Vândalos

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Saque de Roma pelos Vândalos em 455.
Entalhe e policromia em aço de Heinrich Leutemann (c. 1860–1880)

Os Vândalos eram uma tribo germânica oriental que penetrou no Império Romano durante o século V e criou um estado no norte da África ocupando a cidade de Cartago, antiga cidade fenícia que fora ocupada pelos romanos desde o fim das Guerras Púnicas.[1] A localização de Cartago às margens do Mediterrâneo era estratégica para os Vândalos. Ali centralizaram seu Estado, e logo após se estabelecerem, saquearam Roma no ano de 455, destruindo muitas obras primas de arte que se perderam para sempre. [2]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Supostamente do alemão antigo wandeln, "vagar".[3] Uma das várias teorias sobre a origem do nome Andaluzia está ligado aos vândalos, que ocuparam a região (originalmente Vandalusia e depois Al-Andalus), na Espanha temporariamente antes de migrarem para a África.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Origens[editar | editar código-fonte]

Norte da Europa e Báltico no século III
   Cultura Debczyn
   Cultura Przeworsk
   Cultura Wielbark (Godos)
   Cultura báltica (Aesti?)
Mapa mostrando a migração dos vândalos

Os vândalos foram identificados com a cultura Przeworsk no século III. Controvérsias envolvem as potenciais conexões entre os vândalos e outra possivelmente tribo germânica, os Lugii (lygier, lugier ou lígios). Alguns acadêmicos acreditam que ou Lugii era um antigo nome dos vândalos ou os vândalos eram parte da confederação lígia.

A similaridade de nomes sugere como terras natais para os vândalos na Noruega (Hallingdal), Suécia (Vendel) e Dinamarca (Vendsyssel). Supõe-se que os vândalos cruzaram o Báltico entrando nos territórios da atual Polônia em algum momento do século II a.C., e se fixaram na Silésia por volta de 120 a.C.. Tácito registrou a presença dos vândalos entre os rios Oder e Vístula na Germania no ano de 98, corroborado por historiadores posteriores. De acordo com Jordanes, eles e os rúgios foram deslocados com a chegada dos godos. Esta tradição apoia a identificação dos vândalos com a cultura Przeworsk, e desde então a cultura Wielbark gótica substituiu um braço daquela cultura.

Na Idade Média, havia uma crença popular de que os vândalos eram ancestrais dos poloneses. Essa crença teve origem provavelmente devido a dois fatores: o primeiro, por se confundir os vênedos com os vândalos, e o segundo, porque tanto vândalos como vênedos nos tempos antigos viviam nas áreas depois ocupadas pelos poloneses. Em 796, nos Annales Alamanici, pode-se encontrar um resumo dizendo: "Pipinus ... perrexit in regionem Wandalorum, et ipsi Wandali venerunt obvium" ("Pepino partiu à região dos vândalos, e os vândalos não se opuseram a ele"). Nos Annales Sangallenses, a mesma incursão (contudo, datada em 795) é resumida em uma pequena mensagem, "Wandali conquisiti sunt" ("Os vândalos foram conquistados"). Isto significa que os escritores do início da Idade Média deram o nome de vândalos aos ávaros.

Os vândalos se subdividiam nos silingos e nos asdingos. Os silingos viviam na região conhecida por séculos como Magna Germania, na atual Silésia. No século II, os asdingos, liderados pelos reis Raus e Rapt (ou Rhaus e Raptus), deslocaram-se para o sul, e atacaram inicialmente os romanos na região do baixo Danúbio, depois entraram num acordo de paz e se estabeleceram a oeste na Dácia (Romênia) e na Hungria romana.

Em 400 ou 401, possivelmente por causa dos ataques dos hunos, os vândalos juntos com seus aliados, (os alanos sármatas e os suevos germânicos), iniciaram o deslocamento para oeste sob o comando do rei Godgisel. Alguns dos silingos se juntaram a eles depois.

Introdução no Império Romano[editar | editar código-fonte]

Em 400 ou 401, possivelmente por causa de ataques dos Hunos, os vândalos, sob o rei Godigisel, junto com aliados (Sármatas, Alanos e Suevos germânicos) mudaram-se para o oeste no território romano. Alguns dos silingos se juntaram a eles mais tarde. Os Vândalos invadiram a província romana da Récia no inverno de 401/402. A partir disso, o historiador Peter Heather conclui que neste momento os vândalos estavam localizados na região em torno do Danúbio Médio e Superior.[5]

Gália[editar | editar código-fonte]

Os vândalos viajaram para oeste margeando o Danúbio, mas quando eles alcançaram o Reno, encontraram a resistência dos francos, que habitavam e controlavam as possessões romanas no norte da Gália. Cerca de 20 000 vândalos, inclusive o rei Godigisel, morreram na batalha com os francos, mas com a ajuda dos alanos eles conseguiram derrotar os francos, e em 31 de Dezembro de 406, os vândalos cruzaram o Reno para invadir a Gália. Sob o comando do filho de Godgisel, Gunderico, os vândalos pilharam e saquearam seu caminho para oeste e para o sul através da Aquitânia.[6]

Península Ibérica[editar | editar código-fonte]

Os vândalos na península Ibérica, no século V
  Suevos e Vândalos Asdingos
  Vândalos Silingos
  Alanos

Em outubro de 409, os vândalos cruzaram os Pirenéus penetrando na península Ibérica. Lá eles receberam terras dos romanos, como federados, na Galécia (a noroeste) os asdingos, e os Silingos na Bética (no sul), enquanto os Alanos receberam terras na Lusitânia (a oeste) e na região em torno de Nova Cartago. Os vândalos asdingos foram derrotados pelos suevos e romanos nos montes "nervasi" . Gunderico e o seu exército fogem para a Bética, perseguidos pelos romanos, onde Gunderico se tornou rei dos Vândalos Silingos. Ainda, os suevos, que também controlaram parte da Galécia, e os visigodos, que invadiram a Ibéria antes, receberam terras na Septimânia (sul da França), esmagando os Alanos, dos quais os sobreviventes saudaram Gunderico como seu rei.

Reino no Norte da África[editar | editar código-fonte]

O meio irmão de Gunderico, Genserico, começou construindo uma esquadra naval vândala. Em 429, depois de se tornar rei, Genserico cruzou o estreito de Gibraltar e se deslocou a leste com o objetivo secreto de tomar Cartago, a antiga e poderosa cidade fenícia que estava sob controle de Roma desde o fim das Guerras púnicas. Em 435, os romanos haviam lhes concedido alguns territórios no norte da África, mas em 439, Genserico levou a cabo seu plano e ocupou Cartago, que sem resistência caiu ante os vândalos. Genserico então transformou o reino dos vândalos e alanos num estado poderoso. A capital oficial do novo estado era Saldae, atual Bejaia, no norte da Argélia), mas o centro de suas operações era a recém conquistada Cartago, que localizada às margens do Mediterrâneo levou a conquista da Sicília, da Sardenha, da Córsega e das Ilhas Baleares pelos Vândalos.

Consolidação[editar | editar código-fonte]

Como resultado do saque de Roma e à pilhagem no Mediterrâneo, tornou-se importante para o Império Romano destruir o reino vândalo. Tanto o império Ocidental (em 460) quant o Oriental (em 468) enviaram frotas contra os vândalos. Os vândalos capturaram a frota ocidental e destruiu a Oriental usando navios de fogo .[7] Após o ataque, os vândalos tentaram invadir Peloponeso, mas foram rechaçados pelos maniotas em Cenípolis com pesadas perdas.[8] Em retaliação, os vândalos tomaram 500 reféns em Zaquintos, os cortaram e jogaram seus pedaços no mar a caminho de Cartago.[8]

Em 470, os romanos abandonaram sua política de guerra contra os vândalos. O general do império ocidental Ricimero chegou a um acordo com eles,[7] e em 476 Genserico foi capaz de concluir uma "paz perpétua", com Constantinopla. As relações entre os dois estados assumiram uma aparência de normalidade.[9] De 477 em diante, os vândalos produziram sua própria moeda, restrito às moedas de baixa denominação feitas de bronze e prata. O dinheiro imperial de alta denominação foi mantido, demonstrando, nas palavras do historiador Merril "relutância em usurpar a prerrogativa imperial".[10]

Embora os vândalos tinham rechaçado ataques de romanos e assim conquistando hegemonia sobre as ilhas do Mediterrâneo ocidental, eles foram menos bem sucedidos em seu conflito com os Berberes. Situados ao sul do reino vândalo, os berberes infligiram duas grandes derrotas nos vândalos no período de 496-530.[7]

Saque de Roma[editar | editar código-fonte]

Genserico saquando Roma
Pintura de Karl Briullov (1833-1836)

Em 455, os vândalos tomaram Roma e saquearam a cidade por duas semanas, começando em 2 de Junho. Eles partiram com valores incontáveis. Em 468, resistiram ao ataque de uma grande frota enviada contra eles pelo Império Romano do Oriente.

Tensões religiosas[editar | editar código-fonte]

Por volta do ano de 400, os vândalos já haviam sido cristianizados. Muitos, como os godos já o haviam feito, adotaram o Arianismo, uma corrente que negava a Santíssima Trindade, em oposição à principal corrente do Cristianismo do Império Romano.

As diferenças de visão entre os arianos adotada pelos vândalos e a principal corrente eram uma constante fonte de tensões no estado africano. A maioria dos reis vândalos, exceto Hilderico, perseguiu os católicos trinitários, assim como os seguidores do donatismo, outra corrente cristã. Embora o catolicismo fosse raramente proibido oficialmente (com os últimos meses do reinado de Hunerico sendo uma exceção), eles eram proibidos de fazer conversões entre os vândalos.

Declínio[editar | editar código-fonte]

Reino Vândalo-Alano em 526.

Com a morte de Genserico em 477, seu filho Hunerico se tornou rei. O reinado de Hunerico foi mais notável por suas perseguições religiosas contra os maniqueístas e os católicos. Guntamundo (486-496) buscou a paz interna com os católicos. No campo externo, o poder vândalo havia declinado desde a morte de Genserico e Guntarmundo perdeu grandes partes da Sicília para os ostrogodos, sendo obrigado a se opor à crescente pressão dos mouros.

Os vândalos aliaram-se por casamento com os godos no reinado de Teodorico, o Grande, rei dos ostrogodos e regente dos visigodos.

Hilderico (523-530) foi o mais amistoso dos reis vândalos em relação aos católicos. Contudo, ele tinha pouco interesse na guerra, deixando esse assunto para um membro da sua família, Hoamer. Quando Hoamer sofreu uma derrota contra os mouros, a facção ariana dentro da família real liderou uma revolta, e Gelimero (530-533) se tornou rei. Hilderico, Hoamer e seus parentes foram mandados à prisão.

Fim turbulento[editar | editar código-fonte]

O imperador bizantino Justiniano I declarou guerra aos vândalos. A ação foi liderada por Belisário. Tendo ouvido que a maior parte da frota vândala estava em combate numa revolta na Sardenha, ele desembarcou em solo tunisiano e avançou em direção de Cartago. No final do verão de 533, o rei Gelimero encontrou Belisário a dezesseis quilômetros ao sul de Cartago na Batalha de Cartago. Os vândalos estavam vencendo a batalha, mas quando o sobrinho de Gelimero, Gibamundo, caiu na batalha, os vândalos desistiram e fugiram. Belisário tomou Cartago enquanto os vândalos sobreviventes ainda lutavam.

Em 15 de dezembro de 533, Gelimero e Belisário novamente se enfrentaram em Tricamaro, a cerca de 32 quilômetros ao sul de Cartago. Novamente, os vândalos estavam vencendo mas falharam, desta vez quando Tzazo, o irmão de Gelimero, caiu na batalha. Belisário avançou para Hipona (atual Annaba, na Argélia), segunda cidade em importância do reino vândalo. Em 534 Gelimero se rendeu ao conquistador romano, pondo fim ao reino dos vândalos.

Lista de reis[editar | editar código-fonte]

  1. Godigisel (-407)
  2. Gunderico (407-428)
  3. Genserico (428-477)
  4. Hunerico (477-484)
  5. Guntamundo ou Gunthamund (484-496)
  6. Trasamundo ou Thrasamund (496-523)
  7. Hilderico (523-530)
  8. Gelimero (530-534)
  9. Fredibal capturado e enviado ao imperador bizantino Honório

Língua vândala[editar | editar código-fonte]

Muito pouco é conhecido sobre a língua vândala em si, que era do ramo linguistico das lingua germanica. Os godos deixaram para trás apena um corpus de texto do tipo da língua germânica do leste: uma tradução de Evangelhos do século IV.[11]

Legado[editar | editar código-fonte]

O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII,[12] , em janeiro de 1794[13] , por Henri Grégoire,[14] [15] bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado de "feudalismo", "tirania da realeza" e "preconceito religioso", durante o Reino do Terror.[13] Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato".[16]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History of Rome and the Barbarians, (Oxford University Press, 2006), 378.
  2. *Procopius, 'The Vandalic War' in The History of the Wars, Books III & IV, trans. H.B Dewing (Cambridge; Mass. 1916)
  3. Isaac Taylor. Words And Places Or Etymological Illustrations of History, Ethnology And Geography. [S.l.]: Kessinger Publishing, jan/2005. p. 52. ISBN 978-1-4179-7157-2
  4. "O Vãndalos podem ter dado seu nome para a região de Andalusia, que de acordo com várias teorias de sua etimologia poderia ter sido a fonte de Al-andalus - o nome em árabe da península Ibérica." Everett C. Borders. Apart Type Screenplay. [S.l.]: Xlibris Corporation, 3/09/2010. p. 95. ISBN 978-1-4535-5940-6 (em inglês)
  5. Heather 2005, p. 195
  6. UMBERTO ECO. Idade Média – Bárbaros, cristãos e muçulmanos. [S.l.]: Leya, 28/fev/2012. p. 60. ISBN 978-972-20-4992-4
  7. a b c Collins 2000, p. 124
  8. a b Greenhalgh & Eliopoulos 1985, p. 21
  9. Bury 1923, p. 125
  10. Merrills 2004, pp. 11–12
  11. Mallory & Adams 1997, pp. 217, 301
  12. Editor Gamal Mokhtar. História Geral da África – Vol. II – África antiga. [S.l.]: UNESCO, 2010. p. 548. ISBN 978-85-7652-124-2
  13. a b A Critical Dictionary of the French Revolution. [S.l.]: Harvard University Press, 1/jan/1989. 860–865 pp. ISBN 978-0-674-17728-4 (em inglês)
  14. Françoise Choay. A alegoria do patrimônio. [S.l.]: UNESP, 2001. p. 95. ISBN 978-85-7448-030-5
  15. "...foi Gregòire quem primeiro uso o termo vandalismo para se referir a destruição de coisas belas."Encyclopedia Of The Enlightenment. [S.l.]: Infobase Publishing, 2004. p. 246. ISBN 978-0-8160-5335-3 (em inglês)
  16. Rebecca Knuth. Burning Books And Leveling Libraries: Extremist Violence And Cultural Destruction. [S.l.]: Greenwood Publishing Group, 1/jan/2006. p. 4. ISBN 978-0-275-99007-7