Talian

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Talian (Talian)
Falado em: Sul do Brasil, principalmente na região das serras gaúchas e no Oeste Catarinense
Região: América do Sul
Total de falantes: 500 mil
Posição: 3° do Brasil
Família: Indo-europeu
 Itálico
  Românico
   Ítalo-ocidental
    Ítalo-brasileiro
     Talian (Talian)
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
A região da Serra Gaúcha está localizada no nordeste do estado do Rio Grande do Sul, região Sul do Brasil; item 4 do mapa

O talian (ou vêneto brasileiro1 ) é uma variante da língua vêneta (língua do norte da Itália) falada na Região Sul do Brasil, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.2

História[editar | editar código-fonte]

Imigrantes italianos começaram a chegar à região no final do século XIX. Na época, ainda não fora estabelecido um idioma italiano oficial na Itália, e o uso de dialetos ainda era predominante. Os italianos que imigraram para o Brasil eram de diferentes partes da Itália, mas no sul do Brasil predominaram os imigrantes do norte da Península Itálica, principalmente das regiões do Vêneto, da Lombardia, do Trentino-Alto Ádige e do Friuli-Venezia Giulia. Destes, cerca de 60% eram de língua e cultura vênetas.2

Os imigrantes que chegavam falavam diversos dialetos mas, com o tempo, o vêneto se soprepôs aos outros falares dialetais, formando um coiné que servia como meio de comunicação em vista da diversidade linguística trazida pelos colonos. Em algumas localidades onde houve maior concentração de imigrantes provenientes de uma determinada localidade na Itália, ainda é possível reconhecer especificidades dialetais de alguma região da Itália (como exemplo, a comunidade de Pomeranos, onde o dialeto trentino conseguiu se manter). Mas, de maneira geral, as colônias eram habitadas por pessoas de diferentes partes da Itália, colocando em contato vênetos, lombardos, trentinos e, mais raramente, friulanos. Como havia uma predominância demográfica de vênetos, com o passar do tempo a fala foi evoluindo para um linguajar mais geral, formando um dialeto vêneto brasileiro, compreendido por todos os italianos e descendentes da região.2

Nas primeiras décadas de imigração, havia grande resistência da comunidade italiana em se misturar com os brasileiros. O processo de integração foi lento. Esse isolamento durou cerca de cinquenta anos, a contar do início da imigração, em 1875. No sul do Brasil, muitas colônias italianas eram situadas em regiões isoladas ou relativamente independentes da população brasileira. Isso permitiu a manutenção do uso da fala dialetal italiana por gerações. Tal fato não foi possível, por exemplo, no estado de São Paulo onde, desde o início, os imigrantes italianos tiveram contato diário com a população brasileira local, e seus dialetos foram rapidamente suplantados pela língua portuguesa.3

O vêneto falado no sul do Brasil é arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália, pois é semelhante ao usado no século XIX. Ademais, com o advento da rádio e da televisão, começou uma forte interferência da língua portuguesa no vêneto falado pelos imigrantes no Brasil. Em decorrência, o vêneto brasileiro evoluiu de forma diferente da variedade falada na Itália, uma vez que incorporou itens lexicais do português e se manteve ligado à maneira como era falado no século XIX. Assim, usa-se o termo talian para diferenciar o vêneto falado no Brasil do dialeto vêneto hoje usado na Itália.2

Contudo, o talian não é considerado um dialeto crioulo italiano, mas sim uma variante brasileira da língua vêneta. Da mesma forma que o Riograndenser Hunsrückisch, um dialeto falado por descendentes de alemães no Sul do Brasil, o talian não é considerado uma língua estrangeira no Brasil, mas sim uma língua nacional brasileira, sem status de língua oficial (com exceção do município de Serafina Corrêa).4

O talian falado no Brasil e o vêneto atualmente falado na Itália são a mesma língua e, apesar de ambas as variedades linguísticas terem evoluído de forma diferente e hoje possuírem algumas diferenças, continuam mutuamente inteligíveis.2

O declínio[editar | editar código-fonte]

O censo de 1950 mostrou que, dos 458 mil falantes de italiano no Brasil, 64,62% viviam no Rio Grande do Sul, 20,87% em Santa Catarina e 9,99% em São Paulo.3

O uso do idioma talian no Brasil entrou em declínio desde a década de 1930, com a campanha de nacionalização. O governo nacionalista de Getúlio Vargas proibiu seu uso, tanto escrito, como oral. Falar talian em lugares públicos e privados no Brasil era considerado ofensivo e falta de patriotismo, e os italianos e descendentes foram de certa forma obrigados a aprender o português. Houve grande repressão policial nas colônias, inclusive pessoas foram presas e espancadas ao serem pegas falando o talian nas ruas. O mesmo ocorreu com o idioma alemão no país. Isso contribuiu para que se criasse um estigma em ser falante de talian, e muitos pais simplesmente optaram por não transmitir a língua para os seus filhos, visando protegê-los de serem estigmatizados.3 Somado a isso, na década de 1930 começou a surgir um novo grupo de descendentes de italianos, mais urbanos e enriquecidos, que davam preferência à língua portuguesa e passaram a menosprezar o dialeto, cujo uso ficou associado ao trabalhador rural e pouco instruído. A própria urbanização contribuiu para o declínio do uso do talian, pois no meio urbano predominava o uso do português, e as gerações nascidas nos ambientes urbanos raramente aprendem o talian.3

Pessoas que usavam o italiano no lar, por gerações (censo de 1940)5
Gerações Número de falantes
Primeira (imigrantes) 53.000
Segunda (filhos) 120.000
Terceira e seguintes (netos, bisnetos etc) 285.000
Total 458.000

O talian atualmente[editar | editar código-fonte]

Não se sabe ao certo o número de falantes do talian no Brasil, porém estimativas apontam em 500 mil o número de pessoas que usam essa língua,6 a maioria dos quais são bilíngues e também falam o português. Atualmente, os falantes de talian têm se empenhado para resgatar a língua, principalmente nas regiões povoadas por italianos no sul do Brasil. Diversos livros já foram publicados no idioma talian. Existem estações de rádio que transmitem algumas horas de sua programação em talian em vários municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e algumas do Paraná e Mato Grosso.7

Também está em fase de produção o vídeo-documentário Brasil Talian,8 com direção e roteiro de André Costantin e a produção executiva do historiador Fernando Roveda.9 O pré-lançamento ocorreu em 18 de novembro de 2011, data que marcou o início da produção do documentário.10 11

O Rio Grande do Sul possui o talian como patrimônio linguístico aprovado oficialmente no estado,12 13 14 assim como o estado de Santa Catarina.15 16 O município de Serafina Corrêa também possui esta língua como co-oficial no município, ao lado do português.17

Em 2013 foi lançada a revista Brasil Talian, que busca divulgar a língua.18 19

Exemplos da influência do português no talian 20
Palavra no talian Palavra no vêneto original Palavra no italiano padrão Palavra em português
Bolo Torta Torta, dolce Bolo
Caro, auto Macchina, auto Macchina, auto Carro
Coraçon Cor, core Cuore Coração
Galignero Punaro ou punèr Pollaio Galinheiro
Garafa Botiglia Bottiglia Garrafa
Inton, alora Alora Allora Então
Praia Spiaia Spiaggia Praia
Sapatero, scarpèr Caleghèr ou scaporlin Calzolaio Sapateiro
Sià, scià Chá
Simarón, Scimarón - - Chimarrão
Sorasco, chorasco - - Churrasco
Verón Istá Estate Verão
Como non! Certo! Certamente! Sicuramente! Certo! Certamente! Sicuramente! Como não!

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Referências