Universo paralelo (ficção)

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Universum: Urbi et Orbi. Esta misteriosa e enigmática xilogravura simboliza imaginativamente o conceito fantástico e surreal sobre "universos paralelos".

Universo paralelo ou realidade alternativa em ficção científica e fantasia é uma realidade auto-contida em separado, coexistindo com a nossa própria. Esta realidade em separado pode variar em tamanho de uma pequena região geográfica até um novo e completo universo, ou vários universos formando um multiverso. Embora os termos "universo paralelo" e "realidade alternativa" sejam geralmente sinônimos e possam ser intercambiáveis na maioria dos casos, há por vezes uma conotação implícita no termo "realidade alternativa" que implica que a realidade é uma variação da nossa própria. O termo "universo paralelo" é mais genérico, sem quaisquer conotações que impliquem uma relação (ou a falta dela) com o nosso universo.

Introdução[editar | editar código-fonte]

O Juízo Final de Michelangelo, 1535 à 1541. Por meio deste afresco é possível perceber que, Michelangelo, tenta nos transmitir as ideias religiosas acerca de dois distintos universos paralelos coexistentes, sendo eles: O Universo Físico e O Espiritual.

A fantasia há muito tomou emprestada a ideia de um outro mundo da mitologia, lenda e religião. Céu, Inferno, Olimpo, Valhala, são todos universos alternativos diferentes do mundo físico familiar em que vivemos. A fantasia moderna frequentemente apresenta o conceito como uma série de planos de existência onde as leis da natureza diferem, permitindo a existência de fenômenos mágicos e sobrenaturais de algum tipo em alguns planos. Em outros casos, tanto na fantasia quanto na ficção científica, um universo paralelo é uma outra realidade única e sua coexistência com o nosso é um princípio usado para levar um protagonista da realidade do autor para a realidade da fantasia, tal como em As Crônicas de Narnia de C.S. Lewis. Ou esta outra realidade singular pode invadir a nossa, como quando a heroína inglesa de Margaret Cavendish envia submarinos e "homens-pássaros" armados com "pedras de fogo" através de um portal do Blazing World para a Terra, e espalha a destruição entre os inimigos da Inglaterra. No filme O Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro que mistura realidade da dor e da morte, com a fantasia literária em um conto de fadas. Na fantasia dark ou ficção de horror, o mundo paralelo é frequentemente um local oculto para coisas desagradáveis, e frequentemente o protagonista é forçado a confrontar os efeitos deste outro mundo se infiltrando no nosso, como na maior parte do trabalho de HP Lovecraft e na série de jogos de computador Doom. Em tais histórias, a natureza desta outra realidade é freqüentemente deixada misteriosa, conhecida apenas por seus efeitos em nosso próprio mundo.

Usos na ficção científica[editar | editar código-fonte]

Outras dimensões[editar | editar código-fonte]

Embora tecnicamente incorreta se olhada com desdém por fãs e autores de ficção científica hard, a ideia de outra dimensão tornou-se sinônimo da expressão universo paralelo. O uso é particularmente comum em filmes, televisão e HQs e muito menor na prosa moderna de ficção científica.

Hiperespaço[editar | editar código-fonte]

Talvez o uso mais comum do conceito de um universo paralelo na ficção científica esteja no conceito de hiperespaço. Usada na ficção científica, este conceito se refere freqüentemente a um universo paralelo que pode ser usado como um atalho mais rápido que a luz para viagem interestelar. Os princípios para esta forma de hiperespaço variam de obra para obra, mas existem dois elementos comuns:

  1. ao menos um (se não todos) os sítios do universo hiperespacial correspondem a sítios em nosso universo, provendo os pontos de entrada e saída para os viajantes.
  2. o tempo de viagem entre dois pontos no universo hiperespaço é muito mais curto do que o tempo de viagem entre pontos análogos em nosso universo. Isto pode ocorrer por causa da velocidade diferente da luz, diferente velocidade da passagem do tempo ou os pontos análogos no universo hiperespacial são muito mais próximos um do outro.

Viagem no tempo e história alternativa[editar | editar código-fonte]

O uso mais comum de universos paralelos na ficção científica, quando o conceito é central para a história, é um pano de fundo e/ou consequência da viagem no tempo. Um exemplo seminal desta ideia está no romance de Fritz Leiber, The Big Time, onde há uma guerra através do tempo entre dois futuros alternativos, em que cada lado manipula a história para criar uma linha temporal que resulte em seu próprio mundo.

Viajantes do tempo na ficção frequentemente criam, acidental ou deliberadamente, histórias alternativas, tais como em The Guns of the South de Harry Turtledove, onde é fornecida ao Exército Confederado a tecnologia para produzir fuzis AK-47, o que leva os insurgentes à vitória na Guerra de Secessão. O romance de história alternativa 1632 de Eric Flint expõe explicitamente (embora brevemente) no prólogo, que os viajantes temporais no romance (uma cidade inteira em West Virginia) criaram um universo novo em separado, quando foram transportados para o meio da Guerra dos Trinta Anos na Alemanha do século XVII.

História alternativa no Brasil[editar | editar código-fonte]

A história alternativa tornou-se um dos temas mais recorrentes da FC brasileira produzida na última década do século XX e no início do século XXI. Neste campo, projetos literários como a Intempol de Octavio Aragão e a SLEV de Rogério Amaral de Vasconcelos, marcaram presença, ao lado de autores conhecidos do fandom brasileiro, como Gerson Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi Martinho.

Usos na fantasia[editar | editar código-fonte]

Estranho numa terra estranha[editar | editar código-fonte]

Através do Espelho -- e o universo paralelo que Alice encontrou lá.

Os autores de fantasia freqüentemente querem levar personagens da realidade do autor (e do leitor) para o seu mundo inventado. Antes do século XX, isto era feito com maior freqüência escondendo mundos fantásticos dentro de partes ocultas do universo do próprio autor. Personagens do mundo do autor podiam embarcar num navio e se descobrir repentinamente numa ilha fantástica, como faz Jonathan Swift em As Viagens de Gulliver ou no romance Silverlock de John Myers Myers ou serem sugados por um tornado e aterrissar em Oz, ou descer por uma toca de coelho e terminar no País das Maravilhas. Estas histórias de "mundos perdidos" podem ser vistas como os equivalentes geográficos de um "universo paralelo", visto que os mundos representados estão separados do nosso próprio e escondidos de todos, exceto daqueles que empreendem a difícil jornada até lá. O "mundo perdido" geográfico pode se converter num "universo paralelo" mais explícito quando o reino da fantasia se sobrepõe a uma seção do mundo "real", mas é muito maior dentro do que fora, como nos romances de Robert Holdstock, Mythago Wood e The Bone Forrest (A Floresta de Ossos, 1995, ISBN 972-21-1023-3).

Depois de meados do século XX, talvez influenciada por ideias da ficção científica, muitos mundos de fantasia se tornaram completamente separados do mundo do autor. Um tropo comum é um portal ou artefato que conecta mundos, sendo um exemplo prototípico o guarda-roupa em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa de C.S. Lewis. A principal diferença entre este tipo de história e o "mundo perdido" acima, é que o reino da fantasia só pode ser alcançado por determinadas pessoas, ou em certas ocasiões, ou após seguir certos rituais ou com o artefato apropriado.

Entre mundos[editar | editar código-fonte]

A maioria das histórias neste formato simplesmente transporta um personagem do mundo real para o mundo de fantasia, onde o grosso da ação tem lugar. Qualquer que seja o meio utilizado (como a cabine de pedágio em The Phantom Tollbooth de Norton Juster), este é esquecido durante o transcorrer da história.

Todavia, em alguns poucos casos a interação entre os mundos é um elemento importante, de modo que o foco não está em um mundo ou outro, mas em ambos e sua interação. Depois que Rick Cook introduziu um programador de computadores num mundo de fantasia, sua série de magia adquiriu constantemente maiores interações entre este mundo e o nosso. Em Doc Sidhe de Aaron Allston, nosso "mundo sombrio" possui um paralelo num "belo mundo" onde vivem elfos cuja história ecoa a nossa. Uma grande parte da trama lida com a prevenção da mudança na interação entre os mundos. Margaret Ball em No Earthly Sunne, retrata a interação do nosso mundo com Faerie, e os esforços da Rainha de Faerie para lidar com a lenta separação entre a Terra e seu mundo. Poul Anderson retrata o Inferno como um universo paralelo em Operation Chaos (Operação Caos, 1971) e a necessidade de transferir massas equivalentes entre os mundos explica o porquê de uma "criança trocada" ser deixado no lugar de uma criança raptada.

Multiversos da fantasia[editar | editar código-fonte]

A ideia de um multiverso é tão fértil como assunto para a fantasia quanto o é para a ficção científica, possibilitando cenários épicos e protagonistas divinos. Entre os mais épicos e mais abrangentes "multiversos" da fantasia está o de Michael Moorcock. Como muitos autores depois dele, Moorcock foi inspirado pela interpretação de muitos mundos da mecânica quântica.

Universo ficcional como universo alternativo[editar | editar código-fonte]

Existem muitos exemplos da ideia meta-ficcional de ter um universo criado pelo autor (ou por qualquer outro autor) sido alçado ao mesmo nível de "realidade" que o universo com o qual estamos familiarizados. O tema está presente em trabalhos tão diversos quanto Silverlock de Myers e Number of the Beast (O Número da Besta) de Heinlein. Fletcher Pratt e L. Sprague de Camp levaram o personagem Harold Shea na série Incompleat Enchanter através dos mundos do mito nórdico, do Faerie Queene de Edmund Spenser, Orlando furioso de Ludovico Ariosto e do Kalevala — sem sequer determinar realmente se os escritores criaram estes mundos paralelos ao escreverem seus trabalhos, ou receberam impressões destes mundos e então as escreveram. Em um interlúdio passado em "Xanadu", um personagem afirma que este universo é perigoso porque o poema ficou inacabado, mas não fica claro se isto é ou não uma interpretação pessoal.

Terra dos elfos[editar | editar código-fonte]

Troll da floresta. (Theodor Kittelsen, 1906)

A Terra dos Elfos ou Faerie, o lar sobrenatural não somente dos Elfos e Fadas, mas de duendes, trolls e outras criaturas folclóricas, tem uma aparência ambígua no folclore.

Outros meios[editar | editar código-fonte]

Televisão[editar | editar código-fonte]

A ideia de universos paralelos tem sido discutida em várias séries de televisão, geralmente como uma história única ou episódio num enredo mais abrangente de ficção científica ou fantasia tais como Fringe[1] uma série de televisão criada por J.J. Abrams, é um drama que explora a tênue linha entre a ficção científica e a realidade. Quando um acidente aéreo ocorre em Boston, matando todos os passageiros e a tripulação de forma chocante, a agente especial do FBI "Olivia Dunham" (Anna Torv) é chamada para investigar. Olivia procura desesperadamente por ajuda e acaba conhecendo o "Dr. Walter Bishop" (John Noble), considerado o Einstein da nossa geração. Só há um problema: Walter esteve internado em uma clínica psiquiátrica pelos últimos 17 anos e a única forma de questioná-lo é pedindo ajuda a "Peter Bishop" (Joshua Jackson), o estranho filho de Walter. Quando a investigação de Olivia a leva à manipuladora executiva de uma megacorporação chamada Massive Dynamic, "Nina Sharp", esse trio improvável vai descobrir que o que aconteceu com o voo 627 é apenas um pedaço de uma verdade maior e mais chocante..

O exemplo mais conhecido e imitado é o episódio da série original de Star Trek intitulado Mirror, Mirror. O episódio apresenta uma versão alternativa do universo de Star Trek, onde os personagens principais são bárbaros e cruéis a ponto de serem malignos.

Filmes[editar | editar código-fonte]

A discussão mais famosa do conceito do universo alternativo em filme poderia ser considerado The Wizard of Oz, de 1939, que representa um mundo paralelo, separando-se o reino mágico da Terra de Oz do mundo comum filmando-o em Technicolor, enquanto as cenas passadas em Kansas foram filmadas em tons de sépia.

HQs[editar | editar código-fonte]

Universos paralelos nos quadrinhos modernos têm se tornado particularmente ricos e complexos, em grande parte devido a problemas contínuos de continuidade encarados pelas duas grandes editoras, Marvel Comics e DC Comics.

Jogos[editar | editar código-fonte]

Uma pequena parte de EarthBound envolve viajar para Moonside, uma versão de universo alternativo da cidade de Fourside.

Lista de ficção utilizando universos paralelos/realidades alternativas[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • H. Beam Piper, o autor da série Paratime, escreveu várias histórias lidando com realidades alternativas baseadas em pontos de divergência no passado distante. As histórias são geralmente escritas da perspectiva de uma equipe policial de uma realidade paralela, a qual está encarregada de proteger o segredo da transposição temporal (no Brasil, Octavio Aragão criou tramas semelhantes em seu universo ficcional da série Intempol).
  • Os livros de Robert A. Heinlein dos anos 1980 desenvolveram a ideia de que todo universo paralelo é a ficção em algum outro universo (em inglês, World is Myth). Assim, os personagens interagem com personagens que, para eles, são ficção, como, por exemplo, a escritora Hazel Stone que interage com o seu personagem heróico John Sterling.

Televisão[editar | editar código-fonte]

  • Sliders lida com um grupo de viajantes involuntários que terminam "escorregando" entre várias Terras paralelas numa tentativa de descobrir o caminho de volta para seu próprio universo. As tramas inclem uma Terra na qual a população é controlada através de uma loteria, uma Terra na qual a maioria dos homens foi exterminada por uma guerra bacteriológica, uma Terra onde dinossauros ainda vivem e uma Terra na qual a população foi convertida em zumbis canibais. De acordo com o personagem principal, Quinn, existe um infinito número de universos onde diferentes decisões únicas foram tomadas de modo diferente, e mesmo um mundo onde a Terra formou-se diferentemente e orbita ao redor do Sol mais lentamente, retardando a linha temporal.
  • Fringe a partir do fim da primeira temporada passa a mostrar uma realidade que se diferencia da realidade que conhecemos em alguns aspectos, onde o telespectador é capaz de ver, por exemplo, as torres gêmeas do WTC intactas no ano de 2008.
  • Black Rock Shooter Kuroi Mato acabou de entrar no fundamental, e no primeiro dia, alguém chama sua atenção, sua colega Takanashi Yomi.Elas são, aparentemente, opostos, mas o tempo que passam juntas apenas fortalece uma amizade crescente. Mas, quando elas entram no segundo ano do fundamental, elas ficam em classes separadas, e começam a ficar distantes uma da outra. Mas em algum lugar ao mesmo tempo… Em outro mundo onde as decisões do mundo real são afetadas diretamente neste mundo alternativo, uma jovem garota com chamas azuis em seus olhos, Black Rock Shooter, enfrenta outra garota, que segura uma foice negra, Dead Master.

E uma batalha para a morte começa a se revelar.

  • Fairy Tail Na saga de Edolas que cobre os volumes 20 ao 24 e os episódios 76 ao 95, a guilda de magos Fairy Tail, juntamente com a cidade de Magnólia, são sugadas por um portal mágico para Edolas, uma dimensão paralela aonde a magia está acabando, e seus habitantes precisam roubar magia da Terra. Natsu, Lucy, Gray, Erza, Wendy, Gajeel, Happy e Charle vão para este mundo para resgatar seus amigos.
  • Futurama Prof.Hubert franswork criar um universo paralelo semelhante ao "nosso"

HQs[editar | editar código-fonte]

  • Vários personagens da DC Comics viviam espalhados nas Terras Paralelas, dimensões que continham sua própria versão do planeta Terra. Este conceito foi extinto.

Jogos[editar | editar código-fonte]

  • O vídeo game Metroid Prime 2: Echoes apresenta o planeta Aether, o qual é atingido por um meteoro. Uma estranha substância energética dentro do meteoro (chamada Phazon), juntamente com a força do impacto, divide a realidade do planeta em dimensões de treva e luz. Samus, a heroína, deve viajar entre as duas dimensões, transferindo energia para a dimensão da luz antes que os dois mundos rivais destruam-se mutuamente.
  • O vídeo game Silent Hill Contém um mundo paralelo ou alternativo, na qual esses mundos são reflexos dos pensamentos e emoções do personagem ou personagens em questão no jogo. Mas, além do "mundo alternativo", os monstros também são reflexos do estado emocional dos protagonistas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

Notas
  1. Fringe
Web

Em inglês[editar | editar código-fonte]

Em português[editar | editar código-fonte]

Bibliografia
  • KAKU, Michio. Hiperespaço: uma odisséia científica através de universos paralelos, empenamentos do tempo e a décima dimensão. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. Série Ciência Atual. ISBN 85-325-1046-9.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Do universo ao multiverso: uma nova visão do cosmos. Petrópolis,RJ: Vozes, 2001. ISBN 85-326-2495-2.