Susana (Livro de Daniel)

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Susana e os anciãos por Guercino.

Susana (em hebraico: שׁוֹשַׁנָּה, Moderno: Šošana| Tiberiana: Šôšannâ: "Lírio") é uma das Adições em Daniel, considerada apócrifa por protestantes, mas incluída no Livro de Daniel (como o capítulo 13) pela Igreja Católica e pela Igreja Ortodoxa Oriental. Ela está listada no Artigo VI dos Trinta e Nove Artigos de Religião da Comunhão Anglicana como não fazendo parte das Escrituras[1] . A história de Suzana também não está incluída no Tanakh judaico e não é sequer mencionada nas primeiras obras literárias judaicas[2] .

O texto[editar | editar código-fonte]

Susana e os anciãos by Rubens.
Susana e os anciãos por Alessandro Allori.

O texto grego sobreviveu em duas versões. O da Septuaginta aparece apenas no Códice Chigi. A versão de Teodócio é a que aparece nas bíblias católicas. Ele foi considerada como parte da literatura de Daniel e colocada no início do seu livro nos manuscritos do Antigo Testamento. Jerônimo por sua vez a colocou no final de Daniel enquanto traduzia a Vulgata, com uma nota indicando que ela não existia na bíblia hebraica e a considerava uma fábula[3] . Em sua introdução, ele afirma que o texto é uma adição apócrifa justamente não ter sido escrita em hebraico - como o livro de Daniel original - e sim em grego.

Sexto Júlio Africano não considerava a história como canônica, segundo Eusébio de Cesareia[4] e escreveu a Orígenes sobre o assunto[5] . Orígenes escreveu-lhe de volta uma longa defesa da história[6] , afirmando que:

Respondendo a isto, você provavelmente dirá: "Por que então a história não está no Daniel deles [os judeus] se, como você diz, os seus sábios legaram pela tradição histórias desta natureza?". A resposta é que eles esconderam como puderam este conhecimento das pessoas, pois muitas de suas passagens que continham escândalos contra os anciãos, reis e juízes, alguns deles sendo preservados em escritos apócrifos.
 
Carta a Africano, Orígenes

Porém, não existe nenhuma referência a Susana anterior ao texto de Orígenes na literatura judaica.


A História de Susana[editar | editar código-fonte]

A história conta que uma bela esposa judia chamada Susana é acusada falsamente por libidinosos observadores escondidos (voyeur). Enquanto ela se banha no jardim e tendo mandado embora suas damas-de-companhia, dois dos anciãos secretamente observam a adorável Susana. Quando ela está voltando pra casa, eles a pressionam e ameaçam alegar que ela estaria se encontrando com um jovem no jardim caso ela não concorde em entregar-se a eles. Ela se recusa a ser chantageada, é presa e está prestes a ser executada por promiscuidade quando um jovem chamado Daniel interrompe o julgamento, gritando que os dois anciãos deveriam ser questionados para prevenir a morte de uma inocente. Após serem separados, os dois homens foram questionados em detalhes do que viram, mas acabaram discordando sobre qual a árvore sob cuja sombra Susana teria se encontrado com seu amante. No texto grego, os nomes das árvores citadas pelos anciãos foram trocadilhos com a sentença dada por Daniel. O primeiro diz que ela estava sob uma almécega [a] (υπο σχινον, hupo schinon), e Daniel diz que um anjo está pronto para cortá-lo (σχισει, schisei) em dois. O segundo diz que eles estavam sob um carvalho (υπο πρινον, hupo prinon), Daniel diz que um anjo está pronto para serrá-lo (πρισαι, prisai) em dois. A grande diferença de tamanho entre a almécega e o carvalho torna a mentira dos anciãos óbvia para todos os observadores. Ambos são então executados e a virtude triunfou. Os trocadilhos gregos no texto já foram citados por alguns autores como prova de que eles nunca existiram em hebraico e nem em aramaico, mas outros pesquisadores sugeriram pares de palavras para árvore e verbos de corte que soam parecidas o suficiente para supor que elas poderiam ter sido usadas no original.

Susana na arte[editar | editar código-fonte]

Daniel salva Susana por François Boucher.

A história foi retratada muitas vezes a partir de 1500, muito por conta das possibilidades oferecidas para incluir uma nudez feminina numa pintura histórica - pinturas de Betsabé se banhando oferecia uma alternativa com as mesmas vantagens - com a possibilidade de inclusão de uma pintura ou obra arquitetônica clássica na paisagem. Susana foi tema de pinturas por Rubens, Van Dyck, Tintoretto, Rembrandt, Tiepolo e muitos outros. Algumas destas obras, especialmente durante o período barroco, enfatizaram o drama, enquanto outras se concetraram na nudez. Um versão do século XIX por Francesco Hayez (hoje na National Gallery, em Londres) sequer tem os anciãos na pintura[7] .



Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ «Pistacia lentiscus» na Wikipédia em espanhol.

Referências

  1. Article VI (em inglês). episcopalian.org. Página visitada em 11/10/2010.
  2. Este artigo incorpora texto da Jewish Encyclopedia (em inglês) de 1901–1906 (artigo "Susanna, History Of" por Crawford Howell Toy), uma publicação agora em domínio público.
  3. Herbermann, Charles George. The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church (em inglês). [S.l.]: Encyclopedia Press, 1908. 626 p., "...embora as porções deuterocanônicas de Daniel pareçam conter anacronismos, elas não deveriam ser tratadas - como foi feito por São Jerônimo - como meras fábulas"
  4. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica: Africanus. (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo: 31. , vol. VI.
  5. Sexto Júlio Africano. Carta à Orígenes: About the History of Susanna. (em inglês). [S.l.: s.n.]. vol. I.
  6. Orígenes. Carta à Africano: About the History of Susanna. (em inglês). [S.l.: s.n.]. vol. I.
  7. Francesco Hayez (1850). Susanna at her Bath (em inglês). nationalgallery.org.uk.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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