Vacina do sapo

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A Vacina do Sapo é o nome popular para a aplicação das secreções produzidas pela "rã" Kambô (Phyllomedusa bicolor) em pequenos ferimentos produzidos artificialmente nos braços ou nas pernas de uma pessoa, para que as substâncias presentes na pele do animal penetrem na circulação sanguínea.

O procedimento é realizado por xamãs indígenas ou curandeiros designados por "sapeiros" no norte do Brasil e integra o conjunto de práticas da medicina indígena praticada na Amazônia.

Observe-se que o tratamento com venenos ou substancias relativamente tóxicas, encontradas em animais, não é nenhuma novidade na história da medicina e nem nos sistemas etnomédicos, com base nestas práticas, houve adaptações para a medicina moderna. Substâncias extraídas das abelhas (Apis melífera) há muito são utilizadas em preparados da homeopatia e a "ferroada" da própria abelha, viva, é usada na - Apiterapia.

Na medicina moderna o veneno das serpentes, a exemplo da jararaca (Bothrops) se derivou o medicamento Captopril (Capoten) produzido pela Bristol Meyrs) e da saliva de lagartos como o monstro de gila (Heloderma) se pesquisa um remédio para diabetes, Recentemente o FDA aprovou dois anticoagulantes para utilização em casos de AVC retirados da víbora da Malásia e morcêgo vampiro.[1] [2]

Tradição indígena[editar | editar código-fonte]

A aplicação da vacina do sapo tem origem em várias tribos indígenas da Amazônia, incluindo kanamaris, katukinas, caxinauás, matsés, marubos, matis, yaminawa, ashaninka e os culinas.[3] [4] [5]

Segundo as tradições desses povos indígenas, o ritual acerca de seu uso visa a acabar com a má sorte na pesca e na caça e também para acabar a "panema", o estado de espírito negativo que causa doenças.[6] [7] [8] [9]

É interessante observar que panema é uma palavra da língua tupi e a maioria das tribos que atualmente utilizam as secreções do kambô (palavra de língua Pano) falam idiomas de outros troncos lingüísticos, a saber: Kanamaris,Katukinas, Kaxinawa, Matis; Marubos; Matses; Yaminawa que falam dialetos da língua Pano; os Kampa ou Ashaninka, a língua Aruaque e os Kulinas de língua Aruá (com semelhanças ao Tupi). reforçando a idéia da livre circulação dos pajés entre etnias.

Segundo Akaiê Sramana [10] entre os Kaxinawás, o sapo kampu era o chefe do "nixi pëi", bebida preparada com o cipó Banisteriopsis caapi (mesmo cipó que produz a Ayahuasca). Os Katukinas nunca os matam, pois dizem que poderão ser picados por cobras, e nesse caso o antídoto é a toxina retirada do sapo kambô. Para os Ashaninkas, quando o sapo wapapatsi canta perto da casa, o dono tem que apanhá-lo, queimar os pulsos e dormir, Neste grupo indígena é utilizado com um mingau forte em um ritual, que, segundo a crença se não cumprindo, o remédio não terá resultado.

As pesquisadoras Lima e Labate [11] assinalam que paralelo a expansão do uso entre seringueiros e mais recentemente no meio urbano alguns grupos indígenas feio os nuquini e poyanawa reiniciaram a sua utilização a partir de influências de grupos indígenas vizinhos que mantiveram o uso da secreção ao longo dos anos como os katukina, yawanawá, kaxinawá, marubo e matsés nos estados do Acre e Amazonas. Essas mesmas autoras resgataram a descrição o missionário Constantin Tastevin feita a 80 anos, relatando o uso da secreção dessa "rã" conhecida, nas línguas pano, como kampo oukampu entre as que populações indígenas do Alto Juruá:

...o exército de batráquios é incontável. O mais digno de ser notado é o campon dos Kachinaua. [...] Quando um indígena fica doente, se torna magro, pálido e inchado; quando ele tem azar na caça é porque ele tem no corpo um mau princípio que é preciso expulsar. De madrugada, antes da aurora, estando ainda de jejum, o doente e o azarado produzem-se pequenas cicatrizes no braço ou no ventre com a ponta de um lição vermelho, depois se vacinam com o "leite" de sapo, como dizem. Logo são tomados de náuseas violentas e de diarréia; o mau princípio deixa o seu corpo por todas as saídas: o doente volta a ser grande e gordo e recobra as suas cores, o azarado encontra mais caça do que pode trazer de volta; nenhum animal escapa da sua vista aguda, o seu ouvido percebe os menores barulhos, e a sua arma não erra o alvo [12]

Uso nos centros urbanos[editar | editar código-fonte]

O misticismo gerado pela exploração midiática destas experiências e por "natural" imitação do uso da râ Kambo nas tribos indígenas (modas culturais) a utilização da secreção de anuros, possivelmente dessa espécie (Phyllomedusa bicolor), resultou na incorporação dessa prática a alguns tratamentos desprovidos de comprovação científica nos centros urbanos. Pouquíssimas pesquisas clínicas foram realizadas para apoio à medicina tradicional por autoridades sanitárias responsáveis pela saúde da população indígena. Nesse sentido, a principal medida governamental foi a proibição do uso e publicidade comercial da vacina do sapo. Proibida no Brasil desde 2004 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)[6] . em função da identificação das substâncias contidas na secreção da rã Kambo como potencialmente venenosas, responsáveis por sintomas como diarréia, vômitos, taquicardia, podendo levar ao óbito de pessoas saudáveis por overdose ou imunologicamente susceptíveis por anafilaxia.

A consciência dos riscos e conhecimento de medidas de urgência e emergência médica deveria ser difundido mesmo entre as populações indígenas. Pesquisas devem ser feitas por especialistas para entrever o modo como os indígenas lidam com tais situações, se provavelmente ocorrem e/ou se há especificidades de susceptibilidade imunológica associada à características raciais. De qualquer sorte o entendimento do sistema etnomédico indígena não deve descartar sua integração a outras práticas tidas como xamânicas por setores de nossa sociedade capazes tanto de influenciar as culturas indígenas como de serem influenciados por elas.

O modo como o governo chinês lidou com a medicina tradicional chinesa na criação dos médicos de pés descalços ainda é um exemplo para o mundo e deve ser considerado na formação dos agentes de saúde indígenas e ou na normatização da formação de terapeutas, nesse caso os "sapeiros" onde se incluem xamãs indígenas que passaram a aplicar tais procedimentos tanto em suas tribos como nos centros urbanos.[13]

Pesquisa de medicamentos[editar | editar código-fonte]

Cerca de 20 patentes já foram realizadas no passado a partir das substâncias presentes na vacina do sapo.[7] [14] A maioria dos estudos iniciados nos anos 80 foram abandonados pois nenhuma melhoria dos pacientes foi observada no tratamento com essas substâncias e/ou não há vantagens no investimento de sua produção industrial. Contudo novos medicamentos estão sendo desenvolvidos a partir de novos estudos do potencial dessas substâncias para fins medicinais.

Phyllomedusa bicolor (Cambo) do Houston Zoo

Segundo a Amazon Link existem registradas (até 2003) as seguintes patentes sobre a composição da secreção (as diversas frações de neuropeptídeos) e seus possíveis efeitos sobre a imunidade, lesões hepáticas, circulação e em quadros isquêmicos e, a saber:

Univ Kentucky Res Found (USA): Protection against ischemia and reperfusion injury (2003) Method for treating ischemia (1999) Method for treating cytokine mediated hepatic injury (1999) ver Google Patent

Univ Kentucky Res Found & ZymoGenetics (USA): Method for treating cytokine mediated hepatic injury (2002) ver Google Patent Method for treating ischemia (2001)

ASTRA AB (SE): Dermorphin analogs having pharmacological activity (1997) ver: Google Patents

IAF BIOCHEM INT (CA): Dermorphin analogs, their methods of preparation, pharmaceutical compositions, and methods of therapeutic treatment using the same (1990)

DAINIPPON PHARMACEUT CO LTD Japão: Dermorphin-related peptide (1989)

Pesquisadores:

Bishop Paul D; Kindy Mark S; Oeltgen Peter R; Sanchez Juan A. (USA): Use of d-leu deltorphin for protection against ischemia and reperfusion injury (2002)

Mor; Amram (Jerusalem): Peptides for the activation of the immune system in humans and animals (2002) ver Google Patents

Ainda segundo Michael F. Schmidlehner, presidente da amazonlink ss recentes pesquisas revelaram que a secreção de Phyllomedusa bicolor contém uma série de substâncias altamente eficazes, sendo as principais: a dermorfina e a deltorfina (ja produzidas de forma sintética e comercializadas), pertencentes ao grupo dos peptídeos. Estes dois peptídeos eram desconhecidos antes das pesquisas de Phyllomedusa bicolor. Dermorfina é um potente analgésico e deltorfina pode ser aplicada no tratamento da Ischemia, ou seja, um tipo de falta de circulação sanguínea e falta de oxigênio, que pode causar derrames. As substâncias da secreção do sapo também possuem propriedades antibióticas e de fortalecimento do sistema imunológico e ainda revelaram grande poder no tratamento do mal de Parkinson, aids, câncer, depressão e outras doenças.[15] Naturalmente a guerra de lobies e interesses comerciais e/ou preconceitos de razões diversas distorcem o real valor medicinal de tal produto.

Espécies do gênero[editar | editar código-fonte]

Outras espécies[editar | editar código-fonte]

Possivelmente espécies do mesmo gênero apresentam substancias semelhantes em suas secreções. Sabe-se que diversas espécies de Anuros apresentam substancias tóxicas em sua estrutura corporal, algumas destas extraídas da família Bufonidae em especial do gênero Bufo especialmente da pele seca do Bufo gargarizans também já foram utilizadas na medicina chinesa com o nome de Chan’su (Senso em japonês) para dor de cabeça, sinusite e hemorragias causadas por abscesso nas gengivas. Hoje em dia já se reconhece as propriedades anestésicas e vasoconstritoras (que pode estacar sangramentos) de alguns das substancias extraídas de sapos do gênero bufo (Bufaginas) além das conhecidas Bufoteninas classificada como modificador das funções cerebrais (Psicodisléptico) também encontradas em outras espécies do gênero Bufo como o nosso sapo cururu.

A espécie Phyllobates terribilis conhecida como sapo do veneno de flecha possuem uma substancia chamada Batrachotoxina presente nas glândulas espalhadas por seu corpo. Apenas 136 microgramas (0,1 – 0,2 mg), o que eqüivale a dois ou três grãos de sal de cozinha (NaCl), são capazes de matar uma pessoa de 68 Kg por paralisia dos músculos respiratórios.

Alguns índios que habitam a região noroeste da América do Sul entre a cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, feito os Emberá de língua Chocó que vivem nas florestas que hoje pertencem a Colômbia, utilizam dardos envenenados com as secreções do Phyllobates terribilis em suas zarabatanas para caçar.[16] [17] [18]

Ver Também[editar | editar código-fonte]

Aldeia Caxinauá no Acre

Referências

  1. Ioirich, N. P. As abelhas, farmacêuticas com asas. Tradução Mir 1981, (2ª Ed.). Moscou,URSS, Editora Mir, 1986
  2. Schmidt, Márcia. Venenos também curam. Ecologia e Desenvolvimento, Ano 5, nº52, (4-15), RJ, junho 1995
  3. Kambô: a vacina do sapo (Abril de 2006). Página visitada em 2008-04-26.
  4. Enciclopédia Mirador Internacional, Anfíbios V2 (551-560) SP, Encyclopaedia Britannica do Brasil / Melhoramentos, 1987
  5. Costa, Paulo Pedro P. R. A Vacina do Sapo, toxinologia e o uso etnomédico de venenos animais. Portal Pluridoc
  6. a b Homem morre no interior de SP após usar 'vacina do sapo' Estadão (25 de abril de 2008). Página visitada em 2008-04-25.
  7. a b Tatiana Diniz (03/11/2005). Apesar de proibida, pacientes recorrem à vacina do sapo Folha Online. Página visitada em 2008-04-26.
  8. Gorman, Peter Making Magic, A Westerner Glimpses One of the Secrets of a Tribe of Hunter-Gatherers in the Amazon - originally in Omni Magazine in July, 1993 -http://www.pgorman.com/MakingMagic.htm, 2004
  9. Labate, Bia. O Pajé que virou sapo e depois promessa de remédio patenteado. -http://www.antropologia.com.br/ Coluna, Edição nº 27, SP, abril de 2005
  10. Sramana, Akaiê. Kambo - A vacina do sapo Art. publicado no site Portal Xamanismo Ancestral
  11. Lima, Edilene C; Labate, Beatriz C. A expansão urbama do kampo (Phyllomedusa bicolor): notas etnográficas. Labate, B. C. et al (org) Drogas e cultura, novas perspectivas. Ba, Salvador, EDUFBA, 2008 em PDF
  12. Tastevin, Constantin. Le Fleure Muru, La geographie, Tomo XLIII & XLIV, 1925, (p. 19-20) in:Lima, Edilene C; Labate, Beatriz C. A expansão urbama do kampo (Phyllomedusa bicolor): notas etnográficas. Labate, B. C. et al (org) Drogas e cultura, novas perspectivas. Ba, Salvador, EDUFBA, 2008
  13. Lima, Edilene C; Labate, Beatriz C. o.c.
  14. O Caso da Rã Phyllomedusa Bicolor - Vacina do Sapo Limites Éticos (22 de agosto de 2007). Página visitada em 2008-04-26.
  15. Schmidlehner, Michael F. (org) Registros de patentes relacionados à rã Phylomedusa bicolor. AC, 2003 amazonlink
  16. Guizburg, C. História noturna. SP, Cia das Letras 1991
  17. Martins, M.; Sazima I.. Dendrobatídeos, cores e venenos. RJ,1989 Ciência Hoje v 9 nº 53
  18. Costa Paulo Pedro R. o.c. Portal Pluridoc