Tupis

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Índio tupi do século XVII, por Albert Eckhout

O termo "tupis" possui dois sentidos: um genérico e outro específico. O sentido genérico do termo remete aos índios que habitavam a costa brasileira no século 16 e que falavam a língua tupi antiga. O sentido específico do termo remete aos índios que habitavam a região da atual cidade de São Vicente, na mesma época.[1]

Origem[editar | editar código-fonte]

Estudos demonstram que os tupis teriam habitado originalmente os vales dos rios Madeira e Xingu, que são afluentes da margem meridional do rio Amazonas.[2] Estas tribos, que sempre foram nômades, teriam iniciado uma migração em direção à foz do rio Amazonas e, de lá, pelo litoral para o sul. Supõe-se que esta migração, que teria também ocorrido pelo continente adentro no sentido norte-sul, tenha principiado no início da era cristã.[2]

Numa hipótese alternativa, o folclorista Luís da Câmara Cascudo aponta a região dos rios Paraguai e Paraná como o centro original da dispersão dos tupis-guaranis (incluindo os povos guaranis junto com os tupis).[3]

Alguns autores suspeitam que, nesta trajetória, os tupis tenham enfrentado os tupinambás, que já habitariam o litoral; outros sustentam que apenas se tratava de levas sucessivas do mesmo povo, os posteriores encontrando os anteriores já estabelecidos. Certo é que, nesse processo, as tribos tupis derrotaram as tribos tapuias que já habitavam o litoral brasileiro, expulsando-as, então, para o interior do continente, por volta do ano 1000.[2]

Índia tupi do século XVII, por Albert Eckhout

Grupos Tupis[editar | editar código-fonte]

Encontro com os europeus[editar | editar código-fonte]

Quando os navegadores europeus começaram a frequentar a costa brasileira, no século XVI, passaram a estabelecer relações de comércio com os tupis que a habitavam. Alguns grupos tupis, como os tabajaras, os tupiniquins e os temiminós, se aliaram aos portugueses.[2] Outros, como os tamoios, caetés e potiguares, se aliaram aos franceses. Isto valeu, aos tamoios, sua aniquilação quase total por parte dos portugueses. O conflito passou à história como Confederação dos Tamoios. Em 1574, o último foco de resistência indígena em Cabo Frio, no atual estado do Rio de Janeiro, foi vencido pelos portugueses com um número incalculável de mortos e com a captura de cerca de 10 000 escravos nativos americanos.

Até hoje, existem, em locais de difícil acesso na Serra do Mar dos estados do Espírito Santo e Bahia, uns poucos grupos indígenas que se autodenominam tupinambás (vide Tupinambá de Olivença) e tupiniquins. Eles já não falam a sua língua original tupi e somam uns 3 000 indivíduos atualmente.

Distribuição dos grupos indígenas na costa do Brasil no século XVI. A maior parte deles (mas não todos) eram do grupo tupi.

Divisão de trabalho[editar | editar código-fonte]

Os tupis se compunham de tribos compostas de unidades menores, as aldeias, que mantinham entre si interesses comuns. Nas aldeias, havia, normalmente, de quinhentas a seiscentas pessoas, que viviam em grandes habitações ou malocas coletivas, cuja estrutura de madeira recebia uma cobertura de folhas de palmeira. Em geral, o número de habitações variava de quatro a sete por aldeia, cada uma delas abrigando um grande grupo familiar. A poligamia era prática comum entre os chefes e entre os guerreiros mais destacados.

A divisão do trabalho era feita de acordo com o sexo e a idade. As mulheres, além dos afazeres domésticos, ocupavam-se da agricultura e da coleta e colaboravam na pesca. Encarregavam-se da preparação do cauim - bebida fermentada à base de mandioca - e de muitas atividades artesanais, como tecer redes, trançar cestos, fazer tapetes etc.

Além da derrubada da mata e da preparação da terra para o plantio, os homens ocupavam-se da caça, da pesca e da fabrica de canoas, armas de guerra e instrumentos de trabalho. Deviam erguer as habitações, defender a aldeia, tomar parte da guerra e executar os prisioneiros, se sua tribo praticava a antropofagia. Também eram os homens que exerciam a função de curandeiros.

As crianças ajudavam os pais em algumas atividades e realizavam tarefas correspondentes à sua idade, como cuidar dos irmãos menores ou espantar os pássaros das plantações no período que antecedia a colheita.

Religião[editar | editar código-fonte]

O principal culto entre os tupis que habitavam o litoral brasileiro no século 16 era o de Jurupari. Tupã, o trovão, era uma divindade secundária, que não possuía rito próprio. Exatamente por não possuir rito próprio, os padres católicos que procuravam difundir o cristianismo entre os índios escolheram Tupã como um símbolo para o deus cristão, de forma a facilitar a compreensão do cristianismo pelos índios, enxertando, na figura de Tupã, os princípios cristãos. Ao mesmo tempo, associaram Jurupari ao diabo cristão, de forma a desestimular seu culto entre os índios tupis.[4]

Influência na cultura brasileira[editar | editar código-fonte]

Os tupis foram objeto de poesia e prosa no movimento literário romântico do Brasil do século XIX (ver indianismo). Além disso, a língua tupi exerceu uma grande influência na formação do português brasileiro. Os tupis também influenciaram muitos outros aspectos da cultura brasileira contemporânea, como o uso de redes de dormir, a culinária (pratos como o beiju, a farinha de mandioca etc.), a música sertaneja, vários mitos do folclore brasileiro (como o boitatá, o saci, o curupira etc.), o esporte da peteca e muitos dos atuais topônimos brasileiros.

Referências

  1. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 11,12.
  2. a b c d BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição. São Paulo. Ática. 2003. p.19.
  3. CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002.
  4. CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002. p. 57,58.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]