Tuna
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Nota: Para outros significados, veja Tuna (desambiguação).
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Uma tuna é um agrupamento musical, caracterizado por ser constituído por cordofones. Pode apresentar-se como mero agrupamento instrumental (a sua primeira origem), bem como na versão canto e instrumento (actualmente em voga). A tuna pode ser de natureza popular ou de natureza estudantil (derivando da estudantinas do séc. XIX e inícios do XX). As Tunas de feição estudantil são apelidadas de Tunas Académicas ou Universitárias, por agruparem de estudantes do ensino superior. A tuna estudantil, pode ainda dizer respeito às formações compostas por estudantes do liceu (formações muito numerosas no séc. XIX e de que há registo até aos anos 60 do séc. XX).
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[editar] Origem
A origem destes agrupamentos encontram-se a partir da 2ª metade do séc. XIX, reproduzindo o ideário romântico dos antigos sopistas e pícaros de antanho, estudantes maltrapilhos (alguns pertencentes às classes mais baixas do clero) à cata de sustento, que se socorriam dos seus dotes musicais e artísticos para sustento dos seus estudos, folias e excessos juvenis. Já a pretensa ligação aos Goliardos parece ser mais uma colagem romântica do que um facto histórico - tese defendida por alguns, a propósito da suposta herança goliardesca nas tunas.
A Tuna Académica é um agrupamento constituído por estudantes essencialmente do ensino superior (embora nas primeiras décadas do século XX tenham sido comuns as tunas compostas por alunos de liceu, entre outros). O repertório musical das tunas é extremamente variado, indo desde adaptações de temas de autor, passando pela música erudita, até composições originais cuja temática incide essencialmente na vida boémia estudantil, na celebração do amor, mantendo afinidades temáticas com o fado e um certo estilo de música muito em voga em meados do século XX, de cariz humorístico e brejeiro - picaresco, portanto. Envergam usualmente o traje académico da instituição que representam, sem prejuízo de em certos casos serem criados trajes especificamente para o efeito - inspirados, em todo o caso, quer em trajes estudantis de séculos passados, quer com adaptações de elementos etnográficos da região a que pertence.
As tunas preservam uma tradição secular, com raízes na vizinha Espanha.
Existem inúmeros mitos sobre a história e origem dos tunos e das tunas alimentados pela falta de bibliografia respectiva e de um estudo sistémico deste fenómeno. O livro "Tunas do Marão" do etnomusicólogo José Alberto Sardinha e os trabalhos desenvolvidos por J. Pierre Silva, Ricardo Tavares, Eduardo Nuno Coelho e João Paulo P. Sousa (grupo de investigação denominado CoSaGaPe) se configuram, actualmente, como única fonte credível no estudo e investigação da Tuna em Portugal.
As tunas "chegaram", a Portugal na segunda metade do século XIX, havendo já registos das mesmas (com o nome Tuna ou Estudantina - termos sinónimos) desde a década de 1870, sendo que a visita da Tuna de Santiago de Compostela, em 1888 e, depois a de Salamanca à Universidade de Coimbra (vindo-se a formar, logo após, a Tuna Estudantina de Coimbra - que, pouco depois, e por uma cisão interna, passa a chamar-se TAUC), bem como ao Porto e Lisboa, marcam os primeiros passos da institucionalização da Tuna. Mais ou menos na mesma altura (1890) se forma a Tuna Académica do Porto (que passou a designar-se Tuna Universitária do Porto a partir de 1937-38, aquando da sua reformulação incluindo pela 1ª vez a partir daqui apenas estudantes universitários). Na sequência destas, outras se formam no nível liceal (o actual ensino secundário), das quais subsiste apenas, actualmente, a Tuna Académica do Liceu de Évora (1902). De notar que a tradição das estudantinas já era bem conhecida no nosso país, antes de 1888, com a existência de tunas de estudantes em Lisboa e Braga, por exemplo, na já referida década de 1870.
O fenómeno "Tuna" não se fixou apenas no contexto académico. De facto, foi fora do contexto universitário que este tipo de agrupamentos conheceu maior pujança ao longo de todo o século XX, um pouco por todo o país. Estes agrupamentos de cariz popular receberam outro tipo de designações, além do de tuna: orquestra popular, orquestra típica, conjunto típico, entre outras. Segundo uma definição que contém tanto de simplista como de verdadeira, no parecer de Ernesto Veiga de Oliveira, uma tuna seria "Um grupo de pessoas que não sabe música e que toca música para aqueles que a sabem", numa alusão ao carácter assumidamente amador e voluntarista deste tipo de agrupamentos (embora essa afirmação nada tenha de científico ou real). Ainda assim, a Tuna diferenciava-se das orquestras e tocatas pelo elenco dos instrumentos utilizados. A Tuna era apenas cordofones. A orquestra, essa, já incluía outros instrumentos.
Já J. Pierre Silva, avança que Tuna Académica/Universitária, é um grupo de cariz musical, constituído por estudantes ou antigos estudantes do ensino superior, em representação do estabelecimento ou da instituição de ensino superior que frequentam ou a cujos organismos artísticos pertençam, ou, ainda, livremente associados, que reproduzem uma cultura e tradição secular (com raízes no séc. XIII), herdada dos antigos pícaros e sopistas do Século de Ouro espanhol, através do conceito de “correr la Tuna” manifestado e vivenciado pelos Tunos/Tunas do país vizinho, que chegou a Portugal em finais do séc. XIX e foi retomado nos anos 80 do séc. XX. Apresentam-se com o traje da academia em que se integram ou indumentária própria (devendo, neste último caso, ser de inspiração académica, do traje espanhol à capa e batina, incluindo, por vezes, elementos de inspiração etnográfica/histórica da região em que se enquadra a sua actividade estudantil), no estrito respeito pelas raízes tradicionais estudantis nacionais (ou tunantes – numa concepção ibérica). Fazem-se acompanhar, essencialmente, de cordofones, podendo também incorporar outros instrumentos de carácter acústico e portátil, cuja configuração permita a mobilidade e cariz migratório da Tuna, na interpretação de repertórios eclécticos e variados, de que a vida estudantil é denominador e traço comum, uma opinião partilhada por Eduardo Nuno Coelho, similar à defendida por Ricardo Tavares João Paulo P. Sousa.
Ricardo Tavares adianta ainda no seu blogue: "Foi apenas em 1876 que surgiu a 1ª Tuna Universitária de facto, a Tuna Universitária de Compostela, enquanto instituição estável, hierarquizada, organizada em torno da Universidade, exclusivamente estudantil e com carácter permanente. Até então apenas se pode falar em "estudantes que iam de tuna", de forma espontânea, fruto do momento e da necessidade que aguçava o engenho. Existe vasta documentação histórica que atesta o hábito, o costume de "ir de tuna", que não a fundação de facto de qualquer Tuna enquanto instituição. Por isso, resulta fantasioso e errôneo situar a fundação de qualquer Tuna enquanto instituição até ao ano de 1876. Claro está que õ próprio autor, defende igualmente que essa data é apenas um dado, pois que é tão certo conseguir-se aponta rum ano em concreto como avançar o ano de fundação do Barroco.
Na sua visita a Portugal em 1888, a Estudantina Compostelana - e na época, tal como hoje, Estudiantina e Tuna eram dois termos que definiam o mesmo conceito - serviu de inspiração à fundação da Tuna da Universidade de Coimbra, nascida nesse mesmo ano. Em 1890 - a Estudantina Académica do Porto - não exclusivamente composta por universitários, note-se (como aliás suecedia na TAUC) - sob a direcção de Raúl Laroze Rocha, visitara então Madrid e Salamanca, conforme atesta vária imprensa escrita espanhola à época. Em finais do Século XIX, inícios do de XX, o fenómeno das Estudiantinas popularizou-se em Espanha com particular destaque para a Estudiantina Figaro que influenciou sobremaneira a formação de agrupamentos deste género um pouco por toda a Europa e não só Peninsula Ibérica, para lá da América Central e do Sul. Essas Estudiantinas não eram compostas exclusivamente por estudantes universitários e em alguns casos nem ligadas à Universidade eram, sequer. A crescente popularidade das Estudiantinas como a Figaro ou a Pignatelli, p.ex - finais Século XIX e inícios do de XX - guindou este modelo para patamares de elevado sucesso social e até politicamente utilizadas, desviando-se ou mesmo ignorando de todo o hábito de antanho do "correr a Tuna" característico do estudante pobre de tempos anteriores. O formato Estudiantina vence também pela força da comparsa carnavalesca tão em voga naqueles tempos - a Estudiantina de Salamanca esteve presente no Carnaval do Porto organizado pelo Clube Fenianos, havendo relatos da sua participação em 1890 e anos posteriores; em 1905, por exemplo, foi distinguida com o 2º prémio do cortejo (mesmo apresentando-se fora de concurso), bem como existe constância neste mesmo evento e ano da Estudiantina de Córdoba.
A Tuna, contrariamente ao mito propalado, apenas surge no séc. XIX, derivando das estudantinas carnavalescas (e estas da comparsas de carnaval). Antes disso não existe tuna, mas tão só o ideário de "correr la tuna", a que muitos estudantes aderiram - daí a designação "estudiantes de la tuna" (erradamente entendido como membros de uma Tuna), ou seja um modo de vida caracterizado pela mendicidade, o engano, a cata de sustento (através dos mais variados expedientes- alguns musicais e artísticos, outros na trapaça, no engano) que não era exclusivo do foro estudantil (pese embora ter permanecido a imagem do estudante boémio, em razão do prestígio que as gentes de letras, com estudos, sempre tiveram).
Na actualidade, e desde o ressurgimento do fenómeno no contexto universitário, durante os anos 80 do século passado, a tuna académica/universitária é entendida como um grupo musical composto exclusivamente por alunos ou ex-alunos do ensino superior, embora tal não obste à existência de tunas académicas fora da geografia universitária (mas, nesse caso, já não há o uso do traje académico, só permitido aos que frequentam um curso superior).
[editar] Etimologia
A origem do vocábulo "tuna" é algo incerta. Alguns defendem que a origem seria o provençal "thune" -"albergue para mendigos", muito divulgados no sul de França. Esta teoria apoia-se no carácter mendicante dos "sopistas" (do espanhol "sopa"), classe de estudantes que sobreviveriam à custa da "sopa boba" (ou sopa dos pobres) distribuída gratuitamente nesses albergues; assim "tunos" seriam os que se alimentavam à custas desses "thunes". Segundo outros, apoiados em certo "dicionário de autoridades" do século XVIII - de rigor questionável - a palavra derivaria do espanhol "atún", dada a semelhança que existia, na opinião do respectivo autor, entre o carácter migratório daqueles peixes e o carácter ambulatório dos tunos. Ainda de acordo com esta teoria, "tunos" seriam os trabalhadores sazonais que se deslocavam para o sul de Espanha para aproveitarem o trabalho proporcionado pela faina do atum no Mediterrâneo; estes trabalhadores sazonais teriam inspirado os estudantes a uma vida igualmente errante. Outras teorias mais amplamente difundidas procuram situar a origem no latim "tonare" (soar), muito embora esta evolução contrarie as leis da evolução fonética do latim para as línguas ibéricas. Pretendem ainda outros que "tuna" seria apenas a corruptela de "estudiantina", entre outras teses existentes.
[editar] Principais instrumentos utilizados
- Guitarra clássica
- Cavaquinho
- Bandolim
- Bandola
- Baixo acústico ou Contrabaixo
- Pandeireta
- Acordeão
- Bombo
- Flauta
- Violino
- Viola
[editar] Bibliografia
- Sardinha, José Alberto. Tunas do Marão. Vila Verde, Tradisom, 2005. ISBN 972-8644-08-6.
- Soares, António José. Breve história da Tuna Académica da Universidade de Coimbra. Coimbra, Biblioteca Municipal, 1962.
- Tuna Académica do Liceu de Évora. Catálogo da Exposição «Tuna Académica do Liceu de Évora: 100 Anos Histórias e Tradições: Comemorações do 100.º Aniversário da Tuna Académica do Liceu de Évora». Évora, Tuna Académica do Liceu de Évora, 2002.
- Blogue Notas&Melodias
- Blogue As Minhas Aventuras na Tunolândia
- Comunicações realizadas no VI ENT (Encontro Nacional de Tunos), Bragança, 2009.