Tique (mitologia)

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A Tique de Antioquia, cópia romana de um original em bronze feito por Eutiquides (Galleria dei Candelabri, Museus Vaticanos.
Tique no reverso de moeda cunhada por Gordiano III, 238-244 a.C.

Tique ou Tiquê (em grego: Τύχη, transl. Tykhe, "sorte"), nos antigos cultos gregos, era a divindade tutelar responsável pela fortuna e prosperidade de uma cidade, seu destino e sorte – fosse ela boa ou ruim. Sua equivalente na mitologia romana era Fortuna. O historiador grego Stylianos Spyridakis expressou de maneira concisa a atração de Tique para o mundo helenístico, repleto de violência arbitrária e reveses desprovidos de significado: "Nos anos turbulentos dos epígonos de Alexandre, uma percepção da instabilidade dos assuntos humanos levou as pessoas a acreditarem que Tique, a amante cega da Fortuna, governava a humanidade com uma inconstância que explicava as vicissitudes da época."[1] Durante o período helenístico era comum que cada cidade venerasse sua própria versão icônica específica de Tique, vestindo uma coroa mural (uma coroa com o formato das muralhas da cidade). Na literatura estas versões recebiam diversas genealogias diferentes, por vezes como filha de Hermes e Afrodite, ou consideradas uma das Oceânides, filhas de Oceano e Tétis, ou Zeus Píndaro. Era associada a Nêmesis e Agatodemon ("bom espírito"), e venerada em Itanos, na ilha de Creta, como Tyche Protogeneia, associada à Protogenia ("primogênita") ateniense, filha de Erecteu, cujo auto-sacrifício salvou a cidade.[2]

Em Alexandria o Tiqueão (Tykhaeon), templo de Tique, foi descrito por Libânio como um dos mais magníficos de todo o mundo helenístico.[3]

Tique aparece em diversas moedas nos três séculos que antecedem o nascimento de Cristo, especialmente nas cidades ao redor do mar Egeu. Mudanças imprevisíveis da fortuna são a força-motriz nas complicadas tramas dos romances helenísticos, como Leucipe e Clitofonte ou Dáfnis e Cloé. Seu culto experimentou um ressurgimento durante outro período de mudanças turbulentas, os últimos dias do paganismo sancionado pelas autoridades, no fim do século IV, entre o reinado dos imperadores romanos Juliano e Teodósio I, que fechou definitivamente os templos. A eficácia de seu caprichoso poder alcançou respeitabilidade até mesmo nos círculos filosóficos da época, embora entre os poetas fosse um lugar-comum insultá-la como uma meretriz inconstante.[4] Existiam templos dedicados a ela em Cesareia Marítima, Antioquia, Alexandria e Constantinopla.

Na arte medieval era representada portando uma cornucópia, um timão emblemático e a roda da fortuna; por vezes é representada sobre esta roda, presidindo sobre todo o círculo do destino. Na arte greco-budista de Gandara, Tique tornou-se intimamente associada à deusa budista Hariti.

O historiador grego Políbio acreditava que, sempre que não se descobrisse as causas de determinados eventos, tais como enchentes, secas ou geadas, estas causas podiam ser atribuídas com justiça a Tique.[5]

A constelação de Virgem por vezes é identificada como a figura celestial de Tique,[6] bem como outras deusas como Deméter e Astreia.

Referências

  1. Spyridakis, "The Itanian cult of Tyche Protogeneia", Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 18.1 (Janeiro de 1969:42-48) p. 42.
  2. Apontado por Spyridakis, que demonstrou que as sugestões anteriores de uma fonte na Fortuna Primigenia de Preneste era anacronística.
  3. Libânio, em Progymnasmata 1114R, mencionado em Spyridakis 1969:45.
  4. C. M. Bowra, "Palladas on Tyche" The Classical Quarterly New Series, 10.1 (Maio de 1960:118-128).
  5. Políbio: "A Ascensão do Império Romano", páginas 29, Penguin, 1979.
  6. DK Multimedia: Eyewitness Encyclopedia, Stardome, Virgo: miscellaneous section