Sporus

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Sporus
Nascimento Entre 49 e 51
Desconhecido
Morte 69 (20 anos)
Roma Roma
Ocupação Liberto

Sporus foi um jovem favorito do imperador Nero castrado por ordem do imperador e com quem posteriormente se casou publicamente.[1] [2] [3] [4]

Origens do nome[editar | editar código-fonte]

Sporus é derivado da palavra do grego antigo σπορά spora, que significa "semente", "semeadura", relacionado a σπόρος sporos, "semeando", e σπείρειν speirein, "semear". Em todas as referências sobre sua história, ele sempre foi chamado por Sporus, nome masculino, enquanto o feminino seria Spora.

De acordo com a Convenção romana de nomes, ele ganharia o nomen e praenomen de seu antigo mestre retendo seu nome anterior como um cognomen. Neste caso, assumindo que tenha sido Nero que o libertou, seu nome completo seria Nero Claudius Sporus (a partir de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus).

Vida[editar | editar código-fonte]

Pouco é conhecido sobre a vida anterior de Sporus exceto que ele era um jovem a quem Nero se afeiçoou. Ele era um Puer delicatus, que geralmente eram crianças-escravas escolhidas pelo seu mestre como um "garoto-brinquedo" e que eram algumas vezes castradas na tentativa de preservar suas qualidades juvenis.[5] Apesar disso, Dião Cássio o chamou de liberto.[2] [3]

Casamento com Nero[editar | editar código-fonte]

O caso com Sporus ocorreu após a morte da segunda esposa de Nero, Popeia Sabina, em 65. No começo de 66 Nero casou-se com sua terceira esposa Estatília Messalina e somente depois naquele ano ou em 67 ele casou-se com o jovem Sporus.[3]

Nero mandou extirpar seus testículos[nota 1] e durante o casamento Nero fez Sporus aparecer em público como sua esposa usando a vestimenta que era de uso costumeiro para um imperatriz romana, e então levou Sporus para a Grécia e depois de volta a Roma, fazendo de Cálvia Crispinila "Senhora do Guarda-roupa" de Sporus, epitropeia ten peri estheta.[6] Suetônio cita um romano que viveu nesta época que o mundo estaria melhor se o pai de Nero Cneu Domício Enobarbo tivesse se casado com alguém como o jovem castrado.[1]

É possível que Nero tenha usado este casamento com Sporus para lidar com seus sentimentos de culpa por chutar a sua esposa então grávida até a morte.[7] Suetônio ignora isto, e coloca a narrativa sobre Sporus entre seus registros sobre o estupro de uma virgem vestal e o incesto com sua mãe.[3] Dião Cássio dá uma visão mais detalhada; de acordo com ele, Sporus tinha uma semelhança física muito grande com Sabina, e Nero o teria chamado pelo nome de sua esposa morta.[4] [6] Nero estava casado então, além de Messalina, com outro liberto, Pitágoras, que fazia o papel de marido para ele, enquanto Sporus fazia o papel de esposa. Além de outras formas de tratamento, Sporus era chamado "Senhora", "Imperatriz", etc.[6]

Pouco antes da morte de Nero, durante o festival das Calendas de Janeiro, Sporus o presenteou com um anel com uma gema cuja inscrição mostrava o Estupro de Prosérpina, que ao tempo foi considerado um dos muitos mau-augúrios sobre a queda de Nero.[8] É notável que tal estória fale sobre um governante do submundo forçando uma jovem a tornar-se sua noiva.

Ele foi um dos quatro companheiros da última viagem do imperador em Junho de 68,[4] com Epafroditus, Faon e Neófitus, e foi ele, não Messalina, a quem Nero voltou-se para começar as lamentações rituais antes de tirar sua própria vida.[1] [3]

Depois de Nero e morte[editar | editar código-fonte]

O Estupro de Prosérpina, por Luca Giordano

Pouco depois da morte de Nero, Sporus ficou sob cuidados do prefeito pretoriano Ninfídio Sabino, que tomou parte na conspiração contra Nero e persuadiu a Guarda Pretoriana a desertá-lo mas quando tentou declarar-se imperador, foi morto por seus próprios soldados. Ninfídio tratou Sporus como se fossem casados, e chamava-o "Poppaea".[6] [8]

Depois da morte de Ninfídio, ele então se envolveria em 69 com Otão,[4] que também foi morto por seus inimigos.[8] Sporus morreu depois naquele ano quando Vitélio planejou que Sporus interpretasse o papel título do Estupro de Perséfone (o mesmo tema do anel que Sporus deu a Nero nas Calendas), para a diversão das multidões durante combates de gladiadores. Sporus então cometeu suicídio para evitar a humilhação pública.[4] [8] Ele provavelmente tinha menos de 20 anos quando ocorreu a sua morte.

Na ficção[editar | editar código-fonte]

  • Sporus aparece na "Epístola ao Dr Arbuthnot" na qual Alexander Pope responde às palavras de cautela de seu médico sobre fazer ataques satíricos a pessoas poderosas mandando-lhe uma seleção de ataques deste tipo. Ele aparece na secção sobre o cortesão John Hervey, 2º Barão Hervey, que era próximo da Rainha Carolina e um dos mais amargos inimigos de Pope, a mesma secção onde aparece a expressão "Quem quebra uma borboleta numa roda?" ("Who breaks a butterfly upon a wheel?"). Sporus é usado por Pope para referir-se a acusações de homossexualidade de Hervey feitas no "Proper reply to a late scurrilous libel" (1731) de William Pulteney, 1º Lorde de Bath que levou Hervey a desafiar Pulteney a um duelo.[9] [10] Na primeira publicação o verso referia-se a Páris, mas foi trocado para Sporus ao ser republicado alguns meses depois.[11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. SUET., Nero 28,1: "Puerum Sporum exsectis testibus etiam in muliebrem naturam transfigurare conatus cum dote et flammeo per sollemnia nuptiarum celeberrimo officio deductum ad se pro uxore habuit"
    “Ele castrou o jovem Sporus e tentou fazer dele uma mulher; e casou-se com ele com todas as cerimônias comuns, incluindo um dote e um véu de noiva, o levou para sua casa sendo acompanhados por uma grande multidão, e tratava-o como sua mulher" - A expressão "exscectis testibus", literalmente "ter os testículos cortados" não implica na remoção da genitália completa.

Referências

  1. a b c Ancient History Sourcebook: Suetonius: De Vita Caesarum--Nero, c. 110 C.E. (em inglês)
  2. a b Cassius Dio Roman History: LXII, 28 - LXIII, 12-13 (em inglês)
  3. a b c d e Champlin, 2005, p.145
  4. a b c d e Smith, 1849, p.897
  5. Elizabeth Manwell, "Gender and Masculinity," em A Companion to Catullus (em inglês) (Blackwell, 2007), p. 118.
  6. a b c d Champlin, 2005, p.146
  7. Champlin, 2005, p.108-109
  8. a b c d Champlin, 2005, p.147-148
  9. Moore, Lucy. Amphibious Thing: The Adventures of a Georgian Rake (em inglês). [S.l.]: Penguin Books, 2000. 376 p. ISBN 9780140273649
  10. The Gay Love Letters of John, Lord Hervey to Stephen Fox (em inglês). Gay History and Literature - My Dear Boy. Página visitada em 03-08-2012. - Extraído de My Dear Boy: Gay Love Letters through the Centuries (1998), Editado por Rictor Norton
  11. Pope, Alexander. Pope’s Caricature of Lord Hervey - 1765 (em inglês). Gay History and Literature - Homosexuality in Eighteenth-Century England.
  12. Rodríguez, Cristina. Moi, Sporus, prêtre et putain (em francês). [S.l.]: Calmann-Lévy, 2001. 300 p. ISBN 9782702131848