Totalitarismo

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Uma fotomontagem de Joseph Stalin e Adolf Hitler, os mais conhecidos e poderosos líderes totalitários de suas épocas [1] (ver: Comparação entre nazismo e stalinismo).

Totalitarismo (ou regime totalitário) é um sistema político no qual o Estado, normalmente sob o controle de uma única pessoa, político, facção ou classe social, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada, sempre que possível.[2] O totalitarismo é caracterizado pela coincidência do autoritarismo (onde os cidadãos comuns não têm participação significativa na tomada de decisão do Estado) e da ideologia (um esquema generalizado de valores promulgado por meios institucionais para orientar a maioria, senão todos os aspectos da vida pública e privada).[3]

Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de uma propaganda abrangente divulgada através dos meios de comunicação controlados pelo Estado, um partido único que é muitas vezes marcado por culto de personalidade, o controle sobre a economia, a regulação e restrição da expressão, a vigilância em massa e o disseminado uso do terrorismo de Estado.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A ideia de totalitarismo como poder político “total” através do estado foi formulada em 1923 por Giovanni Amendola que criticou o fascismo italiano como um sistema fundamentalmente diferente das ditaduras convencionais.[4] O termo depois ganhou conotações positivas nos escritos de Giovanni Gentile, o principal teórico do fascismo. Ele usou o termo "totalitário" para se referir à estrutura e metas do novo estado. O novo estado deveria dispor sobre a "representação total da nação e a orientação total das metas nacionais"[5] . Ele descreveu o totalitarismo como uma sociedade em que a ideologia do estado teria influência, se não poder, sobre a maioria de seus cidadãos[6] . Segundo Benito Mussolini[4] , este sistema politiza tudo que é espiritual e humano. O conceito de totalitarismo surgiu nos anos 1920 e 1930. A visão de que ele foi elaborado somente depois de 1945 é frequente e equivocadamente visto como parte da propaganda anti-soviética durante a guerra fria. [carece de fontes?]

Cquote1.svg "Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” Cquote2.svg
expressão consagrada por Benito Mussolini

Génese e contexto histórico[editar | editar código-fonte]

Foi ainda no decorrer da Primeira Guerra Mundial que começou a nascer o totalitarismo, fenómeno político que marcou o século XX. Com a necessidade de direcionar a produção industrial para as necessidades geradas pela guerra, os governos das frágeis democracias liberais europeias tiveram de se fortalecer, acumulando poderes e funções de Estado, em detrimento do poder parlamentar, para agilizar as decisões importantes em tempos de guerra. Quando voltasse a paz, dizia-se, esses poderes voltariam à distribuição democrática usual. Mas não foi isso que aconteceu. [carece de fontes?]

O Estado com executivo forte e legislativo debilitado que se constituiu durante a Primeira Guerra acabou sendo a semente do modelo de Estado autoritário que surgiria na década seguinte. Das várias monarquias parlamentares europeias em 1914 (Reino Unido, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Sérvia, Bulgária, Roménia, Grécia, Áustria-Hungria e outras), só a britânica terminou o século sem ter passado por uma ditadura de inspiração fascista. [carece de fontes?]

A propaganda totalitária[editar | editar código-fonte]

Elemento de destaque constituiu a propaganda entre os movimentos totalitários do século XX. Aspirando ao domínio total da população em regimes pautados por teorias conspiratórias e uma realidade fictícia criada em meio a um desprezo pela realidade dos fatos, a propaganda totalitária foi essencial para, num primeiro momento, a conquista das massas e arregimentar em torno de si uma enorme quantidade de simpatizantes, e, principalmente, para mantê-las sob controle posteriormente. Já empossados da máquina governamental, a violência de Estado, ainda restrita na ascensão dos movimentos ao poder, assume sua forma mais acabada, e, com isso, constitui-se no melhor instrumento de persuasão destes regimes: dão realidade às afirmações fictícias do regime. Como exemplo, Josef Stalin, ao divulgar que acabara com o desemprego na União Soviética, uma inverdade de fato, extinguiu os programas de benefícios para desempregados; ao afirmarem, os nazistas, que poloneses não tinham intelecto, começaram o extermínio de intelectuais poloneses.[7]

Desta forma, o uso da propaganda nos regimes totalitários é tido como parte da violência, e vice-versa, sendo ambas complementares. E a primeira só vai substituir a segunda na medida em que a dominação vá se efetuando completamente. A propaganda, inicialmente, é destinada aos elementos externos ao movimento, àqueles que ainda não se domina, como estrangeiros, já o terror é perpetrado entre aqueles já dominados e que não mais oferecem resistência ao regime, alcançando sua perfeição nos campos de concentração onde a propaganda é totalmente substituída pela violência. [carece de fontes?] Assim, o terror torna-se uma fonte de convencimento, semelhante à propaganda.

Também são apontadas semelhanças entre a propaganda totalitária e a propaganda comercial de massa que se desenvolvia nos Estados Unidos naquele início de século[8] utilizando argumentos cientificistas para suas afirmações justificando a supremacia de suas próprias razões [carece de fontes?]. A sociedade massificada em que dominavam os regimes totalitários mais paradigmáticos lidavam com um indivíduo atomizado que, para o espanto do mundo não-totalitário, perdia até mesmo seu instinto de auto-conservação.[9]

Características do totalitarismo tradicional[editar | editar código-fonte]

São características dos regimes totalitários paradigmáticos de ambos os extremos do espectro ideológico [carece de fontes?]:

.

Totalitarismo de Esquerda

Totalitarismo de Direita

características divergentes

  • abolição da propriedade privada;
  • coletivização obrigatória dos meios de produção agrícola e industrial;
  • supressão da religião da esfera política
  • fundamentos ideológicos no socialismo.
  • forte apoio da burguesia industrial;
  • corporativismo nas relações de trabalho e tutela estatal sobre as organizações sindicais
  • fundamentos ideológicos em valores tradicionais (étnicos, culturais, religiosos)
  • forte apoio da religião.

características comuns

Acordo Hitler-Stalin, o Pacto Ribbentrop-Molotov dividiu a Europa entre os dois líderes totalitários. Cerimônia de assinatura: Molotov está assinando, Ribbentrop está atrás (com os olhos fechados), com Stalin à sua esquerda (ver: Negociações sobre a adesão da União Soviética ao Eixo).

Sob o título de totalitarismos, as diferenças ideológicas entre regimes como o nazismo de Adolf Hitler e o fascismo de Benito Mussolini, o comunismo de Josef Stalin e o de Mao Tse-tung, ficam enevoadas. As diferenças que guardam são muitas e dizem respeito aos seus fins [carece de fontes?]; o totalitarismo de esquerda (stalinismo, maoísmo e variações) representa o controle do poder político por um representante imposto dos trabalhadores, mas pressupõe uma revolução de fato no regime de propriedades, coletivizando os bens de produção e as terras, embora o objetivo final da teoria marxista pressuponha a abolição do próprio Estado. [carece de fontes?]. As semelhanças entre os regimes de Stalin ou Mao com os de Hitler ou Mussolini limitam-se aos métodos — por isso não se pode de forma alguma confundir os dois modelos: respectivamente, um coletiviza a propriedade, o outro a mantém para a classe burguesa. [carece de fontes?]

Por outro lado, as semelhanças que estes extremos reúnem entre si são justamente os aspectos definidores do regime totalitário. Para determinados críticos [carece de fontes?], a aspiração destes regimes é de um domínio absoluto daqueles sob seu jugo, e, nas suas últimas consequências, ao domínio universal, sem a restrição imposta pela noção de Estado-nação (embora nem a União Soviética stalinista nem a Alemanha Nazista, os dois principais exemplos de totalitarismo na história, tenham declarado este propósito). A máquina governamental, na visão de alguns autores [carece de fontes?], aparece como mero instrumento para fins desse domínio total e universal aspirados por movimentos totalitários.

Para alguns [carece de fontes?], a operosidade dos seus regimes frente a suas populações parecem convergir no que diz respeito aos métodos e táticas empregados na própria manutenção, apesar das "confissões" do aparelho governamental de Mao sobre as contradições não antagônicas entre o Estado e o povo chinês. Sem apelar para discursos ideológicos, todos esses regimes visavam a eliminação daqueles elementos que consideravam contrários a seus objetivos.

Nazi-Fascismo[editar | editar código-fonte]

O nazismo era, desde seu início, antiliberal tendo derrubado antigas estruturas institucionais imperiais bem como antigas elites consolidadas, se diferenciava do fascismo principalmente por pregar a superioridade da raça ariana, liderado por Adolf Hitler. [carece de fontes?].

Já o fascismo italiano foi mais proveitoso ao capital na medida em que extinguia sindicatos e obstáculos à administração patronal do trabalho [carece de fontes?]. Ali sim, o movimento foi no interesse de velhas classes dominantes em reação às agitações esquerdistas revolucionárias que se avolumavam [carece de fontes?]. O fascismo, liderado por Mussolini, foi um regime anti-democrático no qual o poder ficava nas mãos de um chefe de Estado, havia grande incentivo à educação e preparação de indivíduos para a guerra. Os fascistas se apresentavam como solução para a crise econômica e greves italianas. Através de violência e mortes eles sufocaram os movimentos grevistas e Mussolini conquistou oficialmente o poder.

Stalinismo[editar | editar código-fonte]

Características do stalinismo:

  • Ditadura burocrática do regime de partido único;
  • centralização dos processos de tomada de decisão no núcleo dirigente do partido;
  • burocratização do aparelho estatal;
  • intensa repressão a dissidentes políticos e ideológicos;
  • culto à personalidade do(s) líder(es) do partido e do Estado;
  • intensa presença de propaganda estatal e incentivo ao patriotismo como forma de organização dos trabalhadores;
  • censura aos meios de comunicação e expressão;
  • coletivização obrigatória dos meios de produção agrícola e industrial;
  • militarização da sociedade e dos quadros do partido.

O totalitarismo ou procedimentos totalitários na democracia[editar | editar código-fonte]

Bolivarianismo[editar | editar código-fonte]

Desta forma, pensadores atuais, como Denis Rosenfield têm se referido ao regime bolivarianista como uma "democracia totalitária", admitindo que um regime poderia vir a ser concomitantemente, democrático e totalitário, não sendo os dois termos antônimos absolutos[10] .

O atual governo venezuelano possui ampla gama de apoiadores que chegou a ser de 71% em 2008, caindo para 60% em 2009 e 58% em 2010. Para as eleições presidencias de 2012, segundo uma pesquisa realizada, Chavez teria apoio mais ou menos de 50% dos votos decididos contra um total de 28,4% de todos seus concorrentes, 34% dizem não saber ainda em quem votar e 13,2% não votaria em nenhuma das opções, inclusive Chavez.[11] [12]

Noam Chomsky[editar | editar código-fonte]

Em texto dedicado a Noam Chomsky, Jean Ziegler escreve: “Existem três totalitarismos: o totalitarismo stalinista, o totalitarismo nazista, e, agora, o "tina" (palavra formada com as iniciais da expressão inglesa there is no alternative ("não há alternativa"), utilizada por Margaret Thatcher para proclamar o caráter inelutável do capitalismo neoliberal).

A "tina", em sua concepção de integração global, trabalharia para a integração econômica planetária, mas somente em prol dos interesses das altas classes financeiras, dos bancos e dos fundos de pensão, potências que controlariam também as mídias. Assim, aqueles que se opõe a essa política são chamados de "anti-globalização", sendo sua crítica colocada à margem da mídia[13] .

Considerando que a finalidade da democracia é que as pessoas possam decidir suas próprias vidas e fazer as escolhas políticas que lhes concernem, e que ela se sustenta na liberdade de expressão, mesmo os Estados Unidos, país símbolo da democracia, estariam sujeitos em dados momentos a um grau maior ou menor de totalitarismo, sustentado pela propaganda e pela pressão econômica sobre a livre expressão do pensamento. Considera ainda o pensador americano que, a liberdade de expressão somente começou a ser exercida de forma mais plena nos Estados Unidos na década de 1960.

Considera, apesar disso, que uma "construção intelectual ... não pode ser comparada aos campos de concentração ou ao gulag", sendo, portanto, este tipo de opressão pela massificação, mais branda do que as formas de Estado totalitário stalinistas e nazi-fascistas.

Prossegue o pensador dizendo que, a partir da década de 1920, em países como Estados Unidos e Grã-Bretanha "o desejo de liberdade não podia mais ser contido somente pela violência estatal", tendo, por isto, a propaganda ideológica assumido o seu lugar, tendo se produzido uma espécie de “fábrica do consentimento”, produzindo a aceitação e a submissão, como o mesmo objetivo totalitário de "controlar as ideias, os pensamentos, os espíritos"[14] .

Se a propaganda é o método de controle ideológico mais eficaz e, portanto, o mais usado pelos modernos governos liberais, por outro lado, não devemos nos esquecer que, eventualmente, em situações consideradas extremas, lançou-se mão de outros daqueles mecanismos que Louis Althusser chamou de Aparelhos Ideológicos do Estado, tal como a interpretação das leis[15] , ou dos chamados Aparelhos repressivos do Estado, tal como a própria polícia, para controlar os protestos dos manifestantes da chamada Anti-globalização[16] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Examples of similar artwork:
  2. Robert Conquest Reflections on a Ravaged Century (2000) ISBN 0-393-04818-7, page 74
  3. C.C.W. Taylor. “Plato's Totalitarianism.” Polis 5 (1986): 4-29. Reprinted in Plato 2: Ethics, Politics, Religion, and the Soul, ed. Gail Fine (Oxford: Oxford University Press, 1999), 280-296.
  4. a b Pipes, Richard (1995), Russia Under the Bolshevik Regime, New York: Vintage Books, Random House Inc., ISBN 0-394-50242-6.
  5. Stanley G. Payne, Fascism: Comparison and Definition (UW Press, 1980), p. 73
  6. G. Gentile & B. Mussolini in "La dottrina del fascismo" 1932)
  7. [4]
  8. Chomsky, Noam. América Rebelde - Entrevista à Daniel Mermet. Le Monde Diplomatique Brasil. 19 de julho de 2010.
  9. Parlamento Europeu. A Europa e o seu passado.
  10. Rosenfield, Denis Lerrer. Democracia totalitária Estadão.com.br. 03 de agosto de 2009.
  11. http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,indice-de-aprovacao-de-chavez-cai-para-58-diz-pesquisa,509957,0.htm Reuters/Estadão. Índice de aprovação de Chávez cai para 58%, diz pesquisa. 11 de fevereiro, 2010
  12. http://www.panoramabrasil.com.br/indice-de-aprovacao-de-hugo-chavez-chega-a-50-id61036.html ANSA. Índice de aprovação de Hugo Chávez chega a 50%. 25 de março, 2011
  13. Chomsky, Noam. América Rebelde - Entrevista à Daniel Mermet. Le Monde Diplomatique Brasil. 19 de julho de 2010.
  14. Chomsky, Noam e Edward Herman. Manufacturing Consent. UK: Pantheon Books, 1988, ed. 1994.
  15. Althusser, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
  16. Correio da Manhã. Economia. Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ARENDT, Hannah. "O Totalitarismo", In: Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 339-531.
  • HOBSBAWM, Eric. "A queda do liberalismo", In: A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 113-143.
  • MOTA, Fernando C. Prestes. O Que é Burocracia. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1981.
  • NETTO, José Paulo. O Que é Stalinismo. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1981.
  • PRINCIPE, Angelo. The Darkest Side of the Fascist Years, Guernica Editions, 1999.
  • SPINDEL, Arnaldo. O Que é Comunismo. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1980.
  • SPINDEL, Arnaldo. O Que São Ditaduras. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1980.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]