Vila Amazônia

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Vila Amazônia é uma comunidade rural da cidade brasileira de Parintins, Amazonas. Para chegar lá é necessário, partindo-se de Parintins, pegar uma balsa no lago da Francesa (cheia), por R$ 2,00 (Pedestre). Na década de 20, do século passado uma delegação japonesa visitou a região a convite do governador do Estado do Amazonas. Com o declínio do comércio da borracha o governador Ephigênio Salles, plagiando iniciativa similar do governador do Estado do Pará, procurava alternativas econômicas para seu Estado e ofereceu aos japoneses 1 milhão de hectares, em troca de mão-de-obra especializada. Os empresários japoneses Kinroku Awazu e Genzahuro Yamanishi, ante a magnitude do empreendimento e a distância de sua terra natal, acabaram desistindo da idéia. O deputado Isukasa Uyetsuka, porém, ao tomar conhecimento do projeto acreditou na sua viabilidade assumindo a responsabilidade de executá-lo. Embora a doação das terras tenha sido rejeitada pelo Senado Federal, Uyetsuka, determinado, comprou uma área de 1,5 mil hectares banhada pelo Rio Amazonas e pelo Paraná do Ramos, a leste da cidade de Parintins, aproximadamente 20 minutos de barco. A localização estratégica permitiria escoar a produção tanto para Manaus quanto para Belém. A opção adotada foi o cultivo da juta oriunda da Índia que seria o carro chefe da produção e serviria de base econômica para a colônia. A fibra era fundamental para o comércio internacional onde era usada nos sacos de café e outras mercadorias e poucos países a produziam em larga escala.

No dia 21 de outubro de 1930, foi lançada a pedra fundamental na antiga Vila Batista que recebeu o novo nome de Vila Amazônia. Tsukasa Uyetsuka procurando melhor preparar os imigrantes que iriam encarar os desafios do empreendimento transformou uma escola de artes marciais, no Japão, na “Escola Superior de Imigração” (Kokushikan Koutou Takushoko Gakko). Cuja denominação passou a identificar seus alunos, os koutakuseis, rapazes entre 18 a 20 anos que aprendiam técnicas agrícolas, noções de construção civil e língua portuguesa. No dia 20 de junho de 1931, chegaram a Manaus os primeiros 35 koutakuseis e três formandos da Faculdade de Agronomia de Tóquio, acompanhados do professor Sakae Oti.

Todas as etapas do projeto estavam indo de vento em popa, localização adequada, produto valorizado, trabalhadores qualificados. A juta, porém, não atingia o tamanho ideal para o corte e os colonos além de ter de realizar o plantio e a colheita em locais alagados precisavam se dedicar à construção da infra-estrutura da vila. Dois anos se passaram até que Riyota Oyama observou que duas de suas mudas eram maiores e mais saudáveis e decidiu transportá-las para um local mais adequado, na viagem acabou quebrando uma delas. Oyama, então, colheu as sementes do único espécime que restara e as levou para Uyetsuka.

“Pensei que seria sem dúvida uma graça de Deus, e dei ordem para semear as sementes”. (Tsukasa Uyetsuka) As sementes foram plantadas e transformaram-se em novas matrizes dando origem a novas sementes. Uyetsuka buscou recursos junto a Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo e outras empresas japonesas, fundando, em 1935, a Companhia Industrial Amazonense. Em 1937, foi colhida a primeira tonelada de juta da Vila Amazônia. Sete turmas de koutakuseis, 249 jovens, foram enviadas ao Brasil, em um período de sete anos. A perspectiva era de que a colônia da Vila Amazônia abrigasse dez mil imigrantes, ou dez mil famílias.

No início a infra-estrutura na Vila era precária, sem energia elétrica ou água encanada e a maioria das casas era de palha. Duas tecelagens foram instaladas em Manaus, a Brasiljuta e a Fitejuta, a renda obtida com a produção da juta trouxe o progresso e, em breve, surgiram melhorias e a vila ganhou escola, templo, armazéns e hospital, com médicos oriundos do Japão, que prestavam atendimento até para pacientes vindos de Belém. Surgiram culturas paralelas, de hortaliças e frutas. O cultivo da juta prosperou e se esparramou pelas várzeas do Rio Amazonas e de seus tributários de águas brancas, tornando conhecida a Vila Amazônia, valorizando a imigração japonesa pela produção dessa fibra vegetal que deu sustentação econômica à região durante décadas.


II Guerra Mundial

O ataque surpresa da Marinha Imperial Japonesa à base naval norte-americana de Pearl Harbor, às 8 horas da manhã, de 7 de dezembro de 1941, marcou a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra do Pacífico. No Brasil e em todo o mundo os imigrantes japoneses passaram a ser vistos como inimigos nacionais perderam o direito à posse da terra, foram proibidos de fazer reuniões públicas e falar seu idioma. O fluxo imigratório foi interrompido. Na Amazônia muitos deles foram feitos prisioneiros de guerra e levados para Tomé-Açu, no Pará, onde já existia uma grande colônia instalada e ainda hoje é uma importante colônia japonesa. Apesar dos contratempos o cultivo da juta continuou.

Nos idos de 1938 e 1942, foram produzidas mais de 5 mil toneladas da fibra. Em 1941, depois de uma conversa entre Tsukasa Uyetsuka e o presidente Getúlio Vargas, em Parintins, foi aprovado um Decreto oficializando a cultura. Apesar disso, em 1946, os bens da Vila Amazônia foram a leilão como espólio de guerra e a Companhia Industrial Amazonense foi vendida para a empresa J.G. Araújo. No início da década de 50 Uyetsuka tentou, sem sucesso, dar continuidade à saga dos koutakuseis.

Hoje, na antiga Vila Amazônia, existem poucas lembranças dos valorosos guerreiros da juta, a bela sede da antiga administração está em ruínas e no antigo cemitério japonês as poucas lápides, quebradas por vândalos, materializam o descaso do poder público, mas guardam ainda muito da determinação daqueles heróis orientais que tombaram ante a malária, a febre amarela e outros desafios da selva tropical. Infelizmente, mais uma parte de nossa história se vai, a “inconstância tumultuária” do Rio-mar parece cravar suas garras na consciência de um povo acostumado à dinâmica de um Rio que leva por diante barrancos, ilhas e a memória ancestral. Os governantes e a população contaminados pelo Rio menino são incapazes de tomar atitudes que preservem nosso patrimônio cultural.

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