Tamegroute

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Marrocos Tamegroute
Tamgrout, Tamghrout, Tamgrut
 
—  Comuna rural  —
Rua de Tamegroute
Rua de Tamegroute
Tamegroute está localizado em: Marrocos
Tamegroute
Localização de Tamegroute em Marrocos
30° 15' 39" N 5° 40' 51" O
Região Souss-Massa-Draâ
Província Zagora
Altitude 690 m (2 264 pés)
População (2004)[1]
 - Total 19 560

Tamegroute, Tamgrout, Tamghrout ou Tamgrut é uma vila do sul de Marrocos, situada no vale do Drá, na antiga rota de Tombuctu, a cerca de 500 km a leste de Agadir e a 20 km a sudeste de Zagora, que faz parte da região de Souss-Massa-Draâ. Em 2004 tinha cerca de 4 000 habitantes.[nt 1]

A vila é formada por vários ksour (ou alcáceres) ligados entre si, no centro dos quais se encontra a Zaouïa Naciria (ou Nasiriyya ou Naceria), sede da confraria ou ordem religiosa sufista, fundada pelo santo sufi Mohammed ibn Nasir (ou ben Nacer ou Abu Nasr) que viveu no século XVII.[nt 1] A ordem foi uma das das mais influentes ordens sufistas e chegou a ser a maior do mundo islâmico.[nt 2] A zaouïa (complexo religioso) alberga uma rica biblioteca com mais de 4 000 volumes, cujas obras mais antigas datam do século XI e caligrafados com casca de noz, açafrão, hena ou ouro sobre pergaminhos de pele de gazela, que tratam de assuntos científicos, literários e religiosos.[nt 1]

Todos os anos Tamegroute é palco de um grande moussem (festival), realizado um mês depois do Eid ul-Adha (Festa do Sacrifício) em honra de Sidi Mohammed ibn Nasir.[nt 2] Outras das atrações turísticas, além da paisagem montanhosa e desértica que já anuncia o Saara, são as grandes dunas (erg) de Tinfou, situadas junto da aldeia homónima a cerca de 5 km da vila.[nt 3]

Zaouïa Naciria[editar | editar código-fonte]

Tamegroute é um centro religioso desde o século XI. Em 1575-76, Abu Hafs Umar b. Ahmed al Ansari deu fama à escola religiosa de Tamegroute. A Zaouïa Naciria foi fundada no século XVII como sede da irmandade sufista do mesmo nome.[2] A ordem Naciria deve o seu nome e reputação ao seu fundador, Sidi Mohammed ibn Nasir (1603-1674), que dirigiu o ensino religioso em Tamegroute na década de 1640. Desde essa época que os líderes da zaouïa são descendentes de ibn Nasir, passando o cargo de pai para filho, sem interrupção até aos dias de hoje.[3] [nt 2]

Mohammed bin Nasir foi um teólogo, académico e médico, que se interessou especialmente por doenças mentais. Escreveu diversos livros de fiqh (jurisprudência islâmica), alguma poesia e centenas de tratados e cartas e tratados sobre lei islâmica. Mohammed bin Nasir seguiu e estendeu os ensinamentos da tariqa (fraterninade islâmica) Chadhiliyya, e sob a sua liderança a Zaouïa Nasiriyya tornou-se a principal zaouïa do Islão sufista no Magrebe, com diversos ramos em diferentes partes de Marrocos, nomeadamente a zaouïa de Irazan, no vale do Souss, onde 500 estudantes eram financiados pela irmandade.[3]

Minarete da Zaouïa Naciria

Mohammed bin Nasir foi sucedido pelo seu filho Ahmed (1647–1717), que fez seis peregrinações a Meca, transformando cada uma delas em viagens com a duração de vários anos. Sidi Ahmed bin Nasir (ou ben Nacer) visitou o Egito, Etiópia, Arábia, Iraque e a Pérsia. Durante as suas viagens estabeleceu novos ramos da sua ordem sufista. Escreveu memórias volumosas dessas viagens a que chamou Rihla, que foi parcialmente traduzida pelo arabista francês Adrien Berbrugger em 1846, e levou para Tamegroute numerosas obras de todas as partes do mundo islâmico. Ainda no século XVII, a ordem Naciria decidiu fundar uma universidade corânica, a qual recebeu, logo no início, mais de 1 500 estudantes de várias partes da África Ocidental e do Médio Oriente.[3]

Quando Ahmed bin Nasir morreu, a biblioteca (em árabe: khizana habsia) de Tamegroute, com os seus milhares de manuscritos, era uma das mais ricas do Norte de África. Alguns belos exemplos desses manuscritos (cerca de 4 200) ainda estão em exposição na zaouïa atualmente e atraem muitos visitantes de Marrocos e do estrangeiro. Entre eles, encontra-se um Alcorão do século XIV em caligrafia cúfica, escritos de Avicena (Ibn Sina; 980–1037), Averróis (Ibn Ruchd; 1126–1198), al-Khwarizmi (780–850), uma tradução da obra de Pitágoras e tratados de teologia, astronomia, astrologia, matemática, geografia e farmacologia. A consulta das obras da biblioteca requer uma autorização do governo marroquino, a qual só permite a manipulação dos livros dentro da biblioteca.[3] A biblioteca chegou a ser a maior de Marrocos, com um acervo de 40 000 obras. O facto de atualmente ter muito menos obras deve-se principalmente a grande parte do seu antigo espólio ter sido disperso por outras bibliotecas e não tanto a destruição ou roubos.[4]

Houve outros xeques da irmandade Nasiriyya também tiveram papéis importantes como líderes religiosos e culturais e professores da doutrina sufista (Tasawwuf). O xeque Abu Bekr, do século XIX, é célebre no vale do Drá (a sua zaouïa é em Mhamid Ghuslan) e no Ocidente através dos seus encontros com os viajantes Friedrich Gerhard Rohlfs[5] e Charles de Foucauld.

O edifício atual da zaouïa data data de 1869, quando foi reconstruído após ter sido destruído por um fogo. Os túmulos de oito marabutos atraem a visita de doentes de todas as partes de Marrocos, e alguns deles permanecem em Tamegroute durante meses e mesmo anos, na esperança de serem curados ou redimidos pela baraca de Nasiriyya.[nt 2] [carece de fontes?]

Outras personalidades famosas ligadas e Tamegroute[editar | editar código-fonte]

Paisagem nas vizinhanças de Tamgroute
Olaria artesanal em Tamgroute

No século XVII, o famoso poeta de íngua tachelhit (chleuh ou shilha; berbere) Mohammed Awzal fundou um santuário em Tamegroute, onde escreveu a sua primeira obra em língua berbere, al-Hawd. A sua última obra, An-Nasiha ("O Conselho"), é uma ode elogiosa em honra de Sidi Ahmad ibn Muhammad ibn Nasir, o guia espiritual de Awzal e grão-mestre da ordem sufista Nasiriyya, que possivelmente foi inspirado como uma elegia fúnebre aquando da sua morte em 1717.[nt 2]

Outro habitante célebre de Tamegroute foi Ahmad al-Tijani, que foi membro da tariqa Nasiriyya antes de fundar a tariqa Tijaniyyah, atualmente espalhada um pouco por todo o mundo, especialmente em Marrocos, Mauritânia e na África Ocidental.[nt 2]

Tamegroute foi o local onde nasceu um dos oficiais mais importantes da corte saadiana no século XVI, o escritor e embaixador Abu-l-Hasan Ali Ibn Mohammed al-Tamgruti, célebre principalmente pela rihla (diário de viagem) da sua viagem a Istambul em 1590-91 como emissário do sultão saadiano Ahmad al-Mansur.[6] [nt 2]

Cerâmica[editar | editar código-fonte]

Além da Zaouïa Naciria, Tamegroute é também conhecida pela sua cerâmica verde, fabricada por diversas olarias artesanais, muitas delas instaladas numa espécie de ruas subterrâneas, que produzem diversos tipos de objetos de barro, como panelas de tagine, pratos, tigelas, chávenas, telhas e ladrilhos, usando fornos aquecidos com palmeiras e pequenos troncos secos.[nt 1]

Os fundadores da irmandade religiosa Nasiriyya quiseram elevar o estatuto da aldeia de Tamegroute a "medina" (cidade), pelo que trouxeram mercadores e artesões de Fez, uma cidade com a qual Tamegroute tinha então boas relações. Apesar de Tamegroute ter voltado a ser uma aldeia, a cerâmica ainda é uma atividade importante. À parte de algumas sombras ocre, o vidrado verde é a cor predominante na cerâmica de Tamegroute. Talvez ainda mais do que acontece com os zellige (mosaico característico de Marrocos) de Fez, as técnicas ancestrais fazem com o o vidrado tenha infinitas variações.

Notas

  1. a b c d Trecho baseado no artigo artigo «Tamegroute» na Wikipédia em francês (acessado nesta versão).
  2. a b c d e f g A maior parte do texto foi inicialmente baseado no artigo «Tamegroute» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
  3. Ao contrário da ideia generalizada em certos meios, há poucas zonas de dunas em Marrocos que não sejam costeiras.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Royaume du Maroc - Haut-Comissariat au Plan. Recensement général de la population et de l'habitat 2004 (em francês) www.lavieeco.com Jornal La Vie éco. Visitado em 28 de dezembro de 2011.
  2. Gutelius, David P. V. (2002). "The Path Is Easy and the Benefits Large: The Na?iriyya, Social Networks and Economic Change in Morocco, 1640-1830" (em inglês). The Journal of African History 43 (1): 27-49. Cambridge University Press. ISSN 00218537. Visitado em 3 de dezembro de 2011.. Também disponível online em Access my library www.accessmylibrary.com. Visitado em 3 de dezembro de 2011. Cópia arquivada em 13 de março de 2007.
  3. a b c d Gutelius, David P. V. Sufi networks and the social context for scholarship in Morocco and the Northern Sahara, 1660-1830 (em inglês). [S.l.: s.n.]. Visitado em 3 de dezembro de 2011. In Reese, Scott S. (ed). Islam in Africa. [S.l.]: Brill Academic, 2004. 314 pp. p. 15-38. vol. 2 - The transmission of learning in Islamic Africa. ISBN 978-9004137790.
  4. Kjeilen, Tore. Tamegroute - Religious kasbahs (em inglês) LookLex.com. Visitado em 3 de dezembro de 2011.
  5. Rohlfs, Friedrich Gerhard. Mein erster Aufenthalt in Marokko und Reise südlich vom Atlas durch die Oasen Draa und Tafilet (em alemão). Bremen: [s.n.], 1873. Capítulo 15 - Die Draa-Oase. Mordversuch auf den Reisenden. Ankunft in Algerien. Visitado em 3 de dezembro de 2011.
  6. Abu-l-Hasan Ali ben Mohammed et-Tamgrouti. النتائج البحث عن المتاح ; transl: 'En-nafhat el-miskiya fi-s-sifarat Al-Nafha al Miskiya fi al Sifara al Turkiya (em árabe). [S.l.: s.n.], século XVI. . Tradução anotada: Castries, Henry. En-Nafhat el-Miskiya fi-s-Sifarat et-Tourkiya. Relation d'une ambassade marocaine en Turquie, 1589-1591 (em francês). [S.l.]: P. Geuthner, 1929. 130 pp. OL-18159647M, OCLC-1285656. (Google books; WorldCat; Opem Library)

Bibliografia adicional[editar | editar código-fonte]

  • Al Manuni, Muhammad. Dalil Makhtutat Dar al Kutub al Nasiriya (catálogo manuscrito da biblioteca Nasiriya library em Tamegrout). [S.l.]: Keta books, 1985.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Tamegroute
  • Tamegroute (em inglês) www.oasisdemezgarne.com/. Visitado em 3 de dezembro de 2011.
  • Tamegroute (em francês) www.sud-maroc.com. Visitado em 3 de dezembro de 2011.