Um Ladrão

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Um Ladrão é um conto de Graciliano Ramos publicado no livro Insônia (1947). A objetiva de Ramos

O conto de Graciliano Ramos, como já dito, tem um narrador muito próximo à personagem central. Em boa parte da obra a voz narrativa adquire tamanha aderência à perspectiva do personagem a ponto de sugerir que o próprio ladrão tem sobre seus ombros a câmara, como no Cinema Novo de Glauber Rocha. Entretanto, no início da ficção, o narrador tem seu discurso destacado da voz da personagem, explicando ao leitor as técnicas necessárias para o bom desempenho da atividade de ladrão e alertando para o fato de que o personagem em questão não as possuía. No decorrer da leitura, a perspectiva do personagem e  a do narrador se aproximam, havendo momentos em que elas chegam até a se confundir, como veremos mais adiante. 
 Este personagem está inserido na marginalidade e, como tal, vive na completa falta; é morador de rua e seu principal vínculo é com outro ladrão mais experiente, Gaúcho (também citado em Memórias do cárcere). Entretanto, em sua construção, o narrador deixa claro que o ladrão já frequentou a escola, portanto é um marginal letrado e carrega uma visão crítica incomum da sociedade, percepção atípica para um indivíduo da sua condição. A residência que pretende assaltar fica no final de uma rua, no alto do morro, posição privilegiada, diferentemente da casa da portuguesa de Mário de Andrade, que se encontra junto à vila de operários, sobradinhos iguais, um ao lado do outro. Assim, a localização da residência no conto de Ramos, destacada das demais, pode sugerir a cisão nítida entre o mundo marginal e o mundo da elite.  
 Mas é dentro do ambiente privado que o narrador irá trazer ao leitor não apenas a tensão de classes, como também a visão crítica que o marginal possui da classe dominante. O retrato negativo da elite não Revista Crioula – nº 6 – Novembro de 2009 Artigos e Ensaios - Maria Luzia Barros precisa mais do que um “zoom” em apenas um membro da dona da casa: 

(...) avistou um braço caído fora da cama. Braço de velha, braço de velha rica, de uma gordura nojenta. A mão era papuda e curta, anéis enfeitavam os dedos grossos. (RAMOS, 1985; p.28) Acreditamos que este trecho pode demonstrar a proximidade entre a voz narrativa e o personagem, pois a visão do ladrão e a do narrador parecem se confundir: quem viu a mão? Quem a diz “nojenta”, o narrador ou o ladrão? O excerto acima sugere uma burguesia opulenta e fútil, dada a gordura da moradora, além do fato de esta dormir carregada de jóias, que não a enfeitam, pelo contrário, auxiliam na construção de uma imagem grotesca. A voz narrativa também reforça a experiência da carência na vida do ladrão; além de dinheiro, falta-lhe todo o resto. Assim, todas suas necessidades vão irromper dentro da residência, a fome vai guiar seus passos: Onde estaria o queijo que na antevéspera se achava em cima da geladeira? Procurou-o debalde. Entrou na cozinha, mexeu nas caçarolas, encontrou pedaços de carne, que devorou quase sem mastigar. (RAMOS, 1985; p.33) Também encontra modos de demonstrar alguns valores do ladrão, como o respeito pelas imagens de santos dos moradores: Abriu a porta de ferro, acendeu a lâmpada, viu um oratório. Desejou apoderar-se dos resplendores das imagens e do bordão de São José, de ouro, pesado. Afastou-se com medo da tentação. Não cometeria semelhante sacrilégio. (1985; p. 29) Nesta passagem, podemos perceber os valores cristãos, que findam por reter seus atos; tais pudores religiosos talvez possam ser lidos como herança do Brasil arcaico, que divide a mente do ladrão com Revista Crioula – nº 6 – Novembro de 2009 Artigos e Ensaios - Maria Luzia Barros os novos valores, do capitalismo, visto que são esses últimos que compõem seu sonho de inserção social e motivam suas ações: Um capital. Estabelecer-se-ia com um café no subúrbio, longe de Gaúcho e daqueles perigos. Café modesto, com rádio, os fregueses, pessoas de ordem, discutindo futebol. Ouviria as conversas sem tomar partido, não descontentaria ninguém e fiscalizaria os empregados rigorosamente. Um patrão, sim senhor... (1985; p. 32) Note-se o salto que o personagem ambiciona – de marginal a patrão. Esta possível mobilidade social, que pula etapas, nos parece similar à condição brasileira, passando de país agrário a industrializado, ou, ainda, conforme aponta Roberto Schwartz, de arcaico a moderno. A pulsão sexual no conto também é responsável pela mudança de rumo da narrativa. O ladrão, que mesmo sem possuir a técnica necessária, já conseguia bons frutos em sua iniciativa, acaba por permanecer mais tempo e se arriscar em um beijo. O episódio já se pronunciava no início da narrativa, quando o narrador cita que há apenas um local iluminado na casa, trata-se de um quarto, onde dorme uma jovem nua, com a porta destrancada. A identidade da jovem não é revelada, pode ser filha dos donos da casa, empregada, visitante. Entretanto, chama a atenção que esta durma nua, com a luz acesa e porta destrancada. Sem nos estendermos, o fato é que para este ladrãozinho desprovido de tudo, este quarto funciona como uma armadilha e vai retê-lo na casa até sua prisão: A principio foi um deslumbramento, a casa girando, a cama girando, ele também girando em torno da mulher, transformado em mosca. Girando, aproximando-se e afastando-se, mosca. E a necessidade de pousar, para se livrar dos giros vertiginosos. (1985; p. 35) A oscilação do ânimo da personagem chega neste momento a seu grau mais baixo, e de possível patrão ele vai a inseto. Torna-se a mosca, como mosca vai à prisão. Revista Crioula – nº 6 – Novembro de 2009 Artigos e Ensaios - Maria Luzia Barros Como se pôde perceber nos trechos citados, o retrato do ladrão, que apesar de não ter nome, nem endereço, fica bastante nítido ao leitor, é dado graças à proximidade estabelecida entre a perspectiva narrativa e a do personagem, ficando claro ao leitor suas necessidades mais urgentes, bem como suas aspirações de futuro, muitas vezes umas opondo-se às outras. Cabe ainda lembrar que os gestos do personagem são pautados pela oscilação entre sucesso e fracasso. Ele vive a experiência da margem e da possibilidade de dar um salto sobre esta, tornando-se um capitalista: O que o preocupava naquele momento, porém, era menos o receio de ser preso que a convicção da própria insuficiência, a certeza de que ia falhar. (RAMOS, 1985; p.28)

 Esta oscilação talvez possa ser comparada à condição da nação brasileira no período, que tinha ambições de se inserir entre os países industrializados sendo um país periférico e carregando todos os traços desta condição. Podemos perceber no conto “Um ladrão”, de Graciliano Ramos, uma denúncia mais robusta, pautada em um cotidiano de exclusão e violência, sem sentimentalismos, o que nos parece corresponder melhor à vida das pessoas condenadas a viver nas franjas sociais do novo sistema que se implantava no Brasil da década de 30 do século XX. Conforme nos apontou Antonio Candido, a pré-consciência do atraso, do subdesenvolvimento e, sobretudo, a percepção de que as utopias progressistas, ligadas à entrada de nosso país no processo de industrialização não encontravam eco na realidade, 

apontavam para a perpetuação das injustiças sociais. Fonte: http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/06/Artigos%20e%20Ensaios%20-%20Maria%20Luzia%20Barros.pdf