Teoria de campo de Lewin

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A teoria de campo de Kurt Lewin é uma teoria da motivação que tem sua origem no pensamento da gestalt. Devido a essa origem a teoria de Lewin dá muita importância à percepção individual, sendo assim uma teoria fenomenológica; isso significa que para Lewin mais importante do que a "realidade" para compreender o comportamento do indivíduo é a "percepção" que o indivíduo tem da realidade. A teoria de Lewin foi uma das primeiras a ver o comportamento humano como resultado tanto de fatores da pessoa como de fatores do ambiente.[1] [2]

A partir da observação - confirmada empiricamente por seu grupo de pesquisa - de que as pessoas, uma vez iniciada uma tarefa, têm a tendência de querer levar essa tarefa até o fim, Lewin desenvolveu a teoria de que, uma vez assumida a tarefa, a pessoa desenvolve uma quasenecessidade que, como uma necessidade propriamente dita, gera na pessoa um "campo de tensão" que exige ser descarregado. Para melhor ilustrar sua ideia, Lewin imagina o interior do homem como uma grande área limitada dividida em várias áreas menores ou campos, separados por cercas mais ou menos permeáveis. Cada campo representa um objetivo da pessoa; objetivos similares ou conectados se encontram em campos próximos uns aos outros. No centro da grande área encontram-se as necessidades propriamente ditas enquanto as quasenecessidades se encontram em campos mais periféricos. Essa grande área é circundada por uma "fronteira sensomotórica" que regula a relação entre o interior e o meio ambiente externo. Ao conjunto formado pela pessoa (área inter + fronteira sensomotórica) e o meio ambiente, tal como vivenciado pela pessoa dá-se o nome de espaço vital (al. Lebensraum). O sistema interno se encontra em constante tensão; essa tensão se origina quer por uma situação exterior ativar uma necessidade já existente, quer por criar uma nova quasenecessidade. O sistema interno tem duas tendências paralelas: por um lado levar a um equilíbrio da tensão - ou seja, a tensão original se espalha para campos vizinhos, que se tornam também tensos - e, por outro, a descarregar a tensão satisfazendo a (quase)necessidade, o que só pode ser realizado através da fronteira sensomotórica.[2]

Um estímulo do ambiente pode, assim, em determinadas circunstâncias, ativar uma necessidade do indivíduo ou gerar nele uma quasenecessidade, que exige ser satisfeita; gera uma tensão que exige ser descarregada. A partir dos objetivos da pessoa, representados pelas necessidades e quasenecessidades, desenvolve-se um sistema de forças atrativas ou repulsivas. Lewin fala, então, do caráter de apelo (al. Aufforderungscharakter) ou valência de uma situação: algumas situações, objetos ou atividades são atrativas ou repulsivas, de acordo com o objetivo a que elas estão ligadas. A valência de uma situação final é assim fruto da relação entre (a) a tensão interna gerada por uma (quase)necessidade e (b) as qualidades próprias de um determinado objeto, situação ou atividade. Este último ponto é muito importante, uma vez que Leviw atribui às atividades um valor intrínsico, e não apenas como meio.[2]

Direção e taxonomia do comportamento[editar | editar código-fonte]

A organização da ação do indivíduo em campos tematicamente estruturados permite descrever a situação em que, para atingir determinado objetivo, a pessoa deve passar por objetivos secundários. Nesse contexto Lewin utiliza o termo "trilha" ou "caminho" (al. Pfad), indicando assim a direção do comportamento. O comportamento pode, assim, se referir a apenas uma situação ou a mais situações, e pode conduzir para dentro da situação ou para fora dela. Esse esquema gera quatro tipos de comportamento:[1]

  1. Comportamento consumatório, que conduz a uma situação, em que o indivíduo permanece. Ex. A pessoa vai à praia e permanece lá, pois esse era o seu objetivo;
  2. Comportamento de aproximação instrumental, que conduz o indivíduo de uma situação a outra; uma das situações é, assim, meio ou instrumento para a outra. Ex. Antes de ir à praia pessoa passa pela farmácia para comprar protetor solar;
  3. Comportamento de fuga, que conduz o indivíduo para longe de uma situação. Ex. As pessoas que fogem de um edifício em chamas;
  4. Comportamento de evitação, em que o indivíduo se encontra em uma situação e evita ir para outra. Ex. Um assaltante de bancos que, depois do assalto, se esconde e evita retornar ao lugar do crime.

Taxonomia dos conflitos[editar | editar código-fonte]

Baseando-se nas diferentes forças que podem agir sobre o indivíduo, Lewin desenvolveu uma taxonomia de conflitos:[2]

  1. Conflito de apetência: o indivíduo sente-se atraído igualmente por dois objetos positivos. Este tipo de conflito, muito raro em sua forma pura, se encontra em um equilíbrio instável: quanto mais perto de um dos objetos, mais forte se torna sua atração; a diferença resultante entre as forças de atração dos dois objetos conduz a uma solução do conflito;
  2. Conflito de aversão: o indivíduo sente repulsa por dois objetos, tidos por igualmente desagradáveis. Esse tipo de conflito produz uma situação de "congelamento" entre os dois objetos, uma vez que quanto mais perto de um dos objetos, mais forte torna-se a força repulsiva e o indivíduo fica preso no ponto em que as forças se igualam;
  3. Conflito de apetência e aversão: nesta situação o mesmo objeto apresenta um caráter atrativo e repulsivo ao mesmo tempo. A dinâmica de tal conflito é a seguinte: quando distante do objeto a força atrativa é mais forte do que a repulsiva e o indivíduo aproxima-se cada vez mais. Com a proximidade do objeto ambas as forças tornam-se mais intensas; no entanto, a força repulsiva cresce mais rápido do que a força atrativa, de tal forma que em determinado ponto aquela torna-se mais forte e o indivíduo começa a afastar-se do objeto. Também aqui há uma tendência de "congelamento" no ponto em que as duas forças se igualam;
  4. Conflito duplo de apetência e aversão: este tipo de conflito foi adicionado por N. E. Miller aos três conflitos originais de Lewin. Neste caso o indivíduo encontra-se entre dois objetos, ambos com caráter ambivalente, tanto positivo como negativo. Quanto mais se aproxima de um objeto, maior se torna sua força repulsiva e maior se torna a força atrativa do outro objeto. O indivíduo fica preso entre as duas opções.

Situações de desempenho: a teoria da valência resultante[editar | editar código-fonte]

Baseado em autores anteriores, Lewin e seus colaboradores aplicaram sua teoria de campo a situações em que a pessoa deve apresentar um bom desempenho, ou seja executar uma tarefa. Tais situações são vistas como situações de conflito de apetência e aversão, uma vez que um bom desempenho tem uma valência positiva e um fracasso, negativa. Segundo Lewin, se uma pessoa tem a possibilidade de escolher entre diferentes tarefas, ele vai escolher aquela em que a soma das forças for maior. Nesse caso as forças de aproximação são representadas por valores positivos e as de repulsão por valores negativos. A força resultante é assim a soma das forças de atração (positivas) e as de repulsão (negativas). Fatores que influenciam a intensidade das diferentes forças são: a dificuldade da tarefa, a probabilidade subjetiva de sucesso e o nível de exigência da pessoa. Lewin expressou essas considerações através das seguintes fórmulas matemáticas:[1]

  • F(s) = V(s) x P(s) (em que F(s) é a força que atrai para o sucesso, V(s) é a valência ou valor do sucesso para a pessoa e P(s) é a probabilidade subjetiva da pessoa atingir o sucesso)
  • F(f) = V(f) x P(f) (em que F(f) é a força que repulsão de um fracasso, V(f) é a valência ou valor do fracasso para a pessoa e P(f) é a probabilidade subjetiva da pessoa fracassar)
  • Fr = F(s) - F(f) (em que Fr é a força resultante)

Referências

  1. a b c Rudolph, Udo (2003). Motivationspsychologie. Weinheim: Beltz. ISBN 3-621-27508-8
  2. a b c d Rheinberg, Falko (2000). Motivation. Stuttgart: Kohlhammer. ISBN 3-17-016369-8