Tratado de Kadesh

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Tratado de Kadesh
Tratado egípcio-hitita
Versão hitita do tratado em exposição no Museu Arqueológico de Istambul
Tipo de tratado paz e aliança
Assinado ca. 1 259 a.C.
Signatários Egito e Império Hitita
Línguas egípcio e acádio
Texto ilustrado do tratado gravado numa parede no interior do complexo religioso de Karnak, em Luxor, Egito

O Tratado Egípcio-Hitita, usualmente designado por Tratado de Kadesh ou Tratado de Qadesh, foi um tratado de paz celebrado entre o faraó egípcio Ramsés II e o rei hitita Hatusil III ca. 1 259 a.C.,[1] [2] que marcou o fim oficial das negociações entre as duas grandes potências do Médio Oriente da altura, que se seguiram aos conflitos armados de grandes proporções que culminaram na célebre batalha de Kadesh, travada 16 anos antes. O acordo tinha como objetivo o estabelecimento de relações pacíficas entre as duas partes.

É o acordo diplomático e tratado de paz mais antigo que se conhece no Médio Oriente[3] [4] [5] e é frequentemente apontado como o mais antigo do mundo, embora isso não corresponda à realidade. Porém, é o tratado mais antigo do mundo que sobreviveu até aos nossos dias.[6] A designação muito comum de Tratado de Kadesh está relacionada com a batalha homónima, mas os historiadores modernos consideram que aquela batalha não foi o catalisador da tentativa de paz, pois as relações entre os hititas e os egípcios continuaram a ser de inimigos durante muitos anos após aquele confronto.[7]

Os termos do tratado foram escritos numa tabuleta de prata que foi oferecida a Ramsés II por diplomatas hititas e que foi perdida. O texto conhece-se pelas cópias contemporâneas existentes em paredes de templos egípcios em escrita hieroglífica e em tabuletas de barro no Império Hitita (atualmente território da Turquia). Um exemplar completo do tratado, atualmente em exposição no Museu Arqueológico de Istambul, foi descoberto em escavações arqueológicas nos grandes arquivos do palácio real da capital hitita, Hattusa.[8] Os escribas que escreveram a versão egípcia do tratado que se encontra gravada nas paredes do templo mortuário de Ramsés II em Tebas, no Egito (atual Luxor), incluíram descrições de figuras e selos que constavam da tabuleta de prata hitita.[9]

Contexto[editar | editar código-fonte]

O tratado foi assinado para pôr termo a uma longa guerra entre os hititas e os egípcios, que lutaram durante mais de dois séculos pelo domínio dos territórios do Mediterrâneo Oriental. O conflito culminou com a tentativa de invasão egípcia em 1 274 a.C., que foi travada pelos hititas na cidade de Kadesh, nas margens do rio Orontes, a pouca distância da atual cidade síria de Homs. A batalha resultou em pesadas baixas em ambos os lados, apesar de não ter resultado numa derrota ou vitória clara para qualquer dos lados, quer na batalha quer na guerra, pelo que o conflito continuou inconclusivo durante cerca de quinze anos, até que o tratado foi assinado.[10]

Apesar do nome comum de "Tratado de Kadesh", ele foi assinado muito depois da batalha e Kadesh nem sequer é mencionada no texto. Pensa-se que terá sido negociado por intermediários, sem que os dois monarcas tivessem chegado a encontrar-se pessoalmente. Ambos os lados tinham interesses comuns na paz — o Egito sofria da ameaça crescente dos "Povos do Mar", ao passo que os hititas estavam preocupados com o aumento do poder da Assíria, a leste.[10] O tratado foi ratificado no 21º ano do reinado de Ramsés II (1 258 a.C.) e continuou em vigor até ao colapso do Império Hitita 80 anos depois.[11]

Antes de Ramsés II[editar | editar código-fonte]

As relações entre os egípcios e os hititas foram oficialmente iniciadas quando os últimos substituíram o reino de Mitanni como potência governante no centro da Síria no século XIV a.C., o que criou tensões com os egípcios que se mantiveram elevadas até à conclusão do tratado quase cem anos depois.[12] Durante a invasão e subsequente derrota de Mitanni, os exércitos hititas penetraram na Síria e começaram a impor o seu domínio sobre os vassalos dos egípcios de Kadesh e Amurru. A perda desses territórios no norte da Síria nunca seria esquecida pelos faraós egípcios e as suas ações posteriores demonstraram que nunca reconheceram essa perda para o Império Hitita.[13]

As tentativas do Egito para reconquistar os territórios perdidos durante o reinado de Aquenáton, comandadas por Seti I, o pai de Ramsés II, apesar de não terem sido muito bem sucedidas, resultaram em ganhos significativos. Já como faraó, Seti I derrotou os hititas numa batalha perto de Kadesh, numa campanha naquela cidade e em Amurru. No entanto, esses ganhos foram de curta duração, pois num tratado acordado pouco tempo depois Kadesh foi devolvida aos hititas por Seti.[14] Essa breve reconquista de Seti marcaria o início duma guerra entre as duas potências que se arrastaria pelas duas décadas seguintes.[15]

Batalha de Kadesh[editar | editar código-fonte]

Representação em Abu Simbel de Ramsés II combatendo na batalha de Kadesh

O que se sabe desta batalha deriva principalmente dos relatos literários egípcios conhecidos como o Boletim ou o Registo e o Poema, além de relevos pictóricos existentes no Ramesseum (o templo funerário de Ramsés II em Tebas).[16] Infelizmente para os historiadores e outros estudiosos da batalha de Kadesh, os detalhes fornecidos por essas fontes são interpretações fortemente parciais dos eventos. Dado que Ramsés II tinha controlo total sobre os projetos de construção, estes eram usados com objetivos propagandísticos pelo faraó, que os usava para se vangloriar sobre a sua alegada vitória em Kadesh.[17]

Apesar das incertezas, sabe-se que Ramsés marchou através da Síria com quatro divisões de tropas, tendo como objetivo acabar com a presença hitita na região e restaurar a «posição proeminente que ela tinha gozado sob Tutmés III».[18] O rei hitita Muwatalli II reuniu um exército com os seus aliados para evitar a invasão do seu território. No sítio de Kadesh, Ramsés distanciou-se insensatamente do resto das suas forças e acampou junto à cidade, confiando em informações de espionagem pouco fiáveis, relativas à posição das forças hititas, fornecidas por um par de prisioneiros capturados.[19] Os exércitos hititas, escondidos atrás da cidade, lançaram um ataque surpresa contra a divisão egípcia Amun, que rapidamente se dispersou. Apesar de Ramsés ter tentado reunir as suas tropas contra a carnificina provocada pelas bigas hititas, só a chegada de reforços de tropas de Amurru permitiu repelir o ataque hitita.[17]

Apesar de os egípcios terem sobrevivido aos terríveis apuros em que se viram envolvidos em Kadesh, a batalha esteve longe de ser a esplêndida vitória apresentada por Ramsés, e o seu resultado foi um impasse no qual ambos os lados sofreram pesadas baixas.[20] Depois de uma tentativa infrutífera de ganhar mais terreno no dia seguinte, Ramsés retirou para sul, para o Baixo Egito, vangloriando-se dos seus feitos pessoais durante a batalha de Kadesh. Apesar de tecnicamente ter ganho a batalha, Ramsés acabou por perder a guerra quando Muwatalli e o seu exército reconquistaram Amurru e ampliaram a zona tampão com o Egito em direção ao sul.[21]

Representação e descrição do Dapur numa parede do Ramesseum

Campanhas subsequentes de Ramsés II na Síria[editar | editar código-fonte]

Não obstante as derrotas sofridas durante a sua campanha de invasão da Síria, três anos depois, no quinto ano do seu reinado, Ramsés lançou outra campanha, desta vez com grande sucesso. Em vez de atacar a posição fortemente fortificada de Kadesh ou passar por Amurru, Ramsés tomou a cidade de Dapur com o objetivo de usar a cidade como testa de ponte para futuras campanhas.[22] Depois dessa conquista, o exército egípcio voltou para o Egito e os territórios ganhos voltaram rapidamente ao controlo dos hititas.[23]

No décimo ano do seu reinado, Ramsés lançou outro ataque às possessões hititas na Síria central e, mais uma vez, os territórios conquistados durante essa campanha voltaram rapidamente às mãos dos hititas após a retirada das forças egípcias. Esta campanha levou o faraó a reconhecer a impossibilidade de manter a Síria pelas armas e, por isso, entre o 11º e 17º anos do seu reinado não houve mais ações militares de grande envergadura contra os hititas.[23] Este período é notável nas relações entre os hititas e os egípcios porque apesar das hostilidades entre as duas nações e das conquistas na Síria, Kadesh foi o último confronto militar direto oficial entre as duas potências. Alguns historiadores consideram que este período pode por isso ser considerado uma "guerra fria" entre Hatti e o Egito.[24]

Descoberta dos exemplares do tratado[editar | editar código-fonte]

A versão egípcia do tratado de paz foi preservada numa estela no templo de Amon, em Karnak e em cópias existentes nos templos de Luxor e Abidos. Jean-François Champollion copiou uma parte do texto em 1828 e publicou as suas descobertas em 1844. O texto egípcio descreve uma grande batalha contra o "Grande Rei de Khatti", então uma figura desconhecida, cuja identificação posterior com o monarca hitita Muwatalli II foi confirmada por outras provas arqueológicas.[4]

Em 1906-1908, o arquólogo alemão Hugo Winckler escavou o sítio da capital hitita, Hattusa, situada no município atual de Boğazkale (antigamente Boğazköy), na província de Çorum, no centro-norte da Turquia, em conjunto com Theodore Makridi, o segundo diretor do Museu Arqueológico de Istambul. A equipa turco-alemã descobriu as ruínas dos arquivos reais onde encontraram 10 000 tabuletas de barro documentando as atividades diplomáticas dos hititas.[25] , entre as quais se encontravam três com o texto do tratado escrito em acádio, a lingua franca desse tempo. Winckler percebeu imediatamente a importância da descoberta:[26]

[...] uma tabuleta maravilhosamente bem preservada que imediatamente prometeu ser significante. Um relance sobre ela e todas as realizações da minha vida tornaram-se insignificantes. Aqui estava — aquilo que eu poderia chamar por brincadeira um presente das fadas. Aqui estava: Ramsés escrevendo a Hattusilis acerca do seu tratado conjunto [...] a confirmação de que o famoso tratado que conhecemos da versão gravada nas paredes do templo em Karnak podiam também ser vistas do outro lado. Ramsés é identificado pelos seus títulos reais e genealogia, exatamente como no texto de Karnak do tratado; Hattusilis é descrito da mesma forma — o conteúdo é idêntico, palavra por palavra em partes da versão egípcia [e] escrito em belo cuneiforme e excelente babilónio [...] Como [aconteceu] com a história do povo de Hatti, o nome deste lugar foi completamente esquecido. Mas o povo de Hatti teve evidentemente um papel importante na evolução do mundo ocidental, e embora o nome desta cidade, e o nome do povo tivessem sido totalmente esquecidos durante tanto tempo, a sua redescoberta agora abre possibilidades que ainda não conseguimos imaginar.[26]
 
Hugo Winckler.

Duas das tabuletas estão atualmente em exposição na secção do Oriente dos Museus Arqueológicos de Istambul. A terceira está exposta nos Museus Estatais de Berlim.[8] Uma cópia do tratado está exposta em posição de destaque numa parede da Sede das Nações Unidas em Nova Iorque.

Texto[editar | editar código-fonte]

A primeira tradução da versão do tratado em acádio foi publicada em 1916 por E.F. Weidner.[4] É o único tratado antigo do Próximo Oriente do qual sobreviveram as versões de ambos os signatários, o que permite a sua comparação direta. Foi estruturado de forma a ser um tratado quase inteiramente simétrico, tratando igualitariamente ambos os lados e requerendo obrigações mútuas. Há algumas diferenças entre as duas versões — por exemplo, a versão hitita adota um preâmbulo algo evasivo, declarando que «no que se refere ao relacionamento entre a terra do Egito e a terra de Hatti, desde a eternidade que o deus não permite a realização de hostilidade entre eles devido a um tratado válido para sempre»; em contraste com a versão egípcia que afirma de forma direta que os dois estados tinham estado em guerra.[10]

O tratado proclama que no futuro ambos os lados ficariam em paz para sempre, comprometendo os filhos e netos de ambas as partes. Não cometeriam atos de agressão entre eles, repatriariam os refugiados políticos e criminosos e apoiar-se-iam mutuamente na supressão de rebeliões. Cada uma das partes acorreria em auxílio da outra em caso de ameaça externa: « E se outro inimigo viesse [contra] a terra de Hatti [...] o grande rei do Egito enviará as suas tropas e as suas bigas e chacinará o seu inimigo e restaurará confiança na terra de Hatti.»[10]

O texto acaba com um juramento solene perante «mil deuses, deuses masculinos e deuses femininos» das terras do Egito e de Hatti, testemunhado pelas «montanhas e rios das terras do Egito, o céu; a terra; o grande mar; os ventos; as nuvens.» Se o tratado fosse violado, aquele que quebrasse juramento seria amaldiçoado pelos deuses que «destruirão a sua casa, a sua terra e os seus servos.» De forma recíproca, aquele que mantivesse os seus votos seria recompensado pelos deuses, que «que o tornarão saudável e o farão viver.»[10]

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

O tratado é considerado um dos tratado de paz entre duas grandes potências mais importantes do antigo Próximo Oriente porque o seu texto exato é conhecido.[27] Dividido em secções, ambas as partes fazem promessas de fraternidade e paz uma à outra em termos dos objetivos. Pode ser visto como um compromisso de paz e aliança, pois ambas as potências dão garantias mútuas de que nenhuma delas invadirá os territórios da outra. Esta provisão assegura que ambas as partes atuarão em harmonia em relação às possessões disputadas na Síria e estabelece de modo efetivo os limites para as pretensões conflituantes.[28]

Uma segunda cláusula promove a aliança ao prever garantias de ajuda, muito provavelmente apoio militar, no caso de alguma das partes ser atacada por uma terceira potência ou por forças internas rebeldes ou insurgentes.[29] Os outros pontos coincidem com os objetivos de Hattusilis, que passavam pela ênfase posta pelo monarca hitita em solidificar a legitimidade do seu governo: cada um dos países comprometia-se a extraditar de volta para o país de origem todos os fugitivos políticos. Na versão hitita do tratado, Ramsés II concorda em apoiar a manutenção no trono hitita dos sucessores de Hattusilis, contra quaisquer dissidentes.[29] [30] No final da parte sobre a extradição de emigrantes para a sua terra de origem, os dois governantes evocam os respetivos deuses de Hatti e do Egito para que sejam testemunhas do seu acordo. A inclusão de deuses é uma característica comum em peças mais importantes de direito internacional, pois só um apelo direto aos deuses poderia garantir os meios adequados para assegurar o cumprimento do tratado. Os deuses não se limitavam a ser meras testemunhas, pois a sua capacidade para garantir a observância do tratado era reforçada pela sua capacidade notável para lançar maldições sobre quem violasse o tratado ou para bendizer os cumpridores.[31]

Análise e teorias acerca do tratado[editar | editar código-fonte]

Tanto os egiptólogos do passado como os do presente têm debatido qual será a melhor designação do tratado, interpretando-o alguns como um tratado de paz, enquanto outros o encaram como um tratado de aliança entre dois estados hostis.

James Henry Breasted, em 1906, foi uma das primeiras pessoas a compilar documentos históricos do Antigo Egito numa antologia e entendeu o tratado como sendo «não apenas um tratado de aliança, mas também um tratado de paz, e a guerra [as campanhas sírias de Ramsés] continuou evidentemente até que as negociações para o tratado começaram.» Para Breasted os períodos intermédios de conflito foram resolvidos diretamente pela assinatura do tratado e consequentemente este era simultaneamente de aliança e de paz.[32]

Ramsés II atacando os hititas em Dapur

Entretanto, egiptologistas mais recentes e outros académicos começaram a questionar se o tratado seria mesmo de paz, um debate que foi iniciado cerca de 20 anos depois de Breasted ter publicado as suas conclusões. Alan Gardiner e S. Langdon examinaram as interpretações anteriores e concluíram que os seus predecessores tinha interpretado mal a linha "pedir paz" no texto. Este lapso na linguagem levou os egiptólogos a verem o tratado como o fim de uma guerra e não como algo motivado pela procura de benefícios mútuos que uma aliança entre o Egito e Hatti traria a ambos os estados.[33] Trevor Bryce vai mais longe e argumenta que na Idade do Bronze os tratados eram estabelecidos «por razões de conveniência e interesse próprio [..] a preocupação era muito mais o estabelecimento de alianças estratégicas do que a paz em si mesma.»[34]

Outro tema de especulação entre os estudiosos é qual dos dois países teria tomado a iniciativa de tentar iniciar as negociações. Como mencionado antes, Ramsés II tinha perdido parte dos seus territórios na Síria quando retirou para o Egito após a batalha de Kadesh. Nesse sentido, Hattušiliš teria estado em vantagem nas negociações tendo em conta os desejos de Ramsés de igualar os sucessos militares de Tutmés III. Até aos anos 1920, os egiptologistas interpretavam a instabilidade do domínio egípcio sobre os territórios que reclamava na Síria como um sinal de que Ramsés se teria aproximado de Hattušiliš para solicitar uma solução para o problema da Síria. Donald Magnetti argumenta que o dever do faraó de manter a atividade em vida em linha com a ordem divina através da manutenção do maat poderia ser uma razão suficiente para Ramsés procurar alcançar a paz.[35] No entanto, esta hipótese é contestada porque as questões relacionadas com a legitimidade de Hattušiliš como monarca requeriam o seu reconhecimento pelos outros reis do Próximo Oriente. A debilidade da posição do reinado de Hattušiliš, tanto internamente como externamente, sugere que foi o líder hitita que procurou fazer a paz.[36] Trevor Bryce interpreta as primeiras linhas do tratado — «Ramsés, amado de Amon, Grande Rei, Rei do Egito, herói, concluiu numa tabuleta de prata com Hattušiliš, Grande Rei, Rei de Hatti, seu irmão» — como um sinal de que foi o governante de Hatti que procurou alcançar a paz, pelas grandes vantagens que isso lhe trazia.[37]

Objetivos[editar | editar código-fonte]

Objetivos dos egípcios[editar | editar código-fonte]

Considerando a sua relativa posição mais forte em relação a Hattušiliš, o que esperaria Ramsés alcançar com uma aliança com o seu odiado inimigo hitita? Depois de quinze anos de tentativas frustradas de retomar os seus territórios perdidos na Síria, os historiadores argumentam que Ramsés compreendeu que o seu desejo de igualar os feitos militares de Tutmés III eram irrealizáveis. Segundo essa interpretação, tornou-se cada vez mais importante para Ramsés obter uma vitória internacional através da diplomacia para fundamentar os seus feitos como faraó.[38]

Estátua de Ramsés II em Luxor

As tentativas para reconquistar as terras que os hititas tinham tomado não tinham logrado afetar significativamente o domínio que os hititas tinham sobre a região, o que levou Ramsés a aceitar as suas perdas em troca do reconhecimento do statu quo territorial na Síria e do acesso dos egípcios aos portos em território hitita para fomentar o comércio e da concessão de acessos comerciais a locais a norte tão distantes como Ugarit.[39] O que movia Ramsés a procurar relações amistosas com os hititas eram sobretudo os ganhos financeiros e de segurança que daí advinham. Manter o statu quo na região tornou-se uma prioridade para Ramsés com a emergência do poderio militar dos assírios. Se a Assíria penetrasse na Síria, passaria a constituir uma ameaça militar direta e próxima para o Egito, pelo que era de todo o interesse para os egípcios manter os assírios longe da Síria.[40] Ao aceitar uma aliança com os hititas, estes novos aliados ajudariam a salvaguardar os domínios mútuos na Síria contra a potência emergente.[41]

Outros incentivos ao tratado eram o fim da pressão sobre as finanças das onerosas guerras com Hatti e o facto de que o aumento da segurança dos interesses egípcios na Síria dava a Ramsés a oportunidade de clamar a sua "derrota" dos hititas. Como tinha sido Hattušiliš a aproximar-se de Ramsés, o faraó é representado no Ramesseum recebendo os hititas numa atitude de submissão.[42] Tendo em conta que a linguagem oficial dos tratados desse tempo diferia conforme as partes, Ramsés pôde apresentar os termos do tratado segundo a perspectiva que mais lhe convinha, permitindo que o texto apresentasse uma versão muito idealizada.[43] O aproveitamento do tratado por Ramsés para consolidar um sentimento de supremacia como governante do Egito e as tentativas de apresentar a aliança estratégica como uma vitória pessoal demonstram por que é que Ramsés estaria tão interessado em apoiar a paz com benefícios mútuos. A conclusão das hostilidades abertas entre as duas potências regionais era uma vitória pessoal para o faraó que caminhava para a velhice, e o seu monumento em Abu Simbel mostra como o faraó tornou claro aos seus súbditos que ele, Ramsés, era o conquistador dos hititas.[44]

Objetivos dos hititas[editar | editar código-fonte]

A "Porta do Rei", em Hattusa, a capital hitita

Contrariamente a Ramsés, que detinha grande poder nas relações internacionais, Hattušiliš III tinha contra si a desvantagem de sua legitimidade como rei dos hititas ser questionada. Apesar de Hattušiliš ter derrotado o seu sobrinho Urhi-Teshub (Mursil III) usurpando-lhe o trono, continuava a ser visto como um usurpador. A determinação de Urhi-Teshub em retomar o trono fez com que o império hitita mergulhasse num período de instabilidade tanto internamente como externamente.[45] O sobrinho foi banido depois de um golpe de estado falhado e refugiou-se no Egito. Ramsés II passou então a constituir uma ameaça direta para o reinado de Hattušiliš por dar asilo ao seu sobrinho e rival. Hattušiliš compreendeu que só uma aliança com Ramsés poderia evitar que este apoiasse as pretensões do seu sobrinho a retomar o trono hitita. Além disso, Hattušiliš esperava que o seu reconhecimento como rei por parte de Ramsés levasse a uma reconciliação com os apoiantes hititas de Urhi-Teshub como rei legítimo.[46] Ramsés tinha um grande poder entre os governantes do Próximo Oriente e um reconhecimento formal de Hattušiliš daria a este a tão desejada credibilidade na cena internacional.[47]

A ameaça de um novo golpe por parte de Urhi-Teshub preocupava Hattušiliš de sobremaneira, numa altura em que enfrentava uma ameaça considerável a leste por parte dos assírios. Durante o reinado do seu predecessor, o rei assírio tinha tomado Hanigalbat (Mittani), que tinha sido um estado vassalo dos hititas.[48] Esta agressão tornou mais tensas as relações entre os dois países e, mais importante que isso, os assírios davam sinais de se estarem a colocar em posição para lançarem mais ataques no lado ocidental do rio Eufrates. O perigo de uma invasão assíria foi uma das motivos mais fortes que levou os hititas a negociar com os egípcios.[49] Nos termos do tratado, os egípcios comprometiam-se a juntarem-se aos seus aliados hititas se a Assíria invadisse o território de Hatti. Além da ameaça a leste, Hattušiliš reconhecia a necessidade de fortalecer as suas relações com o vizinho Egito. A competição que tinha existido entre os dois países por causa das terras sírias já não interessava a Hattušiliš. Segundo Trevor Bryce, o monarca hitita estava satisfeito com as suas possessões na Síria e qualquer expansão das fronteiras hititas para sul era tanto injustificável como indesejável.[42]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Depois de concretizar a tão desejada aliança com Hatti, Ramsés pôde então canalizar as suas energias para os projetos de construção domésticos, como a conclusão dos grandes templos de rocha em Abu Simbel.[50] O melhoramento das relações entre Ramsés e Hattušiliš, ao dispensar enormes gastos militares, permitiu ao faraó reunir os recursos necessários para a construção de grandes monumentos. Há provas de que no 34º ano do seu reinado o faraó casou com uma princesa hitita, dando continuidade às boas relações entre as duas potências e demonstrando um esforço para a criação de laços familiares com Hatti.[16] Este casamento e a inexistência de textos que indiquem deterioração das relações amistosas demonstram que a paz se manteve durante o resto do reinado de Ramsés[51] e duraria até à queda de Hatti quase um século depois da assinatura do tratado.[52]

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Bryce 1999, p. 256
  2. Klengel 2002, p. 52
  3. Barker 2000, p. 2
  4. a b c Zeitschrift für Assyriologie und... 1999, p. 149
  5. Dollinger, André. The peace treaty between Ramses II and Hattusili III (em inglês) www.reshafim.org.il. An introduction to the history and culture of Pharaonic Egypt. Página visitada em 7 de julho de 2012. Cópia arquivada em 8 de junho de 2011.
  6. Fitzgerald 2008, p. 64
  7. Klengel 2002, p. 51
  8. a b Treaty of Kadesh (em inglês) www.istanbularkeoloji.gov.tr. Museus Arqueológicos de Istambul. Página visitada em 7 de julho de 2012. Cópia arquivada em 7 de julho de 2012.
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  12. Murnane, p. 2-3
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  17. a b Murnane
  18. Bryce 1999, p. 256
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  21. Kitchen 1982, p. 63
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  23. a b Kitchen 1982, p. 70
  24. Klengel 2002, p. 51
  25. Burney 2004, p. 46-47
  26. a b Winckler, Hugo, citado em Wood 1998, p. 174
  27. Klengel 2002, p. 49
  28. Breasted 1906, p. 173
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  32. Breasted 1906, p. 166
  33. Gardiner 1920, p. 186
  34. Bryce 2006, p. 1
  35. Magnetti 1978, p. 823
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  45. Bryce 2006, p. 6
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  50. Kitchen 1982, p. 81
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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