Tony Duvert

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Tony Duvert
Nacionalidade francesa
Data de nascimento 2 de julho de 1945
Data de falecimento 2008 (aos 63 anos)
Local de falecimento Thoré-la-Rochette, França
Gênero(s) romance, ensaio
Magnum opus
Prêmios Prêmio Médicis (1973)

Tony Duvert (Villeneuve-le-Roi, França, 2 de julho 1945Thoré-la-Rochette, França, 2008) foi um escritor francês, autor de romances e ensaios. A temática principal da sua obra está centrada na pedofilia homossexual[1] , na infância e na crítica à familia e à educação sexual da sociedade burguesa moderna. Em 1973 ganhou o Prêmio Médicis com o romance Paysage de fantaisie.

Reivindicando abertamente a sua pedofilia, Tony Duvert conseguiu se tornar uma figura pública respeitada e um escritor de certo renome graças à 'revolução sexual' e à atitude aberta e relativamente tolerante dos intelectuais para a pedofilia e a sexualidade infantil nos anos 70.

Depois de 1980 o sucesso de Tony Duvert diminui. Ele viveu recluído no departamento de Loir-et-Cher, se instalou com sua mãe no final dos anos 80 e em 1989 publicou um último libro, Abécédaire malveillant, antes de ser quase totalmente esquecido. Após a morte de sua mãe, ele passou sozinho e apartado da vida pública os últimos doze anos da sua vida, conservando muito poucas relações pessoais.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Infância e educação (1945–1966)[editar | editar código-fonte]

Tony Duvert nasceu no dia 2 de julho de 1945[nota 1] em Villeneuve-le-Roi, sendo filho de Georges Duvert, coletor de registos nascido em Meknès (Marrocos) em 1918, e de Ferdinande Maury, nascida em Worms (Alemanha) em 1920[2] . Teve dois irmãos, Alain e Gilles. Menino «tímido e bem reservado», aprendeu bem jovem a ler e a tocar piano[3] , manifestando um gosto pronunciado pelo campo. Em 1980, no seu ensaio L'Enfant au masculin, ele irá escrever que a sua vida sexual começou aos oito anos e que se fez sodomizar pela primeira vez aos doze:

"Teve de esperar até os doze anos para ser por fim sodomizado de importância: muitos meninos aos quais lho entregava picotavam-me o ânus atenciosamente, mas isso não apagava o fogo interno que atiçavam em mim os grandes membros que aqui e ali masturbava. Era necessária uma violação. Da qual eu fosse o autor, evidentemente. A vítima foi um adolescente de quinze ou dezesseis anos que se masturbava comigo às vezes. Como me custou convencer aquele abestalhado de grande porra para que me subisse acima!"

Essa vida sexual temporã custou-lhe ser expulso da escola aos doze anos. Os seus pais o enviaram ao psiquiatra Marcel Eck, especialista no «tratamento» da homossexualidade, cujos métodos Duvert descreveria em 1980 como sendo brutais e humilhantes. Depois disso realizou uma fuga e uma tentativa de suicídio. O seu pai morreu pouco tempo depois[4] .

Em 1961 ingressou no instituto Jean-Baptiste Corot de Savigny-sur-Orge, reputado na região. Aluno brilhante, ele era rejeitado pelo seu orgulho e pela sua homossexualidade, e teve poucos amigos próximos até que o seu professor de filosofia lhe apresentou, no final de 1963, o Christian Duteil, futuro professor de filosofia e jornalista. Ambos os dois foram premiados em 1964 no concurso geral do instituto (Duvert com uma menção honrosa e Duteil com um prémio especial). Ambos dois iriam se deslocar muito frequentemente a Paris, onde Duvert iria multiplicar suas experiências homossexuais[5] . Depois do instituto se instalou em Paris para començar uma licenciatura em letras, mas prefiriu dedicar-se à escritura[6] .

Inícios literários (1967–1973)[editar | editar código-fonte]

Em 1967, Tony Duvert enviou o manuscrito de Récidive ("Reincidência") a Jérôme Lindon, da editora Minuit, cujo catálogo selecto e sucesso de crítica (tinha publicado Samuel Beckett e inúmeros autores do nouveau roman) pareceram ao jovem escritor uma garantia de qualidade. Lindon reconheceu de imediato o potencial de Duvert e aceitou publicar a obra. Tony Duvert debutou assim como escritor à idade de 22 anos. Todavia, o Lindon, ciente dos riscos de publicar um romance onde a pornografia está tão presente, iria optar por uma edição limitada (712 exemplares) e por um lançamento discreto: publicado sem serviço de imprensa, o livro apenas esteve disponível por assinatura ou em livrarias selecionadas que o venderam discretamente.

Muito produtivo, Duvert publicou nos anos seguintes três romances: Interdit de séjour ("Expulso") e Portrait d’homme-couteau (traduzido em português como Retrato de homem faca, 1977) em 1969, Le Voyageur ("O viajante") em 1970. «Cada vez mais sexua[is], cada vez mais violento[s] e cada vez mais experimenta[is]», eles foram ainda vendidos por assinatura, o que não impediu que a venda de Interdit de séjour fosse proibida a menores, bem como sua publicidade e exposição, por um decreto do 10 de julho de 1969.

Nesses quatro primeiros romances, a recusa às convenções do romance clássico iriam se tornar cada vez mais extremas, mais por uma vontade subversiva que por seguir a moda: estilo incoherente, jogos tipográficos, ausência ou multiplicidade dos enredos, dos narradores, da cronologia ou dos fatos, ausência de pontuação em Le Voyageur. Além disso, essas experimentações narrativas e estilísticas iriam acompanhadas de uma «dimensão política» das obras, que criticavam a sociedade burguesa por meio da pornografia violenta, da apologia da fuga e da promoção das relações sexuais entre adultos e crianças. Duvert foi associado frequentemente à corrente do nouveau roman. Por otro lado, ele iria elogiar em 1968 o romanista Robert Pinget em um artigo publicado na revista Critique. Todavia, perguntado sobre a sua filiação literária, Duvert afirmaria sentir uma «grande aversão» para os estilos doutros autores do nouveau roman, como Alain Robbe-Grillet ou Michel Butor.

Embora essas caraterísticas começaram a garantir-lhe um certo sucesso crítico, suas obras eram ainda pouco vendidas. A fim de assegurar-lhe um salário fixo, Lindon decidiu contratá-lo para dirigir uma nova revista literária, Minuit, que iria publicar desde o primeiro número, além de Duvert, Samuel Beckett, Pierre Bourdieu, Roland Pinget e Alain Robbe-Grillet. Embora durante vários anos exerceu sua tarefa com sucesso, seu caráter limitava ainda a extensão de sua rede de influência, se bem que no mesmo ano ele iria fazer amizade com o desenhista Michel Longuet.

No início dos anos 1970, Tony Duvert namorou com uma mãe solteira que ele tinha em pouca estima, a fim de aproximar-se do filho dela. Aparentemente pouco atenta ao seu filho, e com o desejo de sair de viagem sozinha, a mão confiou o menino a Tony Duvert durante o verão de 1973. Este passou com o garoto, de oito anos de idade, uma semana sozinho em uma casa comprada pouco antes pela mãe do escritor e um dos seus irmãos em Thoré-la-Rochette. Parece provável que durante esse tempo Duvert tivesse relações sexuais com o garoto. Este episódio iria servir de enredo para o seu romance Quand mourut Jonathan ("Quando morreu Jonathan").

Reconhecimento crítico (1973–1979)[editar | editar código-fonte]

A publicação em 1973 do seu romance Paysage de fantaisie ("Paisagem de fantasia") marcou um momento crucial. A obra, uma espécie de longo sonho alucinado sobre un bordel de crianças, foi recebida de maneira muito favorável pela crítica da época, que viu nela, segundo o psicanalista Serge André, «a expressão de uma sã subversão»[7] . Para Claude Mauriac, o romance revela «umas capacidades e uma arte que a palavra talento dificilmente pode expressar»[8] .

Graças ao apoio de Roland Barthes, que havia entrado pouco tempo antes no júri, Duvert recebeu a princípios de novembro o Prêmio Médicis 1973, o que representou uma pequena surpresa. Diante dos jornalistas, que descobriam seu rosto para a ocasião, Duvert se mostrou nervoso e calado, e seu caráter difícil o levou a brigar naquela mesma noite com seus sustenos, Barthes inclusive, durante o jantar de celebração do prêmio: uma violenta discussão explodiu entre Tony Duvert e Roland Barthes a propósito da pedofilia[9] .

Até então pouco conhecido no seio do mundo cultural e da mídia, Tony Duvert começou a conceder suas primeiras entrevistas à imprensa. Essa visibilidade midiática permitiu que o seu primeiro ensaio, Le Bon Sexe illustré (publicado em 1974 em português por Edições Afrontamento com o título O sexo bem comportado), prolongação do seu artigo de 1973 "La sexualité chez les crétins" ("A sexualidade entre os cretinos"), fosse comentado na imprensa após sua publicação em 1974. Nessa obra, parcialmente inspirada em sua experiência do verão de 1973, ele criticava fortemente a educação sexual e a família. Em Le Bon Sexe illustré Duvert afirma: «Deve ser reconhecido aos menores, crianças e adolescentes, o direito de fazerem amor». A recepção foi favorável, se bem que os críticos elogiaram mais o humor e a capacidade dele para criticar a hipocrisia da «sociedade burguesa» do que as prescripções e a própria ideologia de Duvert. Cada um dos capítulos do ensaio é ilustrado com a foto de un garoto ereto, que o autor descreve como «uma porra de garoto excitado».

No início de 1974, graças ao dinheiro do prêmio, ele saiu de Paris, que ele tinha em pouca estima, e se instalou em Marrocos, no bairro do Guéliz. Nos seus primeiros meses em Marrocos ele deitou com inúmeros adolescentes e meninos, e deixou a escritura. No final do ano deixou seu alojamento moderno por um apartamento mais pequeno na cidade velha, e embarcou na escritura de Journal d'un innocent, transposição espanhola de sua experiência marroquina, em um estilo mais clássico que o dos seus livros anteriores. Em meados de 1975 regressou à França, bastante desapontado com sua experiência na sociedade marroquina, passou o verão em Thoré-la-Rochette e posteriormente se instalou em Tours, fugindo de Paris e do mundo literário. O livro foi publicado em 1976.

No final do ano começou a escrever um romance, transposição romantizada da sua história do verão de 1973. A escritura de Quand mourut Jonathan[10] demorou um cumprido ano, que ele passou recluso no Loir-et-Cher. Seus contatos com Lindon foram unicamente epistolares. Durante o mesmo período ele escreveu poemas em prosa, pequenas histórias que iriam ser recolhidas pela editora Fata Morgana em 1978 em duas obras: District e Les Petits Métiers.

Contudo, a estima da crítica não permitiu que Duvert alcançasse o sucesso que ele esperava depois do seu prêmio Médicis. Decidiu então escrever um romance que iria retomar os seus temas prediletos, sendo menos pornográfico e presentando uma factura estilística absolutamente clássica a fim de sensibilizar sobre suas ideais um público que ele esperava tão vasto quanto possível. Publicado em março de 1979, L'Île Atlantique ("A ilha Atlântica") suscitou «artigos ditirâmbicos» de Bertrand Poirot-Delpech, François Nourissier ou Madeleine Chapsal, e foi vendido efetivamente «um pouco melhor» do que o anterior.

No final dos anos setenta, Duvert era presente na imprensa (escreveu palavras cruzadas para a revista Le Gai Pied, foi entrevistado pelo jornal Libération) e nas livrarias: em 1980, o ensaio L'Enfant au masculin ("A criança em masculino"), no qual denunciava a rejeição ainda persistente da pedofilia e criticava o que ele chamava de «heterocracia», representou a sua quinta obra em três anos. Contudo, ele continuou vivendo em Tours e apenas permanecia brevemente Paris em raras ocasiões.

Retirada do mundo (1981–2008)[editar | editar código-fonte]

Apesar desse interesse pelo seu trabalho, Duvert se isolou cada vez mais. Depois de L'Île Atlantique ele se dedicou ao romance de gênero com Un anneau d'argent à l'oreille ("Um anel de prata na orelha"), inspirado no romance policial, mas ainda muito crítico com a sociedade adulta. Persuadido de que Lindon não gostava desse livro, Duvert se sentiu desapontado pela recepção da imprensa. O crítico do jornal Le Figaro Michel Nuridsany via nele todavia "um momento crucial" na obra daquele «que é amplamente considerado como um dos mehores escritores da sua geração»[11] .

O recolhimento de Duvert se agravou, ele afundou-se na refusa de todo papel social e na paranoia. Os encontros com seus amigos, mesmo os mais próximos, como o Michel Longuet, e as respostas a suas cartas, se distanciaram cada vez mais. Ele embarcou num projeto autobiográfico, La Ronde de nuit, que não terminou, embora Lindon chegou a receber alguns capítulos. No final dos anos oitenta, apesar da extrema paciência do seu proprietário, Duvert não podia continuar pagando o aluguer de seu apartamento, após ter passado alguns anos sem aquecimento nem telefone. Retirou-se então para a casa de sua mãe em Thoré-la-Rochette. Em 1988, quando L'Île Atlantique foi editada em edição de bolso para a editora Seuil, François Nourissier lamentava no Le Monde a desaparição literária de Duvert. Em 1989 ainda foi publicado o livro Abécédaire malveillant ("Abecedário malévolo"). Apesar da sua grande qualidade literária, a obra, uma seleção de notas e de aforismos em forma de dicionário, foi mal recebida pela crítica, com exceção de Le Figaro. Tony Duvert não publicou mais nada a partir de então.

Em 1996 morreu a mãe de Duvert. Esse a fez incinerar sem cerimónia. Vivia totalmente sozinho, saindo apenas à tarde para fazer compras de táxi. Não tinha contatos com os vizinhos e era visto como uma espécie de maluco que lia em voz alta textos que destruía logo. Embora esquecido, sua obra ainda iria ter influência, no final dos anos oitenta, sobre alguns autores da Minuit, como Eugène Savitzkaya, Hervé Guibert e Mathieu Lindon[12] ou, posteriormente, Gilles Sebhan.

Em 2005, Gérard Mordillat adaptou L'Île Atlantique para o canal de televisão Arte, sem que Duvert interviesse de nenhuma maneira no processo de realização, mas unicamente para dar sua aprovação ao editor, pois ainda necessitava dinheiro. Após a transmissão do telefilme em dezembro de 2005, a revista Livres-Hebdo recordava que o Duvert foi considerado «um autor essencial», potencialmente «o escritor maior da sua geração»[13] Imediatamente depois, L'Île Atlantique foi reeditada em edição de boslo pela Minuit, mas o Duvert não iria reaparecer mais. Em fevereiro de 2008, Jean-Pierre Tison foi a derradeira pessoa a receber notícias do escritor.

O corpo de Tony Duvert foi encontrado em seu domicílio no dia 20 de agosto de 2008, várias semanas depois do seu falecimento[14] , em avançado estado de descomposição. Sua morte dataria do início de julho[nota 2] . Em sua casa foram encontradas imagens de pornografia infantil (David Caviglioli, crítico de Le Nouvel Observateur, considerou isso como o «final repugnante de um impasse sexual e moral no qual mesmo a literatura se tem perdido»[15] ) e se falou de manuscritos inéditos, mas segundo seu irmão Alain, Tony Duvert, muito empobrecido, «apenas tem deixado dívidas» e nem o mínimo escrito. Pouco tempo após o anúncio da sua morte, os necrológios foram na sua maioria elogiosos, formando segundo René de Ceccatty «um curioso réquiem consensual[16] ».

Estilo literário[editar | editar código-fonte]

As obras de Tony Duvert estão marcadas, além da influência do nouveau roman, pela recorrência dos temas característicos de Tony Duvert: a infância, a pornografia, a dor, o sexo, a inocência. O crítico Claude Mauriac descreve-a em Paysage de fantaisie como um «passe contínuo do abominável ao delicioso e do execrável ao excelente» que revela, segundo ele, «umas capacidades e uma arte que a palavra talento dificilmente pode expressar»[8] .

Várias das suas obras adentram-se na tradição sadiana de associação da violência com a sexualidade, relacionada com a crença na importância fundamental da crueldade tanto nas relações sociais como sexuais[17] . Por outro lado ele é considerado nos seus inícios como um «discípulo de Jean Genet[18] » (autor que ele própio afirma ter em pouca estima). René de Ceccatty descreve-o como um «excelente retratista da necedade», na tradição de Gustave Flaubert[19] . As suas premeiras ficções poéticas são próximas às obras de Alain Robbe-Grillet, se bem que ele se decanta depois para un realismo poético atento às inovações de Ian McEwan[20] .

Ativismo pedófilo[editar | editar código-fonte]

Conhecido pela reivindicação da sua pedofilia[21] , Tony Duvert defende «o direito das crianças a dispor da sua livre sexualidade»[22] . Dois ensaios em particular ilustram as suas convicções (O sexo bem comportado, publicado em 1974, e L'Enfant au masculin en 1980), as quais se encontram transpostas também em vários romances nos quais as relações pedófilas com meninos ocupam um lugar preponderante, como Quand mourut Jonathan ou Journal d'un innocent. Em Quand mourut Jonathan, o menino aparece como iniciador da sua relação sexual com o protagonista adulto, a quem ele anima a o sodomizar[23] .

Em O sexo bem comportado, Duvert afirma: «A informação sexual do menino de 10/13 anos não representa problema nenhum para quem faz amor com ele. (…) Portanto, o menino de 10/13 anos tem tanta sexualidade quanto ele pode, e embora a dissimule agora cuidadosamente perante os familiares, com frequência ele está entregado a muitas aventuras clandestinas, qualquer que seja sua cor»[24] . Na mesma obra, ele ridiculariza uma imagem de alerta contra os pedófilos e denuncia a repressão exercida contra estes últimos, ao considerar que «a proibição que afeta a pederastia é un simples corolário daqueles que, em nós, condenam por um lado a homossexualidade e, por outro lado, a sexualidade dos menores» e que o abusador sádico ou assassino de crianças é algo «raríssimo». Para Tony Duvert, «Convém reiterar que entre crianças púberes e impúberes não há nenhuma diferença de aptitude para o prazer. Apenas mudam, mais ou menos, os atos de prazer, seus códigos, sua socialização». Segundo ele, as violações de crianças são «totalmente repugnantes como abuso de poder –e somente como tais, não precisa nem falar»[25] .

Em 1979, pouco tempo depois da publicação de L'Île Atlantique, Tony Duvert concede uma entrevista a Libération na qual afirma: «Para mim, a pedofilia é uma cultura. É necessário que ela represente uma vontade de fazer algo dessa relação com a criança (...). É imprescindível que as relações sejam culturais. E é imprescindível que aconteça algo que não seja nem paternal nem pedagógico. Deve ser criada uma civilização». Nessa mesma entrevista, Tony Duvert critica o poder das mães sobre as crianças, que ele chama de «matriarcado para impúberes», e aconselha «impedir que as mulheres tenham um direito exclusivo sobre as crianças (...). Já não se trata de que haja relações sexuais ou de que não haja. Eu conheço a um menino, e se sua mãe opõe-se às relações que tenho com ele não é por questões de porra, é acima de tudo porque o pego a ela. Por questões de poder, sim»[26] .

Em 1980, Tony Duvert publica o ensaio L'Enfant au masculin, no qual defende que as relações sexuais entre um homem adulto e um menino dependem da homossexualidade do menor e que a repressão da pedofilia faz parte integrante da persecução dos homossexuais[27] . Quanto ao consentimento do menor, Tony Duvert escreve: "[A] liberdade para sair de uma situação em que haviamos consentido é, evidentemente, a garantia necessária e suficiente do valor do consentimento em si mesmo. Não há necessidade de discutir sobre a «capacidade» (do menor em particular) de alguém para consentir ou não com conhecimento de causa: todos somos capazes, mesmo quando bebês, de distinguir o que gostamos o não gostamos, e de expressar essa apreciação". Duvert afirma: «Os pedófilos reclamam o direito a viver livremente o amor que lhes concede uma criança, e a desfrutar livremente os prazeres amorosos, mesmo passageiros, nos quais eles descobrem que um menino e um homem ficam felizes como diabos»[28] . Segundo Duvert, «o pedófilo escurece os valores paternais: entre o rebanho, o bando, as crianças normais, ele descobre os milagres humanos» (...) «o pedófilo pede demasiado e introduz valores demasiado autênticos»[29] . Na mesma obra, ele denuncia a «necessidade feminina de poder sobre a criança», a «heterocracia», isto é, o «totalitarismo» que representa, segundo ele, a heterossexualidade erigida como norma e a bissexualidade (masculina), que ele chama de «armadilha para bucetas»[30] . E mostra o seu desprezo aos moralistas, culpando-os da repressão sexual que ele sofriu na infância: "Dedico esta lembrança aos sacanas (...) que hoje me pregam o «respeito» ao menor. Moralistas cegos, eu já fui esse menor e sofri esse respeito". Quanto aos seus gostos, ele escreve: «a minha pedofilia (...) centra-se nos meninos impúberes. Mas quando é que começa a impuberdade? Os bebês não me atraem ainda; gosto loucamente dos pequenos de dois a três anos, mas essa paixão sempre foi platônica; nunca fiz amor com um menino de menos de seis anos e essa falta de experiência, embora a lamento, realmente não me causa frustração. Pelo contrário, aos seis anos, o fruto me parece maduro: ele é um homem e não lhe falta nada. Essa deveria ser a idade da maioridade. Lá chegaremos»[31] . Nesta obra, Tony Duvert diz que teve relações sexuais «com mais de mil garotos», «de seis a cinquenta anos e mais»[32] .

Em 1989, no seu livro Abécédaire malveillant, Tony Duvert irá denunciar o que ele considera a utilização da pedofilia e da repressão da sexualidade infantil —sob a égida da «proteção» contra o sexo— como um pretexto político da direita para exercer a repressão e o controle social com a cumplicidade da esquerda, estratégia que ele assimila a uma ideologia fascista que define como a união de um «neonazismo» e um «cristianismo assassino»:

«Proteger as crianças do sexo —començando pelo delas, que é destruído— é o álibi que a direita invoca já em vários países da Europa para infestar a sociedade, para tomar o controle das vidas privadas, dos impressos, das imagens, das manifestações públicas, das iniciativas em que participam menores, para reinar através da suspeita, da denúncia, da investigação generalizada, para inspeccionar com qualquer pretexto, para isolar do mundo as crianças, para perseguir as liberdades que ela não pode suprimir. A direita tira proveito assim de uma grave debilidade dos progressistas, que não têm a coragem de renovar os hábitos, nem a imaginação de criar para as crianças, conforme o sexo delas, um estatus social que lhes forneça o direito a um pensamento pessoal e a uma vida privada.
Mas é que há um político, um intelectual «de esquerda», que veja na criança algo mais do que um bichinho de idade e sexo indeterminados, um pouco enternecedor, um pouco chato, que deva ser confiado, com toda justificação, às senhoras e aos eunucos, esperando que se pareça com seu pai?
Os conservadores, os moralistas hipócritas, os riquíssimos lobbies confessionais, têm-se apoderarado livremente de toda a infância. Os obscurantistas conquistaram o direito exclusivo de formar as condutas. Assim cresce o eleitorado da direita que amanhã reinará, e que vai se chamar, adivinamos, socialista, européia e nacional...
A peste negra[nota 3] regressa. Estende-se diante da mesma indiferença que há sessenta anos. Com a cumplicidade da esquerda e da intelligentsia, que ofuscam o seu próprio puritanismo e o seu incomensurável desprezo para os «menores», ela é um neonazismo cada vez menos escondido e um cristianismo assassino que se unem contra o homem, e que vão impor a sua ideologia bestial à juventude de dois continentes sem encontrar obstáculos»[33] .

Nesta obra, uma coletânea de notas e aforismos em forma de dicionário, Tony Duvert inclui no artigo "Zoofilia" os textos tratando sobre meninos com a intenção de denunciar a situação de desprezo à qual os menores estão submetidos, segundo ele, pela sociedade e a lei.

Em português[editar | editar código-fonte]

Em 1974, apenas um ano depois da edição original em francês, a editora portuguesa Afrontamento (Porto) publicou o ensaio O sexo bem comportado, com o subtítulo "Grandezas e Misérias da Educação Sexual", em tradução de Fernando Cabral Martins. Em 1979 foi publicada uma segunda edição.

Em 1977, Alberto Raposo Pidwell, em colaboração com Luíza Neto, autora da tradução, editou o romance Retratao de homem faca dentro da coleção Nas Margens do Corpo. A edição fez-se acompanhar de um folheto com informação sobre Tony Duvert.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Notas

  1. A data de nascimento de Tony Duvert coincide com a incorporação no Código Penal francês do parágrafo do artigo 331 que tipifica como crime as relações sexuais com menores de 15 anos. Tony Duvert comenta esta anedota no seu livro O sexo bem comportado: "Estranha predestinação? Signo do céu? O parágrafo do artigo 331 que equipara a um crime o amor aos menores de quinze anos é do dia 2 de julho de 1945. É a minha data de nascimento. Ninguém houvesse podido vir ao mundo sendo pedófilo sob melhores auspícios. Isso faz com que valha a pena toda a astrologia".
  2. O correio mais antigo da sua caixa postal datava do 4 de julho de 2008 (Sebhan, Gilles Sebhan. Tony Duvert: L'enfant silencieux. Paris: Denoël, 2010, p. 132).
  3. "Peste negra" (peste brune no texto original) foi um sobrenome dado durante a Segunda Guerra Mundial ao nazismo por analogia com a cor das suas camisas. Este sobrenome qualifica o nazismo como uma doença política contagiosa e infecciosa. Por extensão, hoje é utlizado às vezes para designar um neonazismo, fascismo ou extremismo contemporâneo.

Referências

  1. Jean-Claude Guillebaud, La Tyrannie du plaisir. Paris: Seuil, 1998, p. 24.
  2. Gilles Sebhan, Tony Duvert l'enfant silencieux, Denoël, 2010. ISBN 2207101231.
  3. Op.cit., p. 22
  4. Op.cit., p. 52
  5. Op.cit., p. 38
  6. Op.cit., p. 62
  7. Serge André, La signification de la pédophilie
  8. a b Mauriac, Claude, "Une littérature corrosive", Le Figaro littéraire, n° 1396, 17 de fevereiro de 1973, II, p. 16.
  9. Tombeau pour Tony Duvert, L'Express, 2010-4-10.
  10. Duvert's Portrait of the 'Boy Eternal'. NAMBLA Bulletin, Vol. XIV, n.º 1 (1993), pp. 42-49.
  11. Ficha do livro no sítio eletrônico da editora Minuit.
  12. Ceccatty, René "Eugène Savitzkaya de la nausée au plaisir", em Le Monde, 1989-04-07.
  13. Pierre Drachline e Josyane Savigneau citados por Garcia (2005), p. 62
  14. Pancrazi, Jean-Noël. "Tony Duvert", em Le Monde, 2008-08-24, p. 13
  15. Caviglioli, David. "Vie et mort d'un écrivain pédophile : Duvert le mal-aimant". Le Nouvel Observateur, 2010-05-13.
  16. Ceccatty, René. "Une effrayante liberté", 2008-10-24, p. 5.
  17. Hemka, Gert, «From Sade to Fassbinder: Aesthetics of Cruelty and Male Love in Homosexual Artists», em Raymond Corbey e Joep Leerssen, Alterity, identity, image: selves and others in society and scholarship, Amsterdã e Nova Iorque: Rodopi, 1991, pp. 57-8
  18. «Minuit à minuit», em Le Nouvel Observateur, nº 418, p. 69, 11 de novembro de 1972
  19. René de Ceccatty, «Je t'aime, je te tue», em Le Monde, 5 de setembro de 1997.
  20. Fletcher, John, Alain Robbe-Grillet, Londres: Routledge, 1983, p. 84.
  21. Ariño, Philippe, Dictionnaire des codes homosexuels : partie I à W. Paris: L'Harmattan, 2008, p. 177
  22. Mort d'un écrivain à Thoré-la-Rochette, blog de Pierre Assouline, 23 de agosto de 2008
  23. Tony Duvert, Quand mourut Jonathan, Minuit, 1974, pp. 204-206
  24. Duvert, Tony, Le Bon Sexe illustré. Paris: Minuit, 1974, p. 38
  25. Duvert, Tony, op.cit., pp. 99-107
  26. Declarações coletadas por Marc Voline e Guy Hocquenghem, para uma entrevista publicada em Libération nos dias 10 e 11 de abril de 1979 com o título « Non à l'enfant poupée ».
  27. Duvert, Tony, L'Enfant au masculin. Paris: Minuit, 1980, p. 178
  28. Duvert, Tony, op.cit., p. 38
  29. Duvert, Tony, op.cit., p. 12-14
  30. Duvert, Tony, op.cit., pp. 95-96
  31. Duvert, Tony, op.cit., pp. 18 e 21
  32. Tony Duvert, L'Enfant au masculin, Minuit, 1980, p. 106
  33. Duvert, Tony. Abécédaire malveillant, Paris, Minuit, 1989, pp. 138-140.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Obras publicadas[editar | editar código-fonte]

Romances

Ensaios e artigos teóricos

  • "La parole et la fiction: à propos du Libera". Critique, n.º 252 (maio 1968). Reedição Éditions de Minuit, 1984. ISBN 2-7073-0674-6.[1] .
  • "Des courants d'air gelés", Preuves, n.º 209-210, agosto-setembro 1968.
  • "La lecture introuvable", Minuit, n.º 1, Éditions de Minuit, novembro 1972.
  • "La sexualité chez les crétins", Minuit, n.º 3, Éditions de Minuit, março 1973, pp. 60-72.
  • "La folie Tristan, ou, L’indésirable", Minuit, nº 4, Éditions de Minuit, maio 1973, pp. 53-70.
  • Le Bon Sexe illustré. Paris: Éditions de Minuit, 1973. ISBN 2-7073-0003-9. Tradução em português : O sexo bem comportado (trad. Fernando Cabral Martins - Porto : Edições Afrontamento, 1974, reedição 1979).
  • "Alejandro - le corps du désir", prefácio ao catálogo da exposição Ramon Alejandro, Galerie Arta, Génova, março 1974..
  • "L'érotisme des autres", Minuit, n.º 19, Éditions de Minuit, maio 1976, pp. 2-12
  • L'Enfant au masculin. Paris: Éditions de Minuit, 1980. ISBN 2-7073-0321-6
  • "Idée sur Narcís", Masques, n.º 3, inverno 1979-1980.
  • "Genet contre Bataille", Masques, n.º 12, inverno 1981-1982.
  • Abécédaire malveillant. Paris: Éditions de Minuit, 1989. ISBN 2-7073-1316-5

Relatos poéticos

  • "District", dans Les Cahiers du Chemin, n.º 3, nrf Gallimard, abril 1968.
  • "Ballade des petits métiers", Minuit n.º 24, Éditions de Minuit, abril 1977.
  • District, Fata Morgana, Montpellier, 1978. Nova versão do texto publicada em 1968 em Les Cahiers du Chemin, n.º 3.
  • "Le garçon à la tête dure: inspiré des Mille et une Nuits", Minuit, n.º 30, Éditions de Minuit, setembro 1978.
  • Les petits métiers, Fata Morgana, Montpellier, 1978. Versão ampliada do texto publicada em 1977 em Minuit, n.º 24.
  • "Conte", Libération Sandwich, n.º 4, 22 dezembro 1979.
  • "ABC par Tony Duvert", Libération, n.º 2015, 1980-08-07. Seleção de textos.

Imprensa

  • Palavras cruzadas e inúmeros artigos na revista Le Gai Pied.

Entrevistas

  • "L’érotisme n’est pas un violon d’Ingres", conversa em L’Express, n.º 1124, 22-28 janeiro 1973, p. 106.
  • "Tony Duvert – Non à l'enfant poupée", declarações recolhidas por Guy Hocquenghem e Marc Voline, Libération, 10 e 11 de abril de 1979.

Adaptações[editar | editar código-fonte]

  • L'Île Atlantique, telefilme realizado em 2005 por Gérard Mordillat, adaptação do romance homônimo de Tony Duvert.

Documentação[editar | editar código-fonte]

Obras
Artigos