Voo Air Transat 236

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Voo Air Transat 236
Foto de um A330 da Air Transat
Sumário
Data 24 de agosto de 2001 (13 anos)
Causa Pane seca devido a má manutenção
Local PortugalAeroporto Internacional das Lajes[nota 1] , Açores, Portugal
Coordenadas 38° 45′ N 27° 5′ W
Origem Toronto, Canadá
Destino Lisboa, Portugal
Passageiros 293
Tripulantes 13
Mortos 0
Feridos 18 (pouca gravidade)
Sobreviventes 306 (todos)
Aeronave
Modelo Airbus A330-243
Operador Canadá Air Transat
Prefixo C-GITS

Em 24 de agosto de 2001 o voo Air Transat 236 operado com um Airbus A330 realizou o maior voo planado jamais registado na aviação comercial a jato após ter ficado sem combustível a meio do Oceano Atlântico. O voo sem motores durou cerca de meia hora, ao longo de 120 km (65 milhas náuticas)[1] [2] , com 306 pessoas a bordo, realizando com sucesso uma aterragem de emergência no Aeroporto das Lajes, na ilha Terceira, Açores, Portugal.[3] , sem perda de vidas. Não houve feridos, mas o avião sofreu alguns danos estruturais, tendo estourado igualmente os pneus.[4] A maioria dos passageiros eram canadianos a visitar a Europa e portugueses que emigraram, a regressar para visitarem as suas famílias.[1]

Incidente[editar | editar código-fonte]

O Voo Air Transat 236 tinha como destino o Aeroporto da Portela, em Lisboa.[5] Às 20h20 [6] do dia 23 de agosto, o avião decola do Aeroporto Internacional de Toronto, a previsão do tempo era boa e a rota do avião, um A330 moderno e computadorizado, foi desviada 96 km ao sul para evitar congestionamento.[1]

A tripulação na cabine de comando realizava a check-list a cada 30 minutos, verificando o consumo de combustível.[nota 2] Após cinco horas de voo, o comandante Robert Piché e o copiloto Dirk De Jager recebem um alerta de temperatura de óleo baixa e pressão do oléo alta no motor de número dois. Os pilotos consideraram tal alerta como inexato, como uma falha nos sensores[nota 3] . Já a alta pressão é resultado de uma contaminação do óleo por combustível. Nesse momento a tripulação do Air Transat 236 entra em contato com a equipe de manutenção da Air Transat em terra, mas estes não têm uma solução imediata para o problema.[1]

Por volta das 05h36[6] , mais um alerta na cabine: Fuel Imbalance, indicando que maior parte do combustível no A330 está em um lado do que no outro [nota 4] . Os pilotos realizam uma alimentação cruzada, transferindo combustível de um tanque ao outro para balancear o avião. Porém, o combustível não estava indo para o tanque da asa direita e a quantidade de combustível total no jato estava consideravelmente baixa até chegar a nula no tanque direito. Com um nível tão baixo de combustível o A330 não chegaria a Lisboa e a tripulação resolve voltar.[1]

As 05h41[6] a tripulação entra em contato com o controle de tráfego aéreo[7] para saber onde se localizava o aeroporto mais próximo. Tal aeroporto era o de Lajes, nos Açores, e para chegar até ele o avião deveria seguir para o sul. Pouco tempo depois, as leituras de combustível se deterioram o bastante a ponto do capitão declarar emergência. Logo, as 06h13[6] , o motor direito fica sem combustível e para. A Tripulação desce o avião, que agora funciona com apenas um motor, para controlar a velocidade. Dez minutos depois e o motor esquerdo do avião também para. O A330 tornara-se um enorme planador.[1] Sem o funcionamento dos motores, a APU é acionada automaticamente para garantir o funcionamento de alguns sistemas importantes do avião. Sem motores a cabine começa a se despressurizar e o avião perde altitude drasticamente.

As 06h27[6] o avião estava a 100 km do aeroporto e deveria planar por 15 minutos para tentar pousar[7] . Nos momentos que se passaram a tripulação tentava reduzir a velocidade para pousar sem sair da pista, enquanto que em terra os serviços de emergência se alinhavam na espera do A330. Como os motores não funcionavam a tripulação, as 06h46 fez um pouso fora dos padrões, pousando o avião em alta velocidade. Após estourar seus pneus o avião finalmente para e pousa na pista. Quase não houve feridos no avião, que realizou o maior voo planado da história da aviação.[8] [1]

Vítimas[editar | editar código-fonte]

Não houve mortos no maior voo planado da história, apenas pessoas com ferimentos de baixa gravidade. Todos do voo, então, saíram praticamente ilesos, apesar do pouso fora dos padrões - isso é, sem uso dos motores.[5] [3]

Investigação[editar | editar código-fonte]

Foto da Base aérea de Lajes, nos Açores

O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA), de autoridade portuguesa assumiu a investigação, juntamente com as autoridades francesa e canadiana.

A princípio, descobre-se que, os tanques de combustível do avião estavam realmente vazios e analisando o sistema de combustível do Airbus A330 descobrem uma falha atrás do motor direito: um tubo hidráulico pequeno desgastou-se contra um tubo maior de combustível até que este último se rompeu.[9]

Verificando o registro de manutenção da aeronave, os investigadores notaram algo além: a Air Transat removera o motor direito 5 dias antes do acidente e instalara uma peça de reposição enviada pela Rolls-Royce. Investigando mais afinco as manutenções, descobriram que a falha não era um problema de design (um tubo desgastando-se contra outro) e sim um problema de manutenção. A Rolls-Royce fornecera um motor sem conjunto da bomba hidráulica, para isso, os mecânicos usaram peças de um antigo motor, tais peças não se encaixaram corretamente e se friccionaram durante 5 dias até romper o cano de combustível sobre o Atlântico.[9] Os investigadores tomaram nota de que o mecânico-chefe se preocupou com o problema e o relatou a seus superiores, mas estes decidiram pelo retorno da aeronave ao serviço[9] . A diferença entre as peças era da ordem dos milímetros.

Poucos dias depois a Air Transat assumiu a responsabilidade pela falha e pagou uma multa de 250000 dólares do Canadá, a maior já alguma vez paga por uma companhia de aviação canadiana.[1] Ainda na investigação, as autoridades se voltam contra os pilotos, para saber se houve algum erro humano que quase fez o avião cair no oceano Atlântico. A Tripulação abrira a alimentação cruzada e perderam muito combustível com isso e não fecharam a válvula para evitar a perda de mais combustível. Os avisos em relação ao óleo e ao combustível não davam informações claras sobre o que acontecia na aeronave. A Tripulação acreditara que fosse erro dos sensores até perder os motores, entretanto, deveriam ter suspeitado antes ao calcular a alta perda de combustível.[9] Apesar dos danos ligeiros ao avião, este continua em funcionamento. Os pilotos foram identificados como heróis pela imprensa do Quebeque.

O incidente também foi levado à Administração Federal de Aviação (FAA) nos Estados Unidos, forçando todos os operadores dos modelos Airbus A318-100, A319-100, A320-111, A320-200, A321-100 e A321-200 a mudar o manual de voo. A Airbus também modificou os seus sistemas de computadores; o computador de bordo agora verifica todos os níveis de combustível contra o plano de voo.

Conclusão[editar | editar código-fonte]

A complexidade de tecnologias e sistemas do A330 e a desconfiança da tripulação nos computadores levou a leituras e procedimentos errados e a discrepância nas peças de reposição levaram ao vazamento sobre o atlântico. Ambos os erros levaram o avião a tal situação, salvo apenas por estar 100 km ao sul da rota.[9]

Consequências[editar | editar código-fonte]

A Tripulação do voo ganhou em agosto de 2002 uma honraria da Associação dos Pilotos de Empresas Aéreas pelo mais longo voo planado já realizado em uma aeronave de passageiros.[1]

O Controlador de Tráfego Aéreo, José Ramos, da Força Aérea Portuguesa, que guiara a aeronave para o pouso também fora premiado durante a festa de gala dos 95 anos do Aero Clube de Portugal.[6] Após o acidente a Airbus mudou a sua checklist no que tange a alertas de combustível e o computador dos aviões da empresa ganhou um aviso para notificar a tripulação caso esteja sendo gasto mais combustível do que o motor pode consumir. A Rolls-Royce emitiu um boletim de serviço alertando a incompatibilidade de peças praticamente iguais a fim de evitar novos erros como este.[1]

Dramatização[editar | editar código-fonte]

O Incidente envolvendo o Airbus A330 da Air Transat foi dramatizado na série de TV de documentários Mayday, Desastres Aéreos, sob o nome (no Brasil) de 'Air Transat 236' (Flying on Empty).

Em 2010 a história do piloto Robert Piché foi retratada no filme biográfico de produção canadiana Piché: The Landing Man, onde também se vê o incidente do voo Air Transat 236.[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bandeira-mapa de Portugal Portal de
Portugal
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Referências

  1. a b c d e f g h i j k Flying on Empty, episódio de Mayday (série).
  2. Hoje em Dia
  3. a b CBC News Drama dos passageiros do voo.
  4. Plane Crash Info Descrição do acidente.
  5. a b PR Newswire.
  6. a b c d e f Tourism and Aviation Sequência de horários dos acontecimentos do voo.
  7. a b A União jornal Homenagem ao controlador.
  8. CBC News.
  9. a b c d e Relatório Final (Alt, Arquivo, Alt #2, Arquivo #2) Relatório Final da GPIAA.
  10. Cinenoche

Notas

  1. A Base Aérea de Lajes compartilha pista e prédios com o Aeroporto Internacional de Lajes, sendo ambos os nomes corretos.
  2. Lista de checagem de processos do avião para garantir maior segurança. Nesse caso era manual e comparava o volume do combustível nos tanques com o total quando saíram do aeroporto.
  3. Segundo informado aqui [1] a temperatura do óleo deve aumentar e não diminuir.
  4. Nesse caso, estava mais alta no tanque das asas da esquerda do que nos tanques das asas da direita.

Ligações Externas[editar | editar código-fonte]