Uso de ferramentas por animais

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Um gorila preparando um graveto para ser utilizado como bengala.

O uso de ferramentas por animais é realizado principalmente por primatas, para executar tarefas simples como a obtenção de alimentos e seu preparo. Originalmente, sendo pensado que unicamente os humanos haviam desenvolvido esta habilidade, o uso de ferramentas requer um determinado nível de inteligência. Alguns primatas têm sido observados enquanto exploravam paus e pedras e usavam-nos para facilitar certas tarefas. Inúmeras espécies de aves também foram reportadas por serem capazes de utilizar algumas ferramentas. Este comportamento também tem sido observado em golfinhos, elefantes, lontras e polvos.

Polegares opostos são um benefício no uso de ferramentas, embora certas criaturas que não possuam mãos consigam utilizar outras partes do corpo, notavelmente a boca.

Tipos de ferramentas[editar | editar código-fonte]

A chave para identificar o uso de uma ferramenta é definir o que constitui a ferramenta. Pesquisadores de comportamento animal chegaram a diferentes formulações.

Um objeto que tem sido modificado para o propósito de adaptação' ou 'um objeto inanimado que alguém usa ou modifica de algum jeito para causar uma mudança no ambiente, facilita assim a conquista de um objetivo alvo'.
Hauser, 2000[1]
O uso de objetos físicos que não sejam do próprio corpo do animal como um meio de estender a influência física realizada pelo animal.
Jones and Kamil, 1973[2]
um objeto conduzido ou mantido para uso futuro
Finn, Tregenza, and Norman, 2009[3]
Um chimpanzé usando uma vara para pegar comida.

As ferramentas mais comuns são varas ou pedaços de pedra.

Uso[editar | editar código-fonte]

O uso de ferramentas implica se um animal tem conhecimento da relação entre objetos e seus efeitos.

Se um objeto é colocado fora do alcance de cães e crianças, sobre uma toalha, o animal e a criança provavelmente puxariam a toalha para trazer o objeto perto deles. Porém, isto mostra o conhecimento sobre a natureza do mundo (memória declarativa) ou a lembrança de regras já aprendidas (processual)?

  • Varas podem ser utilizadas para quebrar um cupinzeiro por comida ou também para lutar com rivais. Também são, às vezes, utilizados para preparação de alimentos.
  • Pedras podem ser utilizadas, novamente, para lutar com rivais. No entanto, eles também podem ser usados para esculpir pedaços de madeira por animais mais inteligentes.

Algumas espécies, como o Tentilhão Pica-Pau das Ilhas Galápagos, usam ferramentas particulares como uma parte essencial de seu comportamento fugitivo. No entanto, estes comportamentos são frequentemente bastante inflexíveis e não podem ser aplicados efetivamente em situações inusitadas. Várias outras espécies mostraram-se serem capazes de utilizar ferramentas mais flexíveis. Um exemplo bem conhecido é a observação de Jane Goodall de um chimpanzés "pescando" cupins em seus ambientes naturais; grandes símios são observados utilizando ferramentas efetivamente; várias espécieis de corvos também têm sido treinados para usar ferramentas em experimentos controlados, ou migalhas de pão como isca de pesca.

Uso de ferramentas por grupos específicos de animais[editar | editar código-fonte]

Primatas[editar | editar código-fonte]

Um gorila utilizando uma vara para medir a profundidade da água no Parque Nacional de Nouabalé-Ndoki, norte do Congo.

Os animais que mais realizam o uso de ferramentas são os humanos, que desenvolveram ferramentas mecânicas, elétricas e eletrônicas para múltiplos propósitos, muito distantes em avanço de mesmo os animais não-humanos mais avançados.

Pesquisas de 2007 mostram que os chimpanzés na savana Fongoli adelgaçam varas para usar como lanças quando caçam, considerada a primeira evidência de uso sistemático de armas em espécies não-humanas.[4] [5] Também foi observado na década de 1970 que chimpanzés usam varas como sondas para coletas formigas e cupins. Eles também foram observados cortando a vara com seus dedos e dentes para que possam caber no buraco do ninho das formigas. Também foram observados usando duas ferramentas, uma vara para cavar o formigueiro e uma 'escova' feita do pecíolo da grama com seus dentes para coletar formigas.[6] Na África Ocidental, os chimpanzés tem sido observados batendo nozes em uma pedra, a fim de quebrá-las. Alguns grupos usam uma outra pedra enquanto outros usam bastões de madeira (varas pesadas). Em um grupo de chimpanzés, foi observado que uma fêmea estavam utilizando uma vara para quebrar uma colmeia de abelhas para adquirir mel.[6] Em uma experiência, um grupo de chimpanzés foram apresentados com um leopardo falso que movia a cabeça. Houve rapidamente uma comoção, visto que os leopardos são um dos predadores dos chimpanzés. Eles então foram observados golpeando o leopardo falso com galhos de uma árvore caída. Continuaram fazendo isto até que o movimento com a cabeça tenha acabado.

Gorilas tem sido observados (como a figura ao lado) usando varas para medir a profundidade da água.

Orangotangos também foram observados usando varas para medir a profundidade da água. Também foi observado que orangotangos em Sumatra usam varas para adquirir sementes de uma determinada fruta. Isto porque o revestimento interior da fruta tem cabelos que aguilhoam. Na ilha de Kaja, um orangotango fêmea foi observado usando uma vara de pescra para adquirir peixe de uma rede após observar humanos locais pescando.[7]

Macacos Cebus foram observaods chocando nozes com duas pedras, a fim de quebrar as nozes.[8] Durante experimentos em cativeiro, os cebus fizeram facas de sílex após chocar um pedaço de sílex contra o chão até ele quebrar e, em seguida, usar o partes menores para cortar uma caixa contendo frutas. Alguns cientistas acreditam que isto não ocorre por causa da inteligência superior dos cebus, mas sim de um efeito interessante de sua natureza agressiva e destrutiva.

Aves[editar | editar código-fonte]

Os corvos são as espécies mais comuns de aves que fazem uso de ferramentas.

Muitas aves mostraram-se capazes de utilizar ferramentas. Pela definição de Jones e Kamil, um abutre-do-egito soltar um osso sobre uma rocha não significa usar uma ferramenta, visto que a rocha não pode ser vista como uma extensão do corpo. No entanto o uso de uma rocha manipulada com o bico para quebrar um ovo de avestruz qualificaria o abutre-do-Egito um usuário de ferramentas. Muitas outras espécies, incluindo papagaios, corvos e uma variedade de passeriformes, têm sido identificados como usuários de ferramentas.[9]

Corvos-da-nova-caledónia foram observados utilizando ferramentas de perfuração com o bico para extrair insetos de troncos. Enquanto aves mais jovens na natureza normalmente aprendem esta técnica dos mais velhos, um corvo de um laboratório, chamado "Betty", improvisou uma ferramenta feita de arame sem experiência prévia.[10] O Tentilhão Pica-Pau das Ilhas Galápagos também usa ferramentas simples, como a vara, para lhe prestar assistência na obtenção de alimentos. Em cativeiro, um jovem Tentilhão do Cacto aprendeu a imitar um comportamento, assistindo um Tentilhão Pica-Pau em uma jaula adjacente. Corvos em cidades do Japão inovaram uma técnica de quebrar nozes de casca dura, soltando-as em na faixa de cruzamento de pedestres na rua e deixando que os automóveis, ao passarem por cima delas, as quebrem. Eles então recuperam as nozes rachadas quando os carros estão parados no sinal vermelho. Em algumas cidades dos Estados Unidos, os corvos soltam as nozes em rodovias movimentadas e esperam que os carros quebrem as nozes. Os socozinhos (Butorides striatus) e as gralhas cinzentas (Corvus cornix) usam iscas para capturar peixes[11] [12] .

Gaivotas jogam conchas de ostras vivas em superfícies duras e pavimentadas para que os carros possam dirigir sobre elas e quebrar a concha. Corvos comuns são uma das poucas espécies que fazem seus próprios brinquedos. Eles foram observados quebrando galhos para brincar socialmente.[13]

Cetáceos[editar | editar código-fonte]

Um golfinho Tursiops surfando na onda de um barco de pesquisa no Rio Banana, Centro Espacial Kennedy.

A partir de 2005, cientistas observaram grupos limitados de golfinhos Tursiops no Oceano Pacífico próximo à costa australiana usando ferramentas básicas. Quando procuram por comida no fundo do mar, muitos desses golfinhos foram vistos arrancando pedaços de uma esponja e envolvendo-os em seu "nariz de garrafa" para prevenir abrasões.[14]

Golfinhos são vistos frequentemente acoplando em comportamento lúdico e criando ferramentas para entretenimento. Eles foram observados soprando bolhas das quais formam anéis para brincar. Após criar o anel de bolha, o golfinho usa seu nariz e corpo para manter a forma da bolha e deixá-la flutuando na superfície.

Elefantes[editar | editar código-fonte]

Os elefantes mostram uma notável capacidade de utilizar ferramentas, apesar de não possiur mãos. Ao invés de disto, eles usam sua trompa como braço. Os elefantes foram observados cavando buracos para beber água e depois rasgando a casca de uma árvore, mastigando-a na forma de uma bola, preenchendo o orifício e cobrindo-o com areia para evitar a evaporação. O elefante, mais tarde, volta ao local para beber mais água. Eles também costumam usar galhos para espantar moscas ou se coçar.[15] Estes animais também foram conhecidos por jogar rochas em cercas elétricas para tanto destruir a cerca quanto cortar a eletricidade.[16] Além disso, há poucos elefantes capazes de pintar retratos incrivelmente realistas quando lhes é dado um pincel, uma tinta e uma tela.

Mustelídeos[editar | editar código-fonte]

Lontras do mar foram observadas usando pedras para martelar conchas. Elas martelavam em uma frequência de 45 batidas em 15 segundos ou 180 bpm.[17]

Invertebrados[editar | editar código-fonte]

Um polvo-coqueiro, primeiro invertebrado documentado a fazer uso de ferramentas, protegendo-se com uma concha.

Desde 2009, o Polvo-coqueiro (Amphioctopus marginatus) é o único invertebrado que foi, conclusivamente, mostrado ter capacidade para usar ferramentas. Pelo menos quatro indivíduos foram testemunhados recuperando cascas de côcos descartadas, manipulando-as, e então reorganizando-as para usar como abrigo. Esta descoberta foi primeiramente documentada no jornal Current Biology e também foi documentado em vídeo.[18] [19] [20] [21] Com certeza, muitos carangueijos usam cascas descartadas de outras espécies para habitação e outros escolhem itens de vegetação para cultivar em suas carapaças como camuflagem e inúmeros insetos usam pedras, areia, folhas e outros materias de construção. Estes animais (por exemplo, formigas, cupins e vespas) coletam objetos externos, transportam-nos, e em muitos casos os transformam para funções particulares.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Jones, T. B. & Kamil, A. C. 1973 Tool-making and tool-using in the northern blue jay. Science 180, 1076–1078.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Hauser, 2000
  2. Jones, T. B. & Kamil, A. C. 1973 Tool-making and tool-using in the northern blue jay. Science 180, 1076–1078.
  3. Finn, Julian K.; Tregenza, Tom; Norman, Mark D. (2009), "Defensive tool use in a coconut-carrying octopus", Curr. Biol. 19 (23): R1069–R1070, doi:10.1016/j.cub.2009.10.052 .
  4. http://desmoinesregister.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20070223/NEWS/702230385/-1/NEWS04
  5. Chimps Use "Spears" to Hunt Mammals, Study Says
  6. a b The Human Ape
  7. "Orangutan attempts to hunt fish with spear", The Daily Mail1, 2008-04-26.
  8. Boinski, S., Quatrone, R. P. & Swartz, H.. (2008). "Substrate and Tool Use by Brown Capuchins in Suriname: Ecological Contexts and Cognitive Bases". American Anthropologist 102 (4): 741–761 pp.. DOI:10.1525/aa.2000.102.4.741.
  9. Nathan J. Emery (2006) Cognitive ornithology: the evolution of avian intelligence. Phil. Trans. R. Soc. B (2006) 361, 23–43 [1]
  10. Crow making tools
  11. Norris (1975), Boswall (1983), Walsh et al. (1985), Robinson (1994)
  12. Bait-Fishing in Crows. Página visitada em 2009-02-07.
  13. Heinrich, B. (1999). Mind of the Raven: Investigations and Adventures with Wolf-Birds pp 282. New York: Cliff Street Books. ISBN 978-0-06-093063-9
  14. Cultural transmission of tool use in bottlenose dolphins. Página visitada em 2006-10-24.
  15. Holdrege, Craig. (Spring 2001). "Elephantine Intelligence". In Context (5). The Nature Institute.
  16. Poole, Joyce. Coming of Age with Elephants. Chicago, Illinois: Trafalgar Square, 1996. 131–133, 143–144, 155–157 pp. ISBN 034059179X
  17. http://marinebio.org/species.asp?id=157
  18. http://news.bbc.co.uk/1/hi/sci/tech/8408233.stm
  19. http://www.edutube.org/video/coconut-shelter-evidence-tool-use-octopuses
  20. "Aussie scientists find coconut-carrying octopus", The Associated Press, 2009-12-15.
  21. Harmon, Katherine. "A tool-wielding octopus? This invertebrate builds armor from coconut halves", Scientific American, 2009-12-14.