Strez

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Strez
Sebastocrator
Dinastia Asen
Nascimento século XII
Morte 1214
Vale do Polog

Strez (em búlgaro: Стрез; soletrado originalmente como СТРѢЗЪ[nt 1] ) (fl. 1207–1214) foi um sebastocrator búlgaro e membro da dinastia Asen. Um dos principais candidatos ao trono do Império Búlgaro, Strez inicialmente foi contra a ascensão de Boril, que era parente próximo. Ele fugiu para o Principado da Sérvia, onde aceitou ser vassalo do grão-príncipe Estêvão Nemânica (Stefan Nemanjić) e, com o apoio dos sérvios, estabeleceu-se como um monarca quasi-independente de grande parte da região da Macedônia. Porém, Strez traiu seus suseranos, tornou-se um vassalo dos búlgaros e se aliou a Boril para lutar contra o Império Latino e contra os sérvios. Ele acabou assassinado em circunstâncias obscuras durante uma campanha contra os sérvios num complô que provavelmente envolveu São Sava.

Pretendente ao trono e vassalo da Sérvia[editar | editar código-fonte]

Árvore genealógica da dinastia Asen, incluindo Strez e Boril.

Nada é mencionado sobre Strez até os eventos da véspera da morte repentina do tsar Kaloyan (r. 1197–1207) durante o cerco do recém-fundado reino cruzado de Tessalônica.[2] Assim como Aleixo Eslavo, outro nobre que também emergiria como um separatista na ocasião, Strez era um sobrinho dos irmãos Asen (Pedro IV, João Asen I e Kaloyan, que foram os três primeiros imperadores do Segundo Império Búlgaro.[3] Porém, é incerto se ele era primo em primeiro grau ou irmão de Boril (r. 1207–1218).[4] [5] [6]

Na época da morte de Kaloyan, Strez estava na capital Tarnovo, talvez tentando capitalizar seus direitos ancestrais à coroa búlgara. Porém, Boril se mostrou o candidato mais ambicioso. Ele perseguiu os outros candidatos e Aleixo e os filhos de João Asen I, João Asen II e Alexandre, tiveram que deixar a Bulgária.[7]

Como acontecera com os demais membros da família real, a ascensão de Boril forçou Strez e seus aliados mais próximos a fugir, no caso dele para a vizinha Sérvia, onde foi bem recedido por Estêvão II Nemânica (r. 1196–1228) em 1207 ou no início de 1208.[3] [8] Apesar de Boril ter solicitado a extradição de Strez para a Bulgária,[9] o monarca sérvio desejava utilizar Strez como uma marionete para conseguir conquistar territórios mantidos pelos búlgaros. Estêvão acreditava que a linhagem real e as aspirações imperiais de Strez tornariam muito mais fácil impor o domínio sérvio sobre a Macedônia, Kosovo e Branichevo, além de Belgrado, todas regiões conquistadas pela Bulgária no reinado de Kaloyan.[10] Na mesma época, Boril não conseguiu fazer nada contra Strez e seu patrono sérvio, pois sofreu uma pesada derrota para os latinos na Batalha de Filipópolis em 1208.[8] [11] [12] Estêvão chegou ao ponto de se tornar irmão de sangue de Strez numa cerimônia na qual ele esperava assegurar a lealdade do herdeiro búlgaro.[2] [7]

Em 1208, Strez liderou uma força sérvia que tomou a maior parte do vale do Vardar da Bulgária. Ele se estabeleceu como um vassalo da Sérvia no castelo de Prosek (perto da moderna Demir Kapija), a antiga capital de um outro separatista búlgaro, Dobromir Chrysos. Já em 1209, o reino de Strez se estendia por toda a Macedônia,[3] [5] [8] do vale do Struma a leste, onde fazia fronteira com o território de Boril, até Bitola e, talvez, Ácrida (Ohrid) a oeste; de Escópia (Skopje), no norte, até Beroia no sul. Enquanto Strez ganhava rapidamente o apoio da população búlgara local e — possivelmente — herdava o que restava do sistema administrativo de Boril, unidades sérvias permaneciam estacionadas em seus domínios, para garantir sua lealdade ou, provavelmente, para em algum momento expulsá-lo e anexar suas terras.[13]

Vassalo da Bulgária[editar | editar código-fonte]

Domínios de Strez
Fortaleza de Prosek, capital de Strez
Fortaleza de Prosek, capital de Strez
Territórios de Strez e de Aleixo Eslavo (Slav).
Territórios de Strez e de Aleixo Eslavo (Slav).

O casamento de Aleixo Eslavo com a filha do imperador latino Henrique de Flandres em 1209 foi um grande perigo potencial para Boril, que poderia se ver na posição de ter que enfrentar inimigos nos dois flancos. Temendo uma aliança assim, Boril se aproximou de Strez, que estava, na época, em ascensão e próximo de conseguir a independência da Sérvia.[12] Strez concordou em se unir com seu antigo inimigo, ainda que só depois de Boril ter reconfirmado sua autonomia completa.[14] [15] Strez eliminou o que restava das tropas sérvias em suas terras, um ato que os sérvios viram como tendo sido "inspirado pelo demônio". Não é impossível que Boril tenha persuadido Strez através de ameaças militares, mas o mais provável é que seja conseguida através de negociações.[16]

No mesmo ano, Strez e Boril negociaram a paz com Miguel I Comneno Ducas, déspota de Épiro. No final de 1209, Strez e Miguel podem ter tentado uma campanha conjunta contra Tessalônica,[17] pois ambos perderam territórios para os latinos em campanhas que provavelmente era raides retaliatórios no final de 1209 e início de 1210. O fracasso deste ataque fez com que Miguel abandonasse a aliança com os búlgaros e passasse a apoiar os latinos. No início de 1211, Strez entrou em conflito com os latinos e os epirotas em Tessalônica e pediu a ajuda de Boril depois que Miguel e Henrique invadiram as regiões ocidentais de Strez. No início do verão, o exército búlgaro aliado sofreu uma pesada derrota em Bitola[3] [15] nas mãos de Miguel, do irmão de Henrique, Eustáquio, e Bernardo de Katzenellenbogen.[18] Mesmo sem resultar em nenhuma perda territorial,[17] a derrota impediu Strez de se expandir para o sul. No contexto de um concílio contra os bogomilos realizado em 1211, Strez foi chamado de sebastocrator. O título foi conferido a ele ou por Boril como parte do acordo em 1209 ou por Kaloyan durante o seu reinado. Seja como for, Boril certamente reconheceu o direito de Strez de usar o título. Há evidências que Strez dividiu suas posses em unidades administrativas, cada uma governada por um sebastos.[19] Em 1212, Strez já estava poderoso o suficiente para ser considerado um dos principais adversários do Império Latino, juntamente com Boril, Miguel e o imperador de Niceia, Teodoro I Láscaris, pelo próprio Henrique de Flandres.[15] [17]

Campanha contra os sérvios[editar | editar código-fonte]

Depois de uma série de fracassos militares contra os latinos, Boril aceitou a paz com Henrique em 1213, consolidada por dois casamentos reais.[20] [21] Como vassalo de Boril, Strez se juntou à aliança búlgara-latina, cujo primeiro objetivo era uma dupla invasão à Sérvia.[22] [23] Em 1214, as forças de Boril e Henrique atacaram a Sérvia pelo leste e o exército de Strez, considerado pelas fontes contemporânea como "incontável",[17] penetraram o território sérvio pelo sul e alcançaram o Polog. Obrigado a enfrentar uma guerra em dois frontes, os sérvios rapidamente pediram a paz. Depois que os enviados de Estêvão a Strez fracassaram, ele enviou seu irmão, o arcebispo Sava (canonizado depois), ao campo de Strez.[24] [25]

Sava também não teve sucesso nenhum,[3] mas o fato é que Strez morreu na noite seguinte à sua partida. As fontes sérvias apresentaram a morte de Strez como um milagre, no qual ele teria sido apunhalado por um anjo,[26] enquanto que o mais provável é que ele tenha sido assassinado num complô orquestrado por Sava.[24] O historiador John V. A. Fine especulou que Sava teria encontrado aliados entre os nobres de Strez, alguns dos quais o teriam traído, organizado sua morte e desertado imediatamente depois. De acordo com a hagiografia de São Sava, em suas palavras finais no leito de morte, Strez alegou ter sido apunhalado por um jovem soldado por ordem de Sava.[27] [28]

Enquanto o assassinato de Strez marcou o fim da campanha búlgaro-latina, Estêvão não realizou a campanha na Macedônia por causa da proximidade das tropas da coalizão, que estavam estacionados em Naísso. Em 1217, todo o todo o território de Strez estava sob o domínio dos epirotas de Teodoro Comneno Ducas,[3] [22] [24] embora Boril também possa ter controlado parte ou todo este território durante esse intervalo.[29] Os sérvios não conseguiram se aproveitar da morte de Strez, uma vez que nenhuma parte de seu antigo território passou para controle sérvio.[26]

Análise e legado[editar | editar código-fonte]

Fontes sérvias da época, como a hagiografia de São Sava, são extremamente críticas em relação aos atos de Strez. Elas acusam-no de ser temerário, bêbado, infiel, traidor e cruel. A hagiografia fala ainda sobre uma suposta tendência de Strez de fazer atirar prisioneiros do alto de uma colina diretamente no rio Vardar para divertir seus convidados. Conforme os prisioneiros caíam para a morte, Strez gritava sarcasticamente para que eles "não molhassem suas roupas".[30] [31] O historiador búlgaro Ivan Lazarov descartou estas alegações como difamações. Em sua biografia de Strez, ele elogia o monarca medieval como um "verdadeiro membro da dinastia Asen" e defende suas ações afirmando que ele era uma "cria de sua época". Lazarov analisa Strez como possuidor de uma personalidade característica e vívida que colocava a independência acima de tudo.[26]

O nome de Strez passou a fazer parte do folclore búlgaro,[26] incluindo um relato lendário sobre sua vida intitulado "Biografia do Príncipe Stregan", escrito no século XVIII ou depois.[15] [32] Pelo menos uma localização geográfica na Macedônia está ligada a Strez, a quem o povo identificava como um voivoda ou haiduque que defendia-os contra os turcos otomanos. Algumas ruínas nas margens do rio Vardar perto de Jegunovce, a oeste de Escópia, eram conhecidas pelos locais como "Fortaleza de Strez" (Стрезово кале, Strezovo kale).[33] Ainda que na verdade sua capital se localizasse em Prosek, muito mais para o sul, o castelo em Jegunovce pode ter feito parte do conjunto de fortificações fronteiriças do reino de Strez ou ainda o lugar de sua negociação com Sava, onde morreu.[34]

Notas

  1. E transposto para o grego como Στρέαζος - Streazos em grego bizantino e como Straces ou Stratius fontes em latinas.[1]

Referências

  1. Zlatarski 1971, p. 270
  2. a b Bozhilov 1999, p. 98
  3. a b c d e f Bakalov 2003
  4. Fine 1994, p. 94
  5. a b Pavlov 2005
  6. Andreev 1999, p. 353
  7. a b Andreev 1999, p. 353
  8. a b c Curta 2006, p. 385
  9. Andreev 2004, p. 179
  10. Fine 1994, p. 94-95
  11. Velimirović 1989, p. 61
  12. a b Andreev 2004, p. 180
  13. Fine 1994, p. 95-96
  14. Andreev 2004, p. 181
  15. a b c d Bozhilov 1999, p. 99
  16. Fine 1994, p. 97-98
  17. a b c d Andreev 1999, p. 355
  18. Housley 2007, p. 73
  19. Fine 1994, p. 98
  20. Fine 1994, p. 100-101
  21. Andreev 2004, p. 182
  22. a b Bakalov 2007, p. 154
  23. Fine 1994, p. 101
  24. a b c Andreev 2004, p. 183
  25. Fine 1994, p. 103
  26. a b c d Andreev 1999, p. 356
  27. Fine 1994, p. 103-104
  28. Velimirović 1989, p. 62
  29. Fine 1994, p. 104
  30. Velimirović 1989, p. 60-62
  31. Andreev 2004, p. 355-356
  32. Mutafchiev 1993, p. 110
  33. Mutafchiev 1993, p. 276
  34. Mutafchiev 1993, p. 280

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bakalov, Georgi; Milen Kumanov. Electronic edition "History of Bulgaria" (em búlgaro). Sófia: Trud, Sirma, 2003. Capítulo STREZ (unknown — c. 1214). ISBN 954528613X.
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  • Bozhilov, I.; V. Gyuzelev. History of Medieval Bulgaria 7th-14th Centuries. Sófia: Anubis, 1999. ISBN 954-426-204-0.
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  • Mutafchiev, Petŭr. East and West in the European Middle Ages. Selected Works (em búlgaro). Sófia: Khristo Botev, 1993. Capítulo The rulers of Prosek. Pages from the history of the Bulgarians in the late 12th and early 13th century. ISBN 978-954-445-079-3.
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