Transformada de Hartley
Em matemática, a transformada de Hartley é uma transformada integral bastante relacionada com a transformada de Fourier, mas que possui sobre esta as vantagens de (i) evitar a presença de números complexos no cálculonota 1 e (ii) ser a sua própria inversa. Ela foi proposta por R. V. L. Hartley em 1942 (ver também Lista de transformadas relacionadas à transformada de Fourier)1 .
A versão discreta, chamada de transformada discreta de Hartley, foi introduzida por R. N. Bracewell em 1983[carece de fontes].
A transformada de Hartley em duas dimensões pode ser computada por um processo similar ao usado para computar a transformada óptica de Fourier, com a vantagem de que somente sua amplitude e sinal precisam ser determinados, e não sua fase complexa2 . Entretanto, a transformada óptica de Hartley não parece ser muito empregada ainda[carece de fontes].
Existe uma formulação alternativa para tratamento de funções periódicas: a série de Hartley, que funciona de forma similar à série de Fourier3 .
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Definição [editar]
A transformada de Hartley de uma função f(t) é definida por:
onde ω, em aplicações físicas, é a frequência angular e t é o tempo. A função cas (ing. cosine and sine)
é o chamado núcleo de Hartley. Em aplicações de engenharia, essa transformação leva um sinal, representado por uma função f de valores reais, do domínio do tempo para o domínio espectral de Hartley, que é o domínio da frequência real.
Pela definição, vê-se que a transformada de Hartley de uma função é a soma de suas transformadas de seno e de cosseno1 .
Transformada inversa [editar]
A transformada de Hartley tem a propriedade conveniente de ser sua própria inversa (o que se chama, em matemática, uma involução):
Convenções [editar]
O exposto acima está de acordo com a definição original de Hartley, mas, como também acontece com a transformada de Fourier, vários detalhes são matéria de convenção e podem ser alterados sem mudança nas propriedades essenciais da transformada:
- Em lugar de usar a mesma fórmula para a transformada e sua inversa, pode-se remover o
da fórmula da transformada e usar 1/2π na inversa — ou, na realidade, qualquer par de fatores de normalização cujo produto seja 1/2π (essas normalizações assimétricas são às vezes encontradas em textos de matemática pura e engenharia, inclusive na transformada de Fourier). - Pode-se também usar 2πν em lugar de ω (isto é, a frequência simples em vez da frequência angular), quando então o coeficiente
é totalmente removido. Bracewell (2000) é um exemplo de autor que segue essa convenção1 . - Pode-se usar cos(t)-sin(t) em lugar de cos(t)+sin(t) como o núcleo[carece de fontes].
Como neste verbete a transformada de Fourier desempenha um papel muito importante, vale a pena lembrar que a definição "angular-simétrica" para as transformações direta e inversa é a seguinte:
É essa definição que deve-se ter em mente quando se mencionar aqui a transformada de Fourier. O uso dessa convenção evita a introdução de fatores de escalamento na maioria dos teoremas apresentados.
Relação com a transformada de Fourier [editar]
Essa transformada difere da transformada de Fourier clássica
na escolha do núcleo. Na transformada de Fourier, é usado o núcleo exponencial
, onde i é a unidade imaginária.
As duas transformadas são bastante relacionadas, entretanto, e a transformada de Fourier (assumindo que se use forma simétrica de ambas e o mesmo fator de normalização) pode ser computada a partir da transformada de Hartley através de:
Ou seja, as partes real e imaginária da transformada de Fourier são dadas, respectivamente, pelas partes pares e ímpares da transformada de Hartley.
Inversamente, para funções de valores reais, a transformada de Hartley é dada, a partir das partes real e imaginária da transformada de Fourier, por:
onde
e
denotam as partes real e imaginária da transformada de Fourier1 .
Propriedades [editar]
Linearidade [editar]
Por consistir de uma combinação de operadores lineares (a transformada de senos e a transformada de cossenos), a transformada de Hartley é um operador linear e simétrico (Hermitiano). Das propriedades de simetria e auto-inversão (1c), segue-se que a transformada é um operador unitário (na verdade, ortogonal).
Teorema da convolução [editar]
Existe também um análogo ao teorema da convolução para a transformada de Hartley. Se duas funções
e
têm transformadas de Hartley
e
, respectivamente, então sua convolução
tem a transformada de Hartley
Essa expressão parece complicada, com relação a, por exemplo, o que vale para a transformada de Fourier. No entanto, como em aplicações práticas sempre se pode escolher a origem t=0 de forma a fazer a função f(t) ser par (por exemplo), a expressão (3a) se simplifica para
que é idêntica ao teorema da convolução para a transformada de Fourier1 .
Paridade [editar]
Similarmente à transformada de Fourier, a transformada de Hartley conserva a paridade: a transformada de Hartley de uma função par é sempre uma função par, e a transformada de Hartley de uma função ímpar é sempre uma função ímpar1 .
Função cas [editar]
As propriedades da função cas seguem-se diretamente da sua definição como uma função trigonométrica linear com deslocamento de fase
e da trigonometria. Por examplo, com relação à adição de ângulos:
Adicionalmente:
e sua derivada é dada por:
esta função é conhecida como cas complementar3 .
A Transformada Discreta de Hartley [editar]
(ver o artigo principal Transformada discreta de Hartley)
A transformada de Hartley é definida em um espaço euclideano contínuo. A Transformada Discreta de Hartley (DHT) expande a definição para um espaço discreto. A DHT de uma sequência f de n valores é uma sequência do mesmo tamanho, com o k-ésimo elemento dado pela fórmula
uma expressão muito similar às transformadas discretas de Fourier (DFT), de cosseno (DCT) e de seno. A transformada inversa é dada por:
Perceba-se que a simetria é quebrada pelo fator de escalamento 1/n, o que também acontece com a DFT. Poder-se-ia eliminar essa assimetria substituindo esse fator por
e introduzindo-o na transformada inversa, mas esse procedimento não é comum. A maioria segue a definição original de Bracewell.
As propriedades (2a), (2b) e (3a) também valem para a transformada discreta de Hartley. E, a exemplo de toda transformação discreta, a DHT também está sujeita aos fenômenos de erro de truncamento e serrilhamento (ing. aliasing). Mas a DHT oferece a grande vantagem de não exigir o trabalho com números complexos, o que economiza e simplifica o trabalho. Para um mesmo número de amostras, o cálculo da DHT exige a manipulação de apenas a metade dos valores, quando comparada à DFT, sem que se perca informação com essa simplificação.
A propriedade do valor inicial deve ser escrita da forma seguinte:
A propriedade do deslocamento do eixo deve ser escrita da forma seguinte:
lembrando que, como se trata de uma convolução cíclica, valores negativos de índices devem ser somados a n de forma a resultar num valor adequado.
A propriedade da primeira diferença deve ser escrita da forma seguinte:
O teorema de Parseval deve ser escrito da forma seguinte:
Cálculo da DHT [editar]
A transformada discreta de Hartley pode ser calculada diretamente a partir da fórmula de definição, mas existem algoritmos otimizados, como a Transformada Rápida de Hartley (FHT, do inglês Fast Hartley Transform). Pela sua relação com as transformadas de Fourier e de cossenos, ela também pode ser computada a partir da DFT, da FFT (Fast Fourier Transform) e de algumas variantes da DCT. Inversamente, a DHT pode ser usada para computar as transformadas discretas de Fourier e de cossenos</math>1 .
Transformada de Hartley em duas dimensões [editar]
Em aplicações de análise de imagem, pode-se empregar a transformada de Hartley em duas dimensões. Uma imagem representada por uma matriz f com m x n valores reais possui uma transformada discreta de Hartley em duas dimensões 2H dada por outra matriz m x n, com valores reais dados pela fórmula
E a transformada inversa é dada por
Existem definições similares para transformadas em mais dimensões1 .
Notas [editar]
- ↑ Quando aplicada a uma função de valores reais, o que geralmente é o caso.
- ↑ Essa expressão é válida apenas quando se emprega a definição (1a) para a transformada ou substitui-se ω por 2πν. Em outros casos, podem aparecer fatores de escalamento (ver o item Convenções).
Referências adicionais [editar]
- Hartley, R. V. L., A more symmetrical Fourier analysis applied to transmission problems, Proc. IRE 30, 144–150 (1942).
- Bracewell, R. N., The Hartley Transform (Oxford University Press, 1986)
- Bracewell, R. N., Aspects of the Hartley transform, Proc. IEEE 82 (3), 381-387 (1994).
- Millane, R. P., Analytic properties of the Hartley transform, Proc. IEEE 82 (3), 413-428 (1994).
Ligações externas [editar]
- Ralph Vinton Lyon Hartley
- The Hartley Transform, em Wolfram Mathworld
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k Bracewell, R. - The Fourier Transform And Its Applications, 3rd. Edition, New York: McGraw-Hill, 2000, Cap. 12, pp. 293-328,ISBN 978-0-1381-4757-0
- ↑ Villasenor, J. - Optical Hartley transforms, Proc. IEEE 82 (3), 1994, pp. 391-399, disponível em http://dx.doi.org/10.1109/5.272144
- ↑ a b c A. Poularikas (org) - Handbook of Formulas and Tables for Signal Processing, Cap. 14, disponível em http://dsp-book.narod.ru/HFTSP/8579ch14.pdf, acessado em 03/10/2012



da fórmula da transformada e usar 1/2π na inversa — ou, na realidade, qualquer par de fatores de normalização cujo produto seja 1/2π (essas normalizações assimétricas são às vezes encontradas em textos de matemática pura e engenharia, inclusive na transformada de Fourier).
é totalmente removido. Bracewell (2000) é um exemplo de autor que segue essa convenção



![Z(\omega) \;=\; \{ \mathcal{H} (x \;*\; y) \} \;=\; \sqrt{\frac{\pi}{2}} \cdot \left[ X(\omega) Y_{par}(\omega) \;+\; X(-\omega) Y_{impar}(\omega) \right] \;\;\;\;\; (3a)](http://upload.wikimedia.org/math/9/2/e/92e3abbe6f44624be8ad969d35a7bcd0.png)
![Z(\omega) \;=\; \sqrt{\frac{\pi}{2}} \cdot \left[ X(\omega) Y(\omega) \right] \;\;\;\;\; (3b)](http://upload.wikimedia.org/math/4/6/1/46100a2b78798548680635af32a05691.png)









![DHT \{ f(k \;+\; 1) \;-\; f(k) \} \;=\; H(\nu) \cdot \left[ cos \left( \frac{2 \pi}{n} \; \nu \right) \;-\; 1 \right] \;-\; H(n \;-\; \nu) \cdot sin \left( \frac{2 \pi}{n} \; \nu \right)](http://upload.wikimedia.org/math/2/9/b/29bae166c57fbafcfd725e85b4ec7ed0.png)
![\sum_{k \;= 0}^{n \;-\; 1} [f(k)]^2 \;=\; n \cdot H(\nu) \cdot \sum_{k \;= 0}^{n \;-\; 1} [H(\nu)]^2](http://upload.wikimedia.org/math/0/a/6/0a6c2d2766f2d13280e3aebaf2fd0744.png)

