Seppuku

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Representação artística de um guerreiro samurai prestes a realizar o seppuku. Período Edo (1850-1860).
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Seppuku (切腹, lit. "cortar a barriga"?), vulgarmente conhecido no ocidente por harakiri, haraquiri ou hara-kiri (腹切 ou 腹切り?), refere-se ao ritual suicida japonês reservado à classe guerreira, principalmente samurai, onde ocorre o suicídio por esventramento.[1] Surgiu no Japão em meados do século XII generalizando-se até 1868, quando foi oficialmente interdita a sua prática. A palavra hara-kiri, embora amplamente conhecida no estrangeiro, é raramente utilizada pelos japoneses que preferem o termo seppuku (composto pelos mesmos caracteres chineses por ordem inversa). O ritual de estripação, normalmente fazia parte de uma cerimónia bastante elaborada, executada na frente de espectadores.[2]

O método apropriado de execução, consistia num corte (kiru) horizontal na zona do abdómen, abaixo do umbigo (hara), efectuado com um tantō, wakizashi ou um simples punhal, partindo do lado esquerdo cortando-o até ao lado direito, deixando assim as vísceras expostas como forma de mostrar pureza de carácter. Finalmente, se as forças assim o permitissem, era realizado outro corte puxando a lâmina para cima, prolongando o primeiro corte ou iniciando um novo ao meio desse.[3] [4] Terminado o corte, o kaishakunin (介错人?) realizava a sua principal função no ritual, a decapitação.[5]

Tratando-se de um processo extremamente lento e doloroso de suicídio, este foi utilizado como método de demonstrar coragem, auto-controle e forte determinação característicos de um samurai. Como parte do código de honra do bushido, o seppuku era uma prática comum entre os samurais que consideravam a sua vida como uma entrega à honra de morrer gloriosamente, rejeitando cair nas mãos dos seus inimigos, ou como forma de pena de morte frente à desonra por um crime, delito ou por outro motivo que os ignominiassem.[2] Outras razões estavam por detrás destes corajosos actos, como a violação da lei ou do chamado oibara (追腹?), no qual o ronin (浪人, lit. "homem onda"?) após perder o seu daimyo (大名, lit. "senhor feudal"?) seria compelido à prática do seppuku, exceptuando-se casos em que o seu daimyo por escrito impedia tal costume.[6]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O seppuku é também conhecido como harakiri ((腹切り, "cortar o abdómen"?),[7] [8] um termo mais amplamente empregue fora do Japão, e escrito com os mesmo kanji dos utilizados para seppuku, contudo em ordem inversa, para além do okurigana り adicional.[7] Em japonês, o termo formalmente usado é 切腹 (seppuku?), uma leitura chinesa on'yomi, normalmente utilizado na escrita, enquanto que harakiri, leitura kun'yomi, é usualmente empregue na fala.[carece de fontes?]

História e cultura[editar | editar código-fonte]

O kantō kubō Ashikaga Mochiuji estripa-se em Kamakura, após perder a batalha contra as forças do shōgun Ashikaga Yoshinori.

O relato mais antigo sobre seppuku data do século XI, quando clãs de famílias poderosas lutaram pela supremacia durante o período do shogunato,[9] porém, o hábito do suicídio nos campos de batalha executado para evitar a captura das forças inimigas é, deveras, mais antigo.[10] O primeiro indivíduo nomeado pelas crónicas da guerra a cometer harakiri data de 1170, pelo célebre Minamoto Tametomo do clã Minamoto, conhecido pela sua habilidade no manejo de arco-e-flecha quando se suicida após perder uma batalha contra o clã Taira.[10] [11] Já o primeiro registo de seppuku motivado por uma inevitável derrota numa batalha foi o de Minamoto Yorimasa, na Primeira Batalha de Uji em 1180, executado no templo Byōdō-in.[12]

Antes da introdução do budismo no Japão, a história do país revelava que o povo japonês preferia uma boa vida do que uma morte dolorosa. Com a aceitação do budismo, e dos seus respectivos conceitos de transitoriedade da natureza da vida e a glória da morte, o desenvolvimento do pensamento deste tipo de ritual foi-se tornando possível. O que, diferentemente das religiões cristãs, tanto o budismo como o xintoísmo não trazem o estigma do pecado atrelado ao ato de suicidar-se.[10] Assim, o suicídio era visto até mesmo como uma boa maneira de resolver determinadas situações, não sendo considerado como um ato de desespero, mas sim de rigorosa abnegação e lucidez.[9] A força de vontade exigida para a retirada da própria vida expressava orgulho, revidando o suposto ultraje e afastando o fracasso. A morte pode até mesmo ser lamentável, mas o suicídio é diferente; o suicida mata-se, fascinando aqueles que ficam com a sua capacidade de prestar-se à morte voluntária por motivos nobres como amor, honra ou patriotismo.[9]

O caráter nobre do suicídio nasceu na antiguidade japonesa. Os enterros dos chefes dos primeiros clãs aconteciam junto ao enterro compulsório dos seus parentes; costume este que também era comum na China e na Índia. A prática, chamada shinjuu durou até o século V, quando a morte dos parentes foi substituída pela guarda de estátuas de terracota, apesar de o acompanhamento voluntário na morte ser mantido.[9] O suicídio cerimonial passou a ser de grande importância para o povo japonês. Superando o medo da morte, o samurai vencia o grande enigma da humanidade, destacando-se das outras classes existentes na época.[10] Para um samurai, a perda da honra era inaceitável. Tirar a própria vida era preferível a viver sob qualquer vergonha. No campo de batalha, o suicídio demonstrava que o guerreiro havia lutado bravamente e merecia uma morte honrada.[9]

Após a Restauração Meiji, e todas as proibições estabelecidas pelo governo central em relação aos samurais, com o propósito de prevenir uma tomada do poder por parte dos shoguns,[9] o seppuku foi abolido oficialmente em 1873, como uma forma de punição. Porém este tipo de práticas continuaram a existir voluntariamente.[11] Entre eles, destacam-se o do escritor Yukio Mishima que, em 1970, desventrou-se em protesto à inércia do exército japonês em relação à sua proposta de golpe de estado para que o poder retornasse ao imperador.[11]

Ritual[editar | editar código-fonte]

Reconstituição de uma cena de seppuku.

O seppuku, quando executado na tranquilidade do castelo ou da residência do guerreiro japonês, era um ritual bastante elaborado e que evocava a enorme racionalidade do ato. Para a cerimónia, o samurai banhava-se para purificar seu corpo e a sua alma. De seguida vestia-se com uma roupa específica para o seppuku, de cor branca, símbolo de pureza e do luto para os orientais (que viria à tona com o esventrar do abdómen). Ajoelhado-se numa posição designada de seiza) sobre um tapete branco ou de feltro vermelho, o guerreiro preparava-se para por fim à sua vida. Na sua frente, era costume encontrar-se uma pequena mesa de madeira (sanbo) com uma wakizashi ou um tantō, envoltas em várias folhas de papel para proporcionar uma maior aderência.[13] Visto que nem sempre era possível assegurar uma morte rápida mediante os complexos cortes executados, a ajuda de outra pessoa na elaboração deste ato, tornou-se um costume.

Do seu lado esquerdo, uma pessoa de extrema confiança e familiaridade, um camarada de guerra, um amigo do mesmo batalhão ou de uma classe inferior (quando não um funcionário designado pelas autoridades), denominado kaishakunin (介錯人?), agia como assistente do samurai suicida, ministrando o golpe de misericórdia.[13] [3] Depois de um breve pronunciamento ou declamação de um poema de morte — geralmente em forma de haiku[14] [15] —, o guerreiro entregava a declaração à testemunha e tomava uma tigela de sake ou água que, por tradição, beberia em quatro goles espaçados entre si. A esta ação dá-se o nome de shi-mu (onde "shi" significa "quatro" e "mu", "morte"), quatro mortes, como referência simbólica aos quatro elementos que doravante não poderá voltar a sentir nem contemplar: a terra, a água, o vento e o fogo.[7] De seguida, e após prender as mangas do kimono sob os joelhos por forma a permitir que a queda se dê para a frente,[16] tomava a arma nas suas mãos, desembainhava-a e introduzia a ponta da lâmina no seu ventre. O corte (kiru) horizontal era efectuado na zona do abdómen, abaixo do umbigo (hara)[7] com um tantō ou wakizashi, partindo do lado esquerdo cortando-o até ao lado direito, deixava assim as vísceras expostas como forma de mostrar pureza de carácter. Finalmente, se as forças assim o permitissem, era realizado outro corte puxando a lâmina para cima, prolongando o primeiro corte ou iniciando um novo ao meio do primeiro, conduzindo-o em direcção à garganta.[3] [4] Terminado o corte, o kaishakunin executava a sua principal função no ritual, a decapitação.[5]

Tratando-se de um processo extremamente lento e doloroso de suicídio, o kaishakunin podia executar o ato de decapitação (kaishaku) antes que o samurai mostrasse sinais de fraqueza, pelo exaurir das suas forças que o impedia de terminar o corte por si mesmo.[16] O corte era efectuado com uma katana ou, embora raramente, com uma tachi, na região cervical e consistia num corte parcial ou total do pescoço, causando morte imediata.[17] A manobra de execução era normalmente efectuada nos modos do daki-kubi (抱き首?),[nt 1] Durante todo o ritual o guerreiro deveria permanecer ajoelhado e, após a morte, cair para frente. Para isso muitos prendiam as mangas do kimono sob os joelhos, prevenindo uma queda para trás ou para o lado, consideradas posições indignas.[18] Apesar da presença do kaishakunin que executava o golpe de misericórdia, esta ação ainda é caracterizada como suicídio, pois um ferimento deste tipo feito por tal lâmina é sempre fatal, embora a zona golpeada leve a uma agonia terrível antes de falecer.

No mundo dos guerreiros, o seppuku era um feito de bravura admirado num samurai que se sabia derrotado, caído em desgraça ou mortalmente ferido. Significava que poderia terminar os seus dias com os seus erros apagados e a sua reputação não apenas intacta como engrandecida.[18] [5] Apenas por meio de tal atitude poderia o samurai provar a sua abnegação, retidão moral, a reciprocidade entre os seus pensamentos e atos, a sinceridade da sua lealdade, a aura de pureza que envolvia a sua classe. Conforme a crença dos japoneses daquele período, seria precisamente na região do ventre que residiria a autenticidade do homem e sendo o ventre aberto, saber-se-ia quem um homem realmente era.[19] O corte do abdómen liberava o espírito do samurai da forma mais dramática, sendo uma forma extremamente dolorosa, lenta e desagradável de morrer.[19] Não raro, o samurai, após abrir o ventre, permanecia vivo por horas ou mesmo dias, esvaindo-se em sangue e ao mesmo tempo sentindo uma dor indescritível.[20] A este processo se dá o nome de Jumonji giri, no qual o kaishakunin não está presente.[16] Por outro lado, no seppuku cometido por vontade própria, o samurai pedia a um companheiro leal que fosse seu assistente e lhe cortasse a cabeça antes que esta pendesse ou que demonstrasse não estar mais suportando a dor, o que seria considerado uma desonra tanto para o que cometeu seppuku quanto para o assistente.[16]

Fatores culturais do Seppuku[editar | editar código-fonte]

Ilustração de Sketches of Japanese Manners and Customs, por J. M. W. Silver, Londres, 1867.

Dentre os motivos para cometer seppuku está a falha ao servir seu senhor ou perda da honra por qualquer motivo. Se o senhor do samurai fosse derrotado na guerra e o samurai não cometesse seppuku, nenhum outro senhor iria contratá-lo. Nessas circunstâncias, ele estaria renunciando publicamente à classe dos Samurais e passaria a ser chamado de ronin(outra possível pronúncia é "Rounin"), cujo sentido literal é "homem-onda" pois, tal como as ondas do mar, viveria sem destino certo, normalmente realizando pequenos serviços para os senhores mais abastados ou ensinando a técnica da luta com espadas a quem se interessasse. Por exemplo, no filme Ronin, com Robert De Niro e Jean Reno, as personagens são como ronins atuais.[carece de fontes?]

Seppuku é uma parte chave do Bushido, o código dos guerreiros samurais. Era utilizado pelos guerreiros para evitar cair nas mãos dos inimigos, ser usado por inimigo e para atenuar a vergonha que isso causaria. Os samurais podiam também receber ordens dos daimyo (senhores feudais) para que cometessem seppuku. Guerreiros que caíssem em desgraça também tinham permissão por vezes para cometer seppuku ao invés de serem executados. Como o principal ponto do ato era a restauração ou proteção da honra do guerreiro, os que não pertenciam a ordem dos samurais não eram obrigados e não se esperava que cometessem seppuku. Samurais mulheres somente poderiam cometer esse ato com permissão.[carece de fontes?]

No livro The Samurai Way of Death, Samurai: The World of the Warrior, o dr. Stephen Tumbull menciona que o Seppuku era normalmente executado usando um tantō (faca curta). Poderia ocorrer com a preparação e na privacidade da casa do indivíduo, ou rapidamente em um local no campo de batalha enquanto os companheiros mantinham os inimigos a distância.[carece de fontes?]

Alguma vezes o daimyo era chamado para fazer um seppuku como base para um acordo de paz. Isso deveria enfraquecer o clã derrotado de forma que a resistência deveria efetivamente cessar. Toyotomi Hideyoshi usou o suicídio de um inimigo nesse sentido várias ocasiões, a mais dramática das quais encerrou a dinastia daimyo definitivamente quando Hōjō foi derrotado em Odawara em 1590. Hideyoshi insistiu no suicídio do daimyo Hōjō Ujimasa, e no exílio de seu filho Ujinao. Com um corte de uma espada a mais poderosa família de daimyos do Japão teve o seu fim.[carece de fontes?]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Existe dois tipos de kaishaku, com golpe vertical (kirioroshi).[16] O primeiro, onde é realizado um corte completo do pescoço, era efectuado sobre o samurai que houvesse cometido um crime: a sua cabeça era separada por completo do corpo. O segundo, o daki-kubi, era efectuado sobre o samurai que não tivesse desonrado a sua condição de guerreiro: uma pequena porção de pele na parte frontal do seu pescoço era deixada intacta. Assim a sua cabeça ficava suspensa na frente, segura ao pescoço, por forma a preservar a dignidade da vítima. A isto era denominado kakae-kubi.[17]

Referências

  1. Inazo Nitobe, Bushido, the soul of Japan (1905), Chapter XII The Institution of Suicide and Redress [em linha]
  2. a b The Deadly Ritual of Seppuku. Página visitada em 2010-03-28.
  3. a b c (Ratti 2006, p. 114)
  4. a b Seppuku (em inglês). 11 de janeiro de 2013. britannica.com.
  5. a b c Seppuku (em inglês). Página visitada em 11 de janeiro de 2014.
  6. (Allyn 2006, p. 2)
  7. a b c d (Patiño 2007, p. 119)
  8. The Free Dictionary. Página visitada em 10 November 2013.
  9. a b c d e f Ritual da auto-imolação:o suícidio no extremo oriente (em português). tempopresente.org. Página visitada em 16 de janeiro de 2014.
  10. a b c d Galende, Juliana L. S.. Seppuku - O Lado Extremo da Honra (em português). bugei.com.br. Página visitada em 16 de janeiro de 2014.
  11. a b c Seppuku [切腹 | O suicídio honroso] (em português). nipocultura.com.br. Página visitada em 16 de janeiro de 2014.
  12. (Turnbull 1977, p. 47)
  13. a b The fine art of seppuku (em inglês). win.net. Página visitada em 11 de fevereiro de 2014.
  14. (Keene 1993, p. 62)
  15. (López-Calvo 2013, p. 128)
  16. a b c d e The Fine Art of Seppuku.
  17. a b (Fumon 2003, p. 48)
  18. a b Wayne Muromoto (2011). Furyu the Budo Journal: The Ritual of Seppuku (em inglês). Página visitada em 31 de março de 2014.
  19. a b Marcos Paulo dos Reis Quadros (julho de 2010). Lealdade Visceral: As Origens do Haraquiri no Japão Medieval (PDF) (em português). Página visitada em 13 de abril de 2014.
  20. (Tokitsu 2011, p. 114)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]