Transformada de Hilbert
Em matemática, a transformada de Hilbert é uma transformada integral que mapeia uma função f(x) em uma outra, û(x) (portanto, no mesmo domínionota 1 nota 2 )1 2 .
Ela recebeu esse nome em homenagem ao matemático inglês David Hilbert, que, em 1905, estudou uma transformação similar com vistas a estudar o Problema de Riemann-Hilbert sobre o círculo. Pesquisas posteriores fixaram a forma da transformação como hoje é usada, mostraram sua utilidade em campos diferentes de aplicação, como a análise harmónica2 , o processamento digital de sinais3 , a óptica1 , a sismologia1 e a física quântica3 , e introduziram variações, como a Transformada Discreta de Hilbert, a Transformada de Hilbert Bilinear e a Transformada de Hilbert Trilinear.
A utilidade da transformada de Hilbert advém do fato de a função g(x) = f(x) + i·û(x) (onde i é unidade imaginária) ser sempre uma função analítica (também chamada de função holomorfa ou função regular), ou seja, uma função que é diferenciável em todo o seu domínio. Em outras palavras, em toda função holomorfa, a parte imaginária é a transformada de Hilbert da parte real1 nota 3 . Assim, a transformação de Hilbert é uma maneira prática de se obter a conjugada de uma função real qualquer f(x). Daí decorrem diversas aplicações práticas:
- Para obter-se uma representação analítica de uma função. Em diversas aplicações, é mais fácil trabalhar com a função complexa g(x), por ser analítica, do que com a função real f(x)1 .
- Como uma maneira de generalizar o conceito de fasor em aplicações onde se lida com sinais de frequências variáveis no tempo. Neste caso, diferentemente da transformada de Fourier e outras relacionadas, representa-se o sinal não como uma soma dos seus componentes senoidais, e sim como um produto de duas funções, uma de alta e outra de baixa frequência4 .
- Como uma ferramenta para demodular um sinal, obtendo o seu envelope (ou envoltória)5 .
Este verbete trata principalmente da transformada "contínua" de Hilbert, isto é, a transformada de funções definidas em um espaço euclideano. A transformação pode ser aplicada também em espaços discretos e espaços contínuos não-euclideanos, como um toroide3 (ver Extensões em outros espaços, mais abaixo).
Índice |
Definição [editar]
A transformada de Hilbert de uma função f(x) é definida por:

Convenções [editar]
Como também acontece com outras transformadas, o sinal da integral na definição é matéria de convenção e pode ser invertido sem mudança nas propriedades essenciais da Transformada de Hilbert. Tal inversão se encontra frequentemente na literatura.
Também é frequente expressar a variável independente na transformada como y, em lugar de x, para deixar mais clara a relação entre as funções û(y) e f(x). Tal convenção não foi usada aqui.
Neste verbete, como se verifica em toda a literatura, x é sempre uma variável real. Portanto, f(x) e û(x) são sempre funções reais. s e z denotam variáveis complexas. k (minúscula), l, m e n são constantes reais inteiras. a e b são constantes complexas. K (maiúscula), p e q são constantes reais. t e ω são variáveis reais, denotando sempre as grandezas físicas tempo e frequência angular. Evitou-se referenciar a grandeza física frequência linear, de forma a evitarem-se ambiguidades; quando necessário, usa-se a expressão
.
Cálculo e condições de existência [editar]
O cálculo da integral contida na definição apresenta dificuldades, não só porque se trata de uma integral imprópria com limites infinitos, mas principalmente porque o integrando assume valores infinitos dentro do intervalo de integração (o que se chama uma singularidade). Para contornar essas dificuldades, divide-se a integral em duas partes de modo a obter-se a formulação alternativa

efetivamente excluindo-se do cálculo um intervalo simétrico de comprimento 2ε em torno da singularidade. Essa forma é chamada de valor principal de Cauchy da integral, por isso é comum, em textos mais formais, encontrar a definição da Transformada de Hilbert escrita assim:

As expressões (2) e (3) são rigorosamente equivalentes. Neste verbete, usamos (1), por brevidade.
Substituindo-se variáveis (v = x + u, w = x - u), obtêm-se outras formulações alternativas:


Para que a integral em (2) convirja, a função f(x) precisa atender a certas condições. Titchmarsh demonstrou que as funções no Espaço Lp com 1<p<∞ possuem transformadas de Hilbert, bem como algumas no L16 .
Sabe-se também que a chamada condição de Paley-Wiener é necessária e suficiente para que a transformada exista. 3 .
A maioria das funçõesnota 4 de interesse em engenharia incluem-se nessa categoria. A tabela abaixo lista algumas dessas funções e suas respectivas transformadas.
Tabela de transformadas de Hilbert [editar]
Para detalhes, ver também Anexo:Derivação de algumas transformadas de Hilbert.
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onde:
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Transformada inversanota 5 [editar]
A transformada de Hilbert tem a propriedade conveniente de ser o negativo de sua própria inversa (o que se chama uma anti-involução):

Isso é uma consequência do fato de a aplicação da transformação duas vezes sucessivas resultar no negativo da função original

Uma consequência interessante é que a aplicação da transformação três vezes sucessivas resulta na transformada inversa

e assim por diante. Essas propriedades ficam mais claras se expressas através de operadores:
Convolução [editar]
Por inspeção direta da expressão (1), percebe-se que a função û(x) é a convolução da função f(x) com a função
. Essa função é chamada núcleo de Hilbert, e será denotada neste verbete como h(x). Assim, uma outra expressão para a definição da Transformada de Hilbert é a seguinte:

Propriedades elementares [editar]
Linearidade [editar]
Da expressão (1), segue-se imediatamente que a transformada de Hilbert é um operador linear. Assim, podemos escrever

Dilatação e deslocamento do eixo [editar]
Da expressão (1), segue-se imediatamente que

onde sgn(a) é a chamada função sinal de a, e

Convolução [editar]
Da expressão (1), também se segue que

Comutatividade com relação à diferenciação [editar]
Da expressão (5), aplicando-se a fórmula de Leibniz para a derivação de uma integral, segue-se que


Invariância [editar]
O operador
apresenta propriedades de invariância quando combinado com outros operadores; por exemplo, o operador da transformação de Fourier,
:

Essa propriedade deriva do fato de a transformada de Hilbert da função impulso unitário ser igual ao núcleo de Hilbert h(x).
Interpretações físicas [editar]
Interpretação no domínio do tempo [editar]
Se, na expressão (6a), a variável independente for o tempo, a interpretação imediata é que a função û(t) é a resposta de um dispositivo a um sinal de entrada descrito por f(t). A função h(t) seria, nesse caso, a resposta desse dispositivo a um impulso unitário na sua entrada; tal resposta caracterizaria o dispositivo como um filtro linear invariante no tempo. Esse dispositivo é chamado filtro de Hilbert ou transformador de Hilbert2 .
Interpretação no domínio da frequência [editar]
Se denotarmos a transformada de Fouriernota 6 de uma função f(x) por
, a sua aplicação ao núcleo de Hilbert h(x) dará

Podemos calcular, a partir das expressões (6a) e (7), a transformada de Fourier de uma função û(x) qualquer, que denotaremos por 



Podemos interpretar (8) no domínio da frequência, da seguinte maneira: a aplicação da transformada de Hilbert a uma função f(t) faz com que suas componentes harmônicas negativas sejam multiplicadas por -i, o que equivale a um deslocamento de
na sua fase, que suas componentes harmônicas positivas sejam multiplicadas por i, o que equivale a um deslocamento de fase de
, e que a componente contínua (ω=0) seja eliminada. A partir dessa propriedade, vê-se claramente por que a aplicação dessa filtragem duas vezes sucessivas resulta exatamente na inversão do sinal original: todas as componentes são multiplicadas por i2 = -12 1 .
Em análise de sinais, como a transformação de Hilbert apenas muda a fase de um sinal de entrada f(t) (nos casos práticos, t sempre é maior que 0), a densidade de energia espectral do sinal de saída û(t), que é dada por |û(t)|, é a mesma daquela do sinal de entrada, que é dada por |f(t)| ou
, de acordo com Lord Rayleigh (ver também o Teorema de Parseval e o Teorema de Plancherel, que são generalizações posteriores do teorema original de Rayleigh)2 4 .
Da expressão (8), segue que, se o sinal f(t) e sua transformada û(t) forem expressos pelas correspondentes séries de Fourier, os componentes bk de uma serão iguais aos componentes ak da outra, a menos do sinal, para todo k > 0. Uma maneira informal de enunciar isso é dizer que a transformação de Hilbert troca os senos pelos cossenos na representação no domínio da frequência.
Uma consequência prática da expressão (8) é que a transformada de Hilbert de um sinal f(t) pode ser computada através da transformada de Fourier deste (ver Cálculo por métodos numéricos.
Causalidade [editar]
Diz-se que um filtro é causal quando sua saída num tempo tk não depende de nenhum valor de t > k. Acredita-se que todos os sistemas físicos possuam essa propriedade. Assim, um filtro, para ser construído fisicamente, precisa ser causalnota 7
Uma propriedade que se segue diretamente da definição acima é que a resposta desse filtro ao impulso é nula para t < 0. Pode-se também demonstrar que, se f(t) for a resposta de um filtro qualquer no domínio do tempo, seu espectro G(ω) não conterá componentes com frequências negativas (ω<0).
Com respeito à causalidade, a transformação de Hilbert possui as seguintes propriedades:
- Como a resposta do fitro de Hilbert ao impulso não é nula para t < 0, ele não é um filtro causal.
- Demonstra-se que, se a transformada de Hilbert da resposta em frequência de um filtro existir, isso é condição necessária e suficiente para que tal filtro seja um filtro causal5 .
Outras propriedades importantes [editar]
Conjugado harmônico [editar]
Se denotarmos o valor da transformada de Fourier para um dado valor de x=x1 como

então, de (8), temos que

Vemos, de (9), que transformação de Hilbert efetua a troca entre as partes real e imaginária de uma função complexa. Essa propriedade é útil porque permite seu uso para encontrar as componentes conjugadas de uma dada função f(x)2 (ver o item Funções conjugadas neste verbete).
Simetria e ortogonalidade [editar]
Em aplicações físicas, em geral f(x) é uma função real, e, como consequência, o mesmo acontece com û(x). Como a transformada de Fourier exibe simetria hermitiana para valores reais, ou seja,

isso se verificar também para
. Assim, se û(x) for uma função par, û(-x)=û(x), e a condição
implica em
, o que só é possível se
for uma função real. Inversamente, se û(x) for uma função ímpar, û(-x)=-û(x), e a condição
implica em
, o que só é possível se
for uma função de valores puramente imaginários.
Além disso, a expressão (8) mostra diretamente que, se
for uma função real, G(ω) será uma função puramente imaginária e que, se
for uma função puramente imaginária, G(ω) será uma função real. Mas a simetria hermitiana da transformada de Fourier obriga f(x) a ser uma função par no primeiro caso, e ímpar no segundo. O resultado é que, quando û(x) for uma função par, f(x) será uma função ímpar; quando û(x) for uma função ímpar, f(x) será uma função par.
A partir dessas propriedades de, pode-se provar facilmente que as funções f(x) e û(x) são ortogonais, pois

uma vez que o integrando será sempre uma função ímpar.
Transformada de um produto de funções [editar]
Se a função f(x) for o produto de duas funções f1(x) e f2(x), então G(ω)=G1(ω)*G2(ω) (pelo teorema da convolução). Podemos escrever G2(ω)=G2(ω)·(u1(ω) + u1(-ω)), por exemplo, onde u1(x) é a função degrau unitário ((u1(x) + u1(-x) = 1). Assim, G(ω)=G1(ω)*[G2(ω)·u1(ω) + G2(ω)·u1(-ω)]=G1(ω)*G2(ω)·u1(ω) + G1(ω)*G2(ω)·u1(-ω)]. Evidentemente, o primeiro termo é nulo para ω<0, e o segundo termo é nulo para ω>0. Daí, segue-se que
![\hat G(x) \;=\; \left[ G_1(\omega)*G_2(\omega) \cdot u_1(\omega) \;+\; G_1(\omega)*G_2(\omega) \cdot u_1(-\omega) \right] \cdot ( i \cdot sgn(\omega))](http://upload.wikimedia.org/math/e/1/5/e152fa2aec9123ff5a8a79ffc334532a.png)

Desenvolvendo a expressão, temos
![\hat G(x) \;=\; G_1(\omega)*\left[ iG_2(\omega) \cdot u_1(\omega) \;-\; iG_2(\omega) \cdot u_1(-\omega) \right] \;=\; G_1(\omega)*\left[ i \cdot G_2(\omega) \cdot \left( u_1(\omega) \;-\; u_1(-\omega) \right) \right]](http://upload.wikimedia.org/math/a/c/4/ac4bb4d54b2affba11108a68b48e8671.png)
![\hat G(x) \;=\; G_1(\omega)*\left[ i \cdot G_2(\omega) \cdot sgn(\omega)\right] \;=\; G_1(\omega) * \hat G_2 (\omega)](http://upload.wikimedia.org/math/c/1/f/c1f7148d471a3443fe3884ce05e920ca.png)
Podemos, então, escrever

Assim, as funções
e
possuem a mesma transformada de Fourier. Devido à propriedade de linearidade desta, podemos dizer que essas funções são idênticas, a menos da adição de uma função f0(x) cuja transformada de Fourier fosse nula. De acordo com o Teorema de Lerch, uma função com essa propriedade teria que ser uma função nula8 , portanto podemos desprezá-la em aplicações práticas e escrever:

A expressão (10a) é conhecida como identidade de Bedrosian9 . O problema de quais são as condições que as funções f1(x) e f2(x) precisam atender para que a transformada de Hilbert de f(x) exista ainda está em aberto, mas a restrição mais usada (ou seja, a menos estrita) é que existam valores x1 e x2 tais que f1(x)=0 para todo x>x1, que f2(x)=0 para todo x>x2, e que x2>x1nota 8 10 11 . Uma condição mais estrita, mas mais simples, é que f1 e f sejam funções analíticas.
De acordo com essa expressão, quando precisarmos computar a transformada de Hilbert de um produto de duas funções, só será preciso calcular a transformada da função de alta frequência e multiplicá-la pela outra.
Outra consequência da expressão (10a) é que o produto dessas duas funções pode ser expresso como

Representações alternativas para a função f(x) [editar]
Filtros passa-baixas e passa-altas [editar]
Uma função qualquer f(x) pode ser expressa em função de duas componentes fL(x) e fH(x) com o auxílio da função seno cardinal:

com

e, evidentemente,
![f_H(x) \;=\; f(x) \;-\; f_L(x) \;=\; f(x) \;-\; \left[ f(x) \; * \; \frac{sin(2 \pi f_c x)}{\pi x} \right] \;=\; f(x) \; * \; \left[ \delta(x) \;-\; \frac{sin(2 \pi f_c x)}{\pi x} \right] \;\;\;\;\;(11c)](http://upload.wikimedia.org/math/3/6/3/3634b014211b9ada3e792bbd5b5be456.png)
onde δ(x) é a função impulso unitário. A idéia é que fL(x) contenha todas as componentes de frequências baixas (ω<2πfc) do sinal, e fH(x) contenha as componentes de frequências altas (ω>2πfc). Para verificar que isso realmente acontece, basta calcular as transformadas de Fourier

onde rect(x) é a função retangular:
![\mathrm{rect}(2f_c) = \sqcap(2f_c) = \begin{cases} 0 & \mbox{if } |x| > f_c \\[3pt] \frac{1}{2} & \mbox{if } |x| = f_c \\[3pt] 1 & \mbox{if } |x| < f_c \end{cases}](http://upload.wikimedia.org/math/a/c/6/ac6eaa1326ad65b78f212f79ee50bb33.png)
De maneira similar,
![G_H(\omega) \;=\; \mathcal{F} \{ f_H(x) \} \;=\; \mathcal{F} \{ f(x) \; * \; \left[ \delta(x) \;-\; \frac{sin(2 \pi f_c x)}{\pi x} \right] \} \;=\; G(\omega) \cdot \left[ 1 \;-\; \mathrm{rect}(2f_c) \right]](http://upload.wikimedia.org/math/1/0/e/10e5d5faeb4152903879403571c6f72b.png)
A função sinc(x), portanto, funciona como um filtro passa-baixas ideal.
Funções conjugadas [editar]
Uma função qualquer f(x) pode ser expressa de forma alternativa em função de duas componentes conjugadas f1(x) e f2(x):

com


É fácil ver que a expressão (12a) é válida para qualquer g(x). No entanto, se fizermos g(x) = û(x), o espectro de frequências de f1(x) e f2(x) terá características muito interessantes, pois


Similarmente, teremos

O exame das expressões (12d) e (12e) revela que, nessa decomposição, uma das funções é composta por todas as componentes com frequências positivas de f(x), e a outra, por todas as componentes com frequências negativas. Por isso, essas funções são frequentemente notadas como f+(x) e f-(x).
Cálculo por métodos numéricos [editar]
O cálculo da transformada de Hilbert através da integração direta, a partir de alguma das suas fórmulas de definição, funciona bem para funções que não apresentem descontinuidades e que decresçam rapidamente com o aumento do valor de x. Para outros casos, devem-se empregar artifícios; um deles é usar polinômios de Hermite para calcular as integrais. Em todos os casos, como a distribuição de energia das funções f(x) e û(x) é a mesma (como mostrado aqui), o valor da energia de f(x) e de û(x), em cada frequência, pode ser calculado e comparado, de forma a obter-se uma estimativa da qualidade da aproximação resultante do método de cálculo escolhido4 .
Da expressão (8), segue que a transformada de Hilbert de um sinal f(t) pode ser computada através da transformada de Fourier deste, da seguinte maneira4 :
- Em primeiro lugar, expressa-se f(t) na forma de uma série de Fourier.
- Depois, trocam-se os coeficientes dos componentes em senos pelos coeficientes em cossenos e vice-versa (isso equivale a aplicar os desvios de fase de
e
onde necessário); a componente DC deve ser desprezada.
Outro método que pode ser usado é o seguinte:
- Em primeiro lugar, calcula-se a transformada de Fourier de f(t) (por exemplo, por meio da Transformada Rápida de Fourier.
- Depois, multiplicam-se os coeficientes dos componentes de frequências negativas por -1, deixando-se os demais inalterados; a componente DC deve ser desprezada.
- Calcula-se a transformada inversa de Fourier do resultado.
Isso é possível devido à propriedade de invariância com relação ao operador da transformação de Fourier.
Pode-se também usar um método similar para calcular û(t) a partir da Transformada de Hartley, conforme se vê em Bracewell (2000)1 .
Aplicações [editar]
Modulação [editar]
A forma geral de uma onda modulada em amplitude (AM) é
![s(t) \;=\; A_c \left[ 1 \;+\; K_a m(t) \right] \cdot cos(2 \pi f_c t \;+\; \theta) \;\;\;\;\;(13a)](http://upload.wikimedia.org/math/6/8/6/686ef2733eb582b5c246830c7e9f61db.png)
Um inconveniente da modulação em amplitude é que o espectro de s(t) é simétrico em relação à frequência da portadora. Isso implica que o sinal contém informação redundante, que ocupa banda passante e gasta energia dos transmissores desnecessariamente. Por isso, em lugar da forma padrão, também chamada de DSB-FC (bandas laterais duplas com portadora, ing. double side banded - full carrier), é vantajoso adotar a forma SSB (banda lateral simples, ing. single side banded).
Teoricamente, poder-se-ia eliminar a banda lateral por meio de um filtro convencional. No entanto, tal filtro teria que ter um fator de qualidade muito grande, com largura de banda estreita e atenuação elevada, o que torna difícil construí-lo a partir de um circuito eletrônico convencional. Uma alternativa é usar um filtro de Hilbert.
De acordo com as expressões (10) e (11), podemos escrever, considerando f(t) = Ac [1 + Kam(t)] (o sinal modulador), e assumindo que, em aplicações práticas, as frequências nele presentes são sempre muito menores que fc:

Em primeiro lugar, expressa-se o sinal s(t) em função de duas componentes de frequências altas e baixas sU(t) e sL(t), ambas derivadas de f(t) e sua transformada, û(t):

sendo


Desenvolvendo sU(t), teremos
![s_U(t) \;=\; \frac{1}{2} \left[ f(t) \cdot \frac{1}{2} \left( e^{i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \;+\; e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right) \;-\; \hat u(t) \cdot \frac{-i}{2} \left( e^{i ( 2 \pi f_c t \;-\; \theta)} \;-\; e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right)\right]](http://upload.wikimedia.org/math/0/8/3/083806acbdd2e2633af9e02f9e143681.png)
![s_U(t) \;=\; \frac{1}{2} \left[ \frac{1}{2} \left( f(t) \;+\; i \hat u(t) \right) \cdot e^{i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \;+\; \frac{1}{2} \left( f(t) \;-\; i \hat u(t) \right) \cdot e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right]](http://upload.wikimedia.org/math/6/6/1/661aa50ef52bd0fa3ac170d4567f75f5.png)
De forma similar,
![s_L(t) \;=\; \frac{1}{2} \left[ \frac{1}{2} \left( f(t) \;+\; i \hat u(t) \right) \cdot e^{i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \;-\; \frac{1}{2} \left( f(t) \;-\; i \hat u(t) \right) \cdot e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right]](http://upload.wikimedia.org/math/b/a/9/ba99940011ae365b26761747e5efa7b9.png)
Por inspeção das expressões (12a) a (12c), podemos escrever
![s_U(t) \;=\; \frac{1}{2} \left[ s_+(t) \cdot e^{i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \;+\; s_-(t) \cdot e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right] \;\;\;\;\;(13f)](http://upload.wikimedia.org/math/5/6/9/56900cf3088097b2ac5c8a30968aaf5a.png)
![s_L(t) \;=\; \frac{1}{2} \left[ s_+(t) \cdot e^{i ( 2 \pi f_c t \;-\; \theta)} \;+\; s_-(t) \cdot e^{-i ( 2 \pi f_c t \;+\; \theta)} \right] \;\;\;\;\;(13g)](http://upload.wikimedia.org/math/8/8/3/883636e5ab2a0bedfe717e264d7ae90b.png)
De acordo com as propriedades da transformada de Fourier, a multiplicação pelo fator eiῳt equivale a um deslocamento na frequência igual a ῳ. Nesse contexto, a comparação com as expressões (12d) e (12e) mostram que o espectro de sU(t) possui apenas frequências com valores de (f - fc) positivos, ou seja, f > fc. O inverso vale para sL.
Demodulação [editar]
A transformada de Hilbert pode ser usada para analisar um sinal s(t) que consiste de um produto de duas funções f(t) e g(t). Em aplicações práticas, uma delas é frequentemente uma oscilação de alta frequência e a outra é um sinal que contém informação útil e que se deseja destacar para análise. Nesse contexto, a primeira função é chamada de portadora e a outra, de função moduladora ou sinal modulante. Aqui suporemos que g(t) é a portadora e f(t), o sinal modulante.
Pode-se obter f(t) a partir de s(t) através da transformada de Hilbert, por meio da expressão:

Essa operação é chamada de demodulação. Evidentemente, constitui o inverso da modulação, que consite em obter s(t) a partir de f(t).
Em engenharia, também se usa o termo sinal analítico forte para designar uma função analítica (ou holomorfa ou regular). Tal sinal pode ser escrito na forma geral s(t) = A(t)·eφ(t), que representa um vetor de amplitude instantânea A e direção instantânea dada pelo ângulo de fase φ, ambos variando com o tempo. Essa representação é útil em diversas aplicações práticasnota 9 . |A(t)|, que é chamado de envelope ou envoltória da modulação, é sempre positivo, o que permite a plotagem de A(t) em escala logarítmica. Evidentemente, |A(t)| = |f(t)|·|g(t)|. Muitas vezes, é desnecessário obter f(t), sendo suficiente conhecer qual é o envelope porque, como |g(t)| em geral é conhecido, fica fácil a partir dele calcular |f(t)|.
O espectro de frequências de um sinal analítico forte só contém frequências positivas. A frequência instantânea pode ser calculada como

Em casos onde uma análise mais profunda de A(t) se faz necessária, aplica-se a transformada de Fourier. Por exemplo, quando A(t) é uma função exponencial com mais de uma constante de amortecimento. Para um exemplo, ver Thrane e outros12 .
Fasor no domínio da frequência [editar]
Podemos escrever o espectro de frequências de um sinal na forma polar G(ω) = A(ω)·eφ(ω), de maneira similar ao que se fez no item anterior com a representação no domínio do tempo. Se a correspondente função de transferência no domínio da frequência complexa for dada por

onde K é uma constante, a1, a2 ... an são os zeros e b1, b2 ... bm são os polos de F(s), pode-se escrevê-la também na forma

onde Fa consiste da constante K e dos zeros e polos cuja parte real é negativa, e Fφ consiste dos demais. Nesse caso, cada polo de Fφ deve ser o conjugado de um dos zeros, ou seja,

A amplitude de Fφ = 1, e esses polos e zeros influenciam apenas a fase de F(s). Fa é frequentemente chamada de componente de mínima fase de F(s). Pode-se demonstrar que, se escrevermos Fa(ω) na forma polar Fa(ω) = Aa(ω)·eφa(ω), então
![\mathcal{H} \{ \phi_a(\omega) \} \;=\; ln \left[ A_a(\omega) \right] \;\;\;\;\; (15)](http://upload.wikimedia.org/math/b/c/a/bcaab2359167aa2a310130b665e57583.png)
Extensões em outros espaços [editar]
Transformada Discreta de Hilbert [editar]
Essa transformação aplica-se a funções definidas num espaço discreto como, por exemplo, o conjunto dos números inteiros. Para estender a Transformada de Hilbert dessa maneira, parte-se da Transformada Discreta de Fourier, que é justamente a extensão da Transformada de Fourier para espaços discretos.
Uma transformada integral num espaço discreto consiste numa sequência finita de coeficientes p0, p1, p2, ... pn-1 para os quais existe uma fórmula de cálculo bem definida. No caso presente, chamaremos a essa sequência DHT (do inglês Discrete Hilbert Transform). Também deve existir uma sequência análoga para a transformada inversa. Chamaremos a essa sequência DHT-1. n é o tamanho da amostra.
A transformação é aplicada a uma sequência de valores q0, q1, q2, ... qn-1, que chamaremos aqui de Q. Q, DHT e DFT (do inglês Discrete Hilbert Transform) precisam ter o mesmo tamanho da amostra.
Pode-se calcular os coeficientes da DHT de uma das maneiras seguintes :

ou

onde H é outra sequência, que corresponde ao núcleo de Hilbert em forma discreta, e H-1, sua inversa

![H^{-1} (k) \;=\; \left\{ \begin{matrix} -\; \frac{2}{n} \cdot sin^2 \left( \frac{\pi}{2} \; k \right) \cdot cot \left( \frac{\pi}{n} \; k \right) & : & n \; par \;\and\; k \;>\; 0 \\ - \; \frac{1}{n} \cdot \left[ cot \left( \frac{\pi}{n} \; k \right) \;-\; \frac{cos (\pi k)}{sin \left( \frac{\pi k}{n} \right)} \right] & : & n \; impar \;\and\; k \;>\; 0 \\ 0 & : & k \;=\; 0 . \end{matrix} \right. \;\;\;\; (16d)](http://upload.wikimedia.org/math/4/c/c/4cc4ded2546e4c8ccdc5ed951f57aba8.png)
Para a transformação inversa, usamos

ou

As expressões (16a) e (16b) são versões discretas das expressões (5) e (6b). As expressões (16b) e (17b) são convoluções discretas, isto é, convoluções num domínio discreto; nessas expressões, H(k-j) e H-1(k-j) são matrizes n x n, pois os elementos dependem de k e de j. As expressões (16a) e (17a) são mais usadas na prática, pois DFT e DFT-1 podem ser calculadas de forma muito eficiente através do algoritmo da Transformada Rápida de Fourier4 3 .
A tabela abaixo confronta os conceitos envolvidos nas transformações de Hilbert nos domínios contínuo e discreto, para ilustrar as definições acima.
| Conceito | Contínuo | Discreto |
|---|---|---|
| Domínio | ![]() |
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| Variável | ![]() |
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| Função original | ![]() |
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| Função transformada | ![]() |
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| Espectro de frequências | ![]() |
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| Faixa | ![]() |
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| Núcleo da transformação | ![]() |
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A amostragem deve ser feita em intervalos de tempo iguais; chamaremos aqui de ta a esse intervalo de amostragem. A teoria exige que a frequência da amostragem seja feita com uma frequência de pelo menos o dobro da maior frequência presente no sinal de entrada. Em outras palavras, se denotarmos tal frequência por fmax, é preciso que4

Para um número de amostras muito grande, pode-se usar a expressão simplificada

que se obtém tomando o limite n → ∞ na expressão (16d). Essa aproximação não funciona bem para valores pequenos de n, porque a convergência do cálculo através da expressão (16b) não é uniforme3 .
No anexo, encontram-se exemplos de derivação de algumas DHTs.
Notas [editar]
- ↑ Em aplicações de física e engenharia, o termo domínio nessa frase refere-se em geral ao domínio do tempo ou ao domínio da frequência. Em aplicações de matemática, o termo refere-se a algum espaço vetorial, como o conjunto dos números reais, por exemplo.
- ↑ O mapeamento de um domínio para si mesmo recebe o nome de endomorfismo.
- ↑ Diz-se, neste caso, que as funções f(x) e g(x) estão em quadratura.
- ↑ Embora neste verbete se use o termo geral função, tenha-se em mente que, em muitos casos, trata-se de distribuições, ou seja, de funções generalizadas. Um exemplo de distribuição é a conhecidíssima δ(x), a "função" impulso unitário ou delta de Dirac.
- ↑ Thrane (1984) menciona que essa transformada também é conhecida como Transformada de "Berthil" (ing. "Berthil" Transform), mas isso não é confirmado por nenhuma outra fonte consultada.
- ↑ Várias convenções coexistem na literatura para definição da Transformada de Fourier. No entanto, na literatura que trata da Transformada de Hilbert parece existir uma unanimidade em usar a forma conhecida como angular assimétrica, que é a mesma empregada no verbete da Wikipédia em português. Em todo este verbete assume-se que está sendo usada tal forma.
- ↑ Essa condição é necessária, mas não suficiente. Um sistema fisicamente realizável precisa ter outras características, além de ser causal; por exemplo, sua banda passante precisa ser finita.
- ↑ Essa condição é chamada de teorema de Bedrosian, apesar de dever-se, na sua versão mais avançada, a Xu e Yan (2006).
- ↑ Em geral, situações em que a frequência de φ(t) é razoavelmente grande e constante.
Referências
- ↑ a b c d e f g h Bracewell, R. - The Fourier Transform And Its Applications, 3rd. Edition, New York: McGraw-Hill, 2000, pp. 359-367, ISBN 0-07303-938-1 / ISBN 978-0-0730-3938-1
- ↑ a b c d e f g Kschischang, F. R. - The Hilbert Transform, disponível em http://www.comm.utoronto.ca/frank/papers/hilbert.pdf, acessado em 06/09/2012
- ↑ a b c d e f B. Zhechev - Hilbert Transform Relations, disponível em http://www.cit.iit.bas.bg/CIT_05/v5-2/3-13.pdf, acessado em 19/09/2012
- ↑ a b c d e f Johansson, M. - The Hilbert Transform, disponível em http://w3.msi.vxu.se/exarb/mj_ex.pdf, acessado em 12/09/2012
- ↑ a b N. Thrane - The Hilbert Transform, Brüel & Kjær Technical Review no° 3, 1984, pp. 3 a 15
- ↑ Wolfram MathWorld - Titchmarsh Theorem, http://mathworld.wolfram.com/TitchmarshTheorem.html
- ↑ Wolfram MathWorld - Hilbert Transform, http://mathworld.wolfram.com/HilbertTransform.html
- ↑ Bracewell, R. - op. cit., cap. 5, pp. 74-104
- ↑ Bedrosian, E. - A Product Theorem for Hilbert Transforms, disponível em http://www.rand.org/pubs/research_memoranda/2008/RM3439.pdf, acessado em 09/09/2012
- ↑ Venouziou, M. e Zhang H. - Characterizing the Hilbert Transform by the Bedrosian Theorem, disponível em http://home3.sysu.edu.cn/jskx/haizhang/papers/Characterization.pdf, acessado em 08/09/2012
- ↑ Xu Y., Yan D. - The Bedrosian Identity for the Hilbert Transform of Product Functions, disponível em http://www.ams.org/proc/2006-134-09/S0002-9939-06-08315-8/S0002-9939-06-08315-8.pdf, acessado em 08/09/2012
- ↑ Thrane e outros - Brüel & Kjær Application Note: Practical use of the "Hilbert Transform", disponível em http://www.bksv.com/doc/bo0437.pdf, acessado em 06/09/2012



































(ing. "cosine and sine") é o núcleo da
é a função
é a
é a
é a
é a 














