Subida do nível do mar

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Gráfico mostrado a elevação no nível do mar entre 1870 e 2008.

A subida do nível do mar é um fenômeno físico e geológico que ocorreu várias vezes ao longo da história da Terra, enquanto em outras ocasiões o mar teve seu nível rebaixado. São muitos e complexos os fatores que podem influenciar este tipo de variação, entre eles mudanças no clima e o movimento das placas tectônicas. No último século o nível do mar tem se elevado outra vez por consequência do aquecimento global, colocando sérios desafios para as regiões litorâneas, onde se concentra grande parte da população humana, e para nações insulares de baixa altitude.

Aspectos gerais[editar | editar código-fonte]

Nivel eustático e nível local do mar[editar | editar código-fonte]

O nível local médio do mar (NLMM) é definido como sendo o valor médio da altura do mar em relação a um referencial terrestre, durante um período de tempo (um mês ou um ano, por exemplo) suficientemente longo para que as variações causadas pelas ondas e pelas marés possam ser suavizadas. Devem fazer-se ajustamentos a alterações detectadas no NLMM para descontar os efeitos de possíveis movimentos verticais da terra, que podem ser da mesma ordem (mm/ano) que as mudanças no nível do mar. Alguns movimentos de terra ocorrem devido ao movimento isostático do manto ao derretimento de mantos de gelo no final da última era glacial. O peso do manto de gelo deprime o terreno subjacente, e quando o gelo derrete, a terra vagarosamente regressa à sua posição anterior à deposição do gelo (ressalto isostático). O NLMM pode também ser afetado pela pressão atmosférica, correntes marítimas e mudanças locais na temperatura do oceano.[1]

A mudança eustática (contrariamente à mudança local) resulta numa alteração global dos níveis do oceanos, tais como variação do volume de água dos oceanos do mundo ou do volume de bacias oceânicas.

Variações a longo prazo[editar | editar código-fonte]

Muitos fatores afetam o volume ou a massa do oceano, conduzindo a mudanças de longo prazo no nível eustático do mar. As duas influências principais são a temperatura, porque o volume de água se expande á medida que sobe a températura, um efeito chamado expansão térmica, e a massa da água retida na terra e no mar, sob a forma de água doce em rios, lagos, geleiras, calotas de gelo polar e gelo marinho. À escala de tempo geológico as mudanças nas formas das bacias oceânicas e na distribuição de terra/mar afetam também o nível do mar. Todas as formas de água congelada, tanto sobre a terra quanto sobre os oceanos, têm se reduzido no último século, e a tendência é que as perdas de gelo se acelerem. Além disso, os depósitos de água líquida do subsolo e da superfície também têm sido reduzidos pelo consumo humano.[1]

Glaciares e calotas polares[editar | editar código-fonte]

O declínio do gelo flutuante do Ártico é um dos sinais mais evidentes do aquecimento global. A animação mostra a redução entre 1979 e 2010.

Em cada ano, cerca de 8 mm de água da superfície inteira dos oceanos cai na Antártica e na Gronelândia sob a forma de neve. Se o gelo não retornasse aos oceanos, o nível do mar diminuíria 8 mm a cada ano. A diferença entre o gelo que se acumula e o gelo que derrete é chamada de balanço de massa, e é importante por fazer variar o nível do mar em termos globais. Todavia, o balanço de massa no último século tem sido negativo, significando que a água que se acumula nos polos sob a forma de gelo ou neve tem sido menor que a quantidade que tem derretido.[1]

Plataformas de gelo flutuam na superfície do mar e, se derretem, não alteram diretamente o nível do oceano, do mesmo modo, o derretimento da calota de gelo polar norte, que é composta de blocos de gelo flutuantes, não contribuiria significantemente para a elevação do nível dos oceanos. Por serem constituídas por água doce, seu derretimento causaria um pequeno aumento nos níveis do mar, tão pequeno que geralmente é desprezado. Todavia, o derretimento das plataformas de gelo é acompanhado pelo derretimento dos mantos de gelo na Gronelândia e Antártida, que se localizam sobre terra firme, e que ampliariam significativamente o nível do mar se deslizassem para o oceano e derretessem completamente.[1] [2]

História[editar | editar código-fonte]

A Terra atravessou em sua longa história muitas mudanças geológicas, e em certos períodos tornou-se mais quente do que é hoje. Calcula-se, através de registros paleográficos, que ao longo dos últimos 3 milhões de anos o nível do mar chegou a estar mais de 5 metros acima do atual, quando a Terra tinha uma temperatura média de cerca de 2º C superior.[1]

Entretanto, neste longo período ocorreram variações de temperatura, incluindo esfriamentos significativos, causando as glaciações, quando foram formadas espessas capas de gelos sobre vastas regiões da Terra, que absorveram grandes quantidades de água dos mares reduzindo expressivamente o seu nível. Quando o clima voltou a aquecer e todo este gelo derreteu, em torno de 10 mil anos atrás, o nível do mar subiu cerca de 130 metros. A maior parte desta subida ocorreu antes de há 6 000 anos. Desde há 3 000 anos até ao início do século XIX o nível do mar manteve-se praticamente constante, subindo entre 0.1 e 0.2 mm/ano, mostrando uma pequena variabilidade.[2]

A medição do nível do mar é tarefa de grande complexidade, só iniciou no fim do século XIX e somente há pouco tempo têm sido desenvolvidos métodos mais confiáveis. O IPCC calcula que a taxa de elevação média entre 1901 e 2010 foi de 1,7 milímetros (mm) ao ano, com uma faixa de variação de 1,5 a 1,9 mm. A elevação total neste intervalo foi calculada em 19 centímetros. Porém, nas últimas décadas a velocidade de elevação tem aumentado. Entre 1993 e 2010 a taxa foi maior do que 3,2 mm por ano, com uma faixa de variação de 2,8 a 3,6 mm.[1]

A elevação recente[editar | editar código-fonte]

A elevação do mar entre 1993 e 2012. As áreas mais vermelhas subiram mais.

A recente subida do nível do mar é resultado do aquecimento global através de dois processos principais: expansão da água do mar devida ao aquecimento dos oceanos e derretimento de massas de gelo sobre terra firme.[3] [1] As previsões do IPCC para o século XXI é que provavelmente a velocidade da elevação aumentará em relação ao período de 1971 e 2010, e também o nível médio do mar aumentará em relação ao que é hoje. Os modelos utilizados dão resultados bastante divergentes, mas todos apontam para uma elevação, que poderá ficar entre 26 e 98 centímetros em 2100.[1]

Não obstante a solidez das projeções do IPCC, segundo informam a UNESCO e outros pesquisadores, elas têm sido conservadoras, e estimativas independentes verificaram que a taxa real de elevação recente tem se aproximado do limite superior das projeções do IPCC, o que aponta para elevações futuras ainda maiores, que podem ficar entre 1,2 e 2 metros acima do nível atual.[2] [4] [5] [6] [7]

Naturalmente, é difícil prever com exatidão o desenvolvimento futuro do fenômeno, pois ele depende de muitas variáveis, principalmente o comportamento da sociedade em relação à continuada emissão de gases estufa, que provocam o aquecimento global. O IPCC projeta que se as emissões continuarem nos níveis atuais por muito tempo, causando uma elevação da temperatura média de 2 a 4º C, o aquecimento global desencadeará efeitos irreversíveis de grande amplitude e longa duração, o que tornará concreta a possibilidade de derretimento completo da camada de gelo do Ártico nos próximos mil anos. Isso causaria uma elevação do mar de cerca de sete metros acima do nível atual.[1]

Consequências[editar | editar código-fonte]

A gravidade dos impactos dependerá de quanto o mar subir, mas sabe-se que os efeitos serão de grande amplitude e de escala global a partir da extrapolação dos efeitos que já têm sido observados com a elevação relativamente pequena que já ocorreu, ainda que sejam esperadas variações localizadas. As inundações costeiras já são maiores e mais frequentes do que eram no início do século XX. Outros efeitos do aquecimento global ampliarão os impactos, pois as tempestades e tufões, que provocam nas costas enormes estragos e perdas de muitas vidas, tendem a se tornar mais intensos e frequentes. A elevação do mar também tende a causar uma intensificação nas chuvas que caem no litoral, piorando os estragos.[2] [8] A altura média das ondas tende da mesma maneira a aumentar, tanto pelo efeito de tempestades mais amiudadas quando por mudanças no padrão dos ventos e das correntes marinhas, que sofrem interferência do aquecimento global.[1]

Estrada destruída pela erosão costeira na Baía Palliser, na Nova Zelândia.
Perda de terra firme na costa da Louisiana entre 1932 e 2011.

A erosão costeira é outro dos efeitos esperados e já vem sendo observada, ocasionando o recuo da linha de areia nas praias, mudanças no perfil dos litorais e destruição de infra-estruturas litorâneas construídas pelo homem, como barragens, estradas e habitações.[8] Por exemplo, no estado brasileiro da Paraíba, a situação já é grave, com 42% do litoral registrando erosão, colocando um milhão de pessoas sob ameaça direta. Uma pesquisa levada a cabo pelo Ministério do Meio Ambiente mostrou que 70% do litoral do Brasil apresentou tendência de erosão nas últimas décadas,[9] e projeta-se que até 42 milhões de brasileiros enfrentarão problemas ligados à subida do mar no século XXI.[10]

Certos ecossistemas costeiros devem ser afetados negativamente pela elevação do mar, prejudicando suas regiões com diminuição de fontes de alimento e de água potável, gerando por extensão problemas de saúde e perturbações sociais. Mesmo populações de seres marinhos de alto mar também sofrerão efeitos negativos, que provocam seu declínio populacional ou redistribuição geográfica. Muitas espécies de peixes, moluscos e crustáceos são economicamente valiosas para o homem, e espera-se que com seu declínio ou migração surjam impactos para a economia e abastecimento alimentar.[8] [11] [12]

A elevação do nível do mar coloca um sério risco em particular para ilhas e países insulares cuja altitude média é baixa, podendo obrigar à evacuação de populações inteiras.[8] Esse deslocamento populacional inevitavelmente será necessário para todos os litorais do mundo, pois todas as regiões serão afetadas. Regiões em que a costa está afundando por mecanismos geológicos naturais, onde foram fundadas muitas das maiores cidades modernas, sofrerão impactos ainda mais intensos. Os custos em termos econômicos, sociais, culturais e políticos dessa migração em massa não podem ser calculados com precisão, mas não é difícil projetar que serão vastíssimos. Nova Iorque, Xangai, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Barcelona, Hong Kong e muitas outras cidades grandes e pequenas serão diretamente prejudicadas, com uma população total sob risco que em 1990 foi estimada em 200 milhões de pessoas. A população total sob risco indireto, sendo dependente em várias maneiras das cidades litorâneas, é muito maior.[13] [14] O caso se agrava porque a tendência contemporânea é de aumentar a população urbanizada, prevendo-se que no século XXI serão formadas vinte megacidades localizadas junto do mar.[15]

Uma pesquisa que analisou o caso do Senegal, calculou que a elevação de um metro no nível do mar significaria a inundação de 6 mil km2 de terra da região mais populosa do país, provocando um êxodo de até 180 mil pessoas e danos a propriedades que chegariam a 700 milhões de dólares, o que equivalia, na data do estudo, a 17% do PIB nacional.[16]

Referências

  1. a b c d e f g h i j IPCC [Church, J.A. et al.]. "Sea Level Change". In: [Stocker, T.F. et al. (eds.)]. Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press, 2013
  2. a b c d UNESCO. Sea-level Rise and Variability: A summary for policy makers, 2010.
  3. Global Climate Change. Sea Level. NASA's Jet Propulsion Laboratory.
  4. Grinsted, A., J. C. Moore, & S. Jevrejeva. "Reconstructing sea level from paleo and projected temperatures 200 to 2100 AD". In: Climate Dymamics, 2010, 34 (4):461-472
  5. Rignot, E. et alii. "Acceleration of the contribution of the Greenland and Antarctic ice sheets to sea level rise". In: Geophysical Research Letters, 2011; 38(5)
  6. Board on Atmospheric Sciences and Climate, Division on Earth and Life Studies, National Research Council of the National Academies. "7 Sea Level Rise and the Coastal Environment". In: America’s Climate Choices: Panel on Advancing the Science of Climate Change. The National Academies Press. 2010, p. 245
  7. Gillis, Justin. "As Glaciers Melt, Science Seeks Data on Rising Seas". The New York Times, 13/11/2010
  8. a b c d IPCC. "Summary for policymakers". In: IPCC. Climate Change 2014: Impacts,Adaptation, and Vulnerability. Part A: Global and Sectoral Aspects. Contribution of Working Group II to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Field, C. B. et al (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, pp. 1-32
  9. Gama, Aliny & Madeiro, Carlos. "Estudo mostra que avanço e recuo do mar mudam litoral brasileiro e ameaçam cidades". UOL Notícias, 12/09/2011
  10. Sousa Neto, Gabriel Moisés de. Impactos do Aumento do Nível do Médio do Mar em Algumas Capitais do Nordeste Brasileiro, e suas Consequências Ambientais. Universidade Federal de Campina Grande, 2009, p. 18
  11. Nellemann, C. et alii (Eds). "The environmental food crisis – The environment’s role in averting future food crises". UNEP Rapid Response Assessment Series. United Nations Environment Programme, GRID-Arendal
  12. Galbraith, H.et alii. "Global Climate Change and Sea Level Rise: Potential Losses of Intertidal Habitat for Shorebirds". In: Waterbirds, 2002; 25 (2):173-183
  13. IPCC. "Synthesis Report Summary for Policymakers". In: IPCC Fourth Assessment Report: Climate Change 2007.
  14. Nicholls, Robert J. & Tol, Richard S. J. "Impacts and responses to sea-level rise: a global analysis of the SRES scenarios over the twenty-first century". In: Philosophical Transactions of The Royal Society A, 2006; 364 (1841):1073-1095
  15. Nicholls, R. J. "Coastal megacities and climate change". In: GeoJournal, 1995; 37 (3):369-379
  16. Dennis, Karen Clemens; Niang-Diop, Isabelle & Nicholls, Robert James. "Sea-level rise and Senegal: Potential impacts and consequences". In: Journal of Coastal Research, 1995; (14):343-361
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