Stefan Zweig

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Stefan Zweig
Stefan Zweig na juventude
Nacionalidade Súdito do Império Áustro-Húngaro até 1918, austríaco até 1938 e britânico até sua morte
Data de nascimento 28 de novembro de 1881
Local de nascimento Viena
Data de falecimento 23 de fevereiro de 1942 (60 anos)
Local de falecimento Petrópolis
Gênero(s) Romântico Tardio
Ocupação Escritor
Período de atividade 1902 - 1942
Religião Judaica
Cônjuge Friderike von Winsternitz e Charlotte Elizabeth Altmann.
Assinatura Stefan Zweig Signature 1927.jpg
Página oficial http://www.casastefanzweig.org

Stefan Zweig (Viena, 28 de novembro de 1881Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942) foi um escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica. A partir da década de 1920 e até sua morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo. Suicidou-se durante seu exílio no Brasil, deprimido com a expansão da barbárie nazista pela Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Stefan Zweig era o segundo filho do industrial Moritz Zweig (1845-1926), originário da Boêmia, e de Ida Brettauer (1854-1938), oriunda de uma família de banqueiros. Seu avô materno, Joseph Brettauer viveu em Ancona, Itália, onde sua segunda filha Ida nasceu e cresceu. Seu irmão mais velho, Alfred, foi educado desde sempre para ser o sucessor do pai em seus negócios, e ambos tiveram uma infância e uma educação privilegiadas, graças à boa situação financeira de seus familiares.

Stefan Zweig estudou Filosofia na Universidade de Viena, e em 1904 obteve seu doutorado com uma tese sobre "A Filosofia de Hippolyte Taine". A religião jamais desempenhou papel central na sua formação: "Minha mãe e meu pai eram judeus apenas por acidente de nascimento", declarou Zweig em uma entrevista. No entanto, ele nunca renegou o judaísmo e escreveu várias vezes sobre temas e personalidades judaicos, como em "Buchmendel" [1] .

Sua primeira coletânea de poemas, Silberne Saiten ("Cordas de Prata"), foi publicada em 1902.

Apaixonado pelas literaturas inglesa e francesa, o escritor traduziu para o alemão obras de Keats, Morris, Yeats, Verlaine e Baudelaire. Seu círculo de amizades incluía Rimbaud, Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Sigmund Freud, com o qual se correspondeu entre 1908 e 1939.

Seu sucesso como autor dramático foi confirmado em 1912, quando suas peças "A Metamorfose da Comédia" e "A Mansão à Beira-mar" foram apresentadas em Viena. Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, casou com a escritora Friderike von Winsternitz e comprou uma casa em Salzburgo, onde viveu por quinze anos. Foi uma das fases mais ricas de sua produção literária. Escreveu as biografias de Dostoievski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstoi e Stendhal. Anos mais tarde, lançou as biografias de Maria Antonieta, Fouché, Rilke e Romain Rolland.

O jovem Zweig (em pé), com o irmão Alfred (c. 1900).

Conseguiu o reconhecimento como narrador, poeta e ensaísta durante os anos de 1920 e 1930. Desse período, destacam-se os romances "Amok" (1922), "Angústia" (1925) e "Confusão de Sentimentos" (1927), baseados na psicanálise.

Casa Stefan Zweig em Petrópolis, no Brasil

No início da Primeira Guerra Mundial, o sentimento patriótico se disseminou com força entre os cidadãos da Alemanha e da Áustria, assim como entre suas populações judaicas. Zweig, bem como outros intelectuais judeus como Martin Buber e Hermann Cohen, aderiram à causa germânica. No entanto, ele jamais se alistou nas forças combatentes e trabalhou no arquivo do Ministério da Guerra. Porém, com o desenrolar do conflito e o banho de sangue subsequente, Zweig se tornou pacifista, assim como seu amigo Romain Rolland. Até o final da guerra e pelos anos seguintes, Zweig se manteve fiel ao pensamento pacifista, defendendo a unificação da Europa como solução para os problemas do continente.

Separou-se de sua primeira esposa, Friderike von Winsternitz, e uniu-se com sua secretária, Charlotte Elizabeth Altmann (mais conhecida como "Lotte"). Em 1932, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha e instalou a ditadura nazista. Com suas políticas antissemitas se disseminando até além das fronteiras, não demoraria para Zweig se sentir afetado na Áustria. Em 1934 deixou o país e passou a viver na Inglaterra, entre Londres e Bath, onde se naturalizou cidadão britânico.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler pela França e em toda a Europa Ocidental, o casal atravessou o Oceano Atlântico em 1940 e se estabeleceu inicialmente nos Estados Unidos, em Nova York. Em 22 de agosto do mesmo ano, fez sua primeira viagem para o Brasil[2] .

O exílio no Brasil e o suicídio[editar | editar código-fonte]

Zweig e Lotte empreenderam três viagens ao Brasil. Na primeira, entre 1940 e 1941, para uma série de palestras pelo país, escreveu da Bahia para Manfred e Hannah Altmann, seus cunhados:

"Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante - hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta) e as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso -, a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz - uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora, ao pensar como viver então"[3] .

Foi nesta primeira viagem que Zweig, com a ajuda de Lotte, reuniu suas anotações pessoais e finalizou o ensaio "Brasil, país do futuro"[4] .. A alcunha de "País do Futuro", criada por Zweig, se tornaria um apelido para o Brasil[5] [6] [7] . De fato, apesar da depressão que já sentia por conta do desenrolar da guerra na Europa, o escritor tentava encontrar no Brasil as condições não apenas de recriar sua vida particular, mas também da antiga atmosfera de seu continente natal. Segundo Alberto Dines, autor de uma biografia do escritor, Zweig seria um dos últimos remanescentes da cultura e do modo de vida europeus do século 19. Seu desânimo com o avanço do Nacional-Socialismo, na verdade, viria de muito tempo antes, desde a Primeira Guerra Mundial, quando os primeiros sinais de rompimento com a velha ordem imperial européia se mostraram.

Zweig foi recebido com entusiasmo tanto pela comunidade intelectual local quanto pelas autoridades políticas. Para os intelectuais brasileiros, a presença de tão renomado escritor em terras nacionais trazia prestígio e oportunidades de um intercâmbio com outros escritores estrangeiros. Mas para as autoridades políticas, a chegada de Zweig, com sua bagagem liberal e antinazista, era contraditória. O governo de Getúlio Vargas se mantinha no poder graças à políticas francamente autoritárias e muitos de seus ministros e assessores militares eram francamente simpatizantes do nazifascismo. Isso não impediu que os elementos menos autoritários do estado brasileiro usassem Stefan Zweig para atingirem seus objetivos.

"Considerando que o nosso velho mundo é, mais do que nunca, governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construida sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo"[8] .

A partir da terceira viagem ao Brasil, Lotte e Zweig se estabeleceram em Petrópolis, cidade na serra do Rio de Janeiro, onde finalizou sua autobiografia, "O Mundo que Eu Vi"; escreveu a novela "O Jogador de Xadrez" e deu início à obra "O Mundo de Ontem", um trabalho autobiográfico com uma descrição da Europa de antes de 1914.

Em 1942, deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida e suicidou-se com a mulher, Lotte, com uma dose fatal de barbitúricos, na cidade de Petrópolis, no Brasil. A notícia chocou tanto os brasileiros quanto seus admiradores de todo mundo. O casal foi sepultado no Cemitério Municipal de Petrópolis, de acordo com as tradições fúnebres judaicas, no perpétuo 47.417, quadra 11[9] .

A casa onde o casal cometeu suicídio é, hoje, um centro cultural dedicado à vida e à obra de Stefan Zweig[4] [10] [4] [10] .

A carta de suicida[editar | editar código-fonte]

DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig

Obra literária[editar | editar código-fonte]

Nota do jornal francês Le Petit Parisien sobre a morte do escritor
  • “Cordas de prata” (Poemas) 1901
  • “A filosofia de Hippolyte Taine” (Tese de Doutorado) 1904
  • “O Amor de Erika Ewald” (Contos) 1904
  • “As Primeiras Grinaldas” (Poemas) 1906
  • “Tersites” (drama teatral em três atos) 1907
  • “Emile Verhaeren” 1910
  • “Segredo Queimado” 1911
  • “Primeira experiência. Quatro histórias de mundo infantil” 1911
  • “A casa junto ao mar. Um drama em duas partes” (Em três atos) 1912
  • “O comediante se virou. Um jogo do rococó alemão” 1913
  • “Jeremias - Poema dramático em nove cenas” 1917
  • “Memórias de Emile Verhaeren” 1917
  • “O Coração da Europa - Uma visita à Cruz Vermelha de Genebra” 1918
  • “Lenda de uma vida (Drama teatral em três atos) 1919
  • “Viagens - Paisagens e cidades” 1919
  • ”Três mestres: Balzac - Dickens – Dostoiévski” 1920
  • “Marceline Desbordes-Valmore, A imagem de um poeta vivo” 1920
  • “Romain Rolland. O homem ea obra” 1921
  • “Carta de uma desconhecida” 1922
  • ”Amok. Histórias de paixão” 1922
  • “Os olhos do irmão eterno. Uma lenda” 1922
  • “Frans Masereel" (com Arthur Holitscher) 1923
  • “Os poemas reunidos” 1924
  • “A monotonia do mundo” (Ensaio)1925
  • “Ansiedade” 1925
  • “A batalha com o demônio, Hölderlin - Kleist – Nietzsche” 1925
  • “Ben Johnson ‘Volpone’. Uma comédia sem amor em três atos” (Livremente editado por Stefan Zweig. Com seis pinturas de Aubrey Beardsley) 1926
  • “O fugitivo. Episódio do Lago Genebra” 1927
  • “Adeus a Rilke. Um discurso” 1927
  • “A confusão de emoções. Três novelas” (“Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher”, “O Naufrágio de um Coração” e “A Confusão de Sentimentos”) 1927
  • “Grandes momentos da humanidade. Cinco miniaturas históricas” 1927
  • “Três poetas de sua vida. Casanova - Stendhal – Tolstoi” 1928
  • “Rachel pede a Deus” 1928
  • “Joseph Fouché. Retrato de uma pessoa política” 1929
  • “O cordeiro do pobre. Tragicomédia em três atos” 1929
  • “A cura através do Espírito. Mesmer - Mary Baker Eddy e Freud” 1931
  • “Maria Antonieta. Retrato de um personagem central” 1932
  • “Triunfo e Tragédia de Erasmo de Rotterdam” 1934
  • “A Mulher Silenciosa. Ópera cômica em três atos 1935
  • “Mary Stuart” 1935
  • “Pequenas Histórias Selecionadas – ‘A cadeia’ e ‘Caleidoscópio’” 1936
  • “Castellio ou Contra Calvino. Uma consciência contra a violência” 1936
  • “O candelabro enterrado” 1937
  • “Encontros com pessoas, livros e cidades” 1937
  • “Fernão de Magalhães. O homem e sua ação” (Biografia) 1938
  • “Cuidado da Piedade” 1939
  • “Brasil, País do Futuro” (Ensaio) 1941
  • “Histórias de Xadrez” 1942
  • “Tempo e lugar. Ensaios e Palestras selecionados - 1904-1940” 1943
  • “O Mundo que Eu Vi - Memórias de um Europeu” 1942
  • “Amerigo. A história de um erro histórico” 1944
  • “Lendas de Estocolmo” 1945
  • “Balzac. Romance de sua vida” 1946
  • “Fragmentos de um romance” 1961
  • “Ruído da transformação” 1982

Zweig escreveu também uma espécie de autobiografia, intitulada O Mundo Que Eu Vi (Die Welt von Gestern), na qual relata episódios de sua vida tendo como base os contextos históricos do período em que viveu (como, por exemplo, a Monarquia Austro-Húngara e a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais).

No cinema[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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