Via Egnácia

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Rota da Via Egnácia.

A via Egnácia (em grego: Ἐγνατία Ὁδός; em albanês: Rruga Egnatia; em macedônio: Виа Игнација) foi uma estrada construída pelos romanos por volta do século II a.C., na península Balcânica. Atravessava as províncias romanas do Ilírico, Macedônia e Trácia, territórios que hoje fazem parte dos estados modernos da Albânia, Macedônia, Grécia e Turquia europeia. A partir de Dirráquio (atual Durrës), no mar Adriático, a estrada seguia um caminho difícil ao longo do rio Genuso (Shkumbin), acompanhando as montanhas Candávias (Jablanica), e daí para as terras altas ao redor do lago de Ácrida. Em seguida, virava para o sul, atravessando grandes montanhas até chegar ao litoral norte do mar Egeu em Tessalônica. De lá, percorria a Trácia até Bizâncio (depois Constantinopla, hoje Istambul),[1] cobrindo uma distância total de cerca de 1 120 quilômetros (746 milhas romanas). Como outras grandes estradas romanas, possuía cerca de seis metros de largura e era pavimentada com grandes lajes de pedra ou poligonais cobertas com uma camada dura de areia.[2]

A via teve grande importância militar para os romanos e foi utilizada por legiões romanas durante as campanhas militares da Guerra Civil Cesariana, Guerra Civil dos Liberatores e na perseguição de Cássio e Bruto que culminou na batalha de Filipos. Após o século V caiu em desuso e por alguns períodos sua conservação era deficiente porém foi revivida pelo Império Bizantino tornando-se a principal rota comercial com a Europa Oriental. Após um período de indisponibilidade durante os séculos VI e VII devido a invasão dos povos eslavos, voltou a ser utilizada após o século IX constituindo num importante caminho militar que incluiu as campanhas das Cruzadas e das invasões ocidentais ao Império Bizantino durante as guerras bizantino-normandas.

Construção[editar | editar código-fonte]

Antiga via Egnácia perto de Neápolis (atual Cavala)
Ponte romana em Filipos. Os pavimentos à direita eram da via Egnácia

As principais fontes literárias sobre a construção da estrada são a obra Geografia de Estrabão e uma série de marcos encontrados ao longo da rota. Consta nas inscrições bilíngues dos marcos que Cneu Egnácio, procônsul da Macedônia, ordenou a construção da estrada, embora a data exata seja incerta; presume-se que a via tomou emprestado o nome de seu construtor.[3] Ela pode ter sucedido uma antiga estrada militar que ia da Ilíria até Bizâncio, descrita por Políbio e Cícero, a qual os romanos aparentemente reformaram e/ou construíram a nova rota aproveitando o trajeto da anterior.[4]

A via Egnácia, construída nos anos 130 a.C., foi projetada para servir como rota militar dado que a Macedônia era deficitária de uma via eficiente para transporte de soldados e suprimentos.[5] Sua parte ocidental foi aberta por volta de 146 a.C., quando a Macedônia se tornou uma província romana, e em 120 a.C. Políbio a mencionou em suas histórias;[6] [7] antes de sua construção, as comunicações via Macedônia se davam por estradas menores que percorriam as montanhas, havendo uma que ligava Tessalônica a Dirráquio.[8] No leste seu terminal foi Cípsela, enquanto no oeste foram Dirráquio e Apolônia. Os terminais da via Egnácia e da via Ápia (Brundísio), que levavam à própria Roma, ficavam quase em frente um do outro nas costas leste e oeste na travessia do mar Adriático. O caminho, portanto, deu às colônias dos Bálcãs do sul uma ligação direta até Roma.[9]

Em seu percurso original contou com 535 mi (861 km) e passou através das mais importantes cidades da Macedônia: Lichnidos, Heracleia Linceste, Florina, Edessa, Pela, Tessalônica, Anfípolis, Filipos e Neápolis (atual Cavala). Quando os romanos começaram a enviar seus exércitos em direção à Trácia, um novo trecho foi aberto, ligando Cípsela à Heracleia Perinto e Bizâncio, no Bósforo, o que ampliou-a em 200 mi (322 km). Além destas, novas cidades foram fundadas em seu percurso: Trajanópolis,[10] Claudiana, Mânsio Escampa,[11] Melantias.[12] Com o tempo, a medida que a via Egnácia adquiriu mais importância, principalmente econômica, pousadas, correios, estábulos, restaurantes e outros estabelecimentos necessários foram construídos para agilizar a passagem de expedições oficiais e atender aos viajantes. Porém, mesmo com estes recintos, as viagens não foram sempre fáceis. Durante o inverno o clima tornava quase impraticável seu uso. O banditismo era frequente e durante ações militares, os civis foram proibidos de usá-la. Além disso, não era reparada com muita frequência uma vez que os proprietários de terra, que eram responsáveis pela manutenção dos trechos pertencentes às suas propriedades, frequentemente preferiam descumprir seu dever.[10] Isto levou de tempos em tempos à uma intervenção do governo, porém, mesmo sob seus auspícios, foi neglicenciada em alguns períodos como, por exemplo, durante as guerras civis romanas.[9]

História[editar | editar código-fonte]

Era romana e bizantina[editar | editar código-fonte]

Constantinopla, o terminal oriental da via Egnácia

A estrada foi usada pelo apóstolo Paulo em sua segunda viagem missionária para ir de Filipos a Tessalônica (Atos 16-17).[13] Ela também desempenhou um papel vital em vários momentos-chave na história romana: os exércitos de Júlio César e Pompeu marcharam ao longo da via Egnácia durante a Guerra Civil Cesariana e, durante a Guerra Civil dos Liberatores, Marco Antônio e Otaviano perseguiram Cássio e Bruto ao longo da Via Ápia até o fatídico encontro na batalha de Filipos.[9] Registros sobreviventes de marcos revelam que o imperador Trajano realizou extensos reparos da estrada antes de sua campanha de 113 contra os partas. No entanto, por volta do século V, a estrada tinha caído em desuso em grande parte como resultado da violenta instabilidade na região;[3] um historiador do século V observou que as seções ocidentais da via Egnácia estavam num estado tão ruim que viajantes mal conseguiam passar.[14] Neste momento os Bálcãs foram por diversas vezes ameaçados e pilhados por exércitos bárbaros principalmente ostrogóticos. Diz-se que Teodorico, o Grande (r. 474–526), após realizar um infrutífero ataque à Tessalônica em 479, marchou com seu povo pela via Egnácia em direção à Heracleia Linceste.[15]

Nos anos posteriores, a via Egnácia foi revivida como um caminho fundamental do Império Bizantino; Procópio registra reparos feitos pelo imperador bizantino Justiniano (r. 527–565) no século VI, porém, mesmo assim, o caminho ainda era praticamente inutilizável durante o tempo chuvoso;[3] nota-se, através de evidências residuais, que muitas instâncias da via seguiram o padrão dos assentamentos locais e foram fortificadas.[16] Quase todo o comércio bizantino por terra com a Europa Ocidental viajava pela via Egnácia. Ela atravessava a península Balcânica lateralmente de Constantinopla para o mar Adriático, através de Tessalônica e Edessa. A estrada continuou a ser usada durante todo o período bizantino como uma das principais estradas de e para o Ocidente, porém sua importância oscilou com o tempo. A partir do séculos VI-VII várias porções dos Bálcãs foram tomadas pelos eslavos, o que impossibilitou seu uso. No século IX, o tráfico pela via Egnácia voltou a ser possível, ao menos no trecho entre Constantinopla e Tessalônica, como atestado pela jornada de São Gregório de Decápolis no começo dos 830. Embora não seja possível determinar qual dentre as rotas em direção à Constantinopla a delegação de Luís II de França (r. 877–879) para Basílio I, o Macedônio (r. 867–886) ou o legado do papa Adriano II para o Concílio de Constantinopla tomaram, é certo que na viagem de volta à Europa Ocidental ambos percorreram o trajeto completo da via Egnácia.[17] Nos séculos XI-XII a via Egnácia foi novamente completamente aberta para o trânsito de exércitos e civis[17] havendo, por exemplo, o registro que a noiva de Manuel I Comneno, Berta de Sulzbach, usou a via Egnácia para ir até Constantinopla.[18] Durante as Cruzadas, os exércitos que viajaram para leste por terra seguiram o caminho para Constantinopla antes de cruzar para a Anatólia. Na sequência da Quarta Cruzada, o controle da estrada era vital para a sobrevivência do Império Latino, bem como para os sucessores do Império Bizantino: o Império de Niceia e o Despotado do Épiro.[9] Após a retomada de Constantinopla em 1261 e o restabelecimento do Império Bizantino, e durante todo a história final do império, apenas a seção mais oriental da via permaneceu em uso regular.[17]

Pós-Império Bizantino e atualmente[editar | editar código-fonte]

Rota da rodovia Egnatia Odós

A Via Egnácia foi particularmente importante quando das invasões ocidentais do Império Bizantino, em especial nos séculos XI-XII, no contexto das guerras bizantino-normandas.[19] [20] Quando os normandos atacaram Dirráquio em 1081, projetaram marchar ao longo da estrada para Constantinopla. Em 1185, Guilherme II da Sicília (r. 1166–1189), após saquear Dirráquio e usar a via Egnácia, marchou para Tessalônica que foi capturada e saqueada. Carlos I da Sicília (r. 1226–1285), visando realizar feito semelhante, conseguiu conquistar, com o apoio dos nobres albaneses, várias cidades costeiras bizantinas em 1272 e Dirráquio em 1274.[18] Todavia, falhou em conquistar Berat, na Albânia, durante o Cerco de Berat em 1280-1281.[21] [22]

Atualmente uma rodovia, Egnatía Odós (em grego: Εγνατία Οδός), foi batizada em homenagem à via Egnácia.[23] Diferente da via original, esta faz um percurso mais ao sul, ligando Tessalônica com Igumenitsa, na unidade regional de Tesprócia. Esta não passa por Filipos, e mantem-se num percurso próximo da costa entre Anfípolis e Cavala.[5]

Referências

  1. Talbert 2000, p. 749
  2. Koytcheva 2006, p. 54
  3. a b c Horsley 1982, p. 81
  4. Witherington III 2006, p. 3
  5. a b Roisman 2011, p. 264-265
  6. McRay 2008, p. 283
  7. Kellogg 1902, p. 318
  8. Roisman 2011, p. 78
  9. a b c d Malkin 2013, p. 266-268
  10. a b Roisman 2011, p. 266
  11. Tafel 1837, p. 13
  12. Melantias (em inglês). Página visitada em 18-09-2013.
  13. Soards 1987, p. 47
  14. Haldon 1999, p. 54
  15. Roisman 2011, p. 556
  16. Roisman 2011, p. 565
  17. a b c Jeffreys 2008, p. 298
  18. a b Rosser 2012, p. 491
  19. Geanakoplos 1959, p. 49–50; 235
  20. Setton 1976, p. 81; 109-110
  21. Bartusis 1997, p. 63
  22. Nicol 1993, p. 65-66
  23. Bernard 2004, p. 1

Notas[editar | editar código-fonte]

Biografia[editar | editar código-fonte]

  • Bartusis, Mark C.. The Late Byzantine Army: Arms and Society 1204–1453.. Filadélfia: Pennsylvania University Press, 1997. ISBN 0-8122-1620-2
  • Bernard, Erik Stefan. Shotcrete - More Engineering Developments (em inglês). Cairns, Queensland: CRC Press, 2004. 304 pp. ISBN 0203023382
  • Geanakoplos, Deno John. Emperor Michael Palaeologus and the West, 1258–1282: A Study in Byzantine-Latin Relations. Cambridge: Harvard University Press, 1959.
  • Haldon, John F.. Warfare, State and Society in the Byzantine World. [S.l.]: Routledge, 1999. ISBN 1-85728-495-X
  • Horsley, G. H. R.. New Documents Illustrating Early Christianity. [S.l.]: Wm. B. Eerdmans Publishing, 1982. ISBN ISBN 0-8028-4511-8
  • Jeffreys, Elizabeth; John F. Haldon; Robin Cormack. The Oxford Handbook of Byzantine Studies. [S.l.]: Oxford University Press, 2008. ISBN 0199252467
  • Kellogg, Day Otis; Smith,William Robertson. In: Thomas Spencer Baynes. The Encyclopaedia Britannica: latest edition. A dictionary of arts, sciences and general literature, Volume 23. [S.l.]: Werner, 1902.
  • Koytcheva, Elena. In: Elizabeth Jeffreys. Proceedings of the 21st International Congress of Byzantine Studies. [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd, 2006. Capítulo: Logistical problems for the movement of the early crusaders through the Balkans: transport and road systems. , ISBN 0-7546-5740-X
  • Malkin, Irad; Constantakopoulou, Christy; Panagopoulou, Katerina. Networks in the Ancient Mediterrane. [S.l.]: Routledge, 2013. ISBN 1317991141
  • McRay, John. Archaeology and the New Testament. ilustrada, reimpressão ed. [S.l.]: Baker Academic, 2008. ISBN 0801036089
  • Nicol, Donald MacGillivray. The Last Centuries of Byzantium, 1261–1453. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. ISBN 0-521-43991-4
  • Roisman, Joseph; Ian Worthington. A Companion to Ancient Macedonia. [S.l.]: John Wiley & Sons, 2011. ISBN 144435163X
  • Rosser, John H.. Historical Dictionary of Byzantium. ilustrada ed. [S.l.]: Scarecrow Press, 2012. ISBN 0810875675
  • Setton, Kenneth Meyer. The Papacy and the Levant, 1204–1571: Volume I. The Thirteenth and Fourteenth Centuries. Filadélfia: The American Philosophical Society, 1976. ISBN 0-87169-114-0
  • Soards, Marion L.. The Apostle Paul: An Introduction to His Writings and Teaching. [S.l.]: Paulist Press, 1987. ISBN 0809128640
  • Talbert, Richard J. A.. Barrington atlas of the Greek and Roman world: Map-by-map Directory. [S.l.]: Princeton University Press, 2000. ISBN 0-691-04945-9
  • Witherington III, Ben. 1 and 2 Thesssalonians: A Socio-Rhetorical Commentary. [S.l.]: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2006. ISBN 0-8028-2836-1

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

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