Thema Tracesiano

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Ásia Menor por volta de 717, mostrando o Thema Tracesiano na costa do Mar Egeu, à esquerda (nº 9).

O Thema Tracesiano (em grego: Θρᾳκήσιον θέμα; transl.: thema Thrakesion), também conhecido como Thema dos tracesianos, foi um thema (província civil-militar) bizantino na região ocidental da Ásia Menor criado no século VII ou no início do VIII. Era um dos maiores e mais importantes entre os themata do Império.

História[editar | editar código-fonte]

Assim como os outros themas, a data exata de sua fundação é incerta. Os tracesianos aparecem inequivocamente pela primeira vez em 711, quando um "turmarca dos tracesianos" chamado Cristóvão foi enviado contra o Thema de Quérson pelo imperador bizantino Justiniano II, enquanto que um estratego só aparece em 741[1] [2] [3] [4] . Assim, assume-se tradicionalmente que os tracesianos foram inicialmente uma turma do Thema Anatólico e que eles foram elevados a thema somente após 695; provavelmente nos primeiros anos do século VIII, mas a forma como as fontes estão escritas não deixam claro se já era este o caso em 711. Alguns acadêmicos modernos, como Ralph-Johannes Lilie e John Haldon, porém, argumentaram que o exército tracesiano deve ser identificado com o thracianus exercitus ("exército trácio"), mencionado num decreto de 687, e que, consequentemente, o Thema Tracesiano seria um dos themas originais fundados na Ásia Menor[1] [3] [5] .

O nome do thema deriva do fato de que os themas originais terem sido formados no meio do século VII como áreas de acampamento dos antigos exércitos de campo do Império Romano do Oriente, logo após as conquistas muçulmanas: no caso dos tracesianos, o exército do magister militum per Thracias[6] [7] . Esta teoria é apoiada adicionalmente pelo fato de que as unidades que se sabe que perteceram a este exército nos séculos V e VI - a vexillatio palatina dos Equites Theodosiaci Iuniores e a auxilium palatinum dos Victores - aparecem novamente como as turmas tracesianas dos Teodosíacos (Theodosiakoi) e Víctores (Viktores) no século X. Este fato dá aos tracesianos a honra de terem mantido algumas das mais antigas unidades conhecidas do exército bizantino[2] [8] [9] . Esta origem está refletida na história mítica narrada pelo imperador bizantino Constantino VII (r. 913-959) em seu De Thematibus, segundo o qual a região fora batizada em homenagem a alguns trácios que se firmaram ali no início do século VI a.C. por Alíates da Lídia[10] .

O primeiro estratego conhecido dos tracesianos, um tal Sisínio, apoiou Constantino V (r. 740-775) contra o usurpador Artabasdo (r. 741-742), mas foi, por sua vez, cegado pelo imperador quando ele suspeitou de uma conspiração. Constantino tomou o cuidado de apontar uma sequência de governadores fiéis a ele e às suas polícias; o mais proeminente entre eles foi fervoroso iconoclasta Miguel Lachanodracon. Lachanodracon lançou uma perseguição tão feroz aos iconófilos, especialmente os monges, que, em 772, nas palavras do historiador Warren Treadgold, ele parece ter conseguido "erradicar o monasticismo de seu thema"[11] [12] . Outros governadores notáveis incluem Bardanes, o Turco, que foi estratego na década de 790 e se rebelou contra Nicéforo I, o Logóteta (r. 803-811) em 803[11] ; Constantino Contomites, que derrotou os sarracenos cretenses em monte Latros em 841 e que passou para a família imperial por casamento[13] ; Petronas, o tio de Miguel III, o Ébrio (r. 842-867) e o principal general do Império, em 856-863[14] ; e Symbatios, que, juntamente com o governador do Thema Opsiciano Jorge Peganes, tentou se opor ao crescente poder de Basílio I, o Macedônio, o favorito de Miguel III que eventualmente lhe roubaria o trono[11] .

No século X, conforme a ameaça dos raides árabes diminuia, os soldados tracesianos parecem ter sido utilizados mais e mais em expedições além-mar, como as que foram enviadas contra o Emirado de Creta em 911, 949 e 960[15] . Por conta disso, o thema foi gradualmente se tornando uma província pacífica periférica; em 1029, o apontamento de um dos generais mais habilidosos do Império, Constantino Diógenes, que se suspeitava ter ambições ao trono, para a posição de estratego foi vista como uma demoção e uma forma de reduzir o seu poder, cuja base anterior era a Tessalônica[16] .

A maior parte do thema foi brevemente conquistada pelos turcos seljúcidas no final do século XI, mas a grande parte foi recuperada por João Ducas com a ajuda da Primeira Cruzada (1096-1099). João II Comneno (r. 1118-1143) o re-fundou, com tamanho reduzido e sob o controle de um doux com capital em Filadélfia. A região meridional do antigo thema se tornou parte do novo thema de Milasa e Melanúdio[1] [17] . O Thema Tracesiano foi um dos últimos territórios bizantinos na Ásia Menor a cair frente aos beilhiques da Anatólia e foi um importante bastião contra seus raides. No início do século XIV, porém, ele se restringia à área à volta de Esmirna até que a cidade finalmente caiu frente ao Beilhique de Aydin em 1330[1] .

Geografia e administração[editar | editar código-fonte]

O Thema Tracesiano compreendia as antigas regiões da Jônia (incorporada na antiga província romana da Ásia), Lídia, a parte setentrional da Cária e parte da Frígia Pacaciana. Ele era limitado a oeste pelo mar Egeu, com sua costa se estendendo de Éfeso até Adramítio, pelo Thema Opsiciano ao norte, com a fronteira provavelmente ao longo do rio Caico, o Thema Anatólico a leste (algum ponto a leste de Colossas e Laodiceia no Licos) e o Thema Cibirreota ao sul. A região continha umas vinte cidades, embora a maior parte delas estivesse já muito reduzidas em relação ao passado clássico. Esmirna e Éfeso (chamada de "Theologos" na época) eram provavelmente as maiores. O geógrafo persa Ibn Khordadbeh (fl. ca. 847) menciona Éfeso como a capital, mas isso não é certo, pois Colassas também é possível[1] [18] .

O estratego que governava o thema estava entre os mais importantes entre os estrategos e recebia um salário anual de vinte quilos de ouro. O geógrafo árabe Qudama ibn Ja'far (fl. ca. 930) afirma que ele comandava 6 000 soldados, enquanto que Ibn al-Faqih (fl. ca. 903) afirma que eram 10 000[1] [19] . Em 949, seus oficiais mais seniores eram, em ordem de importância, o turmarca dos Teodosíacos (Theodosiakoi), o turmarca dos Víctores (Viktores), o 'turmarca da costa marítima (tēs paraliou) e um merarca[2] [20] . A costa também estava sob a jurisdição matricial do estratego do thema de Samos, de onde vinham as tripulações e as embarcações[2] .

Referências

  1. a b c d e f Kazhdan 1991, p. 2080.
  2. a b c d Nesbitt & Oikonomides 1996, p. 4.
  3. a b Lambakis 2003, Chapter 2.1.
  4. Pertusi 1952, pp. 124–125
  5. Haldon 1997, pp. 212–214.
  6. Haldon 1999, p. 73.
  7. Pertusi 1952, p. 124.
  8. Treadgold 1995, pp. 97–100.
  9. Haldon 1999, p. 112.
  10. Pertusi 1952, p. 60; Lambakis 2003, Chapter 1.
  11. a b c Lambakis 2003, Chapter 3.
  12. Treadgold 1997, pp. 364–365.
  13. Treadgold 1988, pp. 325, 355, 454.
  14. Treadgold 1997, pp. 450–451.
  15. Lambakis 2003, Chapter 4.
  16. Lambakis 2003, Chapter 5.
  17. Haldon 1999, p. 97.
  18. Pertusi 1952, p. 125; Lambakis 2003, Chapter 2.2.
  19. Pertusi 1952, p. 126.
  20. Treadgold 1995, p. 99.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]