido sua forma definitiva na época por causa das disputas entre Bet Hillel e Bet Shammai (veja Hillel e Shammai).

Havia debates também dentro do próprio cristianismo primitivo, como o que ocorreu no Concílio de Jerusalém entre Paulo e os judeo-cristãos sobre o quanto da Lei Mosaica deveria um cristão seguir. Esta passagem pode ter sido utilizada pelos primeiros cristãos para apoiar os que defendiam uma observância menos estrita do sabá contra judeus como os fariseus, que defendiam uma linha dura em relação ao tema[3] . Segundo a Enciclopédia judaica, "...rabinos mais estritos permitiam apenas o salvamento de uma vida como desculpa para a mais singela violação do descanso do sabá (Shab. xxii. 6)" (ver também Concílio de Jâmnia).

O Jesus Seminar determinou que Marcos 2:23-28, Mateus 12:1-8 e Lucas 6:1-5 são atos de Jesus da categoria "rosa", ou seja, "uma aproximação do que Jesus fez", e chama este episódio de "Observância do sabá".

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Early narrative Christology by Christopher Kavin Rowe 1979 ISBN 0802822495 page 105
  2. The Gospel of Matthew by William Barclay 2001 ISBN 066422492X page 30
  3. a b c Brown et al. 603
  4. Kilgallen 61
  5. Sanders Jesus and Judaism, 1985, pages 264-269 on Sabbath, handwashing and food
  6. Este artigo incorpora texto da Enciclopédia Judaica (Jewish Encyclopedia) (em inglês) de 1901–1906 (artigo "Jesus"), uma publicação agora em domínio público.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]