Teoria da recapitulação

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A Teoria da Recapitulação, ou Lei da recapitulação ontofilogenética, é mais conhecida pela expressão A Ontogenia recapitula a filogenia em que ontogenia refere-se ao desenvolvimento dos embriões de uma dada espécie e a filogenia refere-se à história evolucionária das espécies. A teoria faz uma relação entre evolução e desenvolvimento defendendo que o desenvolvimento do embrião repete o desenvolvimento evolucionário da espécie a qual pertence passando por etapas que se assemelham aos seus ancestrais na fase adulta. Em 1965, George Gaylord Simpson chegou a afirmar em An Introduction to Biology que "o facto de que a ontogenia não repete a filogenia está agora bem estabelecido”.

Desenvolvimento embrionário de diferentes espécies

Histórico[editar | editar código-fonte]

Observações conectando evolução e desenvolvimento embrionário já haviam sido feitas por outros cientistas antes da teoria se publicada por Haeckel em 1866. Pessoas como Müller e Edward Drinker Cope, reconheceram a recapitulação como uma chave para a reconstrução da filogenia.

Müller, observando um camarão marinho do gênero Penaeus, notou que ao nascer ele passava por uma fase de náupilo para depois chegar a fase de zoea. Com base nisso propôs que os caranguejos marinhos e os camarões que já nascem na forma de zoea, deveriam passar pelo estágio mais simples de náuplio durante seu desenvolvimento embrionário, o que se confirmou mais tarde. Diante deste fato alguns cientistas defendem que a Lei biogenética foi proposta inicialmente por Müller e copiada por Haeckel.[1]

Charles Darwin obsevou que os embriões de vertebrados eram mais parecidos do que os vertebrados adultos, e que quanto mais jovem fosse o embrião, maior seria a semelhança. Erns Haeckel examinou com detalhes a interpretação de Darwin e propôs a teoria que designou como Lei biogenética (“Generelle Morphologie der Organismen” 1866). A lei foi criticada por muitos embriologistas da época alegando que diferenças significativas eram ignoradas nas comparações de Haeckel e que muitas de suas ilustrações foram alteradas.

Ernst Haeckel[editar | editar código-fonte]

Ernst Haeckel

Ernst Haeckel, nasceu em Potsdam, Alemanha, em 1834. Formou-se médico em 1858 posteriormente mudando-se para Jena, também na Alemanha, para estudar zoologia com o grande anatomista Carl Gegenbaur. Ele se tornou professor de zoologia e anatomia comparada em Jena, em 1862 e lá permaneceu até sua morte em 1919.

Lei Biogenética[editar | editar código-fonte]

Pela lei biogenética um organismo passa por estágios que repetem a estrutura da fase adulta dos ancestrais da espécie durante o desenvolvimento. Haeckel comparou o desenvolvimento embrionário de vertebrados constatando que alguns estágios filogenéticos seriam indispensáveis durante o processo fisiológico da ontogenia para a formação de características surgidas subseqüentemente.[2]

A teoria pode ser explicada se partirmos do princípio que uma espécie se transforma noutra por uma sequência de pequenas modificações no seu programa de desenvolvimento ontogenético (que é especificado pelo genoma). É possível produzir pulmões por pequenas modificações sucessivas do programa que gera as guelras, mas abandonar o programa das guelras e produzir um novo programa para os pulmões do nada deve requerir uma modificação completa no programa de desenvolvimento o que não é uma via plausível. Nesse processo o desenvolvimento seria constantemente acelerado de forma que os estágios ancestrais eram compactados cada vez mais cedo e novas características seriam adicionadas no final. Dentre as estruturas citadas por Haeckel que fariam parte de estágios referentes a ancestrais em alguns grupos estão:

- A notocorda presente no início do desenvolvimento de todos os vertebrados e na fase adulta de urocordatos,

- O desenvolvimento do rim humano iniciando com um pronefron funcional em larvas de peixes ósseos, anfíbios e embriões de alguns répteis, posteriormente surgindo um mesonefro que seria funcional em fetos de amniotas e finalmente ao metanefro (répteis, aves e mamíferos).

- O encéfalo, que começa o desenvolvimento com um cérebro primitivo formado pelo tronco encefálico, cerebelo, globo pálido e bulbo olfatório, representando os peixes. Depois um cérebro intermediário representa os mamíferos inferiores, apresentando a estrutura do sistema límbico, e posteriormente o cérebro superior, dito racional, com o neocórtex e algumas estruturas subcorticais.

Cérebro devertebrado durante o desenvolvimento

Algumas das fases propostas para caso do ser humano são:

- O zigoto corresponde a um estágio protista unicelular.

- A blástula representa os protistas coloniais.

- A fase com um coração em forma de “S” e as fendas branquiais, que mais tarde irão contribuir para a formação da face e do pescoço incluindo a cavidade nasal, a boca, e a faringe, representaria os peixes.

- No início do surgimento dos membros com a presença de um processo semelhante a uma cauda, seria a fase de anfíbio. Sendo verdadeira, a lei permitiria uma análise que levaria a raiz das características de cada espécie, e assim a montagem da filogenia do grupo.

Haeckel não tinha material suficiente para embasar sua idéia e foi acusado de alterar alguns de seus desenhos, mudando, por exemplo, detalhes do olho e algumas medidas de um embrião humano para assemelhar-se mais ao de um cachorro e fortalecer a teoria.

Críticas a Teoria[editar | editar código-fonte]

Karl Ernst Von Baer alegou que a teoria de Haeckel era baseada em observações falsas sendo uma perspectiva mais romântica que lógica. Ele concordava que os organismos relacionados tem muitas semelhanças nos primeiros estágios do crescimento embrionário, mas que as características específicas de cada grupo surgiam muito cedo no desenvolvimento e não no final.[3] [4] .

Stephen Jay Gould Em seu livro “Ontogeny and phylogeny”, 1977, faz um estudo acadêmico sobre a teoria. Gould escreveu também sobre evolução por adição terminal, processo no qual a evolução ocorre com o acréscimo de um novo estágio no final do desenvolvimento. Um organismo primitivo teria parado em um estágio A e pela evolução surge um segundo estágio A->B, posteriormente um outro estágio A->B->C, e assim por diante. A cauda dos peixes em estágios evolutivos mais avançados como o linguado (Pleuronectes) pode ser usada como exemplo, ela passa por três etapas até chegar no estágio adulto. Essas fases se assemelham a estruturas presentes em peixes adultos de outras espécies que estariam mais próximas de peixes mais primitivos.Na fase larval (difícera) a cauda seria parecida com a de um peixe pulmonado mais semelhante a um peixe primitivo, a segunda fase (heterocerca) teria a cauda próxima da do esturjão, e a terceira (homocerca) próxima da de um salmão, que seria a forma evoluída mais recentemente.[5]

Esse processo de evolução resulta na recapitulação, mas não é a única forma que ela ocorre. Podem acontecer modificações em estágios mais iniciais do desenvolvimento e não necessariamente no final. A pedomorfose é uma heterocronia que pode ocorrer de duas formas; o tempo absoluto de desenvolvimento somático diminui enquanto o reprodutivo continua o mesmo (neotenia), ou o desenvolvimento reprodutivo acelera enquanto o somático permanece o mesmo (progênese). Nesse processo , em que a espécie evolui para reproduzir em uma fase precoce em relação ao ancestral, não ocorre a recapitulação completamente sua ancestralidade.

Na conclusão de seu livro Gould defende que evoluimos através de um abrandamento do desenvolvimento, e mantemos muitas características que agora podem ser vistas nos estágios juvenis de nossos parentes primatas, e que sem dúvida caracterizam estágios dos nossos antepassados recentes.

Pensamento atual[editar | editar código-fonte]

Com novos acontecimentos científicos, a Lei biogenética foi sendo cada vez mais desacreditada. A redescoberta da genética mendeliana em 1900, por exemplo, permitiu a visão de que os genes codificam enzimas que controlam a velocidade dos processos, dessa forma eles podem ser tanto acelerados quando retardados. Essa questão acaba com a lei da aceleração, que é um ponto necessária para a explicação da teoria da recapitulação de como as características de ancestrais adultos se tornam características juvenis nos descendentes.

A ascensão da chamada Evo-devo levou a numerosas descobertas, como os genes reguladores do desenvolvimento, mutações que geram mudanças nesses genes podem afetar várias fases do desenvolvimeto embionário impedindo e padronização do processo que seria observado na recapitulação.

A questão do embrião humano se parecer com embriões de peixe é um bom exemplo que mostra como as ligações entre a ontogenia e a filogenia têm gerado muita confusão: as famosas fendas branquiais. Um embrião com um mês de idade tem certas dobras naquilo que será o seu pescoço, mas essas dobras nunca têm a função e nem mesmo a composição das guelras. O tecido das dobras, na verdade, está dando origem à mandíbula, ao pescoço, e a glândulas como o timo, não a guelras, e não estão o ligadas à função de respiração nem fora da água.

Hoje muitos biólogos desacreditam da lei biogenética mas ela ainda vem sendo representada em livros de ensino médio e superior como um ponto importante no estudo da evolução. Sabemos que muitas característica no desenvolvimento de animais relacionados são semelhante e se divergem depois. O cérebro humano, que se inicia como o de um peixe, e a coluna dorsal dos vertebrados são exemplos disso.

Em alguns casos estruturas que não estão presentes em organismos adultos são vistas no embrião deste, podendo indicar proximidade filogenética com outros grupos. Pode-se citar como exemplo os dedos que começam a desenvolver nas aves posteriormente fundindo-se ou retrocedendo, os embriões de baleias, que passam por uma fase na qual possuem pelos como os outros mamíferos, e nos humanos a cauda, presente em certo estágio do embrião depois se funde formando o cóccix. Essas características podem dar indícios de descendência comum mas isso não ocorre como uma regra, estruturas perdidas no processo evolutivo podem não chegar a ocorrer durante o desenvolvimento embrionário, mesmo que o orgaismo ainda contenha genes envolvidos na sua formação.Nas galinhas, que possuem os genes para dentes como seus ancestrais, não ocorre essa manifestação em nenhum estágio.

Os biólogos e os morfologistas já demonstraram que não existe uma correspondência elemento a elemento entre a filogenia e a ontogenia, de forma que a recapitulação atualmente não é vista como uma lei. Outro ponto que vale ressaltar é que os desenhos de Ernst Haeckel foram forjados. Embora não seja correta uma forma de recapitulação, muitos biólogos continuam a explorá-la e a considerá-la em seus estudos [6] .

Alguns trabalhos na área da embriologia consideram uma ampulheta embriológica. De acordo com ela as espécies passam por uma fase intermediária morfologicamente conservada chamada de fase filotípica, nesta os embriões do respectivo filo apresentam as características básicas do seu grupo, de forma que nos estágio anteriores e posteriores a essa fase o desenvolvimento pode ser bem diferente.

No caso dos vertebrados essa seria a fase filotípica seria a denominada faringula, em que o tubo neural já está formado com as vesículas cefálicas e as respectivas estruturas sensoriais, a musculatura segmentar e as extremidades (nadadeiras, pernas ou asas) esão presentes, o coração está na região ventral do corpo, e os arcos branqueais na região bucal.[7] [8]

Impacto socio-político[editar | editar código-fonte]

Ao longo da história a ciência foi, e ainda é, inúmeras vezes utilizada para justificar comportamentos humanos, o darwinismo social é um exemplo dessa aplicação. Em algumas situações esse tipo de interpretação levou a tomada de atitudes preconceituosas e ediondas por parte da população e de alguns governantes.

Haeckel utilizava sua teoria como uma forma de confrontar a superioridade da nobresa e a sua crença na imortalidade da alma. O fato de todos passarmos por um estágio de peixe deveria nivelar os homens em uma mesma categoria, e a alma não teria lugar na condição embrionária.

A lei biogenética também foi adaptada por cientistas como argumento para racismo e para o imperialismo, colocando o homem branco como superior a outras raças e ao sexo feminino. Personagens como Daniel Garrison Brinton, Carl Cristoph Vogt e Edeard Drinker Cope, sustentavam que os negros chegavam ao final do desenvolvimento em um estágio que ainda era intermediário para os brancos, sendo assim, seriam mais próximos das crianças e mulheres brancas, que também não possuem o desenvolvimento completo de acordo com esse pensamento.

Com a queda da lei da aceleração iniciou-se uma busca por evidencias de desacelerações no desenvolvimento, isso levou a uma reflexão sobre a própria espécie humana, que apresenta características juvenis em relação a outros primatas e aos mamíferos no geral. Entre essas podemos citar o cérebro relativamente grande, os maxilares pequenos, a falta de pelos, e a posição do forame magno que permite a posição ereta. Posteriormente foi proposta a neotenia como parte da evolução do ser humano, mas o argumento mais forte é contra.Essa teoria também acabou sendo utilizada como argumento racista.

Em seu livro “Darwin e os grandes enigmas da vida” Stephen Jay Gould dedica um capítulo para a analisar a utilização da teoria da recapitulação como argumento racista e comenta [9]  : “Os negros são inferiores, diz-nos Brinton, porque retêm traços juvenis. Os negros são inferiores, defende Bolk, porque se desenvolveram para além dos traços que os brancos conservam. Duvido que alguém conseguisse elaborar dois argumentos mais contraditórios para apoiar uma mesma opinião.”

A teoria de Haeckel também alcançou estudiosos da psicologia evolutiva despertando uma atração maior pela observação da infância. Granville Stanley Hall escreveu em seu trabalho Adolescence, 1904 com base na teoria de Haeckel: “No processo de desenvolvimento ontogenético, o indivíduo repete a história da espécie, passando lentamente do estágio protozoário para o metazoário. Assim nossos corpos atravessam todos os estágios: do amebóide, helmitóide, pisciano, anfíbio, antropóide, até chegar ao etnóide.” [10]

Curiosidade[editar | editar código-fonte]

A famosa figura de Romanes-1892 que representa diferentes espécies alinhadas em colunas em diferentes estágios embrionários foi reproduzida por Haeckel (no topo da página) sendo frequentemente atribuída a ele.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Parceiro de Charles Darwin - Scientific American Brasil - edição 84 - Maio 2009.
  2. Ernst Haeckel and the Biogenetic Law.
  3. ESTUDOS SOBRE OS PROCESSOS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO SÉCULO XIX: A CONSTRUÇÃO DA PSICOLOGIA GENÉTICA GOUVEA, Maria Cristina Soares – UFMG - GT: Psicologia da Educação / n.20.
  4. The History of a Theory.
  5. 4- EVOLUÇÃO / MARK RIDLEY –3. ed–Porto Alegre: Artmed, 2006.
  6. [1]
  7. The Inapplicability of the Biogenetic Rule to Behavioral Development - Human Development 1992; 35 (1): 1-8
  8. GENÉTICA DO DESENVOLVIMENTO E EVOLUÇÃO DOS GRANDES GRUPOS DE ANIMAIS.
  9. Darwin e os Grandes Enigmas da Vida – Stephen Jay Gould – [tradução Maria Elizabeth Martinez] – 2° edição – São PauloMartins Fontes, 1999
  10. Estudos sobre desenvolvimento humano no século XIX: da biologia à psicogenia - Cad. Pesqui. vol.38 no.134 São Paulo May/Aug. 2008