Thema de Cefalênia

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Mapa da Grécia por volta do ano 900, mostrando o Thema Cefalônio na extrema esquerda.

O Thema Cefalônio ou Cefalênio (em grego: θέμα Κεφαλονίας/Κεφαλληνίας; transl.: thema Kephalonias/Kephallēnias), também chamado simplesmente de Cefalênia, foi um thema (província civil-militar) bizantino localizado na Grécia ocidental e que abrangia as ilhas Jônicas. Fundado no século VIII, ele perdurou até ser conquistado pelo Reino da Sicília em 1185.

História[editar | editar código-fonte]

Durante o Império Romano, as ilhas Jônicas (Corfu, Cefalônia, Zaquintos, Ítaca, Leucas e Cítera) foram, de forma variada, parte das províncias da Acaia e Velho Épiro.[1] [2] Com exceção de Cítera, elas formariam o Thema Cefalônio.[3] [4] [5] As ilhas permaneceram praticamente intocadas pela invasão e assentamento dos eslavos no século VII e formaram a base o re-estabelecimento do controle imperial e re-helenização da costa do continente.[6]

Não se sabe exatamente quando thema foi fundado. O imperador bizantino Constantino VII Porfirogênito (r. 913-949), em sua obra De Administrando Imperio, afirma que ele era originalmente apenas uma turma (uma divisão) do Thema Longobardo do sul da Itália e que seu governante foi elevado a estratego - sem a elevação correspondente do território a um thema - pelo imperador Leão VI, o Sábio (r. 886-912).[7] [8] Esta afirmação é claramente um equívoco, pois diversos estrategos da Cefalônia são conhecidos antes desta data nas fontes. Assim, o Taktikon Uspensky de 842-843 claramente menciona um estratego de Cefalônia e a crônica latina Annales regni Francorum menciona um já em 809. Diversos selos reforçam ainda a fundação do thema provavelmente do meio para o final do século VIII.[3] [4] [9]

A confusão de Constantino, porém, reflete a relação próxima da Cefalônia com os territórios imperiais no sul da Itália: as ilhas Jônicas serviam como principal ligação e como base intermediária para operações na Itália, além de servir como defesa das passagens marítimas para o mar Jônio e o Adriático contra os piratas árabes.[3] [4] [10] Ao contrário do relato de Constantino, a Longobardia, no início, era provavelmente apenas uma tourma da Cefalônia quando os bizantinos recapturaram Bari em 876[5] [11] Ainda assim, em diversos casos, os comandos da Cefalônia e da Longobardia (ou, alternativamente, de Nicópolis em Épiro) eram acumulados pela mesma pessoa[3] [12]

O estratego do thema tinha sua capital em Cefalênia, mas ele aparece baseado também em outros lugares como Corfu.[3] Na De administrando imperio, o thema aparece em sétimo entre os themata ocidentais ou europeus[13] e, assim como eles, ele não recebia seu salário, seis quilos de ouro,[14] do tesouro imperial e sim da receita fiscal do próprio thema.[4] A Cefalônia era importante principalmente por sua frota,[12] que contava com mardaítas como fuzileiros e remadores sob o comando de um tourmaches. Outros tourmarchai e comandantes subordinados lideravam a guarnição do exército local.[3] O historiador Warren Treadgold conjecturou que as forças do thema contavam com uns 2 000 soldados no século IX.[15] O thema também foi frequentemente utilizado como local de exílio para prisioneiros políticos.[16]

O Thema Cefalônio é frequentemente mencionado em operações militares dos séculos IX ao XI. Em 809, o estratego Paulo derrotou uma frota veneziana na costa da Dalmácia. Em 880, o almirante Nasar derrotou de maneira decisiva uma frota pirata árabe que estava saqueando as ilhas do thema e, por fim, as tropas de Cefalônia participaram em seguida da ofensiva bizantina na Itália.[17] Os mardaítas de Cefalônia aparecem em seguida na expedição fracassada de 949 contra o Emirado de Creta.[18] A última menção ao estratego local aparece em 1011, quando Kontoleon Tornikios foi enviado para a Itália para sufocar uma revolta entre os lombardos.[19] Após o colapso do controle bizantino no sul da Itália em meados do século XI, a importância do thema diminuiu e ele passou a ser governado por civis (krites - "juízes").[16]

A partir do final do século XI, as ilhas Jônicas se tornaram um campo de batalha para as guerras bizantino-normandas. A ilha de Corfu foi conquistada pelos normandos entre 1081 e 1085 e, novamente, entre 1147 e 1149, enquanto que os venezianos a cercaram em 1122-23. A ilha de Cefalônia também foi cercada, sem sucesso, em 1085, mas foi saqueada em 1099 pela Pisa e, novamente, em 1126 pelos venezianos.[20] Finalmente, Corfu e o resto do thema - com exceção de Leucas - foram capturados pelos normandos sob Guilherme II da Sicília em 1185. Embora Corfu tenha sido reconquistada pelos bizantinos em 1191, as demais ilhas se perderam para sempre e formaram o Condado palatino de Cefalônia e Zaquintos sob o almirante grego de Guilherme, Margarido de Brindisi[16] [21]

Referências

  1. Kazhdan 1991, p. 1007
  2. Soustal 1981, p. 44–50
  3. a b c d e f Nesbitt 1994, p. 2
  4. a b c d Pertusi 1952, p. 175
  5. a b Soustal 1981, p. 176
  6. Soustal 1981, p. 51–52, 175
  7. Kazhdan 1991, p. 1122
  8. Pertusi 1952, p. 174
  9. Soustal 1981, p. 52, 175
  10. Soustal 1981, p. 52, 54
  11. Oikonomides 1972, p. 351–352
  12. a b Soustal 1981, p. 52
  13. Pertusi 1952, p. 91
  14. Treadgold 1995, p. 122
  15. Treadgold 1995, p. 66ff.
  16. a b c Kazhdan 1991, p. 1123
  17. Soustal 1981, p. 52–53, 175–176
  18. Soustal 1981, p. 54, 176
  19. Soustal 1981, p. 55, 176
  20. Soustal 1981, p. 56–57, 176
  21. Soustal 1981, p. 58, 176

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Oikonomides, Nicolas. Les Listes de Préséance Byzantines des IXe et Xe Siècles. Paris: Editions du Centre National de la Recherche Scientifique, 1972.
  • Pertusi, A.. Constantino Porfirogenito: De Thematibus. Roma: Biblioteca Apostolica Vaticana, 1952.
  • Soustal, Peter; Johannes Koder. Tabula Imperii Byzantini, Band 3: Nikopolis und Kephallēnia. Vienna, Austria: Verlag der Österreichischen Akademie der Wissenschaften, 1981. ISBN 3-7001-0399-9.