Toada de Portalegre

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A Toada de Portalegre é um poema de José Régio, dedicado à cidade que o acolheu durante mais de 30 anos. José Régio, poeta nascido na cidade de Vila do Conde, foi para Portalegre em 1928, onde leccionou no antigo Liceu (actual Escola Secundária Mouzinho da Silveira). Ali viveu até 1967, altura em que regressou à sua terra natal onde veio a falecer dois anos depois.

Toada de Portalegre[editar | editar código-fonte]

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Morei numa casa velha,

À qual quis como se fora

Feita para eu Morar nela…

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

- Quis-lhe bem como se fora

Tão feita ao gosto de outrora

Como as do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De montes e de oliveiras

Ao vento suão queimada

(Lá vem o vento suão!,

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão…)

Em Portalegre, dizia,

Cidade onde então sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem fôr,

Na tal casa tosca e bela

À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela,

Tinha, então,

Por única diversão,

Uma pequena varanda

Diante de uma janela

Toda aberta ao sol que abrasa,

Ao frio que tosse e gela

E ao vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda

Derredor da minha casa,

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos e sobreiros

Era uma bela varanda,

Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens,

Vagas e azuis da distância,

Azuis, cinzentas, lilases,

Já roxas quando mais perto,

Campos verdes e Amarelos,

Salpicados de Oliveiras,

E que o frio, ao vir, despia,

Rasava, unia

Num mesmo ar de deserto

Ou de longínquas geleiras,

Céus que lá em cima, estrelados,

Boiando em lua, ou fechados

Nos seus turbilhões de trevas,

Pareciam engolir-me

Quando, fitando-os suspenso

Daquele silêncio imenso,

Sentia o chão a fugir-me,

- Se abriam diante dela

Daquela

Bela

Varanda

Daquela

Minha

Janela,

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Na casa em que morei, velha,

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

À qual quis como se fora

Tão feita ao gosto de outrora

Como as do meu aconchego…

Ora agora,

?Que havia o vento suão

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

Dói nos peitos sufocados,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão,

Que havia o vento suão

De se lembrar de fazer?

Em Portalegre, dizia,

Cidade onde então sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for,

?Que havia o vento suão

De fazer,

Senão trazer

Àquela

Minha

Varanda

Daquela

Minha

Janela,

O documento maior

De que Deus

É protector

Dos seus

Que mais faz sofrer?

Lá num craveiro, que eu tinha,

Onde uma cepa cansada

Mal dava cravos sem vida,

Poisou qualquer sementinha

Que o vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda,

Achara no ar perdida,

Errando entre terra e céus…,

E, louvado seja Deus!,

Eis que uma folha miudinha

Rompeu, cresceu, recortada,

Furando a cepa cansada

Que dava cravos sem vida

Naquela

Bela

Varanda

Daquela

Minha

Janela

Da tal casa tosca e bela

Á qual quis como se fora

Feita para eu morar nela…

Como é que o vento suão

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

Dói nos peitos sufocados,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão,

Me trouxe a mim que, dizia,

Em Portalegre sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for,

Me trouxe a mim essa esmola,

Esse pedido de paz

Dum Deus que fere… e consola

Com o próprio mal que faz?

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for

Me davam então tal vida

Em Portalegre; cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,

Me davam então tal vida

- Não vivida!, sim morrida

No tédio e no desespero,

No espanto e na solidão,

Que a corda dos derradeiros

Desejos dos desgraçados

Por noites do tal suão

Já várias vezes tentara

Meus dedos verdes suados…

Senão quando o amor de Deus

Ao vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda,

Confia uma sementinha

Perdida entre terra e céus,

E o vento a trás à varanda

Daquela

Minha

Janela

Da tal casa tôsca e bela

À qual quis como se fôra

Feita para eu morar nela!

Lá no craveiro que eu tinha,

Onde uma cepa cansada

Mal dava cravos sem vida,

Nasceu essa acàciazinha

Que depois foi transplantada

E cresceu; dom do meu Deus!,

Aos pés lá da estranha casa

Do largo do cemitério,

Frente aos ciprestes que em frente

Mostram os céus,

Como dedos apontados

De gigantes enterrados…

Quem desespera dos homens,

Se a alma lhe não secou,

A tudo transfere a esperança

Que a humanidade frustrou:

E é capaz de amar as plantas,

De esperar nos animais,

De humanizar coisas brutas,

E ter criancices tais,

Tais e tantas!,

Que será bom ter pudor

De as contar seja a quem for!

O amor, a amizade, e quantos

Mais sonhos de oiro eu sonhara,

Bens deste mundo!, que o mundo

Me levara,

De tal maneira me tinham,

Ao fugir-me, Deixando só, nulo, vácuos, A mim que tanto esperava

Ser fiel,

E forte,

E firme,

Que não era mais que morte

A vida que então vivia,

Auto-cadáver…

E era então que sucedia

Que em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Aos pés lá da casa velha

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casa que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

- A minha acácia crescia.

Vento suão!, obrigado…

Pela doce companhia

Que em teu hálito empestado

Sem eu sonhar, me chegara!

E a cada raminho novo

Que a tenra acácia deitava,

Será loucura!…, mas era

Uma alegria

Na longa e negra apatia

Daquela miséria extrema

Em que vivia,

E vivera,

Como se fizera um poema,

Ou se um filho me nascera.